“Humanismo demiúrgico” – Peter SLOTERDIJK

A doença deve ter sido a razão última
De todo ímpeto de criação;
Criando pude curar,
Criando me curei.

HEINE, H. Schöpfungslieder.

Ao renascimento do indivíduo corresponde uma recriação do mundo. Assim como a psicoterapia moderna levou oculta ou abertamente a uma grande repetição de motivos gnósticos, a estética moderna também teve que interferir de maneira nova no conflito pelo sentido da criação. Desde o Renascimento, a cultura ocidental, muitas vezes sem uma consciência clara de sua situação, se movimenta, no sentido mais amplo, num terreno neognóstico. Do ponto de vista psico-histórico, isso está vinculado a uma mudança de fases na teologia da Trindade: desde Agostinho até Tomás de Kempis, o cristianismo ortodoxo havia sido principalmente uma religião da obediência, que procurava se interpretar como imitatio Christi. Depois dos surgimentos místicos dos séculos XIV e XV, as duas outras “pessoas” passam a prevalecer psicodinamicamente no campo de força da Trindade. A religião da mediação se transforma na religião da imediação; desde Ficino até Emerson, a centelha cristã é traduzida em uma doutrina da autoconfiança entusiasmada. A imitação de Cristo passa para o segundo plano e cede seu lugar a uma imitação do Pai e do Espírito. A imitatio Patris libera o novo vínculo entre conhecer, querer e poder: de certa forma, o molde teológico das competências de trabalho humano se torna apto para as massas. A imitatio Spiritus, por sua vez, possibilita formas pós-cristãs de entusiasmo, que, sob o conceito romano do “genius” escreverá história. Gênios e engenheiros ascendem para uma nova elite de novo tipo: representam o grupo dos seres humanos fazedores de épocas. Vivemos antes ou depois deles — antes ou depois de Colombo, antes ou depois de Ticiano, antes ou depois de Siemens. Descobrir, inventar, criar, desenvolver, aperfeiçoar, superar: A vita activa humana se organiza como projeto demiúrgico. Por meio da imitatio Patris et Spiritus, o sentido do trabalho humano se transforma radicalmente. Ele deixa de ser um rastro da nossa expulsão do paraíso, deixa de ser apenas maldição que seguiu ao rompimento com a ordem mais antiga. Em termos modernos, trabalhar significa: manter aberto o processo da criação. A expulsão do paraíso se apresenta agora como um ardil da razão; é o prelúdio à entronização do ser humano como criador de seu “próprio mundo”. Desde que os seres humanos passaram a trabalhar de modo tipicamente ocidental, a criação ingressou na segunda semana. Apenas uma humanidade caída e banida pôde realizar a ideia de fazer mais do que o Deus do Gênesis. Enquanto a obra humana, no pensamento católico, não pode ser mais do que o cumprimento de deveres epigenéticos — preservação do existente, trabalho na vinha do Senhor, stewardship na espaçonave Terra —, a Modernidade nuclear — o complexo protestante-humanista-neopagão – assumiu um compromisso com o chavão criatividade e interpretou o sentido da obra humana como hipergênese. Isso significa nada menos do que a superação da criação antiga por meio da contribuição do ingenium, complementação da criação antiga por meio do desenvolvimento tecnológico e estético. A queda se transforma em produtividade, a catástrofe metafísica do ser humano inicia o processo hipergenético. O ser humano é o Deus da segunda semana da criação. A “história mais recente” arquiva os sucessos das nossas intervenções. Entrementes, passaram-se a tarde e a manhã e fez-se o oitavo dia. Surge a pergunta se Deus ainda tem a coragem de olhar e ver (e dizer) que era bom. Em 1929, Sigmund Freud escreveu que o ser humano “quase se tornou um deus”, um “tipo de deus de prótese” — mas um deus que, “em sua semelhança de Deus não se sente feliz”. Sabemos hoje que o mal-estar do homem cultural em seu estado atual não é apenas uma consequência das autoagressões inevitáveis cometidas pelo superego; nele se manifesta a verdade imediata sobre o humanismo demiúrgico. Como figuração de uma criatividade pós-paradisíaca, as obras humanas modernas são, desde o início, sintomas ambivalentes de uma catástrofe ontológica; calamidade e cura, doença terapia ao mesmo tempo. Em seu livro Das Ende der Natur [O fim da natureza], o ecólogo norte-americano Bill McKibben levou ao extremo o mal-estar pós-moderno na criatividade: “Estamos na crise, se transformar a natureza significa transformar tudo. Agora é a nossa vez, gostemos disso ou não. Como espécie somos como deuses — nosso alcance é global […] como devemos ser humildes se alcançamos o poder como criadores?”.[1]

Em perguntas desse tipo transparece o espírito de uma estética pós-demiúrgica. Se já o Deus do Gênesis não conseguiu se proteger das ironias de Valentino contra sua sabedoria da criação, como devemos nós, os responsáveis pela hipergênese tecnológica, nos proteger da crítica dos nossos descendentes à nossa criatividade desorientada? A crítica pós-demiúrgica ao mundo vê as obras do oitavo dia, o Novo Mundo criado pelo homem, com o mesmo rigor que a gnose da Antiguidade tardia via a obra dos seis dias de Elohim. Disso surge necessariamente uma nova forma de dissidência: o não consentimento do ser humano com sua própria obra. Isso é mais do que um mal-estar na cultura; é um mal-estar no pleno poder demiúrgico do ser humano, um sofrimento com a coerção ao poder e ao fazer. Grandes obras de arte no sentido de uma estética gnóstica seriam, portanto, mais do que monumentos adicionais da vontade estética de poder — inserem no arquivo do tempo algo que não são apenas lembranças adicionais da perversidade humana. Nessas obras, ouviríamos algo da objeção da criatura à catástrofe da criação. O espírito da amundanidade retorna no interior da obra como sobra de ausência de obra. A obra gnóstica, como rompimento sublime com o próprio poder, é o rastro da saudade daquilo que transcende as obras.

[1] McKIBBEN, B., Das Ende der Natur. Nova York, 1989, p. 70ss.


SLOTERDIJK, Peter, “Humanismo demiúrgico”, Pós-Deus. Trad. de Markus A. Hediger. Petrópolis: Vozes, 2019, p. 99-102.

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