“Um Cioran light, s’il vou plaît!” – Marcelo ALCARAZ

Jornal Relevo, ano 10, no 14, agosto de 2020

Nascido na Romênia e residindo boa parte de sua vida em Paris, Emil Cioran foi um grande ensaísta e
filósofo. Publicado inicialmente no Brasil pela editora Rocco, tem, entres seus escritos, pérolas como
O silogismo da Amargura e Breviário da Decomposição, textos em que o pessimismo e a desesperança são elementos importantes, e devem ser compreendidos a partir da história pessoal e principalmente da formação filosófica do autor.

O conhecido pessimismo de Cioran recebe alguns contornos e nuances, e na pequena obra chamada
Cadernos de Talamanca esse fator se atenua, intercalando-se com a história do cotidiano e a observação da beleza natural do litoral espanhol. Publicado no Brasil pela editora Aimé, o livro
tem apenas 46 páginas, e é movido por um paradoxo essencial: o flerte com a beleza de Talamanca conduz a sua remissão, como se o belo e a condição humana fossem incompatíveis.

A editora Aimé se especializou em resgatar clássicos do ensaio e também em propor a leitura de novos nomes; o catálogo é abrangente e oferece boas surpresas. Resgata nomes como Leopardi, Simone Weil e Musil, textos mais ou menos sucintos e contundentes, e também lança no mercado brasileiro nomes como a brilhante ensaísta catalã Marina Garcés, com seu Novo Esclarecimento Radical.

O ensaio é um gênero fluído, de difícil definição, cuja tessitura se abre às aventuras, contradições e audácias do pensamento. Pode-se afirmar que Cioran desenvolveu um estilo próprio dentro dessa seara, entre o literário e o filosófico, um olhar que se desenvolve a partir de uma solidão incontornável
e da decepção diante do que faz vibrar o restante da humanidade: amor, poder e glória. Nada fica imune à verve do escritor, inclusive ele próprio, suas inúmeras vaidades, mesquinharias e fraquezas.

A leitura de Cadernos de Talamanca surpreende porque mostra um romeno apaixonado pela Espanha, fato que o escritor nunca negou em diversos relatos e entrevistas. Escritos durante uma visita a ilha em 1966, a descrição as belezas naturais são sempre acompanhadas de um contraponto, uma reflexão ou um aforismo que remetem à impossibilidade de ser plenamente feliz na condição humana… [+]

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