Sobre a Música no MVR – Arthur SCHOPENHAUER

De fato, embora se possa dizer que a lógica está para o pensamento racional como o baixo fundamental para a música, e, também, em termos menos precisos, que a ética está para a virtude como a estética para a arte, tem-se de notar, em contrapartida, que nunca um artista veio a sê-lo pelo estudo da estética, muito menos um caráter nobre pelo estudo da ética; que, muito antes de Rameau, já se compunha música correta e belamente; e, ainda, que não é preciso conscientizar-se do baixo fundamental para notar as desarmonias; da mesma forma, não se precisa saber lógica para evitar ser enganado por falsas conclusões. Todavia, tem de ser concedido que o baixo fundamental, embora não seja de grande utilidade para o julgamento de uma composição musical, o é para o seu exercício. Também a estética, e mesmo a ética, pode ter utilidade na prática, embora em grau muito menor e em geral apenas negativamente; portanto, também não se lhes deve negar todo valor prático. Mas à lógica nada disso pode ser concedido, pois ela é meramente o saber in abstracto daquilo que cada um sabe in
concreto
.

MVR, I, § 53


Os reinos da natureza formam uma pirâmide, cujo ápice é o homem. // Para os que apreciam comparações, também se pode dizer que os fenômenos desses reinos acompanham o do homem tão necessariamente quanto todas as inumeráveis gradações da penumbra acompanham a plena luz do dia, e pelas quais esta se perde na escuridão. Ou ainda se pode chamá-los ecos do homem e dizer: animais e plantas são a quinta e a terceira inferiores do homem, enquanto o reino inorgânico é a oitava baixa. Toda a verdade desta última metáfora só nos será clara quando, no livro seguinte, investigarmos a profunda significação da música. Ali se nos mostrará com? a melodia encadeada em notas altas, ágeis, deve em certo sentido ser vista como expondo a vida e o esforço do homem encadeados pela reflexão; por outro lado, as vozes soltas e o baixo que se move gravemente, do qual procede a harmonia, necessária para a plenitude da música, estampam o restante da natureza animal e da natureza destituída de conhecimento. Mais sobre isso será dito no seu devido lugar, onde não soará mais tão paradoxal.

MVR, I, § 183


Após termos considerado até aqui todas as belas artes na generalidade adequada ao nosso ponto de vista, começando com a bela arquitetura, cujo fim enquanto tal é clarear a objetivação da Vontade no grau mais baixo de sua visibilidade em que ela se mostra como esforço regular, // abafado e sem conhecimento da massa, já manifestando autodiscórdia e luta entre gravidade e rigidez; – e fechando a nossa consideração com a tragédia, a qual, no grau mais elevado de objetivação da Vontade, traz-nos diante dos olhos justamente aquele seu conflito consigo mesma, em terrível magnitude e distinção; após tudo isso, ia dizer, notamos que uma bela arte permaneceu excluída de nossa consideração e tinha de permanecê-lo, visto que, no encadeamento sistemático de nossa exposição, não havia lugar apropriado para ela. Trata-se da música. Esta se encontra por inteiro separada de todas as demais artes. Conhecemos nela não a cópia, a repetição no mundo de alguma Idéia dos seres; no entanto é uma arte tão elevada e majestosa, faz efeito tão poderosamente sobre o mais íntimo do homem, é aí tão inteira e profundamente compreendida por ele, como se fora uma linguagem universal, cuja distinção ultrapassa até mesmo a do mundo intuitivo que decerto temos de procurar nela mais do que um exercitium arithmeticae occultum nescientis se numerare animi, na qualificação acertada de Leibniz, apesar de ter considerado s ó a sua significação imediata e exterior, a sua casca; pois se a música não fosse algo mais, a satisfação por ela proporcionada teria de ser semelhante à que sentimos na correta resolução de uma soma aritmética e não poderia ser a alegria interior com a qual o íntimo mais fundo de nosso ser é trazido à linguagem. Do nosso ponto de vista, ao considerarmos o efeito estético da música, temos de reconhecer-lhe uma significação muito mais séria e profunda, referida à essência íntima do mundo e de nós mesmos. Nesse sentido, as relações numéricas em que ela se deixa resolver não são relatadas como o assinalado, mas antes como o sinal. Da analogia com as demais artes podemos concluir que a música, de certa maneira, tem de estar para o mundo como a exposição para o exposto, a cópia para o modelo, pois seu efeito é no todo semelhante ao das outras artes, apenas mais vigoroso, mais rápido, mais necessário e infalível. // Também a sua relação de cópia com o mundo tem de ser bastante íntima, infinitamente verdadeira e precisa, visto que é compreendida instantaneamente por qualquer um e dá a conhecer uma certa infalibilidade no fato de que sua forma se deixa remeter a regras inteiramente determinadas, exprimíveis em números, das quais não pode se desviar sem cessar completamente de ser música. – Contudo, o ponto de comparação da música com o mundo, a maneira pela qual a primeira está para este como cópia ou repetição, encontra-se profundamente oculto. A música foi praticada em todos os tempos sem se poder dar uma resposta a tal indagação. Ficou-se satisfeito em compreendê-la imediatamente, renunciando-se a uma concepção abstrata dessa compreensão imediata.

MVR, I 302-303, § 52


Quando devotava meu espírito à impressão da arte dos sons nas suas variadas formas e de novo retornava à reflexão e ao curso dos meus pensamentos , desenvolvidos no presente livro, cheguei a uma explanação sobre a sua essência íntima e sobre o tipo de relação imitativa que tem com o mundo, pressupostas necessariamente por analogia, que é por inteiro suficiente para mim e minha investigação, e também o será para todos os que me seguiram até aqui e concordaram com a minha visão de mundo. No entanto, tal explanação é do tipo que nunca pode ser comprovada, pois leva em conta, e estabelece, uma relação da música, como uma representação, com algo que essencialmente nunca pode ser representação, pretendendo assim ver na música a cópia de um modelo que, ele mesmo, nunca pode ser representado imediatamente. Portanto, a minha explanação apresenta a música como a cópia de um modelo que ele mesmo nunca pode ser trazido à representação. Dessa forma, na conclusão deste terceiro livro, consagrado especialmente à consideração das artes, nada resta senão apresentar a mencionada explanação (que me é suficiente) sobre a maravilhosa arte dos tons, ficando a cargo do leitor concordar ou rejeitar, de acordo com o efeito nele provocado em parte pela música, em parte por todo o pensamento comunicado neste escrito. Ademais, para que a minha exposição sobre a significação da música seja aceita com genuína convicção, julgo necessário a freqüente audição musical, acompanhada de persistente reflexão, // e, ainda, muita confiança no todo dos pensamentos por mim exposto.
A objetivação adequada da Vontade são as Idéias (platônicas) . Estimular o conhecimento delas pela exposição de coisas isoladas (que as obras de arte ainda sempre são) é o fim de todas as demais artes (o que só é possível sob uma mudança correspondente no sujeito que conhece) . Todas, portanto, objetivam a Vontade apenas mediatamente, a saber, por meio das Idéias. Ora, como o nosso mundo nada é senão o fenômeno das Idéias na pluralidade, por meio de sua entrada no principium individuationis (a forma de conhecimento possível ao indivíduo enquanto tal) , segue-se que a música, visto que ultrapassa as Idéias e também é completamente independente do mundo fenomênico, ignorando-o por inteiro, poderia em certa medida existir ainda que não houvesse mundo – algo que não pode ser dito acerca das demais artes. De fato, a música é uma tão IMEDIATA objetivação e cópia de toda a VONTADE, como o mundo mesmo o é, sim, como as Idéias o são, cuja aparição multifacetada constitui o mundo das coisas particulares. A música, portanto, de modo algum é semelhante às outras artes, ou seja, cópia de Idéias, mas CÓPIA DA VONTADE MESMA, cuja objetidade também são as Idéias. Justamente por isso o efeito da música é tão mais poderoso e penetrante que o das outras artes, já que estas falam apenas de sombras, enquanto aquela fala da essência. Ora, já que é a mesma Vontade que se objetiva tanto nas Idéias quanto na música, embora de maneira bem diferente em cada uma delas, deve haver entre música e Idéias não uma semelhança imediata, mas um paralelismo, uma analogia, cujo fenômeno na pluralidade e imperfeição é o mundo visível. Demonstrar essa analogia facilitará, enquanto ilustração, o entendimento da presente explanação, dificultada pela obscuridade do seu tema.

MVR, I 303-304, § 52


Por fim, na MELODIA, na voz principal elevada que canta e conduz o todo em progresso livre e irrestrito, em conexão significativa e· ininterrupta de UM pensamento do começo ao fim, expondo um todo, reconheço o grau mais elevado de objetivação da Vontade, a vida do homem com esforço e clareza de consciência, pois apenas ele, na medida em que é dotado da faculdade de razão, vê sempre adiante ou retrospectivamente no caminho de sua realidade efetiva e das possibilidades incontáveis e, assim, traz a bom termo um decurso de vida claro tomado como um todo concatenado. Correspondendo a isso, somente a MELODIA tem conexão intencional e plenamente significativa do começo ao fim. Ela narra, por conseqüência, a história da Vontade iluminada pela clareza de consciência, cuja impressão na efetividade é a série de seus atos. Porém a melodia diz mais: narra a história mais secreta da Vontade, pinta cada agitação, cada esforço, cada movimento seu, tudo o que a razão resume sob o vasto e negativo conceito de sentimento, que não pode ser acolhido em suas abstrações. // Por isso se disse que a música é a linguagem do sentimento e da paixão, assim como as palavras são a linguagem da razão. Já Platão a explanara como η των μελων ϰινεσις μεμιμημενη, εν τοις παϑημασιν, ὁταν ψυχη γινηται (melodiarum motus, animi affectus imitans), De leg. VII , e também Aristóteles diz: δια τι οἱ ρυϑμοι ϰαι τα μελη, φωνη ουσα, ηϑεσιν εοιϰε? (cur numeri musici et modi, qui voces sunt, moribus símiles sese exhibent?), Probl. c. I 9.

MVR, I 307, § 52


Entretanto, nunca se deve esquecer, no discorrer de todas essas analogias, que a música não tem relação direta alguma com elas, mas apenas uma relação indireta. Pois a música nunca expressa o fenômeno, mas unicamente a essência Íntima, o em-si de todos eles, a Vontade mesma. A música exprime, portanto, // não esta ou aquela alegria singular e determinada, esta ou aquela aflição, ou dor, ou espanto, ou júbilo, ou regozijo, ou tranqüilidade de ânimo, mas eles MESMOS , isto é, a Alegria, a Aflição, a Dor, o Espanto, o Júbilo, o Regozijo, a Tranqüilidade de Ânimo, em certa medida in abstracto, o essencial deles, sem acessórios, portanto também sem os seus motivos. E no entanto a compreendemos perfeitamente nessa quintessência purificada. Daí advém o fato de nossa fantasia ser tão facilmente estimulada pela arte dos sons, tentando assim figurar em carne e osso aquele mundo espiritual invisível, vivaz e ágil, a falar tão imediatamente a nós, logo, tenta corporificá-la num exemplo analógico. Essa é a origem do canto com palavras e, por fim, da ópera – que justamente por isso nunca devem abandonar a sua posição subordinada para se tornarem a coisa principal, fazendo da música mero meio de sua expressão, o que se constitui num grande equívoco e numa absurdez perversa. Pois em toda parte a música exprime apenas a quintessência da vida e de seus eventos, nunca estes mesmos, cujas diferenças jamais a afetam. É justamente essa universalidade própria da música, ao lado da determinidade mais precisa o que lhe confere o supremo valor como panacéia de todos os nossos sofrimentos. Nesse sentido, quando a música procura apegar-se em demasia às palavras e amoldar-se aos eventos, esforça-se por falar uma linguagem que não é a sua. De um semelhante erro ninguém melhor se livrou do que ROSSINI. Por isso sua música fala tão distinta e puramente a sua linguagem PRÓPRIA, visto que quase não precisa de palavras e, por conseguinte, provoca todo o seu efeito mesmo se executada só com instrumentos.

MVR, I 309, § 52


O imo indizível de toda música, em virtude do qual ela faz desfilar diante de nós um paraíso tão familiar e no entanto eternamente distante, tão compreensível, e no entanto tão inexplicável, baseia-se no fato de reproduzir todas as agitações do nosso ser mais Íntimo, porém sem a realidade e distante dos seus tormentos. De maneira similar, a seriedade que lhe é essencial, a excluir por completo o risível do seu domínio próprio e imediato, explica-se pelo fato de seu objeto não ser a representação, exclusivamente em relação à qual o engano e o risível são possíveis, mas imediatamente a Vontade, e esta é essencialmente o mais sério, do qual tudo depende. — Quão plena de sentido e de significação é a linguagem musical, testemunham-no até mesmo os sinais de repetição, j unto com o da capo, que seriam insuportáveis nas obras escritas com palavras. Na música, entretanto, são bastante apropriados e benéficos, pois, para apreendê-lo completamente, tem-se de ouvi-la duas vezes.

MVR, I 312, § 52


Se em toda essa exposição da música esforcei-me por tornar claro que ela, numa linguagem altamente universal, num estofo único, a saber, simples tons, expressa com grande precisão e verdade a essência íntima, o Em-si do mundo, o qual, segundo sua exteriorização mais distinta, pensamos sob o conceito de Vontade; se, ademais, conforme minha visão e intento, a filosofia nada é senão a correta e plena repetição e expressão da essência do mundo em conceitos os mais universais, pois somente nestes é possível um panorama amplo e aplicável de toda aquela essência; então, ia dizer, quem me seguiu e penetrou no meu modo de pensar, não achará paradoxal se disser, supondo-se que tenhamos sucesso em dar uma explicação perfeitamente correta, exata e detalhada da música, portanto uma repetição exaustiva em conceitos daquilo que ela exprime, que isso seria de imediato uma suficiente repetição e explanação do mundo em conceitos, ou algo inteiramente equivalente, portanto seria a verdadeira filosofia. Conseguintemente, no sentido de nossa visão mais elevada da música, podemos parodiar a // expressão de Leibniz acima mencionada (que de um ponto de vista inferior é totalmente correta) , e dizer: Musica est exercitium metaphysices occultum nescientis se phílosophari animi. Pois scire, saber, sempre significa ter transferido para conceitos abstratos. Todavia, em virtude da verdade amplamente confirmada da expressão de Leibniz, a música, aparte sua significação estética ou interior, e considerada só de maneira empírica e exterior, é tão-somente o meio de apreender, imediatamente e in concreto, grandes números e relações numéricas complexas, que do contrário só poderíamos apreender mediatamente, por conceitos.

MVR, I 313, § 52


SCHOPENHAUER, Arthur, O mundo como vontade e como representação, vol. I. Trad. de Jair Barboza. São Paulo: Unesp, 2005.

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