O neopragmatismo de Rorty – Inês Lacerda ARAÚJO

“Para Rorty, a linguagem é contingente. Apenas as linguagens podem ser verdadeiras, e elas são obra nossa; ao formular frases verdadeiras, fabricamos verdades. A linguagem não expressa entidades não-lingüísticas, nem representa fatos. Rorty diz “deixar de lado a idéia de linguagens como representações e ser profundamente wittgensteiniano em nossa abordagem da linguagem seria desdivinizar o mundo”  

Inês Lacerda Araújo

Cognitio, São Paulo, v. 7, n. 1, p. 13-24, jan./jun. 2006

Resumo: Rorty leva adiante o pragmatismo, renovando-o. Inspirado em Wittgenstein, Dewey e Heidegger, ele critica a tradição filosófica centrada na representação como obstáculo à “cultura pragmatizada”. Nela vale a conversação, a justificação; o modelo para o conhecimento não é a mente como espelho da natureza, mas as práticas culturais por meio das quais é possível obter verdade objetiva. Mas essa não é o centro de um procedimento epistemológico, e sim resultado da aplicação de procedimentos justificados em contextos do discurso normal. Em vez de buscar um algoritmo comum, um fundamento sólido e inabalável, é preciso abrir a filosofia para a conversação. O rótulo de relativismo (visto como perigo para a verdade, para a ética, para a política) não é o mais apropriado para caracterizar seu pensamento; como Rorty põe em xeque a relação esquema-conteúdo, e nisso segue Davidson, a verdade não depende de esquema; o idealismo e o relativismo concernem mais aos filósofos sistemáticos que propõem critérios para o conhecimento. Se o conhecimento for visto não como método para chegar à Verdade, mas como parte de procedimentos que muitas vezes melhoram a compreensão que temos de nós, então à filosofia caberá o papel de auxiliar na conversação da humanidade e não de juiz cultural. Se a mente não for vista como cuba que contém idéias, que representa a realidade, mas como certo elemento usado para caracterizar algumas de nossas atividades, compreensível em certos jogos de linguagem, então não precisamos de uma ciência que nos decifre.

Palavras-chave: Neopragmatismo. Crítica do representacionismo. Justificação. Conversação. Objetividade.

O debate intelectual e a inovação do pensamento filosófico devem muito ao polêmico filósofo norte-americano Richard Rorty (1931). Graças a ele, as críticas apressadas e superficiais ao pragmatismo têm sido revistas. A partir da edição por ele organizada de A Virada Lingüística: Ensaios Recentes no Método Filosófico (1967), do artigo Solidariedade ou Objetividade? e, sobretudo, com a obra A Filosofia e o Espelho da Natureza (1979), Rorty tem estado no centro das discussões sobre método, natureza do conhecimento, estatuto da epistemologia; ele defende um controvertido e polêmico conceito de verdade, concede à filosofia um papel não salvífico, e reafirma os princípios de uma política liberal, cujo cerne é a solidariedade. Algumas obras subseqüentes corrigem certos rumos de A Filosofia e o Espelho da Natureza (FEN), em especial o último capítulo. Em escritos subseqüentes, os temas epistemológicos, políticos e sociais entrecruzamse: Conseqüências do Pragmatismo (1982), Contingência, Ironia e Solidariedade (1989), Objetividade, Relativismo e Verdade (1991), Ensaios sobre Heidegger e Outros (1998), Verdade, Política e Pós-Modernismo (1998), Verdade e Progresso (1998), Filosofia e Esperança Social (2000)… [+]

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