“Desígnio e tarefa da lucidez”: primeiro capítulo do Ensayo sobre Cioran, de F. SAVATER

A verdadeira vertigem é a ausência de loucura.

La chute dans le temps

Será preciso determinar, em primeiro lugar, o que entenderemos por lucidez. Como não pretendo utilizar esta palavra de um modo especial ou inusual, deverei ater-me à definição que dela me brinda o dicionário; talvez possamos encontrar em tal definição os traços que gostaríamos de destacar aqui e que caracterizam o emprego que este término receberá nas seguintes páginas. Lemos no Diccionário de uso del español, de María Moliner, Ed. Gredos, 1971: “Lucidez: condição de lúcido. Lúcido, a: luzente, luminoso ou transparente (aplicado às pessoas e às suas ideias): muito claro ou capaz de discorrer com extraordinária claridade. Clarividente (aplicado ao estado de pessoas ou de sua mente): em condições de pensar normalmente. Livre de febre, de delírio ou de loucura, em um intervalo entre dois acessos.” É óbvio que toda esta definição não é, de um modo ou de outro, necessária, tal como veremos mais adiante. Mas, destarte, gostaria uma característica, que talvez seja a mais importante para entender o uso do termo na obra de Cioran; trata-se da nota definidora expressada na última linha da citação do dicionário que transcrevi: “Livre de febre, de delírio ou de loucura, num intervalo entre dois acessos.” O lúcido está livre de febre, delírio ou loucura; é, por um momento, a normalidade mesma: representa o pensamento que não se deixa arrastar. Mas tal condição é instável: a lucidez se alcança como um intervalo entre dois acessos de arrebatamento, é apenas uma ilhota luminosa na conturbada condição do delirante. “Entre dois acessos”, ou seja, que a embriaguez volta sempre. Cada momento de lucidez pode ser o último. Na febre podemos nos instalar, estamos de fato instalados nela; a lucidez é um penoso equilíbrio em que não nos podemos manter por muito tempo, algo assim como colocar-se na ponta dos pés para espirar por cima de um tapume, sabendo que não poderemos perseverar em tal posição por muito tempo. A principal e indubitável certeza que chega a alcançar o lúcido é que deixará de está-lo.

Febre, delírio, loucura: feitiço. De tal forma manifestou Ludwig Wittgenstein a tarefa da filosofia como “uma batalha contra o enfeitiçamento (Verhexung) de nossa inteligência por meio da linguagem” (Investigações filosóficas). Wittgenstein aponta a linguagem como a origem do feitiço e, sem dúvida, Cioran não recusaria este ditame. Que outra coisa pode enfeitiçar-nos se não as palavras? Onde poderiam radicar nossa febre e nosso delírio a não ser no discurso? Há muito tempo sabemos que a humilde lassidão de nossos sentidos não sabe mentir: só nossa interpretação dos seus dados – isto é, o momento em que estes se incorporam ao linguístico – podem enganar e enganar-nos. Talvez o que esteja mais próximo da febre ou do delírio, para Cioran, seja o desejo; mas o desejo, em todas as suas facetas mais significativas para a razão, nas quais ele se determina como motor da ação, como projeto, como obcecação, está vinculado inapelavelmente aos mecanismos da linguagem: Freud e Lacan giraram em torno disto: a chave da humana inaptidão ao gozo é a impossibilidade de um desejo mudo, não mediado pelas leis da oferta e da demanda da economia verbal. O feitiço das palavras nos abruma e nos define; mas a vida mesma, tal como a padecemos, traduz-se nesse feitiço. Alçando-se contra a ilusão da linguagem, a lucidez se enfrenta com a vida; e que dizer da expressão da lucidez, que enfrenta as palavras com as palavras e subverte a possibilidade mesma de uma explicação? Nada mais compreensível, considerado isto, que a fragilidade constitutiva desta postura, sempre ameaçada pela recaída no feitiço.

Uma primeira distinção que convém sublinhar é a que distingue entre consciência e lucidez. A consciência, conforme a define Hegel, é “a relação determinada do Eu com um objeto” (Propedêutica filosófica, Segundo Curso) e, ao menos em seu nível sensível, pode estender-se a todos os seres vivos sem especial abuso. Mas “consciência não é lucidez. A lucidez, monopólio do homem, representa a culminação do processo de ruptura entre o espírito e o mundo; é necessariamente consciência da consciência e, se nos distinguimos das bestas, é por sua culpa ou mérito” (CT). Já temos uma primeira e importante nota definidora da lucidez: é a culminação do processo de ruptura entre o espírito e o mundo. Mas a condição essencial da lucidez é o dilaceramento.[1] O discurso do mundo e o discurso do discurso – o espírito – se acomodam sem atrito até a lucidez marcar a solução de continuidade entre ambos – melhor: marca a descontinuidade entre cada um deles e ela mesma, uma vez demonstrado que ambos são idênticos. E isto, mesmo sabendo que: “A linguagem e seu universo, o universo e sua linguagem, são, apesar de tudo, coisas diferentes umas da outras, não por outra razão se não porque sustentam que são coisas diferentes e essa pretensão – real – é o primeiro fundamento de estrutura da realidade total em que ambos se somam, se identificam ou se confundem. De modo que devemos vislumbrar como ambos são, em realidade, o mesmo (…); se, em vez disso, com nossa descrição unitária nós afirmássemos, de nossa parte, que ambos são o mesmo, no mesmo momento em que, por acaso, disséssemos a mais profunda verdade, estaríamos realmente dizendo uma mentira. As fantasias da realidade são realidades, e suprimi-las meramente pela fala não é uma maneira de suprimi-las” (A. García Calvo, Lalia, Siglo XXI, pág. 227). Entre os discursos supostamente diversos e secretamente correspondentes, isto é, entre a palavra e o seu significado, a lucidez destaca essa fissura que toda a Ordem trata de estancar. Talvez o irredutivelmente próprio do homem não seja criar a convenção de uma linguagem, mas recordar, em alguns momentos privilegiados, que se trata de uma convenção.

Ruptura entre o espírito e o mundo que se consuma ao revelar lucidamente o funcionamento da ficção. O delírio se desvanece por alguns momentos e o lúcido fica separado do mundo; mas, sobretudo, fica separado dos outros homens. O hiato que mais lhe proporciona vertigem é o que se abre entre ele e o seu próximo febricitante, isto é, entre ele e esse frenético que era ele mesmo alguns instantes antes. Seguirá tentando reproduzir os mecanismos da vida, mas lhe faltarão os recursos; advertirá até que ponto a normalidade completa o condena à estranheza, e a plena disponibilidade à ineficácia. Quando a febre vai embora, “te sentes outra vez desencantado, normal em excesso. Nenhuma ambição mais, logo nenhuma possibilidade mais de ser alguém ou algo; o nada em pessoa, o vazio encarnado: glândulas e entranhas clarividentes, ossos desenganados, um corpo invadido pela lucidez, livre de si mesmo, fora de jogo, fora do tempo, sujeito a um eu congelado em um saber total sem conhecimentos. Onde encontrar o instante que escapou? Quem o devolverá a ti? Por toda parte frenéticos ou enfeitiçados, uma multidão de anormais que a razão abandonou e vêm refugiar-se perto de ti, o único que compreendeu tudo, espectador absoluto, insubmisso para sempre à farsa unânime. Como o intervalo que te separa dos outros não para de aumentar, chegas a perguntar-te se não terias percebido uma realidade desconhecida dos demais. Revelação ínfima ou capital, seu conteúdo permanecerá obscuro para ti. A única coisa de que estarás seguro é de teu acesso a um equilíbrio inaudito, promoção de um espírito que se afastou de toda cumplicidade com os outros. Indevidamente sensato, mais ponderado que todos os sábios, assim aparecerás ante ti mesmo… E se contudo ainda te assemelhas aos loucos que te rodeiam, sentes que uma insignificância te distinguirá deles para sempre; esta sensação, ou esta ilusão, faz com que, embora executes os mesmos atos que eles, não ponhas neles nem o mesmo ardor nem a mesma convicção. Trapacear será para ti uma questão de honra e a única maneira de vencer teus ‘acessos’ ou de impedir seu retorno. Se para isso tiveste necessidade de uma revelação, ou de uma derrocada, deduzirás que aqueles que não atravessaram uma crise semelhante se afundarão cada vez mais nas extravagâncias inerentes a nossa raça” (HU). Só o engano, só a comédia que mimetiza uma vida cujos prazeres despreza e em cujos fins descrê, pode preencher, ironicamente e sempre em falso, a descontinuidade que aparta o lúcido do resto dos mortais.

Duas palavras fundamentais, no texto de Cioran, para delimitar o desígnio da lucidez: “dupe”e “éveil”. É preciso evitar o engano, desenganar-se plenamente; tal desengano pleno se chama “despertar”, termo cujas ressonâncias místicas e orientais não é necessário sublinhar. Vejamos como são empregadas estas duas expressões na descrição de um dos grandes lúcidos dos nossos tempos, Valéry: saber desmontar o mecanismo de tudo, já que tudo é mecanismo, soma de artifícios, truques, ou, para empregar uma palavra mais honrosa, operações; ocupar-se dos meios, transformar-se em relojoeiro, ver dentro, cessar de estar enganado (cesser d’être dupe), é isto o que conta aos seus olhos. O homem, tal como ele (Valéry) o concebe, só vale por sua capacidade de não-consentimento, pelo grau de lucidez que alcançou. Esta exigência de lucidez fará pensar no grau de despertar (éveil) que supõe toda experiência espiritual, e que será determinado pela resposta que se dará à questão capital: “Até onde você foi na percepção da realidade?” (EA). Trata-se, uma vez mais, de nos purgar do feitiço que nos inflige a explicação vigente do mundo: o artificioso se apresenta como natural, o preparado como espontâneo, o arbitrário como necessário, a argumentação que sustenta todo o tablado como o simples reflexo da realidade mesma. Aquele que desperta não abre os olhos para uma realidade positiva, mas percebe os vazios que perfuram o texto do mundo; mais que embriagar-se de luz, o desperto se sensibiliza em relação à obscuridade fundamental que a policromia ilusória do que existe pretende mascarar. Deixar de estar enganado, despertar, é constatar até que ponto toda explicação encobre uma apologia, toda coerência uma falácia; as palavras que o desperto emprega para dissipar a ilusão não são mais seguras nem mais bem fundamentadas que aquelas com as quais a ilusão se proclama a si mesma, mas, ao apresentar-se como pura negação das anteriores, têm menos pretensão de durar. Se se estabelecessem, por sua vez, com as mesmas aspirações ao explicativo e ao coerente que as anteriores, seria um sinal indubitável de que outro acesso de febre havia tomado posse daquele que estava momentaneamente livre dela, de que o desperto dormia de novo.

Livre da ilusão, a lucidez se atarefa em desnudar as raízes das teorias, a articulação das consequências de cada pensamento. A coisa não é vista em sua sucessão razoável de aspectos, tal como exige a ordem do mundo – que não gosta de ser apressada, como admitiu Hegel –, mas se percebe simultaneamente em seu verso e seu reverso, como se subitamente perdesse a espessura. O olhar penetra e desnuda a opacidade do seu objeto, volatilizando a argumentação que o ampara. Esta visão clarividente, esta “percepção da irrealidade”, exclui o engenho para encontrar soluções às deficiências vislumbradas. Quem alcança a lucidez se despoja imediatamente da paixão de remediar. O próprio do discurso lúcido, seu resultado mais evidente, é o diagnóstico, mas um diagnóstico que exclui a ideia de cura ou zomba dela. O emaranhado verbal se solta e a solidez do real vacila: a primeira coisa na qual o desperto progride é na desconfiança… “O ser vivo percebe existência por todos os lados; a partir do momento em que desperta, a partir do momento em que já não é natureza, começa a descobrir o falso no aparente, o aparente no real, para acabar suspeitando da ideia mesma de realidade” (CT). A suspeita e a dúvida precedem o diagnóstico que assinala a deficiência no manto verbal que cobre o rei do mundo. Começa-se gritando que o rei está nu, mas se termina duvidando de sua própria realeza, ou seja, de sua “realidade”… O que domina de fato aspira também a dominar por direito: por isso a realidade não renuncia a ser pensável e por isso a dúvida é a forma de subversão mais radical que se pode dar. As certezas apoiam a vida, mantêm sua estabilidade e cunham seus modestos prestígios: “a busca da dúvida é debilitante e malsã; nenhuma necessidade vital, nenhum interesse a preside. Se nos engajamos nela, é que provavelmente uma força destrutiva nos determina a isso” (CT). Só o conhecimento determinado pela dúvida merece ser chamado desinteressado; é o único com o qual não saberíamos o que fazer: compromete as perspectivas do nosso futuro e desvanece as ilusões do nosso passado. Nunca se duvida “com vistas a”: por isso a dúvida é inensinável. Livre das fidelidades conservadoras ao passado e das urgências práticas do porvir, o ceticismo é o perfeito presente do pensamento. O diagnóstico da lucidez é sempre negativo, como corresponde a uma ruptura, a uma solidariedade entre o espírito e o mundo. O desperto não se consolida na luz, mas vê desvanecer as pretendidas solidezes que o rodeiam, sustenta e, secretamente, agoniam. Essa fidelidade ao negativo é o que dá à lucidez o seu caráter imanejável.

Esse caráter imanejável é a causa da incompatibilidade entre lucidez e pedagogia. Por pedagogia, entendo aqui algo mais que a simples transmissão das regras ortográficas, aritméticas, ou dos rudimentos técnicos de algumas indústrias; refiro-me, fundamentalmente, à transmissão administrativamente institucionalizada de uma concepção mais ou menos coerente do mundo e das pautas de conduta recomendáveis ou reprováveis que o homem pode seguir nele. A pedagogia pretende ensinar a ser, a estar no mundo do modo mais produtivo e menos conflitivo possível; inevitavelmente, conforma para a conformidade: sua missão é ocupar o espírito, mas não comprometê-lo. O que se pode transmitir pedagogicamente são as regras gerais que apoiam a validez do discurso do mundo: apenas dentro dessas regras pode-se admitir que o mundo seja perfectível. Uma certa aceitação do vigente é condição sine qua non de poder ensinar algo: não há modo de transmitir o intolerável. A pedagogia, saber do mundo acerca de si mesmo, tem sempre uma meta: é um conhecimento orientado a um melhor estar no mundo, a condição de aproveitável lhe é inerente. Comparemo-lo à lucidez que carece de meta, de motivo e de proveito – da qual podemos dizer apenas que sequer é algo buscado por quem a encontra e a quem não proporciona senão a soçobra e incompatibilidade com a vida. O saber da pedagogia é acumulativo, progressivo, avança por um gradual aprovisionamento de conhecimentos; a lucidez, em contrapartida, se assemelha a uma espécie de brusca revelação que, em repetidas ocasiões, se designou com a palavra “despertar”. É certo que podemos falar de certa gradação no acesso ao fundo da lucidez, mas é a da repetição desses despertadores reveladores e da intensificação da percepção neles alcançada, não o aumento de nenhum tipo de conhecimento positivo; de algum modo, se nos permitimos dizer – ironicamente – que a lucidez progride, podemos afirmar que o faz por sucessivos despojamentos e não por acumulação: avança mutilando, privando de coisas preciosas a quem, por vício ou azar, se converte em presa sua. A pedagogia exige conteúdos, a lucidez destrói os existentes, tornando-os redundantes, supérfluos, inconsequentes ou ridículos. Em sua categoria de saber sem conteúdo, aproxima-se desse “não-saber” que constituía o núcleo da “experiência interior” para Georges Bataille, ainda que o estilo deste pensador – embaralhado, pretensioso e, frequentemente, menos expressivo do que ele crê – desvirtue às vezes sua fundamentalmente válida descrição da lucidez.

Fundada no diverso, na pluralidade de conhecimentos “essenciais”, a pedagogia é muito mais variada que a lucidez e acusará o discurso desta última de monotonia: quem padece da superstição das novidades informativas nunca advertirá que só o erro é entretido. Poucas variações cabem no essencial, enquanto que o acessório se define como aquilo que muda todos os dias. Por outro lado, a pedagogia se caracteriza por ser origem de ações, cuja necessidade fundamenta, cujos objetivos esclarece e para cuja realização proporcionada as técnicas adequadas. A lucidez, em contrapartida, não favorece a ação, ainda que tampouco seja exato dizer que a impossibilite; tratei deste tema em outra parte – cf. Nihilismo y acción, Ed. Taurus, 1970 – e neste mesmo ensaio pretendo discuti-lo mais adiante; por ora, basta dizer que a lucidez corrói as razões de agir, mas não a ação mesma, enquanto a entrega à indeterminação e ao acaso, ou, para chamá-lo mais misteriosamente, ao destino. Mas quando se fala de ações entende-se, habitualmente, ações úteis, respeitosas em relação às coordenadas de praticidade e de proveito, pessoal e público, que a submissão à Lei de Deus – vulgo, senso comum – impõem; se tal é o caso, evidentemente a lucidez é completamente imóvel e dela não deriva nenhuma ação, nem se facilita as que derivem de outras instâncias.

Resumindo: a pedagogia aspira a um doutrinamento e pretende realizar-se por um aprendizado, enquanto que a lucidez se cumpre numa experiência. A acumulação de conhecimentos, o que normalmente se entende por sabedoria,[2] não faz avançar nem um passo sequer em direção a essa paradoxal clarividência que se furta a quem crê possuir os méritos intelectuais por ela; de certo modo, os variados fragmentos com que o sábio[3] adorna o seu caleidoscópio mental são precisamente os sonhos que impedem de aceder ao despertar.  Advertir o seu caráter ilusório já é aproximar-se do momento de abrir os olhos, como disse Novalis: “Nós acordamos quando sonhamos que estamos a sonhar.” Por isso Cioran separa radicalmente a lucidez de qualquer tipo de ilustração: o ilustrado não tem mais probabilidades de chegar à clarividência que o analfabeto: “O despertar é independente das capacidades intelectuais; pode-se ter gênio e ser um tolo (ou iludido, niais, F.S.), espiritualmente falando. Por outro lado, não se está mais avançado com o saber enquanto tal. ‘O olho do Conhecimento’, um iletrado pode possuir, encontrando-se assim sobre não importa qual erudito.” E acrescenta: “Discernir que o que você é não é você, que o que você tem não é seu, não ser cúmplice de nada, nem mesmo de sua própria vida – isso é ver com precisão, isso é descer até a raiz nula de tudo” (MD). Lao-Tsé, por sua vez, afirmou que o modelo do autêntico sábio é o idiota ou, mais ainda talvez, o cadáver. É um apalermar-se conquistado através da clarividência, uma tentativa, como Cioran dirá noutra parte, de “alcançar o anjo e o idiota pelos meios próprios da lucidez” (TE).

Dir-se-á que isto é mística. Palavra perigosa, desprestigiada entre todas, que Cioran maneja e estuda com frequência. Confessar a mínima colusão com a mística nos torna réus dos máximos pecados contra o espírito moderno: o irracionalismo e a ineficácia. Quem reivindica em qualquer medida a mística, ou não se preocupa em demarcar com nitidez a distância que o separa dela – penso no Bataille de A experiência interior –, renuncia à atenção de seu improvável leitor: todo mundo se sentirá dispensado de compreendê-lo ou de extrair algo de inteligível de sua leitura. Só será apreciado por quem agradecer pela oportunidade de frequentar um texto obscuro sem ter de fazer nenhum esforço ingrato para entendê-lo; estes louvarão precisamente as suas trevas e se sentirão decepcionados ou traídos se encontrarem um raciocínio claro ou um ditame cujo sentido qualquer se possa captar. Desprezado pelo ilustrado e pelo racionalista, a condenação do místico se arredonda ao converter-se em ouro de tolo. Apesar de todos estes riscos, é inevitável relacionar a mística com o tema da lucidez. A leitura dos místicos inspira Cioran a algumas de suas páginas mais agudas, nas quais nos deteremos mais adiante; aqui apenas mencionaremos os paralelos entre mística e lucidez. Como já se terá advertido, muitos dos termos que temos empregado para caracterizar a lucidez provem dos vocabulários místicos do Oriente e do Ocidente: despertar, ver, desengano, experiência, revelação… O mesmo embaraço linguístico é experimentado ao falar de ambos os temas; nos dois existe a mesma alarmante facilidade para resvalar insensivelmente do penetrante ao trivial, desde que se relaxe um pouco a eficácia estilística ou se pretenda alargar até as dimensões do enunciável a fugacidade de um momento único. Mas também as diferenças são muito notáveis: a mística acompanha a lucidez, na maioria dos casos, até o final do seu caminho dissipador de ilusões, mas o prolonga o prolonga e o ampara com a fé numa revelação salvadora. A mística é a lucidez mais – ou menos – uma crença. “Todo analista impiedoso, todo denunciador de aparências, com maior razão todo ‘niilista’, não é mais do que um místico bloqueado, e isso unicamente porque se recusa a dar um conteúdo a sua lucidez, dirigi-la no sentido da salvação, associando-a a um desígnio que a ultrapassa” (EA). O místico pode haver renunciado a todas as ilusões, menos a uma: a de salvar-se. E isto é inegável, ainda que a forma de salvação que escolhe, e na qual crê, se passa por uma perdição aparentemente completa de si mesmo. Aparentemente: perde-se tudo, exceto aquilo que se reserva para que seja salvo. Não é preciso sublinhar que esta referência está muito mais fundamentada nos místicos cristãos do que nos orientais, e que, entre estes últimos, a barreira entre lucidez e mística é, às vezes, pouco mais do que a escolha de uma forma de expressão mais ou menos personalizada, isto é, divinizada. Mas não é a crença na salvação o fundamento último de toda crença? E também a sua ameaça e a sua corrupção, tal como Borges opinou que o conceito de infinito é ameaça e corrupção dos demais conceitos. Querer se salvar é, de alguma maneira, não ter compreendido completamente, guardar ainda a esperança como último preconceito. A dissolução da aparência que a mística leva a cabo desemboca no estabelecimento de uma aparência futura – a de nós mesmos salvos, transfigurados, reconciliados com o que quer que seja – que corrói o presente e o trivializa. Ao ler um místico pergunta-se como se pode interpretar tão mal o que se sente tão bem: é possível que quem tenha alcançado um desengano tão completo como Miguel de Molinos possa ainda rezar o Credo sem enrubescer?

O lúcido está ameaçado pela fadiga do vazio: sem mais plenitude que a ausência de todo conteúdo, daria sua vida por uma ilusão convincente. “Ter vivido sempre com a nostalgia de coincidir com algo, sem, na verdade, saber com o quê… É fácil passar da incredulidade à crença, ou inversamente. Mas, a que converter-se, de que abjurar, imerso numa lucidez crônica? Desprovida de substância, não oferece nenhum conteúdo que se possa negar; está vazia e nega o vazio: a lucidez é o equivalente negativo do êxtase” (MD). Equivalente negativo: ou seja, a plenitude mesma, mas no nada. O desengano já não pode abandonar a lucidez; místico bloqueado, não pode orientar seu êxtase em direção a nada; está condenado a ver. Como já dissemos que a lucidez é um estado transitório entre dois acessos de febre, cabe esperar que passe; mas este consolo é irrisório, pois o enganado já é outro e o lúcido não pode imaginar a si mesmo a não ser clarividente e desconsolado. Se pudesse pôr sua terrível virtude ao serviço de algo, ainda que não fosse nada além de si mesmo…! Mas isto seria supor que a lucidez é para ele um utensílio, que ele a possui, em vez de ser possuído por ela, como é o caso. Só lhe resta gozar do seu êxtase negativo como o místico desfruta do seu: com entrega, com dilaceramento, com exaltação. Corresponde a ele o orgulho obscuro de provar, com sua própria pessoa, que não é necessária nem mesmo esta última ilusão de esperar algo do desengano; depois só lhe restará livrar-se desse último orgulho de já não ter nenhuma ilusão…

Tal como o místico, o clarividente alcança seus cumes – ou seus abismos – de lucidez a favor de certas experiências que se produzem em momentos únicos; o desejo, a dor, o pânico à morte são algumas das principais. O texto do mundo que dá conta delas é particularmente inconsistente, tem rasgões, não cumpre suas promessas. Ponhamos o medo da morte como exemplo: quem, no alto horror de qualquer noite, vislumbrou o que significa cessar, mais além de qualquer imagem dramática ou macabra, sofrerá um choque impossível de esquecer ou minimizar; pressentirá que, a partir deste ponto, deverá construir sua vida de costas ao que percebeu aquela noite, pois nada pode viver na sombra letal do inevitável. Essa experiência pode se converter, desde modo, numa espécie de ruído surdo, que sirva de fundo à sua cotidianidade, pondo nela um ponto de inexplicável soçobra; mas também poderia chegar a alumiar cada coisa com a sua luz predadora, roubando a solidez e o volume de todo existente, do Ser mesmo, contagiando cada palavra e cada justificação da névoa de vacuidade que introduziu o pânico naquela noite. Trata-se de aproveitar a experiência do terrível, o momento único, a favor da lucidez; provavelmente é o acaso que dá a última palavra, aqui como em tudo, mas não há dúvidas de que é possível certa predisposição à clarividência, uma espécie de ânsia de abismos que bem podemos incluir entre as manifestações psicopatológicas, se assim nos convém. Há quem viva à espreita desses desfalecimentos que esquartejam a solidez do mundo, quem padeça como se de uma ofensa pessoal se tratasse – e trata-se precisamente disto, é claro – a aparente irrefutabilidade do discurso com que o mundo se justifica a si mesmo. Quem nunca tiver sentido a necessidade fisiológica de desmentir-se, de tudo desmentir, de reprochar em cada coisa o seu ser e o seu deixar de ser, a vacuidade ofensiva de suas pretensões, essa futilidade ambiciosa e cruel que define o mundo, quem não passou por isto mil e uma vezes, maldizendo, entre soluços, o horror da inteligência e a impotência da carne, esse não está preparado para a lucidez, não sentiu a sua chamada, a sua tentação; se algum chegar a ele o desengano, despertará a traição e é improvável que consiga suportar a aniquiladora novidade de tal surpresa.

“Só se vive por falta de saber. Desde que se sabe, já não se identifica com ninguém” (CT). Só a ignorância tem futuro, só o engano goza das serenas alegrias de uma tradição. Tudo o que não é ilusão é presente; e o presente é acaso, abismo, terror. Mas o espanto se avizinha com o gozo liberador, de tal como que quem o conheceu uma vez não esquecerá a sua sedução. Basta despertar em uma ocasião: ainda que logo se caia mil vezes na febre e no delírio – chamados habitualmente “senso comum” –, nunca se perderá por completo a nostalgia do desengano, dos véus rasgados e dos tempos que cambaleiam, da noite, da negação e de sua irreprimível gargalhada.

NOTAS:

[1] Desgarramiento, em espanhol (de onde também Desgarradura, tradução espanhola do título de Écartèlement): “dilaceramento”, “desmembramento”, “esquartejamento” – o método de tortura – em francês (N. do T).

[2] Sabiduría, em espanhol.

[3] Savater designa por sabio o que no texto francês de Cioran seria savant (diferente do sage), “erudito”, ou mesmo “sabichão”: aquele que se gaba de saber muitas coisas, não necessariamente unificadas num corpus compreensivo de saber.


SAVATER, Fernando, “Desígnio y tarea de la lucidez”, Ensayo sobre Cioran. Madrid: Espasa Calpe (Col. “Austral”), 1992. Trad. do espanhol de Rodrigo Inácio R. Sá Menezes.

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