“Não se pode rezar sem fazer a vontade do diabo” – CIORAN

Um rancor bem firme, bem vigilante, pode constituir, sozinho, o sustentáculo de um indivíduo: a debilidade de caráter procede, na maioria das vezes, de uma memória enfraquecida. Não esquecer a injúria é um dos segredos do êxito, uma arte que possuem sem exceção os homens de convicções fortes, pois toda convicção é feita principalmente de ódio e, em segundo lugar apenas, de amor. As perplexidades, por outro lado, são o apanágio daquele que, incapaz precisamente de amar e de odiar, não pode optar por nada, nem sequer por suas contradições. Se quer afirmar-se, sacudir sua apatia, desempenhar um papel, que invente inimigos para si e agarre-se a eles, que desperte sua crueldade adormecida ou a lembrança de ultrajes imprudentemente menosprezados. Para dar o menor passo à frente, é preciso um mínimo de baixeza, mesmo para subsistir. Que ninguém negligencie seus recursos de indignidade se quer “perseverar no ser”. O rancor conserva; se, além disso, sabe-se mantê-lo, cultivá-lo, evitam-se a indolência e a fraqueza. Deveríamos sentir rancor até contra as coisas: que melhor estratégia para revigorar-se em contato com elas, para abrir-se ao real e rebaixar-se com proveito? Desprovido de toda carga vital, um sentimento puro é uma contradição em seus termos, uma impossibilidade, uma ficção. Não existe então, nem que o procuremos no domínio da religião, onde se supõe que prospera. Não se pode existir, nem muito menos rezar, sem fazer a vontade do demônio. Na maior parte das vezes nos apegamos a Deus para nos vingar da vida, para castigá-la, para comunicar-lhe que podemos prescindir dela, que encontramos algo melhor; e também nos apegamos a Ele por horror aos homens, como medida de represália contra eles, por desejo de fazer-lhes compreender que, tendo nossos interesses em outro lugar, sua companhia não nos é indispensável, e que se nos rebaixamos ante Ele é para não ter que nos humilhar ante eles. Sem esse elemento mesquinho, turvo, dissimilado, nosso fervor careceria de energia e talvez nem pudesse esboçar-se.


CIORAN, E.M., “Odisseia do rancor”, História e utopia. Trad. de José Thomaz Brum. Rio de Janeiro: Rocco, 2011.

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