“Hexâmetros romenos de Mihai Eminescu: tradução e comentários do poema Mitologicale” – Beethoven ALVAREZ

Gragoatá, Niterói, v.24, n. 49, p. 458-482, mai.-ago. 2019

Resumo: Neste artigo, apresento uma tradução em hexâmetros datícilos do poema Mitologicale (Mitologicais), de Mihai Eminescu (1850-1889), um dos mais importantes poetas romenos. Esse sui generis poema foi publicado, postumamente, pela primeira vez em 1902, na revista Sămănătorul (O Semeador). Contudo, dois manuscritos datados da época em que Eminescu esteve em Berlim atestam que o poema foi composto quando o poeta tinha então 23 anos, em 1873. Além da tradução, apresento uma análise do poema em que discuto o tom paródico da narrativa mítica e observo a capacidade de Eminescu de fundir o antigo e o novo, o elevado e o popular. Utilizando o hexâmetro datílico de feição clássica, o autor bucovino cria uma narrativa que une todas as dimensões do conto popular romeno com uma prosódia ironicamente arcaizada, evocando uma melancólica filosofia particular. Ao final, comento propriamente problemas de ritmo e do verso, e algumas questões de tradução do ritmo do verso, fazendo breve revisão das práticas de criação e tradução do hexâmetro.
Palavras-chave: poesia romena; Mihai Eminescu; hexâmetro datílico; tradução poética; versificação

Já vereis o sair do sol num triunfo de liras

“Saudação do otimista”, Ruben Dario

1. O POEMA E EMINESCU

Numa visão não tão otimista quanto a do poeta nicaraguense Ruben Dario, cujo verso serve de epígrafe, o poema Mitologicale (Mitologicais), de Mihai Eminescu (1850-1889), um dos mais importantes poetas romenos, pinta uma vívida narrativa de um velho bêbado que sai de casa dirigindo uma carroça, desgrenhado, rindo alto na rua sem motivo, acreditando que árvores e montanhas lhe acenam ao passar. Um jovem repreende o pinguço, mas de nada adianta. Tentando ir adiante, o velho ébrio quase se atola na lama, mas não se faz de rogado, finge dançar e depois dá cambalhotas. Nisso, é picado por uma pulga e se coça numa cerca qualquer. Volta para casa trôpego, tira as roupas e as estende sobre o forno para secar, porque, além de tudo, havia entrado no mar com roupa e tudo. Faz xixi no penico e toca a dormir uma soneca boa. Acorda no dia seguinte ainda sonolento e, sem se dar conta do que fez, olha para o sol e coça a cabeça. O dia lá fora está lindo!

Embora possa ser essa apenas uma cínica sinopse do poema, não há nenhuma impropriedade. O curioso poema de 84 versos, composto em hexâmetros datílicos (mais à frente tratarei especificamente da história e do emprego desse tipo de verso na poesia romena), propõe-se a narrar uma história mítica (como anuncia o título) de seres fantásticos que compartilham características titânicas de forças da natureza, mas que, ao mesmo tempo, comportam-se como ridículos personagens do cotidiano.

O esperado tom elevado da narrativa mitológica, a depreender-se também pelo tipo de verso, mescla-se a uma fraseologia popular para contar a paródica história de um velho furacão, telúrico e poderoso, que parte das montanhas montado em carruagem trovejante pelos céus; bêbado, organiza a maior arruaça nos campos celestes, revolvendo, no caminho, terra e mar. Insatisfeito, o sol, fazendo papel do jovem responsável, interpela o furacão na tentativa de dissuadi-lo, mas só consegue arrumar uma discussão. Não podendo alcançar as estrelas, o velho ciclone retorna para as montanhas de onde veio, o Monte Rarau, nos Cárpatos moldavos, que são descritos como um enorme palácio. Cansado, o velho se retira a seus aposentos. Sua lareira é como os Lagos de Fogo do Monte Hinom (o próprio Inferno do Apocalipse). Despe-se, faz suas necessidades e, só com as roupas de baixo, dorme o sono dos justos. Do lado de fora, expulsando o frio, descrito como um velho avarento, o sol, jovem, olha para o mar e o acalma; olha para a terra e as flores renascem. Paira um erótico romantismo no ar, quando uma romântica donzela aparece a esperar pelo amado, e depois anoitece; e a lua, uma galinha redonda e gorda, passa pelos céus, deixando pegadas de ouro, que são as estrelas da noite. No dia seguinte, o furacão acorda e sobe as montanhas do Rarau, de pijama e descalço, coça a cabeça e olha para o sol. Nunca saberemos o que estava pensando… [+]

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