“A inobservância do real” – Clément ROSSET

Numa cena de um filme de Buster Keaton, As três idades, vê-se um personagem singular, meio astrólogo meio meteorologista, mergulhado em cálculos complicados destinados a determinar o tempo que faz do lado de fora. Havendo-se decidido por um “bom fixo”, grava a informação numa tabuleta — presume-se que a cena tem por cenário a Roma antiga — e sai para afixar seu aviso. Mas volta subitamente, surpreendido por uma tempestade de neve, e grava um aviso de “forte neve” que logo afixa, desta vez sem nenhum cálculo prévio. Todo o mundo ri naturalmente do procedimento charlatanesco. Mas, pensando bem, este astrólogo me parece dar provas, na circunstância, de uma notável liberdade de espírito: fazendo assim o fato passar na frente de sua opinião e isto sem hesitar um segundo.

Muitos outros, para não dizer a maioria, colocados ante um dilema comparável, escolheriam a outra via: preferindo a opinião ao fato. Pois se há uma faculdade humana que merece atenção e assemelha-se ao prodígio, é realmente essa aptidão, particular ao homem, de resistir a toda informação exterior quando esta não concorda com a ordem da expectativa e do desejo, de ignorá-la se for preciso e a seu bel-prazer; admitindo a possibilidade de opor a ela, se a realidade insiste, uma recusa de percepção que interrompe toda controvérsia e encerra o debate, naturalmente às custas do real. Esta faculdade de resistência à informação tem algo de fascinante e de mágico, nos limites do inacreditável e do sobrenatural: é impossível de conceber como se utiliza o aparelho perceptivo para não perceber, o olho para não ver, o ouvido para não ouvir. No entanto, essa faculdade, ou melhor, essa antifaculdade, existe; ela é mesmo das mais banais e qualquer um pode fazer sua observação cotidiana.

Proust descreve bem a virtude desta faculdade anti-perceptiva no começo da Recherche quando analisa os sentimentos e reações da tia-avó de Combray com relação a Swann. Sabe-se que essa tia-avó se recusa a conceber que Swann, amigo da família, vive por outro lado em um mundo de alto nível social e artístico, sem relação com a sociedade de Combray. Mas os fatos são insistentes e parecem dever chamá-la o tempo todo ao sentimento da realidade, tão numerosos e eloqüentes são os sinais que demonstram a posição real de Swann. No entanto, a tia-avó jamais se deixará convencer por eles; e é extraordinário observar com que arte, com que gênio quase, ela perverte o sentido das informações que lhe chegam dia após dia e consegue devolvê-las em detrimento de Swann. Há aqui um jogo de envios de mensagem e de devoluções irônicas ao remetente. Mensagem: comunica- se à tia-avó que Swann possui uma célebre coleção de quadros. Réplica da tia-avó endereçando-se a Swann: “Mas o senhor ao menos entende dessas coisas? Pergunto-lhe isso no seu interesse, pois os comerciantes lhe devem impingir muitas drogas.” Outra mensagem: diz-se que Swann jantou “na casa de uma princesa”. Réplica: “Sim, uma princesa do demi monde!” Outra mensagem: diz-se que Swann é íntimo de Mme. de Villeparisis. Réplica da tia-avó à sua irmã que lhe anuncia a grande notícia: “Como pode ela conhecer Swann? Uma pessoa que tu dizias parenta do marechal de Mac-Mahon!” Esta última réplica dá uma boa medida da solidez do muro que protege a tia-avó de todo reconhecimento do estado social de Swann: implicando que toda pessoa que se seria forçada a confessar que Swann freqüenta é riscada, de uma só vez, da lista do grand monde. Antes que Swann tenha avançado um passo na opinião da tia-avó, esta terá reduzido à condição de plebeu toda a aristocracia européia. Este golpe era para Mme. de Villeparisis; o próximo atingirá o príncipe de Gales, o conde de Paris, e por que não, se for necessário, o marechal Mac-Mahon em pessoa. Milagre da faculdade antiperceptiva! Poderá ser mostrado exatamente tudo da realidade de Swann à tia-avó; esta, no entanto, estará sempre segura, graças a ela ou por causa dela, de jamais conhecer nada. René Girard comenta aqui justamente, em Mensonge romantique et vérité romanesque: “A verdade, como uma mosca importuna, volta o tempo todo colocando-se sobre o nariz da tia-avó, mas basta uma mão espalmada para enxotá-la.” Dir-se-ia que é empurrado um ferrolho que bloqueia toda informação e opõe vitoriosamente uma ausência de percepção às evidências mais tangíveis e mais manifestas. Ou ainda que desceu uma cortina de ferro que confunde a realidade, exatamente como o fechamento súbito de um museu ou de um botequim expulsa sem consideração o visitante retardatário: “Fechou, terminou, vá embora.” Querendo fazer valer seus direitos legítimos de ser percebida, a realidade incorria no mesmo fracasso que o visitante que pretendia forçar a entrada do museu ou do botequim. “Já lhe disse que estava fechado.” Pode-se encontrar um exemplo impressionante desse “fechamento” da percepção no fim do filme que Joseph Makiéwicz tirou da peça de Tennessee Williams, De repente no último verão. Nele, Madame Venable combate longamente a versão verídica dos fatos que lhe expõem sua sobrinha e um médico. Obrigada no fim ao silêncio ante a evidência, ela despede todo mundo e retorna ao andar superior de sua casa de campo, desaparecendo em um elevador interno que a isola do mundo e expulsa inapelavelmente tanto seus interlocutores quanto a realidade em geral. Tartufo usou o mesmo expediente, interrompendo um vis-à-vis que se tornava incômodo:

Senhor, são três e meia;
Um exercício devoto obriga-me a ir ao meu quarto,
Desculpe-me se o deixo.

Um extraordinário ferrolho de segurança priva portanto os homens, em certas circunstâncias, do exercício habitual de sua faculdade perceptiva (por “homens” entendo naturalmente todos os homens, atribuindo as diferenças de inteligência e de acuidade perceptiva não à presença ou à ausência do ferrolho, mas ao fato de que o ferrolho seja empurrado mais ou menos longe). Sabe-se que é muito difícil precisar a natureza desse ferrolho e suas condições de funcionamento; e me atreveria a dizer, exagerando, que aquele que conhecesse a fundo o segredo dessa fechadura conheceria o homem por inteiro. Observarei apenas, mas isso é apenas uma evidência, que esse ferrolho consiste na definição de um ponto além do qual não se perceberá nada; ou ainda, e isto vem a dar no mesmo, de uma verdade sobre a qual decidiu-se uma vez por todas que não se falará mais. Ele marca assim os limites de um território inviolável (tal como justamente o Combray de Proust). Observarei também que este ferrolho reveste-se sempre de um caráter antecipado: ele é uma denegação prévia de toda investigação crítica ou descoberta ulterior, uma espécie de conjuração alucinatória do futuro, isto é, do que é por natureza eminentemente imprevisível e incerto — ainda é preciso nuançar aqui e acrescentar logo que esta conjuração só é alucinatória pela metade, uma vez que se revela operante para a experiência, ao menos em um certo sentido. Ele é portanto menos uma proteção contra perigos presentes do que uma “pré-caução”, ou seja, uma proteção antecipada, uma refutação a priori dos ataques futuros — refutação necessariamente contraditória, já que os perigos vindouros e as medidas de proteção adequadas só serão exatamente conhecidos mais tarde. Assim Abel Gance pretendia recusar antecipamente toda objeção futura endereçada a seu filme Napoleão, embora este ainda não houvesse sido feito, declarando solenemente ao conjunto de seus colaboradores, em 1924: “Quero sentir, contemplando vocês, uma onda de força que possa derrubar todas as barreiras do senso crítico.” Notar-se-á aqui o mecanismo do ferrolho: anuncio desde agora que o filme que quero realizar é tal que todo aquele que o criticar estará errado. E, se ele for criticado posteriormente, estará provado simplesmente que Gance tinha realmente razão de anunciar antecipadamente que seria errado criticá-lo. Está posto o ferrolho que protege o cineasta exatamente como protege a tia-avó de Combray. Na antiga Atenas, o procedimento da graphè paranomôn, que proíbe os cidadãos, sob penas das mais graves sanções, inclusive a morte, de questionar uma lei adotada precedentemente pela Assembléia do povo, oferece um exemplo similar de ferrolho prévio.

O que há, entretanto, de mais extraordinário no fenômeno de recusa de percepção é que não apenas a opinião protegida pelo ferrolho não seja invalidada pelas informações contraditórias e os desmentidos pungentes que, sem parar, a realidade lhe opõe, mas ainda que ela seja, ao contrário, geralmente confirmada e reforçada por esses desmentidos mesmos. Exatamente como os sistemas tornados auto-reguladores pelo dispositivo chamado feedback, o sistema “recusa de percepção” é tão bem organizado que suas próprias falhas, em vez de enfraquecê-lo, fazem refluir para ele uma energia resultante de suas conseqüências importunas, de seus perpétuos desacordos com o real. As falhas que ele comete necessariamente são programadas de tal maneira que vêm sem cessar realimentar a fonte de erro que as causou — de tal modo que a recusa de percepção é um sistema que não apenas produz erros mas ainda enriquece e prospera por seu intermédio. Invocarei aqui uma lembrança de juventude: a de uma estudante que se convencera de que nosso professor a adorava secretamente, apesar das palavras sarcásticas e muitas vezes bastante ofensivas com as quais este punha fim a cada uma de suas intervenções. Ora, cada vez que lhe acontecia sofrer em público tal má acolhida, não deixava de virar-se para nós com ar de triunfo, parecendo invocar nosso testemunho, e dizer-nos: “Estão vendo bem que não estou sonhando: ele me ama.” Poderia invocar também o célebre Boubouroche de Courteline, que um vizinho bem intencionado mas mal inspirado pretende persuadir da infidelidade de sua amante. O resultado é conhecido: Boubouroche surpreende em sua casa seu rival ocupado com Adèle, mas disso deduz rapidamente uma fidelidade de sua amante ainda maior do que tudo o que havia ousado esperar. O sistema do feedback funcionou aqui de maneira exemplar, produzindo em Boubouroche uma convicção peremptória cuja máxima pode, grosso modo, ser enunciada assim: “Adèle não pode me enganar. A prova: ela me engana.” Boubouroche já estava certo disso, naturalmente; mas agora tem a prova nas mãos — e, afinal de contas, duas certezas valem mais do que uma. O único culpado nesta história é o vizinho denunciador, que sofrerá una severa admoestação. Admoestação merecida aliás: pois este deveria saber que toda informação contrariante introduzida em um sistema “recusa de percepção” transforma-se imediatamente em confirmação suplementar que tem por único efeito trazer, ao espírito do não-percebedor, a pequena gota de certeza que ainda lhe faltava.

O extraordinário poder de resistência à percepção que permite ao Boubouroche de Courteline ou à tia-avó de Combray não ver o que se passa sob seus olhos não poderia ser interpretado, contrariamente ao que se tende a fazer freqüentemente, em termos de simples “besteira”. Uma tal cegueira é demasiado próxima do que se observa cotidianamente nas manifestações de demência fanática ou rancorosa para pretender constituir um gênero à parte, chamado besteira, que se definiria como cegueira inocente, limpa de toda suspeita de participação nos gêneros vizinhos da loucura e do ódio. Certamente pode-se e deve-se falar de besteira nos casos de Boubouroche e da tia-avó; mas contanto que se acrescente que essa besteira aparece, à reflexão, como indiscernível do que se passa nos casos de loucura e de ódio. O bom-senso parece opor-se, é verdade, a esta maneira de confundir assim manifestações psicológicas reputadas distintas. Mas é possível que o bom-senso se engane e distinga onde não há nada a distinguir: imaginando, como diria Descartes, “distinções formais” entre objetos que nada permite distinguir realmente. Uma análise aprofundada e exaustiva, tal como só poderia levar a termo o Deus de Leibniz, conseguiria talvez demonstrar que as três noções de besteira, de maldade e de loucura são três palavras que designam uma mesma e única realidade psicológica. Limitar-me-ei aqui a algumas breves observações visando sugerir a fragilidade das fronteiras que separam tradicionalmente, por um lado a besteira da loucura, por outro a besteira do ódio.

No que concerne à primeira fronteira, entre a loucura e a besteira, observarei primeiramente que loucura e besteira são como dois aliados naturais que se prestam reciprocamente assistência quando um perigo delineia-se no horizonte; e isso a tal ponto que não me parece muito possível admitir a existência de uma sem, ao mesmo tempo, admitir a existência da outra. Nenhuma besteira poderia, se posso dizer assim, funcionar por si-mesma, com ajuda de suas próprias forças. Quando ela decide que o que se oferece à sua percepção reduz-se a uma realidade inexistente, necessita muito do auxílio desta máquina de ignorar o real que constitui a especialidade da loucura. E, reciprocamente, nenhuma loucura poderia funcionar sem o concurso de uma certa besteira (nem aliás sem o concurso de uma certa dose de ódio), chamada como auxílio em caso de investigação demasiado curiosa ou de questão demasiado incômoda. A observação dos loucos, trata-se de grande alienação ou de ligeira neurose, confirma amplamente o fato: quando se encontra em séria dificuldade, o perturbado mental recorre infalivelmente a uma justificação absurda ou a um raciocínio imbecil. Sem o apoio permanente da besteira, o exercício da loucura seria simplesmente impossível: as posições que ele ocupa, sendo indefensáveis por si-mesmas, desmoronar riam ao primeiro ataque como se fossem castelos de cartas.

É apenas preciso observar, por outro lado, que o muro pelo qual o louco se protege do real é exatamente da mesma natureza que aquele pelo qual toda pessoa dita normal mas pouco inteligente, tal como a tia-avó de Combray, se protege das realidades cujo reconhecimento poderia acarretar um desagrado. O que Freud designou sob o nome de “recalcamento” é apenas, em suma, um caso particular do ferrolho que se pode observar em todos os casos “normais” de recusa de percepção. Analisando uma jovem e inteligente histérica, Freud observa isto, que relata em um artigo publicado em 1920: “A análise desenvolveu-se, por assim dizer, sem o menor indício de resistência: a analisanda era muito cooperativa do ponto de vista intelectual, mas sem afastar- se de sua tranqüilidade de alma. Um dia em que lhe explicava um ponto de teoria particularmente importante e que lhe concernia de perto, ela me deu esta réplica em um tom inimitável: ‘Ah! mas é muito interessante!” — tal como uma dama da sociedade que passeia em um museu e que examina com sua luneta de cabo objetos que lhe são completamente indiferentes”. Esta tendência a não receber ou “não-perceber”, pela qual um analisando triunfa tão freqüentemente e tão facilmente de seu analista, evoca irresistivelmente tanto a atitude da tia-avó com relação a Swann como a de Madame Venable despedindo-se de seu médico, em De repente no último verão, precisamente no momento em que este acredita finalmente atingir o alvo. Decididamente, é sempre o mais forte que perde e o mais fraco que ganha nesse duplo jogo da loucura e da besteira, pois, afinal de contas, não há duvida que aquele que ganha aqui é um fraco, ainda que consiga desbaratar as forças de um adversário muito mais sólido do que ele-mesmo. Pierre Janet tinha uma visão certamente justa e profunda, atribuía a fonte geral de toda loucura a uma deficiência da energia psíquica. Mas é preciso acrescentar que essa debilidade é acompanhada de uma força muito grande, e que a energia que falta ao louco para enfrentar o real, volta-lhe com juros quando se trata de submeter o real, ou seus supostos representantes. Eis porque o louco (e o imbecil pelas mesmas razões) é ao mesmo tempo muito fraco e muito forte. Muito fraco: por ser incapaz de sofrer o real. Mas também muito forte: por conseguir, a seu modo, eliminar efetivamente esse real que o aflige. E esta força de eliminação do real é, repito, verdadeiramente embaraçosa. Não se vê, de modo algum, que contraforça poderia contrapor-se algum dia a tal poder. E se é, assim, necessariamente levado a interrogar- se sobre o sentido e o valor de um tratamento qualquer das neuroses, quaisquer que possam ser, por outro lado, a inteligência e a competência do psiquiatra ou do psicanalista. Face a uma tal solidez do louco ou do imbecil, as forças de um espírito mais saudável ou melhor esclarecido parecem singularmente irrisórias; e me arriscaria de bom grado a apostar que elas serão sempre perdedoras.

Poder-se-ia objetar aqui, a essa assimilação da besteira e da loucura, o fato universalmente e justamente reconhecido da extrema inteligência ou astúcia que demonstra eventualmente a maioria dos alienados. Mas esta objeção desmorona por si mesma a partir do instante em que se percebe que o conjunto desses dispositivos estratégicos, que podem, é verdade, pôr em prática prodígios de astúcia e de penetração psicológica, dir-se-ia até, por vezes, de predição ou de clarividência no sentido oculto do termo, permanece prisioneiro da “verdade” interna que se pretende proteger das informações procedentes do exterior. De tal modo que a inteligência do louco, exatamente como a do imbecil cujos desempenhos podem ser a esse respeito igualmente notáveis, serve muito bem para refutar mas jamais para ensinar; mais precisamente: ela tem por missão paradoxal defender-se contra a inteligência mesma. Sabe-se que o fenômeno da censura, tal como a praticam as ideologias coletivas e os regimes coletivistas, obedece exatamente às mesmas causas e tende aos mesmos objetivos.

Indiscernível da loucura, a besteira o é igualmente do ódio. Esta associação da besteira e do ódio me parece, a meu ver, tão evidente por si-mesma que julgaria inútil sublinhá-la se não houvesse esta circunstância singular e aliás bastante surpreendente que passa na maioria das vezes desapercebida. Ouve-se realmente declarar todos os dias, a propósito de uma pessoa, de que cada fato e cada palavra são perseguições manifestas com relação a seu círculo, que não deve querer mal a ela, porque é — apesar de tudo —, nos asseguram, de excelente caráter e fundamentalmente generosa. Simplesmente, acrescenta-se, é um pouco desajeitada e não se dá bem conta do que diz e do que faz. Há aí uma distinção fantasmática entre o fato persecutório e a intenção suposta, entre uma besteira responsável pelos fatos e uma bondade que não se poderia considerar responsável pelas intenções, que mal resiste à análise. Invocarei ainda aqui, uma última vez, o exemplo da tia-avó de Combray e de suas perpétuas recusas de perceber a posição social de Swann. Pode-se e deve-se certamente interpretar essas recusas em termos de besteira. Mas como não interpretá-las também em termos de ciúmes e de ódio? Uma reflexão da tia-avó deveria bastar para esclarecer sobre este ponto o leitor melhor disposto a seu respeito. Evocando os príncipes da casa de França, ela declara a Swann: “Gente que nem o senhor nem eu jamais conheceremos, e nem fazemos questão de conhecer, não é verdade?” Impossível resumir melhor o seu ódio, tanto com relação a Swann, que ela mantém com mão de ferro em seu próprio nível (nem o senhor nem eu), quanto com relação à família principesca cuja frequentação, que se sabe impossível, ela desdenha de antemão (e nem fazemos questão de conhecer, não é verdade?).

Pascal zomba muito bem dessa distinção ilusória entre o fato e a intenção quando opõe, na terceira Provincial, os fatos de heresia de que acusam Arnauld, que todos admitem no fundo serem inexistentes, a suas intenções heréticas, estas imensas segundo a opinião de seu detratores: “Não são os sentimentos de M. Arnauld que são heréticos; é apenas sua pessoa. E uma heresia pessoal. Ele, M. Arnauld, não é herético pelo que diz ou escreve, mas apenas pelo que é. É tudo o que se censura nele.” Aqui, naturalmente, os valores respectivos do fato e da intenção são invertidos. Aos olhos dos censuradores de Arnauld, os fatos e as palavras são inocentes, mas as intenções repreensíveis; enquanto que, no caso da tia-avó, ou pelo menos na opinião superficial que se pode fazer dela, os fatos e as palavras são repreensíveis mas as intenções inocentes. Entretanto, a ilusão é a mesma nos dois casos, pois obedece ao mesmo princípio de erro: uma distinção abusiva entre o que se faz e o que se pretende fazer, entre o que se diz e o que se pretende dizer.


ROSSET, Clément, O princípio de crueldade (apêndice). Trad. de José Thomaz Brum. Rio de Janeiro: Rocco, 1989.

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