“No segredo dos moralistas” – E.M. CIORAN

Quando enchemos todo o universo de tristeza, só nos resta, para reavivar o espírito, a alegria, a rara, a fulgurante alegria; e é quando já não esperamos mais que sofremos a fascinação da esperança: a Vida, presente oferecido aos vivos pelos obcecados da morte… Como a direção de nossos pensamentos não é a de nossos corações, cultivamos uma inclinação secreta por tudo o que espezinhamos. Fulano grava o rangido da máquina do mundo: é que sonhou demais com as ressonâncias das abóbadas; não podendo ouvi-las, rebaixa-se a escutar apenas o tumulto que o rodeia. As frases amargas emanam de uma sensibilidade magoada, de uma delicadeza ferida. O veneno de um La Rochefoucauld ou de um Chamfort foi a desforra que escolheram contra um mundo talhado para os brutos. Toda amargura esconde uma vingança e traduz-se em um sistema: o pessimismo, essa crueldade dos vencidos que não podem perdoar à vida haver frustrado sua expectativa.

A alegria que dispara golpes mortais…, o regozijo que dissimula o punhal sob um sorriso… Penso em certos sarcasmos de Voltaire, em algumas réplicas de Rivarol, nas tiradas ásperas de Madame Deffand, na gargalhada que desponta sob tanta elegância, na leviandade agressiva dos salões, nos rasgos sarcásticos que divertem e matam, na acidez que oculta um excesso de civilidade… E penso em um moralista ideal – mescla de voo lírico e de cinismo –, exaltado e glacial, difuso e incisivo, tão próximo das Revêries como das Liaisons Dangereuses, ou que unisse dentro de si Vauvernagues e Sade, o tato e o inferno… Observador dos costumes nele mesmo, sem nenhuma necessidade de ir investigar alhures, pois a menor atenção a si mesmo lhe revelaria as contradições da vida, cujos aspectos refletiria tão bem que esta, envergonhada de sua reduplicação, se desvaneceria.

Não há atenção cujo exercício não leve a um ato de aniquilação: tal é a fatalidade da observação, com todos os inconvenientes que decorrem para o observador, desde o moralista clássico até Proust. Tudo se dissolve sob o olhar escrutador: as paixões, as afeições inabaláveis, os ardores são o apanágio de espíritos simples, fiéis aos outros e a eles mesmos. Uma gota de lucidez no “coração” faz dele a sede dos sentimentos fingidos, e transforma o apaixonado em Adolfo e o insatisfeito em René. Quem ama não examina o amor, quem age não medita sobre a ação: se estudo meu “próximo”, é que ele deixou de sê-lo, e eu deixo de ser “eu” se me analiso: torno-me objeto, da mesma categoria que os outros. O crente que avalia sua fé acaba por colocar Deus na balança, e só salvaguarda seu fervor por medo de perdê-lo. Nas antípodas da ingenuidade, da existência integral e autêntica, o moralista esgota-se em um vis-à-vis de si mesmo e dos outros: farsante, microcosmo de segundas intenções, não suporta o artifício que os homens, para viver, aceitam espontaneamente e incorporam à sua natureza. Tudo lhe parece convenção: divulga os motivos dos sentimentos e dos atos, desmascara os simulacros da civilização: sofre por havê-los entrevisto e superado; pois os simulacros fazem viver, são a vida, enquanto que sua existência, contemplando-os, perde-se na busca de uma “natureza” que não existe e que, se existisse, lhe seria tão estranha como os artifícios que se acrescentam a ela. Toda complexidade psicológica reduzida a seus elementos, explicada e dissecada, comporta uma operação muito mais nefasta para o que a opera do que para a vítima. Liquidam-se os sentimentos ao se buscar-lhes os meandros, assim como os ímpetos, se se espia sua trajetória; e quando se descrevem minuciosamente os movimentos dos outros, não são os outros que se atrapalham ao caminhar… Tudo em que se toma parte parece absurdo, mas os que se movem não poderiam não avançar, enquanto que o observador, para qualquer lado que se volte, só registra seu inútil triunfo para desculpar sua derrota. É que só há vida na falta de atenção à vida.


CIORAN, E.M., “No segredo dos moralistas”, Breviário de decomposição. Trad. de José Thomaz Brum. Rio de Janeiro: Rocco, 2011.

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