“A História é des-evangélica” – Peter SLOTERDIJK

Devemos lembrar que o historicismo europeu começou como um empreendimento otimista de apropriação de todo o passado da humanidade como sendo a nossa pré-história. O otimismo heróico da apropriação histórica total está principalmente ligado às obras de Hegel e Marx.

Hegel tentou reivindicar o passado total de todos os seres humanos pensantes como a propriedade de um espírito absoluto e autopensante, ao passo que Marx avançava a reivindicação de organizar todo o futuro como uma expressão da essência de uma humanidade que vagueia para chegar a si mesma.Há muito tempo, porém, difunde-se a impressão de que esses dois maiores programas da História recente conduzem, por seus respectivos caminhos, à exaustão.

Ficamos felizes se nada nos acontecer no caminho para o trabalho, e não podemos nem imaginar a esperança de converter o mundo em um condomínio para a espécie humana mediante o trabalho. Até hoje, a terra é considerada pelos ideólogos da sucessão de Marx como uma futura casa unifamiliar da classe trabalhadora, ao passo que, para Hegel, a História mundial é uma tumba familiar em que cada crânio representa um parente.

No que diz respeito ao historicismo depressivo, o presente se caracteriza apenas pelo fato de perceber a fadiga não apenas retroativamente, mas também prospectivamente.

Hoje, você não precisa ser historiador, nem futurólogo, para que a História venha à sua mente como uma colcha de retalhos de desespero. Hoje em dia, quem sente vontade de ficar triste não pensa tanto no que já foi, mas antes naquilo que o futuro, já surpreendentemente reconhecível, reserva. Agora que o historicismo também usurpou o futuro, o círculo da historicidade está fechado.

A História mundial, na forma de um enérgico relato elaborado enquanto subimos os degraus que conduzem a nós mesmos, já não é facilmente possível, e até será doravante sabotada por contra-narrativas que falam de perdas e fraturas.

Graças ao esclarecimento histórico, o mundo está agora sob o olhar de uma triste ciência – incapaz de ser romantizada; a melhor das lembranças tem o maior dos maus olhados.

Como resultado, toda a História é des-evangélica – a História é uma má nova.


SLOTERDIJK, Peter, Mobilização infinita: para uma critica da cinética política (1989) – inédito em português.

Deixe um comentário

Faça o login usando um destes métodos para comentar:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s