“O Chão Sublime da Prosa: Crítica e Ensaísmo em William Hazlitt” – Daniel Lago MONTEIRO

Remate de Males, Campinas-SP, v. 37, n. 2, pp. 763-784, jul./dez. 2017

“[José Paulo Paes] considerava-se ‘um animal pedestre’
e não se julgava ‘com asas’ para a teorização”

Vilma Arêas – PAES, 2008

Apresentação

Durante bastante tempo, boa parte do século XX, o nome de William Hazlitt (1778-1830) foi frequentemente lembrado, em seu prejuízo, ao lado do filósofo e poeta Samuel Taylor Coleridge.
Pois enquanto este arrogava para si o estatuto de teórico e difusor dos fundamentos subjetivos da
criação literária, acerca da unidade orgânica da imaginação, cujas origens remontam à Crítica do juízo (1790) de Immanuel Kant – além, é claro, de ter escrito alguns dos poemas mais célebres em língua inglesa –, aquele, sem o aporte do pensamento alemão e sem a invocação da musa, foi o crítico prático, impaciente de todo limite e “inquieto […] como a camurça” [restless […] as the chamois],
para fazer valer a imagem de Thomas De Quincey (1973, p. 372) a seu respeito. O mesmo incansável vaguear da mente de Hazlitt foi recentemente ressaltado por Harold Bloom (2005), para quem esse caráter se explica dentro da extensa tradição do ensaísmo britânico a que Hazlitt pertenceu – tendo Hume e Johnson antes dele; Carlyle, Pater e Wilde depois (para ficarmos somente nos exemplos
de Bloom) – e cuja importância nos dias de hoje é a de nos lembrar da insuficiência de teorias e métodos em crítica literária.

Dos grandes autores do romantismo inglês, nenhum outro ganhou a vida e fez fama literária essencialmente pelos seus ensaios como Hazlitt, e isso, vale lembrar, em uma era de ensaístas de peso, como Charles Lamb, Leigh Hunt, Thomas De Quincey, Samuel Taylor Coleridge, entre outros; do mesmo modo, poucos se dedicaram à crítica com a mesma tenacidade. Como notou Lúcia Miguel Pereira (2016, p. 14): “seus ensaios críticos, que abrangem praticamente todos os escritores desde a época de Elizabeth até a sua, contribuíram largamente para o entendimento de Shakespeare, assim como para o movimento romântico na Inglaterra”. Foi também com inigualável profundidade de gosto, sutileza de raciocínio e riqueza verbal que analisou quadros e peças escultóricas – ele próprio um talentoso pintor de retratos, a despeito do juízo que fazia de si mesmo nesse ofício. Em Characters of Shakespeare’s Plays (1817), sua obra crítica de mais ampla repercussão, Hazlitt contribuiu como nenhum outro autor antes dele – talvez com a exceção de August Schlegel – para uma visão
nova do dramaturgo, por oposição à crítica johnsoniana. Se, nos cursos de Coleridge (1987a, p. 162) sobre literatura, Shakespeare frequentemente “desaparece nas selvas do pensamento” e no “oceano da natureza humana”, como observou um de seus alunos, cada peça e cada personagem do bardo
são descritas e analisadas por Hazlitt com frescor e energia distintas.

Um dos traços da escrita hazlittiana, para o qual frequentemente se chamou a atenção, é o modo como ela combina a leveza e a elasticidade do ensaio moderno com a estrutura fibrosa e robusta da antiga prosa de língua inglesa – de autores, nas palavras de Hazlitt (1998d, p. 10), “que saborearam da textura daquilo que descreveram”, a exemplo de Sir Thomas Browne e Jeremy Taylor. Ninguém expôs com tanta clareza esse propósito quanto o próprio autor (HAZLITT, 1998, p. 192), no prefácio à edição de Table Talk que publicou em Paris, em 1825, na qual incluiu um primeiro volume de The Plain Speaker (última importante coletânea de ensaios reunidos pelo autor): “ocorreu-me combinar, tanto quanto me fosse possível, estes dois estilos: o literário e o conversacional”. Adiante, no ensaio de abertura de The Plain Speaker, “On the Prose-Style of Poets”, texto chave para a análise que se segue, a urdidura entre esses dois estilos – da qual depende, segundo o autor, a união entre crítica e ensaística – é adensada em torno da metáfora, recorrente no autor, “o chão da prosa” [the ground of prose]… [PDF]

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