O Princípio de Crueldade (post-scriptum) – Clément ROSSET

A crueldade da realidade é ilustrada de maneira particularmente espetacular e significativa na crueldade do amor — tema conhecido e já sobejamente analisado, é verdade, mas é o privilégio das questões profundas permitir sempre uma análise parcialmente renovada, como é o privilégio de toda grande obra de arte, musical por exemplo, oferecer sempre matéria para uma interpretação inédita que revela aspectos ainda inauditos, e renova assim perpetuamente seu interesse. Sem pretender, no entanto, uma ambição tão vasta e temerária, limitar-me-ei a relacionar o tema da crueldade do amor com o da crueldade em geral, a mostrar que a primeira é apenas uma variante — ou “variação obrigatória”, para permanecer na metáfora musical — da segunda.

Entendo aqui o termo “amor” em seu sentido mais extenso: amor a uma outra pessoa, sem dúvida, mas também e talvez primeiramente amor à vida (ou à realidade), e enfim amor a si-mesmo — para não falar do amor a Deus que reuniria os três casos de amor citados anteriormente (na hipótese da existência de Deus), nem do amor a seu próximo (amor abstrato e irreal — embora freqüentemente revelador negativo de um ódio muito real — que excluo por não haver jamais encontrado traço seu em outro lugar além dos romances de Tolstoi e no conjunto da literatura edificante). Poderia-se espantar de ver preferir o amor às coisas ou o amor a si-mesmo ao amor a uma pessoa amada em que consiste a expressão mais aguda do amor segundo o senso comum, que aliás tem inteira razão de pensar assim. Mas é preciso distinguir entre o amor que faz mais mal — ou mais bem — no momento (amor a uma pessoa), e o amor que produz mais mal e dificuldades com o tempo (amor a si, amor às coisas). Se é verdade que o amor às coisas é subordinado ao amor a uma pessoa, também é — e até mais — verdade que o amor a uma pessoa, por via não de reciprocidade mas de superioridade hierárquica, é subordinado ao amor às coisas. Vigny naturalmente tem razão de escrever, em dois versos célebres: O que me importa o dia? o que me importa o mundo? Direi que eles são belos quando teus olhos o tiverem dito. Mas a fórmula inversa seria de uma pertinência ainda superior: só acharei teus olhos belos se, e somente se, tiver primeiro achado o dia e o mundo belos. Em outros termos: nada é certamente tão importante e tão gratificante, na vida, como o amor no sentido corrente da palavra — nada, a não ser a vida ela-mesma. É o que exprime bem Spinoza, quando define o amor como “a alegria acompanhada da idéia de uma causa exterior”. O amor é apenas uma variante — variante principal, é claro — do amor à vida.

Precisarei também, caso seja necessário, que a crueldade do amor de que falo não tem relação com a crueldade do erotismo tal como a entende Georges Bataille, que detecta no amor carnal (mas também é necessariamente um pouco mental) o projeto cruel de uma destruição física do ser amado, de um atentado perpetrado contra seu “indivíduo”, ou seja, uma vontade (de inspiração manifestamente Schopenhaueriana) de suprimir o caráter individual para reconduzi- lo à força à espécie da qual é apenas um caso de figura, procedendo a uma espécie de desconstrução erótica que começa com um beijo, primeira manifestação do desejo de morder, e acaba — se o itinerário amoroso vai até seu termo — como o esquartejamento e o esfacelamento. Não é o lugar aqui de interrogar-se sobre a justeza ou a falsidade desta tese (que tem, me parece, um pouco das duas), mas somente de dizer que esta não entra diretamente no meu tema.

Voltando à crueldade do amor (e à sua relação com a crueldade da realidade), observarei primeiramente que essa crueldade é percebida facilmente em todos os níveis e em todas as acepções da palavra “amor”, seja o amor a si, o amor às coisas ou o amor a uma pessoa. Pois o paradoxo é que nenhum desses objetos de amor é verdadeiramente amável, se considerado friamente, e que assim todo amoroso, por haver feito sempre e necessariamente uma má escolha, condena-se a venerar como melhor o que, na realidade, é o pior e que, aliás, ele não tarda a reconhecer ele-mesmo como tal: daí sua tortura. Odi et amo, diz o poeta Catulo, Odi et amo. Quare id faciam, fortasse requiris. / Nescio, sed fieri sentio et excrucior: “Detesto e amo ao mesmo tempo. Como é possível? perguntarás talvez. Ignoro-o, mas sei que assim é e que sou crucificado por isso.” Esta constatação cruel vale para todas as formas de amor. Eu me amo e me detesto: pois só consisto em um projeto, maduramente e sabiamente programado, de desaparição total, em um morto não indultado mas que se beneficia de um breve sursis; eis porque o eu, como diz Pascal, é odioso. Amo as coisas do mundo e as detesto, por esta mesma razão que elas são, em última análise, melhor contempladas do que eu em matéria de duração. Amo uma pessoa e a detesto: pois ela está inevitavelmente destinada a não me amar mais (caso mais cruel, caso mais vexatório para o amor-próprio), a menos que acabe por não mais amá-la — caso menos duro mas também talvez o mais sinistro, pois me faz suspeitar que a origem de toda decepção reside em mim-mesmo (e não nos outros), em minha própria incapacidade de permanecer eu- mesmo (de fazer durar meu desejo, de guardar durante muito tempo uma mesma direção e até de seguir uma idéia). Chamfort resumiu em uma breve fórmula os termos desta alternativa sem esperança: “A felicidade não é uma coisa fácil; é muito difícil encontrá-la em nós, e impossível encontrá-la alhures.”

A crueldade do amor (como a da realidade) reside nesse paradoxo ou nessa contradição que consiste em amar sem amar, em afirmar como durável o que é efêmero — paradoxo cuja forma mais simples seria dizer que algo, ao mesmo tempo, existe e não existe. Pois faz parte da essência do amor pretender amar sempre, mas de sua realidade amar apenas durante um certo tempo. De tal modo que a verdade do amor não combina com a experiência do amor. Eis porque o apaziguamento de uma dor de amor significa também um crescimento desta mesma dor, como observa Rousseau em uma passagem da Nova Heloisa (um amigo de Saint-Preux pensa acalmar a este, mergulhado em uma profunda aflição, observando-lhe que toda dor de amor enfraquece com o tempo; ao que Saint-Preux replica imediatamente e com muita justeza que aumenta sua dor imaginar que um dia ela acabará): pois o fim do amor é precisamente o que há de mais cruel no amor. Esquecer sua dor equivale, por conseguinte, a reavivar o brilho de sua causa, a qual certamente consiste ocasionalmente na dificuldade de amar uma pessoa e de ser amado por ela, mas essencialmente na impossibilidade de amar o que quer que seja. O fim das penas, em matéria de amor só é assim o começo do verdadeiro castigo.

Se o amor pôde ser dito bruxo, no sentido de encantador, como sugere o título de uma obra célebre de Manuel de Falla, é que ele realiza, ou melhor parece realizar, uma proeza impossível: transformar nada em algo, assim como alias, por via inversa, transformar este mesmo algo em nada. Platão teve uma visão justa, em O banquete, ligando o problema do amor ontológico, a embriaguez amorosa ao sentimento embriagante de um contato fugidio com o ser. O amor, tal como Jano, é um mágico de rosto duplo e contrário: sabe fazer surgir um objeto do nada, por um passe de magia branca, mas também sabe fazê-lo desaparecer, como por encanto, por um passe de magia negra. Manuel de Falla observa bem esta magia em uma passagem de El Amor Brujo: “Exatamente como o fogo-fátuo, o amor se desvanece’’ (se desvanece, diz o texto espanhol de Martinez Sierra: some, evapora-se, transforma-se subitamente em nada). O Sonho de uma noite de verão de Shakespeare, A dupla inconstância de Marivaux, o Cosi fan tutte de Mozart são outras ilustrações notáveis dessa evanescência cruel do amor, de seu duplo poder de aparecer e desaparecer. Mas, repito, esta ambigüidade não é outra coisa senão a ambigüidade inerente a toda espécie de realidade.

Terminarei com uma observação que diz respeito ao amor (no sentido usual) mas que nada tem a ver com a tese geral deste livro. O amor é, sem dúvida, a experiência mais gratificante que existe; entretanto, não é jamais, e isto contrariamente a um preconceito tenaz, a ocasião de uma verdadeira “descoberta”. Quero dizer que nele experimenta- se algo de que se possuía desde sempre a noção — o que explica o fato aparentemente paradoxal que tantos pensadores tenham podido falar profundamente do amor (tais como Schopenhauer, Kierkegaard ou Nietzsche) sem haver conhecido sua experiência real. Acontece com o amor o mesmo do que com os cem táleres evocados por Kant na Crítica da razão pura: os que estão no meu bolso têm a inestimável vantagem de existir e de ser meus, mas não diferem de modo algum da idéia que eu fazia previamente desses mesmos cem táleres. É também um pouco o que exprime Freud quando observa que a pretensa descoberta do amor, levando em conta a semelhança entre o amor adulto e o amor infantil à mãe, não é outra coisa senão a ocasião de um reencontro.


ROSSET, Clément, O princípio de crueldade. Trad. de José Thomaz Brum. Rio de Janeiro: Rocco, 1989.

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