“A teologia de Pôncio Pilatos” – Luiz Felipe Pondé

Folha de S. Paulo, Caderno Mais!, 28 de março de 2004

Anti-semitismo no cristianismo é real e perigoso, mas é mais complexo que a idéia de que experimentar esteticamente a Paixão seja um discurso que força o ódio ao judeu

Luiz Felipe Pondé
especial para a Folha

Em meio à “floresta densa” do maior ou menor capital simbólico do agente cognitivo (Bourdieu), da politização (foucaultização) agressiva das relações epistêmicas, do paradoxo da fronteira suspeita entre ideologia e conhecimento “objetivo” (Mannheim), da consciência da incomensurabilidade contextual das famílias de concepções (Kuhn, Wittgenstein, Latour), da idéia de idéia como ator social (teoria crítica), enfim, diante dos desenvolvimentos mais recentes da definição protagórica de “verdade” como eficácia retórica, é praticamente inviável enunciar um juízo sem suspeita. “Veritas? Quid est veritas?” Evidentemente que essa condição de deslize endêmico de sentido é sempre função das variáveis relativas em jogo: quando se faz interessante, opta-se por uma retórica “objetivante”. Quando o objeto de discussão é “religião”, essa sangria semântica é ainda pior.

Produto da mente humana

Em 1914, o filósofo e teólogo judeu-alemão Franz Rosenzweig escreveu no seu “Atheistiche Theologie” que uma mudança fundamental estava em curso no modo de entendermos a herança religiosa judaica e cristã: a redução alegre da idéia de Revelação à idéia de cultura, o que por sua vez implicava a afirmação de que o conteúdo dos textos revelados era produto hermenêutico da mente humana, e não de Deus. E, mais, no caso específico do cristianismo, esse viés produziria uma crescente humanização de Cristo, desaguando na obsessão pelo “Jesus histórico”, eliminando, por fim, a idéia de sua divindade. Essa transformação seria definitiva para a morte da “religião” como parceira epistêmica -Martin Buber e Leo Strauss concordaram com esse diagnóstico. Outra referência importante para a suposta evidente recusa do caráter teológico do filme “Paixão de Cristo”, de Mel Gibson -caráter esse que implica a afirmação de que, com todos os riscos que ele gera, merece uma atenção mais cuidadosa por parte da nossa debilitada inteligência teológica- é a análise de Alexis de Tocqueville em “A Democracia na América”: o “homem democrático” tende inexoravelmente a reduzir toda relação cognitiva a uma relação de utilidade na construção do seu bem-estar, logo, “não me venha falar de sofrimento ou sacrifício, isso só pode ser sadomasoquismo”. Trata-se de uma espécie de docetismo (a heresia que negava um corpo real ao Cristo) sofisticado: ou bem Jesus não sofreu tanto assim e os torturadores pediam desculpas enquanto torturavam -sabemos como essa “classe profissional” é econômica no exercício de sua função- ou a Paixão não doeu tanto porque Jesus não tinha braços que quebrassem de fato. O recurso quase didático à experiência estética da violência no cinema pode ser facilmente justificado em cenas de desembarque em guerras ou na (justa) militância contra injustiças sociais -a fim de gerar uma percepção sensorial da dor do soldado ou da vítima social-, mas jamais para indicar anatomicamente o horror da condição torturada do inocente Homem-Deus que sofre no lugar do Homem-hedonista e cínico. O filme não é uma peça histórica, mas uma meditação religiosa acerca da Paixão na era da reprodutibilidade técnica. Nossa sensibilidade viciada na usura do bem-estar reclama dos maus modos da Paixão. Todo ato teológico é um ato de risco porque força o imperativo culturalizante (leia-se, a anomia da religião entendida como “curiosidades antropológicas”). O efeito imediato desse horror da teologia é sua redução às bordas sociais e psicológicas: tudo o que importa no filme é a grana ganha, a suposta intenção difamadora, o caráter suspeito de um diretor religioso, jamais uma reflexão teológica acerca de como a Paixão é insuportável para um “humano” inflado que projeta sobre a sobrenaturalidade do Cristo (que agüenta uma dor que nós não podemos nem ver) sua face hedonista. A suposta afirmação do diretor de que seu filme “é uma inspiração do Espírito Santo” só pode ser tomada como ridícula ou como um ato de má-fé.

Ineficácia semântica

Esta é a questão: um enunciado desse tipo é sem eficácia semântica. Resta-nos o “retorno” do reprimido na forma de excessos de terror e de depressão crescente. Talvez seja necessário ensaiar novas teorias sobre a “questão da religião”. O bê-á-bá da proibição de véus não nos levará muito longe. Mesmo no caso do risco anti-semita, a discussão dos “experts” deveria ultrapassar a barreira do senso comum: o problema histórico do anti-semitismo no cristianismo é real e perigoso, mas é muito mais complexo do que a idéia simplista de que experimentar esteticamente a Paixão seja um discurso que força levianamente o ódio ao judeu -desde quando a interpretação rasa deve ser argumento desqualificador evidente para uma discussão séria?

Para além da variação descritiva entre Lucas (menos anti-semita) e Marcos (mais anti-semita) preservada na “Paixão” (há um evidente espectro de diferentes comportamentos entre os personagens judeus ao longo do “julgamento” e da “via crúcis”), o “locus” judaico de Maria e Madalena é claramente resguardado nas palavras ditas por elas na sua entrada em cena no filme, palavras essas repetidas no “Seder de Pessach” por todo judeu até hoje -entre eles, eu. Traduzindo aproximadamente: “O que esta noite tem de diferente de todas as outras noites?”. Para além do fato óbvio de que a elite sacerdotal judaica -aliada do governo romano na ordem opressora- poderá ter agido do modo costumeiro -todos sabem que a casta sacerdotal judaica, como toda casta, foi violenta na defesa de seus interesses, com ou sem Jesus-, persiste o problema de que o drama de Cristo se inscreve na economia teológica do próprio judaísmo.

Aos olhos de uma teologia cristã que não se faça de segunda, a teologia cristã permanece na sua raiz judaica: se Jesus é o Messias, a casta sacerdotal, assim como o governo romano, realizavam a decisão de Deus -Ele é o Adão que pisa na serpente ao invés de adorá-la. Cristo teve que sofrer a Paixão não por conta dos judeus (em especial), mas por conta da humanidade. Um fator essencial nesse diálogo é em que medida o cristianismo representa uma tensão interna ao próprio judaísmo: como aliar um Deus universal a uma história particular? Os judeus, como povo eleito, teriam, nesse episódio, que atuar (mais uma vez) a trágica desgraça humana de excluir Deus do seu convívio -assumindo, como os cristãos o fazem, que Jesus é Deus. O anti-semitismo é preguiça teológica por parte dos cristãos, e quem não o combate deveria ser “ex-comungado”. A memória pontual de Jesus ao longo do filme revela de modo preciso o paradoxo de sua mensagem para uma mente hedonista.

Diante de Pilatos, o absurdo de um carpinteiro judeu ignorante, historicamente determinado, que fala latim, é um fato banal para a nobreza de um Homem-Deus -aliás, antes de tudo, seu “caráter” histórico é sua “abertura” para a dor. Mas é mais fácil se esconder na “floresta densa” e se perguntar, como Pilatos, “quid est veritas”, enquanto a “massa embrutecida” lava os olhos diante dos fantasmas da Paixão.

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