Perfil na Time Magazine: Cioran, “Visionário da Escuridão” – Paul Ress

Em meio às quase mil páginas dos Cahiers (cadernos) que Cioran manteve como um indispensável laboratório de ideias e exercício de estilo, encontram-se algumas notas sobre uma entrevista que ele teria dado a um jornalista norte-americano, enviado pela revista Time, na qual o autor romeno de expressão francesa, à essa altura já um autor renomado por seus livros franceses, declarava ser um “niilista de mentalidade religiosa”:

Acabo de dar uma entrevista para a Time Magazine: durante horas falei de mim, e creio ter respondido a todas as perguntas que me fizeram sobre todos os assuntos imagináveis.
Na França, eu não me prestaria a semelhante operação; mas como, neste caso, se tratava de outro continente…
Disse ao jornalista que a vida é para mim “an intriguing Nothingness”. Quis dizer que o que a torna interessante aos meus olhos era precisamente o fato de que a vida é impossível e impraticável. Eu deveria ter lhe dito que sou “a religious-minded niilist” (un nihilist à l’esprit religieux)

Cahiers : 1957-1972, p. 605

Não menos intrigante é a razão que o leva a afirmar, nos Cahiers, que “deveria ter dito” ao jornalista [aurais dû lui dire] o que de fato lhe disse, pois é exatamente uma das frases atribuídas ao próprio Cioran no artigo, entre aspas. Se realmente pensou em dizer, mas não o fez, pode-se dizer que telegrafou a ideia tão bem que ela seria publicada na revista estadunidense ipsis litteris. A entrevista não sai da sua cabeça, tanto que na mesma página ele torna a escrever sobre ela:

É possível que eu tenha consentido a dar uma entrevista para uma revista com uma tiragem de milhões de exemplares? Tenho vergonha disso, mas não será a primeira vergonha da minha vida. Eu talvez não a tivesse feito, mas tenho alguma vontade de existir alhures, já que na França eu não tenho nem sequer o status de um fantasma.

Cahiers : 1957-1972, p., 605

E em seguida:

Eu explicava agorinha mesmo ao jornalista americano um pouco estupefato que sou obra da insônia, que não foram infelicidades que me levaram a ver as coisas como eu as vejo, mas unicamente minhas vigílias, essas noites em que, aos vinte anos, eu ficava horas a fio com o rosto colado no vidro, olhando para o escuro.

Cahiers : 1957-1972, p. 605

Abaixo, traduzido para o português, está o texto (um perfil, não uma entrevista, e sem a assinatura do jornalista enviado a Paris, Paul Ress) publicado na Time Magazine como resultado da entrevista (realizada em 1968) sobre a qual Cioran não tardará a comentar, mais de uma vez, em seus Cahiers.


Time Magazine, 9 de agosto de 1968

Todas as noites, durante os “dias de maio” da revolta da Sorbonne, um homem grisalho de meia-idade descia de seu apartamento de mansarda na margem esquerda e caminhava até o Théátre de L’Odéon, ocupado por estudantes. Lá, ouvia com divertido interesse os jovens niilistas denunciarem todo o período da história francesa como irrelevante. Seu julgamento severo não o surpreendeu. Em cinco volumes finos de ensaios lúcidos e dolorosamente destilados, o filósofo romeno E. M. Cioran, 57, argumenta sobre a terrível futilidade da história humana. Mais originalmente do que qualquer outro pensador vivo, Cioran estabeleceu o caso [de acusação, em linguagem jurídica] para o pessimismo total. “A história humana é um imenso beco sem saída”, diz ele. “Para mim, a vida é um vazio apaixonante, um nada intrigante.”

O primeiro livro de Cioran publicado nos EUA, The Temptation to Exist, apresenta sua visão sombria em uma série de meditações altamente pessoais e paradoxais que desafiam as críticas e só podem ser acolhidas ou rejeitadas categoricamente. Um pensador assistemático que se refere a seus ensaios como “fragmentos”, Cioran (pronuncia-se Tchô-rán) apresenta seus argumentos em prosa irônica e aforística (ver box). É como se Dostoiévski tivesse escrito Memórias do subsolo no estilo dos Pensées de Pascal. Embora sua melancolia tenha afinidades com o existencialismo, Cioran é difícil de classificar; seu pensamento eclético contém ecos de toda a história filosófica, desde os pré-socráticos aos místicos da igreja oriental.

Em parte por causa de sua obsessão com a privacidade – ele se recusa a revelar seu primeiro nome, raramente dá entrevistas, evita os círculos literários parisienses – Cioran dificilmente é mais conhecido na Europa do que nos EUA. No entanto, existem testemunhos impressionantes de sua importância. A crítica Susan Sontag, em sua introdução a The Temptation to Exist, o considera “a figura mais distinta a escrever hoje na tradição de Kierkegaard, Nietzsche e Wittgenstein”. E o poeta ganhador do Nobel, Saint-John Perse, elogia Cioran como “um dos maiores escritores franceses a homenagear nossa língua desde a morte de Paul Valéry. Seu pensamento elevado é um dos mais rigorosos, independentes e interessantes da Europa hoje.”

A independência de Cioran deriva em parte do fato de que ele é, literalmente, um exilado sem pátria. Educado na Romênia por seu pai, um padre ortodoxo grego, ele foi para Paris aos 26 anos, onde estudaria intermitentemente, por 13 anos, na Sorbonne, recusando-se a obter um diploma avançado. Assolado por uma insônia crônica, desenvolveu seu profundo senso de desespero durante uma longa nuit blanche (noite sem dormir) após a outra. Descasado [unmarried], ele ganha a maior parte de sua modesta renda com um trabalho de meio período como tradutor e leitor de manuscritos. “Eu não ganho a vida”, disse ele ao correspondente da revista Time, Paul Ress, semana passada. “Eu tiro o meu [I eke one out]. Mas não desejo ficar bem de vida [well-off].” Cioran não voltou à Romênia há mais de 30 anos e não é cidadão de nenhum país.

Para ele, a vida é absurda e fascinante ao mesmo tempo. “Tudo o que um homem empreende volta-se contra ele”, explica. “Somos castigados por tudo. É a tragédia do destino humano.” Zombada pela vida, a humanidade se torna “uma raça de convulsivos no centro de uma farsa cósmica”. Visto que os sistemas filosóficos falham inevitavelmente, Cioran é levado a denunciar a razão como “a ferrugem de nossa vitalidade” e o estudo da história como “o terror da cronologia”, ambos os quais levam os homens a separar a consciência da realidade. Para Cioran, toda verdade é, em última análise, uma farsa, todas as certezas não passam de “mentiras funcionais” [all truth is ultimately hoax, all certainties no more than “functioning lies“].

Cioran acredita que a civilização ocidental está hoje em um estágio de paralisia irreversível. O homem moderno, escreve ele, está ciente de que toda ação é eventualmente negada, toda ideia profunda dará origem a outra que a refuta e toda revolução leva inevitavelmente à contrarrevolução. Mesmo o niilismo e o ateísmo são opções falsas, pois também envolvem um compromisso que acabará por desmoronar. “Nos nossos limites aparece um Deus, ou algo que o serve”, diz Cioran, que é ao mesmo tempo um incrédulo e um homem profundamente religioso. “Eu recorro a Deus, mesmo que apenas pelo desejo de repisar minhas dúvidas [trample my doubts underfoot].” Mas Cioran rejeita a fé como apenas mais uma forma de autoengano. “Escrevo para me livrar das minhas obsessões, da minha angústia”, diz ele. “Mas eu não acredito em nada.”

No confronto com a futilidade, Cioran não cede ao absurdo nem dá um salto repentino para a fé. Em vez disso, adota um equilíbrio perigoso, intencionalmente irracional, projetado para cortar as raízes da razão. Visto que toda vida é futilidade, ele afirma, então a decisão de existir deve ser o ato mais irracional de todos. Pois, uma vez que o homem vê através de suas ficções, não pode haver base racional para viver, um julgamento que lembra o argumento de Camus: a única questão filosófica é o suicídio. “Eu subsisto e ajo na medida em que sou um maníaco delirante”, escreve Cioran. “É minando a ideia de razão, de ordem, de harmonia, que ganhamos consciência de nós mesmos.” [It is by undermining the idea of reason, of order, of harmony, that we gain consciousness of ourselves.]

Cioran afirma que o único terreno comum entre os homens – crentes e não crentes – é a tentação ilógica de existir, de resistir à aceitação do nada. O difícil dever do homem passa a ser o de combater tanto suas dúvidas quanto suas certezas, e lançar-se a um estado de irracionalidade silencioso e desprendido . Ele vê a tarefa do filósofo não como apontar a verdade, mas antes como mostrar o caminho para a liberdade por meio da aceitação da futilidade, a única postura sustentável para o homem consciente. “Depois da banalidade do abismo, que milagres no ser!”, escreve Cioran [After the banality of the abyss, what miracles in being!]. “Existir é um hábito que não desespero em adquirir.” [To exist is a habit I do not despair of acquiring.]


“Philosophers: Visionary of Darkness”, Time Magazine, Friday, Aug. 09, 1968. Trad. do inglês de Rodrigo Inácio R. Sá Menezes. Versão portuguesa em PDF para download.

Fonte alternativa/Alternative source: original English version (Pdf)

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