Os Mandeanos: esta pequena minoria de iraquianos segue uma antiga religião gnóstica – James F. McGRATH

The Conversation, 21 de junho de 2021

O Papa Francisco se tornou o primeiro líder da Igreja Católica Romana a visitar o Iraque. O número de cristãos no Iraque tem caído drasticamente nas últimas duas décadas em meio à violência massiva do Estado Islâmico. O Iraque de hoje está na região do antigo Império Babilônico, tradicionalmente identificado como a pátria do patriarca Abraão, a figura basilar do judaísmo, do cristianismo e do9 islamismo – por esta razão denominadas religiões “abraâmicas” (e monoteístas).

Enquanto o papa se reunia com líderes cristãos e muçulmanos, os nomes de outros grupos religiosos minoritários também ganhavam as notícias. Um deles provavelmente não é nem um pouco familiar para a maioria das pessoas no mundo abrâamico: os Mandeanos. Também chamados de Sabeus, eles são membros da última religião gnóstica a sobreviver continuamente desde os tempos antigos até hoje.

As religiões gnósticas entendem o mundo material como o resultado de um erro no reino celestial, como criação de um ou mais seres divinos inferiores, e não do Deus supremo. O gnosticismo também enfatiza que os seres humanos podem tomar consciência desta condição e preparar suas almas para escapar à influência das forças espirituais malévolas que criaram e governam este reino, de modo que, quando morrerem, possam ascender ao reino bom que se encontra muito além de tudo.

Como estudioso de religião, estive envolvido na tradução ao inglês de um dos textos sagrados dos Mandeanos, conhecido como o Livro Mandeano de João [The Mandaean Book of John]. Trabalhar nesta área também me conectou com a tradição viva e me convenceu de que mais pessoas precisam saber sobre os Mandeanos.

As antigas raízes do gnosticismo

O Mandeísmo, como outras formas de gnosticismo, é uma religião esotérica cuja literatura permanece principalmente nas mãos de famílias sacerdotais. Seus textos sagrados são escritos em um alfabeto distinto, usado exclusivamente para este fim. O conteúdo e o significado dessas obras são amplamente desconhecidos até mesmo para grande parte dos adeptos do Mandeísmo, e ainda mais para nós.

Mas a visão alternativa dos Mandeanos tem atraído periodicamente o interesse popular. No século 19, seu texto sagrado mais importante, o Grande Tesouro ou Ginza Rba, fora traduzido ao latim. Acredita-se que isso tenha contribuído para o aumento do interesse por misticismo esotérico e espiritualidade naquela época. Contudo, isso se dava sobretudo em meio a pessoas que não haviam tido nenhum contato ou adquirido algum conhecimento efetivo sobre os Mandeístas.

Batismo: o núcleo da religião Mandeísta

O ritual central dos Mandeanos é o batismo: a imersão em água corrente, a que se refere no idioma mandaico em termos de “água viva”, frase que também aparece no Novo Testamento da Bíblia. O batismo na fé mandeana não é uma ação única que garante de uma vez por todas a conversão, como no cristianismo. Em vez disso, é um rito repetido de buscar perdão e purificação das transgressões, em preparação para a vida após a morte.

“Batista” denota hoje, de modo geral, uma forma de cristianismo, mas os Mandeanos não são Cristãos. Eles reservam um lugar especial, no entanto, para aquele que se diz ter batizado Jesus, João Batista. O Livro Mandeano de João, em cuja tradução estive envolvido, conta estórias sobre João Batista e atribui a ele uma série de discursos contendo vários ensinamentos éticos.

Na primeira metade do século 20, os Mandeanos receberam atenção significativa dos estudiosos do Novo Testamento, que pensavam que sua visão elevada de João Batista poderia significar que eram descendentes de seus discípulos. Muitos historiadores pensam que Jesus de Nazaré foi discípulo de João Batista antes de se separar para formar seu próprio movimento, e estou inclinado a concordar.

Quaisquer que tenham sido as tensões e a concorrência entre Mandeanos, Judeus e Cristãos no Iraque antigo, hoje eles procuram coexistir amigavelmente, encontrando-se na mesma situação de qualquer grupo minoritário que luta para sobreviver e manter sua identidade.

Muitos pergaminhos mandeanos contêm elementos artísticos e ilustrações fascinantes simbolizando uma variedade de imagens, incluindo as figuras celestes mencionadas em seus textos, cenas da vida após a morte, árvores e animais. Todos são desenhados em um estilo diferente do que se encontra nas obras de arte ou nos manuscritos ilustrados de outras religiões. Uma das minhas cenas favoritas no pergaminho conhecido como Diwan Abatur retrata pessoas sendo atormentadas com trombetas e címbalos em purgatórios pelos quais as almas podem passar. A questão é provavelmente o barulho alto que esses instrumentos podem fazer, e não uma afirmação negativa sobre a música em geral.

Mandeísmo hoje

As estimativas variam em relação a quantos Mandeanos ainda existem hoje. Alguns ainda podem ser encontrados em suas pátrias históricas, no Iraque e no Irã. No entanto, a perseguição nesses lugares levou à criação de pequenas, mas significativas, comunidades da diáspora mandeana em lugares como Austrália, Suécia e EUA.

Essa dispersão, combinada com o número cada vez menor dos Mandeanos, tornou para eles muito mais difícil preservar sua identidade e passar suas tradições para as gerações vindouras. Os Mandeanos não admitem conversões e não consideram os filhos de casamentos com não Mandeanos como pertencentes à comunidade religiosa, o que também tem contribuído para o declínio da população.

Há uma chance razoável de haver Mandeanos entre seus vizinhos, quer você more em San Diego, San Antonio ou Sydney. Procure-os e você terá a chance de fazer mais do que apenas dar uma olhada na história viva.

Trad. do inglês de Rodrigo Inácio R. Sá Menezes (22/06/2021)

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