“A experiência, única autoridade, único valor” – Georges BATAILLE

A oposição à ideia de projeto – que assume neste livro uma parte essencial – é tão necessária em mim que, tendo escrito desta introdução o plano detalhado, não posso me ater a ele. Tendo abandonado por um tempo sua execução – escrevendo o postscriptum (que não estava previsto) –, sou obrigado agora a alterá-lo. Atenho-me ao projeto nas questões secundárias: naquilo que me importa ele logo me aparece como aquilo que realmente é: contrário a mim mesmo por ser projeto.

Faço questão de me explicar a esse respeito, interrompendo a exposição: devo fazê-lo, já que não posso assegurar a homogeneidade do conjunto. Talvez seja negligência. Contudo, quero dizer isto, de maneira alguma oponho ao projeto o humor negativo (uma moleza doentia), mas sim o espírito de decisão.

A expressão da experiência interior deve, de algum modo, corresponder a seu movimento, não pode ser uma seca tradução verbal, executável em ordem.

Do plano estabelecido, forneço os títulos dos capítulos, que eram:

– crítica da servidão dogmática (o único escrito);
– crítica da atitude científica;
– crítica de uma atitude experimental;
– postulação da própria experiência como valor e autoridade;
– princípio de um método;
– princípio de uma comunidade.

Tentarei agora dar a ver o movimento que devia resultar desse conjunto.

A experiência interior, por não poder ter princípio nem num dogma (atitude moral), nem na ciência (o saber não pode ser nem seu fim nem sua origem), nem na busca de estados enriquecedores (atitude estética, experimental), também não pode ter outro anseio nem outro fim que não ela própria. Abrindo-me à experiência interior, postulei seu valor, sua autoridade. Não posso de agora em diante ter outro valor nem outra autoridade. Valor, autoridade implicam o rigor de um método, a existência de uma comunidade.

Chamo experiência uma viagem ao extremo do possível do homem. Cada qual pode não fazer essa viagem, mas, se a faz, isso supõe que foram negadas as autoridades, os valores existentes, que limitam o possível. Pelo fato de ser a negação de outros valores, de outras autoridades, a experiência que tem a existência positiva torna-se ela própria, positivamente, o valor e a autoridade.

A experiência interior sempre teve outros fins que não ela própria, nos quais era situado o valor, a autoridade. Deus no Islã ou na Igreja cristã; na Igreja budista, este fim negativo: a supressão da dor (foi possível também subordiná-la ao conhecimento, como o faz a ontologia de Heidegger). Mas se Deus, o conhecimento, a supressão da dor deixam de ser a meus olhos fins convincentes, se o prazer a tirar de um arrebatamento me importuna, choca-me mesmo, segue-se daí que a experiência interior deverá me parecer vazia e desde então impossível, já que sem razão de ser?

A questão nada tem de ociosa. A ausência de uma resposta categórica (de que prescindira até então) acabou me causando um grande mal-estar. A própria experiência me deixara em farrapos, e esses farrapos, minha impotência em responder terminava de rasgá-los. Recebi a resposta de outra pessoa: ela exige uma solidez que naquele momento eu tinha perdido. Fiz a pergunta a alguns amigos, deixando transparecer parte de minha perturbação: um deles enunciou simplesmente este princípio, que a própria experiência é a autoridade (mas a autoridade se expia).

Essa resposta me apaziguou na hora, deixando-me apenas (como a cicatriz de uma ferida que custa a fechar) um resíduo de angústia. Tive a noção de seu alcance no dia em que elaborei o projeto de uma introdução. Vi então que ela punha fim a todo debate da existência religiosa, que ela tinha mesmo o alcance galileano de uma inversão no exercício do pensamento, que ela substituía tanto a tradição das igrejas quanto a filosofia.

Já faz algum tempo que a única filosofia ainda viva, a da escola alemã, tende a fazer do conhecimento último a extensão da experiência interior. Mas essa fenomenologia atribui ao conhecimento o valor de um fim a que se chega pela experiência. É uma aliança capenga: o papel atribuído à experiência é ao mesmo tempo demasiado e não bastante grande. Os que lhe atribuem esse papel devem sentir que ela transborda, por um imenso possível, o uso a que se limitam. O que preserva em aparência a filosofia é a pouca acuidade das experiências de que partem os fenomenólogos. Essa ausência de equilíbrio não sobrevive à colocação em jogo da experiência que vai ao extremo do possível. Já que ir ao extremo significa no mínimo isto: que o limite que é o conhecimento como fim seja transposto.

No âmbito filosófico, trata-se de acabar com a divisão analítica das operações, e assim escapar ao sentimento de vazio das interrogações inteligentes. No âmbito religioso, o problema resolvido é mais pesado. As autoridades, os valores tradicionais, há muito tempo não fazem mais sentido para um grande número de pessoas. E a crítica a que a tradição sucumbiu não pode ser indiferente para aqueles cujo interesse é o extremo do possível. Ela se liga a movimentos da inteligência que querem alargar seus limites. Mas – isso é inegável – o avanço da inteligência teve como efeito secundário diminuir o possível num domínio que pareceu estranho à inteligência: o da experiência interior.

Diminuir ainda é dizer pouco. O desenvolvimento da inteligência leva a um ressecamento da vida que, por sua vez, atrofiou a inteligência. É somente se enuncio este princípio: “a própria experiência interior é a autoridade” que saio dessa impotência. A inteligência tinha destruído a autoridade necessária à experiência: com essa forma de decidir, o homem dispõe novamente de seu possível, e não se trata mais do velho, do limitado, mas do extremo do possível.

Esses enunciados têm uma obscura aparência teórica, e não vejo remédio para isso senão dizer: “é preciso apreender seu sentido de dentro”. Eles não são demonstráveis logicamente. É preciso viver a experiência, ela não é facilmente acessível, e inclusive, considerada de fora pela inteligência, seria preciso ver nela uma soma de operações distintas, umas intelectuais, outras estéticas, outras enfim morais, e todo o problema a retomar. É apenas de dentro, vivenciada até a agonia do transe, que ela aparece unindo o que o pensamento discursivo tem de separar. Mas ela não une apenas essas formas – estéticas, intelectuais, morais –, une também os conteúdos diversos da experiência passada (como Deus e sua Paixão) numa fusão que só deixa de fora o discurso pelo qual se tentou separar esses objetos (fazendo deles respostas às dificuldades da moral).

A experiência atinge, para terminar, a fusão do objeto e do sujeito, sendo, como sujeito, não-saber, como objeto, o desconhecido. Ela pode deixar se quebrar sobre isso a agitação da inteligência: fracassos repetidos não a servem menos que a docilidade última que é de se esperar.

Atingido isso como uma extremidade do possível, é óbvio que a filosofia propriamente dita é absorvida, que estando já separada da simples tentativa de coesão dos conhecimentos em que consiste a filosofia das ciências, ela se dissolve. E, dissolvendo-se nessa nova maneira de pensar, percebe não ser mais que a herdeira de uma teologia mística fabulosa, mas mutilada de um Deus e fazendo tábula rasa.

É a separação do transe dos domínios do saber, do sentimento e da moral que obriga a construir valores que reúnam do lado de fora os elementos desses domínios sob a forma de entidades autoritárias, quando na verdade era preciso não procurar longe, pelo contrário, entrar em si mesmo para aí encontrar o que faltou a partir do dia em que se contestaram as construções. “Si mesmo” não é o sujeito que se isola do mundo, mas um lugar de comunicação, de fusão do sujeito e do objeto.


BATAILLE, Georges, “A experiência, única autoridade, único valor”, A experiência interior. Seguida de Método de Meditação e Postscriptum 1953. Trad. de Fernando Scheibe. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2016.

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