“O romeno e as línguas românicas” – Bruno Fregni BASSETTO

Cadernos do CNLF, Série VIII, no 06, VIII Congresso Nacional de Lingüística e Filologia, 2004

A fisionomia específica de cada língua românica foi desenhada pela conjugação dos fatores da história externa e da história interna de cada uma. O substrato, o superstrato e os diversos adstratos, itens fundamentais da história externa, não podem ser ignorados, se quisermos chegar a explicações aceitáveis da diversidade entre as línguas românicas. Por outro lado, as raízes comuns que emergem do latim vulgar justificam as semelhanças, que fazem delas uma família lingüística bem caracterizada.

Nessa perspectiva, o romeno singulariza-se sob vários aspectos dentro da România, mas sem perder seu caráter latino. Representa por isso bom termo de comparação em relação à evolução das outras línguas românicas, ao que todas herdaram do latim vulgar e ao que é próprio de cada uma. Nesse sentido, o romeno, ao lado do sardo, embora sem maior destaque, mereceu atenção especial da área de Filologia Românica na Universidade de São Paulo.

A história externa do romeno inicia-se no século II d.C., quando o imperador Trajano (98-117) conquistou a Dácia numa guerra que durou mais do que o previsto, de 101 a 107. Antes disso, porém, o território da Dácia era percorrido pelos comerciantes romanos, portadores das notícias sobre as riquezas de minas de ouro e sal da região. Consolidadas as conquistas da Panônia e do Ilírico ao leste e Mésia (15 a.C.) e da Trácia ao sul, tendo o rio Danúbio como limite, foram surgindo pequenas cidades ao longo do Danúbio, apoiadas pelos navios romanos e pelas colônias militares. Precedida de tentativas diplomáticas de paz com Decebal, rei da Duras Diurpaneus, a união dos dácios, e de limitadas incursões militares, o imperador Trajano invadiu a Dácia, partindo da Dobrógea e atravessando o Danúbio. Os dois primeiros anos de guerra não foram favoráveis a nenhum dos dois lados e fez-se uma trégua. Trajano recompôs suas legiões e voltou em 105, terminando a conquista no verão de 106. Em 107 foi criada a província imperial romana da Dácia. Decebal conseguiu fugir; alcançado, porém, pela cavalaria romana, preferiu suicidar-se se entregar ao cativeiro.

Muitos detalhes dessa guerra nos são desconhecidos, porque se perderam as obras que as relatavam. Historiadores procuraram reconstituir parte dos fatos, interpretando as gravuras da coluna de Trajano, levantada em 113. De qualquer forma, a guerra deve ter sido devastadora, a julgar pelo que diz o historiador romano Eutrópio, em Breviarium ab Urbe Condita (8,6):Traianus, victa Dácia, ex toto orbe Romano infinitas eo copias hominum transtulerat ad agros et urbes colendas.”(“Vencida a Dácia, Trajano transferira para lá imensa quantidade de homens para habitar as cidades e cultivar os campos.”)

Essa afirmação de Eutrópio leva a crer que a guerra tenha dizimado os dácios e um número considerável deles tenha seguido o exemplo do chefe Decebal. Inscrições confirmam Eutrópio, indicando colonos provenientes da Dalmácia (mineiros), da Mésia Superior e Inferior, Panônia, Trácia, Síria, Ásia Menor, Grécia e Itália. Essa substituição de população, porém, é particularmente importante no caso da Dácia, porque os romanos foram obrigados a abandonar essa província em 271, sob pressão dos godos. Tendo repelido com dificuldade um primeiro ataque, o imperador Aureliano foi forçado a retirar suas legiões da Dácia ao norte do Danúbio, enquanto Dobrógea, ao sul do Danúbio até o Mar Negro, foi recuperada pelo imperador Diocleciano (284-305). A Dácia fez parte do Império Romano, portanto, de 107 a 271, ou seja, 164 anos. Mas com a recolonização por elementos latinos, especialistas afirmam que em cinqüenta anos a Dácia já estava profundamente romanizado, fato que explica a manutenção da cultura e da tradição latinas, apesar do período relativamente curto em que fez parte do Império Romano. Contudo, mesmo com a retirada das legiões, as demais instituições continuaram a funcionar, embora precariamente, sobretudo depois da divisão do Império por Constantino Magno, quando a Dácia passou a ser influenciada por Bizâncio, esvaindo-se a presença preponderantemente direta de Roma.

O intervalo compreendido entre 271 e meado do século VII se caracteriza pela passagem de povos migratórios: godos, hunos, gépidas, avaros e eslavos. De meados do século VII ao X, deu-se o assentamento constante de eslavos no território dácio e sua assimilação pela população romanizada. Nesse período, segundo os historiadores, formaram-se o povo romeno e a língua romena. A presença dos romanos nesse período é atestada por numerosos vestígios e moedas, posteriores à época do imperador Aureliano, encontrados sobretudo no Banato e na Oltenia, ao sul, como também na Transilvânia, ao norte.

A partir do século X, constituem-se organizações políticas pelas populações autóctones. Anonymus, secretário do rei Bela III, da Hungria, em Gesta Humgarorum, cita três \f2 a(ri, “terras”, “países”, romenos ou romano-eslavos: no Banato, chefiado por Glad, em Cri]ana, sob o comando de Menomorut e no Planalto da Transilvânia, comandado por Gelu, mas que se consolidou só em meados do séc.XII, com sucessão ininterrupta até ao séc. XVI. Eram organizações políticas do tipo feudal, também denominadas voivodias; seu suserano era o voivod. Ainda segundo Gesta Hungarorum, datam dos primeiros anos do século X as primeiras invasões de tribos húngaras no território romeno, cuja língua se tornou fonte de empréstimos léxicos ao romeno.

O Estado Romeno começou a se constituir. quando Ionitza (Ioni\f0 a) Asan foi coroado “rei dos búlgaros e dos valacos”, em 1204. Enquanto a Transilvânia, ao norte, estava sob o domínio húngaro, a Valáquia, formada então pelas atuais províncias da Oltenia e da Muntênia, e a Moldávia tornaram-se voivodias ou principados independentes no séc. XIV. Mais fiéis à manutenção da tradição latina. os valacos denominavam sua pátria de |ar` Româneasc`, que se estendia do Danúbio até aos Cárpatos. Nesse período, destaca-se a figura legendária de Besarab (1310-1352), voivoda de Arge], região central do país, que venceu os húngaros, sendo por isso celebrado em poemas épicos como o Negru-Voda, o fundador da Valáquia. O principado da Moldávia foi fundada por Bogdan, voivoda da região de Muramure], ao norte, libertando-se dos húngaros em 1359. No século XV, esses dois principados foram submetidos pelos turcos, cuja língua tornou-se adstrato do romeno, origem de numerosos empréstimos léxicos. Em 1718, os austríacos incorporaram o Banato e a Oltenia, na luta contra os turcos, com o quais assinaram tratado de paz de Belgrado em 12 de setembro de 1739. Por sua posição geográfica e falta de unidade política, as guerras entre turcos, russos, húngaros e austríacos tiveram reflexos no território romeno, cujos habitantes sempre procuraram defender sua identidade lingüística e cultural. Mesmo antes de sua unificação e independência política, esta ocorrida em 9 de maio de 1877, reconhecida internacionalmente no ano seguinte, seus intelectuais nunca perderam de vista suas origens. Em 1757, Dimitrie Eustatievici escreveu a Gramatica Româneasca(, sem dúvida a primeira do romeno de que se tem notícia.

Convém recordar que, enquanto as línguas românicas do Ocidente mantinham contato permanente com o latim medieval da Igreja, das escolas, da administração e dos documentos oficiais, o romeno permaneceu no âmbito da cultura eslavo-bizantina do Império Romano do Oriente, cuja língua oficial e religiosa era inicialmente o grego. Posteriormente, com a instituição dos principados eslavos, denominados voivodias, passou-se a usar o eslavo antigo e o médio búlgaro. Esse eslavo, então empregado, foi chamado também “paleoeslavo” ou “antigo eslavo eclesiástico”, escrito com o alfabeto cirílico. O paleoeslavo substituiu o grego eclesiástico e, fins do século IX, quando a Igreja búlgara se declarou independente da de Constantinopla. Em 1020, a Igreja romena se uniu à búlgara, embora os romenos tenham sido cristianizados por missionários ocidentais, conforme comprovam os termos cristãos mais antigos, de origem latina, como rom. înger < lat. angelu, “anjo”, biserica( < basílica, “igreja”, pagîn < paganu, “não batizado”, sacrament < sacramentum. Histórica e geograficamente cu faîntor]i spre Orient, “com a face voltada para o Oriente”, o romeno, ao contrário de suas irmãs ocidentais, não teve a seu alcance o adstrato cultural latino, fonte permanente de empréstimos. Como se sabe, o latim não desapareceu juntamente com o império político, mas continuou como língua literária, cultural, jurídica e notarial, além de língua oficial da Igreja.

O processo, filologicamente denominado “relatinização do romeno”, foi iniciado timidamente no século XVIII, através de estudantes moldavos que, em universidades polonesas, entraram em contato com o humanismo italiano. No século seguinte, a administração húngara levou o latim para a Transilvânia e, com a conversão de parte da Igreja romena ao catolicismo, o processo acelerou-se. Assim, autores católicos transilvanos, como George }incai (1753-1816), Petru Maior (1761-1821) e Samuel Micu (1745-1816), formados em Roma e em Viena, procuraram eliminar do romeno termos estrangeiros, isto é, os de origem não latina. Tentaram também substituir o alfabeto cirílico pelo latino, esforço que culminou com a adoção oficial definitiva do alfabeto latino, em 1860. Procedeu-se apenas a algumas adaptações, para representar alguns fonemas de que o latim não dispunha, como o /]/ e o /\f0 /, além de dois acentos para dois fonemas vocálicos típicos. Certamente foi um avanço considerável, pois libertou a língua de uma camisa de força, uma vez que o alfabeto cirílico é adequado ao tipo fonológico eslavo, mas não ao latino.

O interesse pela volta às origens levou alguns autores, como v.gr. A.T. Laurian (1810-1881), a modificarem a grafia das palavras, a fim de aproxima-las dos respectivos étimos latinos, alguns equivocados, escrevendo questora por cestora, genitivo plural de cest, “este”, credentia por credin\f0 a, “crença”, adeque por adeca(, mod. adica(, “isto é”, entre outros muitos. Buscaram até étimos latinos para termos eslavos, como res bellica > ra(sbel > ra(sboi, “guerra”. Na segunda metade do século XIX, teóricos da língua e escritores aproximaram-se ainda mais da cultura românica ocidental e introduziram grande número de termos franceses e italianos, como o fez Heliade Radulescu (1802-1872), italianiófila confessa. Muitos termos foram buscados diretamente no latim, desde que fossem o terminus a quo de vocábulos panromânicos, sendo bastante raras as exceções, com a evidente intenção de integrar o romeno no mundo românico. Aliás, os romenos sempre se orgulharam de “serem descendentes dos dácios e dos romanos”. Alguns exemplos de empréstimos diretos do latim: lat. affabilis > rom. afabil, amor > amor, applausus > aplause, artem > art`, componere > compune, exemplum > exemplu, libertatem > libertate, offere > oferi, producere > produce, promittere . promite, sperare > spera, scientia > ]tiin`, unicum > unic, vocabularium > vocabular, vocationem > voca\f0 ie.

Como observou Theodoro Henrique Maurer (A Unidade da România Ocidental, p. 76), parte considerável das palavras tornou-se panromânica por influência do francês e do italiano, as duas línguas de maior prestígio dentro da România ao longo dos séculos. Entretanto, o francês foi o modelo preferido nesse processo de relatinização. Não foi, porém, simples transposição ou decalque; adaptaram-se os empréstimos ao sistema léxico e morfológico romeno. Para tanto, desloca-se o acento tônico se necessário: fr. direction > rom. dirèc\f0 ie; hsistorique > istòric, nation > na\f0 iùne, opinion > opìnie – devendo-se notar que os acentos gráficos nesses vocábulos indicam aqui apenas a sílaba tônica, já que o sistema ortográfico romeno não usa acentos. Emprega ainda seu sistema próprio de prefixos, como fr. décourager > rom. descurja; acolhe por vezes o empréstimo num sentido específico, e.c., doctor, “médico”, curte, “corte de um rei”, casos de empréstimos semânticos. Em outros casos, imita apenas o modo de composição e laça mão dos elementos do sistema vernáculo, como fr. prétendu > rom. pretins; résigner > resemna com as bases romenas re+semna, ou fr. déplorer < lat. de+plorare, mas rom. deplînge < lat. de+plangere. Sem dúvida, o francês, a língua românica de maior projeção no século XIX e primeira metade do seguinte, foi o modelo adotado nesse processo de relatinização do romeno; as formas foram as latinas e o conteúdo semântico foi o do românico moderno, embora seja clara a presença de numerosos galicismos, comuns igualmente nas outras línguas românicas… [+]

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