Sepultador de Ilusões: Osmair Cândido em Conversações Filosóficas

Assim que entramos num cemitério, um sentimento de completa irrisão afasta qualquer preocupação metafísica. Os que procuram «mistério» em todo o lado não vão necessariamente até ao fundo das coisas. O mais frequente é o «mistério», tal como o «absoluto», corresponder apenas a um tique do espírito. É uma palavra a que só devíamos recorrer quando não a podemos evitar, em casos verdadeiramente desesperados.

CIORAN, Do inconveniente de ter nascido

Osmair Cândido (o “Fininho”) ficou conhecido recentemente, na imprensa e nas mídias sociais, por seu lúcido e sensível relato como coveiro durante a pandemia de Covid-19 no Brasil. Além de dedicar-se à profissão de coveiro há 40 anos, que pratica com amor e afinco, Fininho também é um grande filósofo, graduado na Universidade Mackenzie, de São Paulo (onde reside), graças a uma bolsa de estudos. Fininho – cujos filósofos favoritos são Kant e Kierkegaard – possui toda uma filosofia de vida e de morte, inseparáveis, que ele compartilha nesta conversa, além dos “causos” contados a partir de sua experiência como coveiro e filósofo. Para além da gravidade e da solenidade de tão indigesto tema, Osmair Cândido é um homem espirituoso, cheio de graça e bom humor. Quando eu morrer, quero ser sepultado pelo Fininho (se ele já não estiver aposentado).

Rodrigo Inácio R. Sá Menezes

Osmair Cândido, o “Fininho”, é coveiro há mais de quarenta anos. Formou-se em filosofia pela Universidade Presbiteriana Mackenzie em 2007. É conhecedor da filosofia alemã, de Kierkegaard, entre outros autores. Mediação: Paulo Bodziak.


Em tempo… (a morte segundo Cioran)

“É porque ela não repousa sobre nada, porque carece até mesmo da sombra de um argumento que perseveramos na vida. A morte é demasiado exata; todas as razões encontram-se de seu lado. Misteriosa para nossos instintos, delineia-se, ante nossa reflexão, límpida, sem prestígios e sem os falsos atrativos do desconhecido. De tanto acumular mistérios nulos e monopolizar o sem-sentido, a vida inspira mais pavor do que a morte: é ela a grande Desconhecida.
Aonde pode levar tanto vazio e incompreensível? Nós nos apegamos aos dias porque o desejo de morrer é demasiado lógico, portanto ineficaz. Porque se a vida tivesse um só argumento a seu favor – distinto, de uma evidência indiscutível –, se aniquilaria; os instintos e os preconceitos desvanecem-se ao contato com o Rigor. Tudo o que respira se alimenta do inverificável; um suplemento de lógica seria funesto para a existência – esforço até o Insensato… Dê um objetivo preciso à vida: ela perde instantaneamente seu atrativo. A inexatidão de seus fins a torna superior à morte – uma gota de precisão a rebaixaria à trivialidade dos túmulos. Pois uma ciência positiva do sentido da vida despovoaria a terra em um dia; e nenhum frenético conseguiria reanimar a improbabilidade fecunda do Desejo.”

“Variações sobre a morte I”, Breviário de decomposição (1949)

“Para me ‘documentar’ sobre a morte, não ganho mais em consultar um tratado de biologia do que o catecismo: na medida em que ela me diz respeito, é-me indiferente que eu lhe esteja destinado em virtude do pecado original ou devido à desidratação das minhas células. Sem qualquer relação com o nosso nível intelectual, a morte pertence, como todo o problema privado, a um saber sem conhecimentos. Contactei com muitos iletrados que falavam dela com mais pertinência do que certos metafísicos; tendo identificado por meio da experiência o agente da sua destruição, consagravam-lhe todos os seus pensamentos, de tal maneira que a morte, em vez de ser para eles um problema impessoal, era a sua realidade, a sua morte.”

“A tentação de existir”, A tentação de existir (1956)

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