O poema “Vésper” de Eminescu – Marco LUCCHESI

Academia Brasileira de Letras, s/d. Originalmente publicado em Revista Ricerca Z , nº1  (Itália)

Ouvi na Romênia um adágio que dizia “a casa que morei em criança hoje me habita”. E de pronto lembrei-me do poema de Jorge Cooper, que dizia melhor “a casa em que morei quando menino hoje em dia mora em mim”. E me pareceu de tal modo acertado que o reportei num velho livro de lembranças.

Somos habitados pela casa que habitamos.

E a poesia romena é uma de minhas casas. Assim, se tivesse de levar um amigo a conhecer a obra de Eminescu, começaria com um poema líquido, de fundo camoniano-provençal e que fosse, ao mesmo tempo, uma viva introdução à língua romena. Havia de escolher “Réplicas”, que é um diálogo mozartiano entre o poeta e sua amada, harpa e violino, sob uma chuva de vogais bem timbradas. Não daria tradução alguma, para que a harmonia da língua de Eminescu chegasse límpida e clara.

Poetul
Tu eşti o undă, eu sunt o zare,
eu sunt un ţărmur, tu eşti o mare,
tu eşti o noapte, eu sunt o stea ­
iubita mea.

Iubita
Tu eşti o ziuă, eu sunt un soare,
eu sunt un flutur, tu eşti o floare,
eu sunt un templu, tu eşti un zeu ­
iubitul meu.
Tu eşti un rege, eu sunt regină,
eu sunt un caos, tu o lumină,
eu sunt o arpă muiată-n vânt ­
tu eşti un cânt.

Poetul
Tu eşti o frunte, eu sunt o stemă,
eu sunt un geniu, tu o problemă,
privesc în ochii-ţi să te ghicesc ­
şi te iubesc! (1)

Uma percepção fractal.  Um pequeno e belo fragmento, no desenho da melopeia, para dar vez ao diálogo entre duas línguas irmãs, entre dois sistemas poéticos integrados no horizonte da latinidade. Palavras novas e antigas. Muitas das quais perceptíveis e de estranha familiaridade.  As rimas transparentes.  E a poeira de Cantor.  

Mas a obra de Eminescu não se resume a um conjunto de vasos de porcelana, é antes uma complexa constelação, de que desponta o laboratório do poema  “Luceafărul” (Vésper), na soma dos raios e distâncias azuladas (în depărtări albastre), no brilho intermitente das estrelas e nas profundas dimensões do espaço-tempo. Como no famoso “La Steaua” ao longo dos interminati spazi, inaugurados por Leopardi, vividos por Eminescu e conjugados, mais tarde, na poesia escura de Vladimír Holan, sob o impacto de uma jornada sideral.   

O poema „La Steaua” reaparece transfigurado nos lábios de Catalina, do ,,Luceafărul”, prova da migração interna na obra de Eminescu, de um permanente deslocamento de volumes poéticos. E como crescem os versos desplaçados no diálogo da mulher que se apaixona pela Estrela da Manhã, em províncias de profunda metafísica até então impensadas. 

Diante de uma obra de grande proporção, nunca é demais  exorcizar a  tautologia do discurso monumental,  os epítetos que se repetem sobre Eminescu,  último grande poeta, aparição meteórica, gênio sem paralelo, e outras formas vazias de significado,  como advertiu  George Popescu, num ensaio de alta voltagem   metodológica,  onde propõe o pensiero debole  de Vattimo para deflacionar a rapacidade de interpretações na espuma excessiva e rasa dos adjetivos.  (2)    
    
Antes mesmo de aduzir um aspecto central da eminescologia, parece oportuna a citação de Mircea Eliade, no viés de uma geolírica, ao mesmo tempo expansiva e aglutinante, ao traçar o paralelo entre dois grandes poetas: 

Mihai Eminescu contribuiu de forma extraordinária para o alargamento do horizonte espiritual europeu como ‘conquistador de novos mundos’. Tal como Camões, Eminescu explorou uma vasta e selvagem ‘terra incógnita’ e transformou em valores espirituais experiências anteriormente consideradas como desprovidas de significado. Camões enriqueceu o mundo latino com paisagens marítimas, com flores estranhas, com belezas exóticas. Eminescu enriqueceu o mesmo mundo com uma novidade geográfica, a Dácia e com novos mitos […]  A sua obra prima Luceafărul pode ser considerado como um dos mais belos poemas da literatura universal e a sua metafísica, a dimensão cósmica do drama de Hyperion, a beleza estranha, dir-se-ia litúrgica, dos seus versos, são acréscimos ao universo mental da latinidade. (3)

Eliade não se perde na selva da tese de uma latinidade úmida e escura, que sonha a restauração de uma perdida Roma. Ele evidencia a paixão absorvente da alteridade, capaz de criar um mundo novo. Tal como o espaço miorítico, de Lucian Blaga,  que não para de crescer até hoje na ficção romena.  A ilha dos amores de Camões e a cultura geto-dácica de Eminescu criaram uma vida fluida, razão por que Vasco da Gama e Vésper vagam peregrinos pelo mundo.  Como fantasmas vivos, longe das páginas que lhe deram vida.  

Fechada a janela da latinidade, recorro a uma questão precisa na crítica em torno de Eminescu, para sair do fragmento das “Réplicas” ou de “À estrela” e alcançar um sistema de complexidade maior, nos desertos e  penhascos da interpretação, dentre cujos desafios assoma um sem-número de aporias das  obras inacabadas ou não publicadas.
 
Eu partiria da estética geológica de Negoiţescu, aquela que sugere o aspecto abissal da criação do poeta, de cujo solo emerge uma poesia netuniana – dos versos publicados em vida,  comparáveis à terra formada pela ação das águas, que se origina dos estratos mais tangíveis do espírito – e uma poesia plutônica  – da obra não publicada, do zibaldone de Eminescu, da rocha nascida do fogo subterrâneo, a emergir das profundezas, onde se agitam as chamas obscuras. (4)

Foi Mihai Zamfir quem ultrapassou os limites da dialética geológica, ao abandonar a ideia acidental de édito e inédito,  para atingir outra polaridade mais produtiva,  do  épico e do lírico, apta a explicar os sentidos multifários da obra em questão, como também boa parte da poesia romena do século XX, como se esta potencializasse o  território  eminesciano, dentro do qual se movem – a meu ver – Bacovia e Stănescu, Barbu e Pilat, Bogza e Sorescu. E a lista seria bem maior.  Diz Zamfir:    

A distinção em vida/póstumo, sob cujo signo Negoiţescu formulara a sua célebre análise da poesia eminesciana, deve ser reformulada: tratam-se de pequenos poemas versus grandes poemas; com efeito, entre o que Eminescu considerava publicável, com base nas normas comuns da época, e a imensa quantidade de versos conservados no depósito escondido. Petru Creţia, após as descobertas feitas como editor e exegeta, acreditava que a oposição vida/ póstumo se tornara irrelevante. Acreditamos que deveria ser apenas corrigida no sentido antes sugerido. O ‘pólo épico’, a zona primordial de sombra e de intimidade eminesciana, há de se opor ao ‘pólo lírico’, no sentido comum, como zona de relativa luminosidade e conformismo. O imenso cosmos romântico de que agora falamos cristalizou-se ao redor daqueles dois pólos, limites visíveis de um mundo poético entre os menos conformes ao espírito geral da poesia romena.  (5)

Considero esse horizonte como um programa de reversão metodológica, voltada para um Eminescu total, não  sufocado por clivagens regionais e  zonas de silêncio, justificadas por razões  de ordem  nosográfica ou por uma certa crítica genética de aspiração liputiana… [+] 

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