“Quem escreveu o Breviário de decomposição?” – Nicolas CAVAILLÈS

Tal como foi publicado pela editora Gallimard em 1949, o primeiro livro escrito em francês pelo romeno Emil Cioran, Breviário de decomposição, foi assinado E.M. Cioran, como, aliás, os demais livros franceses que se seguiram; hoje, porém, desde o sucesso de Exercícios de Admiração em 1986, lê-se em muitas das capas das reedições recentes o único nome Cioran, “consagração” devida à Gallimard, não ao escritor. Além disso, todos os seus livros e artigos escritos anteriormente em romeno foram assinados com seu nome de batismo, Emil Cioran. Aqui estamos na presença de três nomes para a mesma pessoa – aos quais poderíamos acrescentar a forma afrancesada do nome romeno, Émile Cioran, que se encontra em vários documentos administrativos do autor residente na França, e também como assinatura do texto “ O parasita dos poetas”, excerto do Breviário de decomposição publicado à parte, antes da publicação do livro integral e, portanto, antes da escolha definitiva da assinatura E.M. Cioran.

Contemporânea da mudança de língua de escrita, da passagem do romeno para o francês, esse câmbio de nome do escritor vem suscitando enganos, sendo que Cioran mesmo deixara crer que seu nome era Émile Michel, para não ter de reconhecer que E.M. era inspirado no escritor inglês E.M. Forster. Na verdade, conforme conta Simone Boué, à época do Breviário, Cioran considerava que “Émile, em francês, era nome de cabeleireiro.”

A crise de identidade aqui revelada é amplamente corroborada pela consulta aos manuscritos do Breviário de decomposição. Descobrimos então que Cioran considerou assinar o livro (então intitulado Exercícios negativos): E.E. Cioran, então, talvez, E.N. Cioran – mas há boas razões para acreditar que este é um erro, ou uma aproximação da escrita, corrigido imediatamente pela adição de uma barra em E.M. Cioran. Para não ser tomado por um cabeleireiro vulgar, Cioran escolhe o nome de um escritor, baseando-se no repertório anglófono: antes de E.M. Forster, E.E. não carece de relação com E.E. Cummings. Por que E.M. em vez de E.E.? Esteticamente, a repetição, não muito feliz oralmente, dos dois “e” de Cummings é menos atraente do que as iniciais “E.M.”, que têm em seu favor a analogia fônica com “Emil”. De resto, os semelhantes se atraem [qui se ressemble s’assemble]: sabemos que E.E. Cummings (1894-1962), poeta americano, celebra o amor, a natureza, a verdade e os sentimentos espontâneos, com humor e romantismo, de forma resolutamente moderna (sem maiúsculas, com pontuação reduzida, sintaxe deslocada); quanto a E.M. Forster (1879-1970), romancista inglês (daquela velha Europa que Cioran estima contra a juventude dos Estados Unidos), denuncia a hipocrisia social que destrói o indivíduo; em Passagem para a Índia, ele esboça um retrato da Índia colonizada pelos ingleses, ilustrando as diferenças entre as duas culturas.

Quem escreveu, então, o Breviário de decomposição? Emil, o jovem romeno, Émile, o cabeleireiro francês, E.E., o poeta americano, E.M., o romancista inglês, ou já Cioran, o escritor apátrida legado à posteridade? Com quase 35 anos, Cioran está em uma encruzilhada linguística e de identidade; sua alma está fragmentada; sua vida, e ainda mais seu trabalho, num momento crítico. Ele renuncia à sua língua materna (Emil), recusa-se a traduzir a sua romenidade para o francês por medo do ridículo (Émile), e prefere a poesia, o lirismo e a exuberância (E.E.), a reflexão, a razão e o objetivo da lucidez (E.M.) – mas todos estes elementos permanecem nele e fraturam seu ser; apenas o nome Cioran justifica-se aqui, uma vez que contém todos os outros nomes e abrange todos os aspectos da identidade de Cioran. É a entidade Cioran que escreveu o Breviário de decomposição, é essa entidade fragmentada que está em ação na gênese do texto que nos propomos estudar aqui.

O ambiente genético

Antes de refletir sobre os traços genéticos dessa fragmentação identitária, detenhamo-nos sobre as circunstâncias da redação do Breviário de decomposição. Trata-se aqui de reconstituir o ambiente em que Cioran escreve – apoiando-nos no sentido biológico de “conjunto de seres e de fenômenos com os quais um ser vivo se encontra relacionado” (L.-M. Morfaux) para alcançar a ideia de ambiente genético [milieu génétique], remetendo ao conjunto dos seres e dos fenômenos que interferem na gênese, no tempo da gênese.

Como já demonstrado um pouco pelas nossas premissas onomásticas, Cioran gosta de deixar sua biografia no escuro. No entanto, ele não cansou de retornar ao grande acontecimento de sua biografia como escritor, a decisão de mudar de idioma – uma decisão tomada durante as férias perto de Dieppe, provavelmente no verão de 1946 –, sua dolorosa renúncia à liberdade romena para submeter-se à “camisa de força” do francês, e a provação que foi escrever o primeiro livro na nova língua, o Breviário de decomposição.

Demos uma olhada primeiramente na correspondência de Cioran. No rico volume Scrisori catre cei de-acasa (Cartas para os meus), uma coleção de cartas escritas em romeno, desde a chegada na França até sua morte, em que Cioran anuncia a seus pais, provavelmente em julho de 1946, a decisão de se tornar um escritor francês, permanecendo, contudo, bastante misterioso, nas cartas seguintes, sobre as condições de publicação do seu novo livro; especialmente interessado em tranquilizar sua família na Romênia, ele não entra em detalhes literários e apenas lhes dá informações materiais. Em 2 de dezembro de 1946, diz a Jenny Acterian que acabara de escrever um livro em francês, “Exercícios negativos”, que ele não sabia se seria publicado. E nada mais… Como podemos ver, a correspondência cioraniana não tem nada de um diário editorial, onde o escritor comentaria seu trabalho conforme ele é feito (como Flaubert): Cioran escreve nas sombras e na solidão, e não permite em si qualquer intrusão puramente literária e genética à chaud, com seus próximos, no âmbito da intimidade.

Ele é, no entanto, muito mais tagarela como escritor. (A famosa Carta a um amigo distante, em que Cioran narra o “pesadelo” do Cita aprendendo a língua francesa, carta a Constantin Noïca publicada como primeiro capítulo de História e Utopia sob o título “Sobre dois tipos de sociedade”, sintomaticamente menos da esfera íntima que da literária.) Sob a identidade oficial do escritor – logo: nas entrevistas que concedidas a intelectuais, em seus livros, inclusive nos Cahiers –, Cioran evoca com loquacidade e emoção a gênese do Breviário de decomposição. Nem são testemunhos no calor do momento, já que a primeira das entrevistas data de 1970 (mais de vinte anos depois do Breviário) – mas Cioran guarda uma memória manifestamente intensa desse período.

Ouçamos os testemunhos de Cioran e Simone Boué; comecemos assim por frequentar Cioran, isto é, sua habitação no Hôtel Majory, na esquina da rue Monsieur-le-Prince com a rue Racine, em Paris, no coração do Quartier Latin, a dois passos do Jardim do Luxemburgo e da Rue de l’Odéon, onde Cioran viveu por mais de trinta anos. Ele vive com Simone Boué, que conheceu em 1942 e de quem nunca se separará. Matriculado na Sorbonne, frequenta regularmente a cantina, sem nunca frequentar nenhuma aula. Se conhecia bem o Café de Flore, lá evitava Sartre e Camus, preferindo a companhia de Paul Celan, Eugène Ionesco ou Samuel Beckett, graças aos quais se infiltrou nos salões parisienses para beber whisky a um custo mais baixo – ou na companhia de excêntricos como o Sr. Lacombe, curioso personagem de quem Cioran esboça de bom grado o truculento retrato sob o disfarce de um homem basco erotómano e manco, mas acima de tudo maníaco, obcecado pela língua francesa, por sua gramática e sintaxe clássicas (chegando a corrigir as prostitutas ao conversar com elas!): é a este Sr. Lacombe que Cioran alega dever a sua consciência de escritor, sua preocupação por uma sintaxe impecável; foi também sob sua influência que Cioran teria se comprometido a reescrever o Breviário.

Adentremos o escritório onde Cioran está escrevendo o Breviário. O que encontramos lá? Xícaras de café, cigarros, dicionários; volumes de Mallarmé, Pascal, Valéry, autores do século XVIII, como Mme. du Deffand ou Mme. Staal de Launey; Chamfort, Joubert, La Rochefoucauld e todos os moralistas, Georg Simmel ou Shelley, Keats e poetas ingleses… A máquina de escrever está encostada num canto: ele só a usa para cartas importantes –como as escritas para Henri Corbin – e deixa o trabalho de datilografia de seus textos para um profissional, se ele tem dinheiro para pagar, ou então para Simone Boué.

Agora, vejamos Cioran escrevendo: com uma caneta tinteiro em “blocos de papel de formato grande”, segundo Simone Boué. E as folhinhas soltas que podem ser encontradas na Biblioteca Jacques Doucet? Supomos que Simone Boué pensa, a respeito delas, numa época outra que não a do Breviário – este ponto não fica mais claro do que os adjetivos “grande” e “pequeno” são precisos… Parece também que, ao mudar de idioma, Cioran também muda o instrumento usado para escrever, abandonando a caneta tinteiro para a caneta hidrográfica.

Mas o tempo da escrita não dura quase nada: “ele nunca escrevia mais do que uma página”, conta Simone Boué, “no fundo, ele escrevia pouco de cada vez.” Já chega a hora da leitura, que deixa Cioran sempre descontente; ele pede então a Simone que leia seu texto, ela faz uma “voz de sirena”, e apenas neste momento o texto parece bom aos olhos do autor; quanto às raras objeções que Simone Boué se dá a liberdade de fazer, Cioran é “pouco acessível”.


Nicolas CAVAILLÈS, Le corrupteur corrompu : Barbarie et méthode dans l’écriture de Cioran. Paris : Le Manuscrit, 2005. Trad. do francês de Rodrigo Inácio R. Sá Menezes.

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