“Mihail Eminesco” – E.M. Cioran

Este breve ensaio compõe a primeira versão do Breviário de decomposição (1949), o début literário em língua francesa de Emil (doravante E. M.) Cioran, tendo sido excluído da versão final que ganharia, em 1950, o Prix Rivarol para jovens escritores estrangeiros. A versão inicial do Précis, intitulada Exercices négatifs, foi publicada postumamente, em 2005, numa edição crítica e comentada a partir dos manuscritos. O texto, que já havia aparecido anos antes na revista Comœdia (16 de janeiro de 1943), é um dos primeiros ensaios de Cioran em língua francesa, antes da redação do seu livro de estreia no idioma estrangeiro. Pertence a uma fase de transição na vida do autor romeno, que estava prestes a tomar a decisão da sua vida: abandonar para sempre o idioma materno e adotar o francês como língua oficial de escrita. Começando uma carreira literária na França, Cioran pretendia divulgar, na sua nova “pátria linguística”, este que é considerado o poeta nacional romeno por antonomásia. Acabaria desistindo de inclui-lo no livro, talvez para manter uma aura de mistério acerca de suas origens romenas e influências romenas.

Fonte: Cioran, E. M. “Mihail Eminesco”. Exercices négatifs : En marge du Précis de décomposition. Paris : Gallimard (« Les Inédits de Doucet »), 2005, pp. 112-115. Tradução do francês de Rodrigo Inácio R. Sá Menezes.


MIHAIL EMINESCO[1]

E. M. Cioran

Não pode haver desenlace para a vida de um poeta. É de tudo que ele não viveu que emana o seu poder. Quanto mais o conteúdo do momento alimenta-se do inalcançável, mais o poeta está à altura de exprimir sua substância. A quantidade de resistência que a vida impõe à sede de viver determina a qualidade do fôlego poético. A expressão é condensada à medida que a existência nos escapa, e o peso da palavra é proporcional ao caráter fugidio da vivência.

Eminesco, o maior poeta romeno, é uma das ilustrações mais convincentes do fracasso de qualquer existência poética. A sua vida é uma série de misérias acompanhadas pelo prenúncio da loucura que acabaria por coroá-las. Contar esta vida não serviria de nada, desde que fosse necessário, e desde que os felizes acidentes não comprometessem a sua pureza negativa. De que adianta fazer a história de um destino, quando teria sido o mesmo em qualquer situação do tempo e do espaço? A biografia só faz sentido se destaca a elasticidade de um destino, a soma das variáveis que ele contém. No caso de Eminesco, é a ideia monótona do irreparável o que torna possível prever desde as primeiras linhas o que se seguiria, tornando inúteis as preocupações biográficas. São os medíocres que têm uma vida. E se foram inventadas biografias de poetas, é para compensar a vida inútil que não tiveram.

Muito tem sido escrito na Romênia sobre Eminesco, e especialmente sobre o seu “pessimismo”, sobre a influência de Schopenhauer e do budismo na sua obra. Ele era de fato pessimista, fazendo-nos pensar de início num Leopardi, ou naquele estranho português, Quental. Mas chamar sua poesia de “pessimista” – como se pudesse haver qualquer outro tipo de poesia – é perder a essência da sua poesia ou rejeitar as dificuldades que ela levanta com demasiada facilidade. Alguma vez houve uma canção de esperança que não inspirasse um ligeiro desgosto? A frase de Valéry: “Os otimistas escrevem mal” significa basicamente que, no fundo, só pode haver uma afinidade entre o sonho e a ausência. Como se pode cantar uma presença quando até o possível aparece manchado por uma sombra de vulgaridade? Entre a poesia e a esperança, a incompatibilidade é completa. Pois a poesia só expressa o que se perdeu ou o que não é – nem sequer o que poderia ser. A sua significação última: a impossibilidade de toda atualidade. É por isso que o coração do poeta é o espaço interior incontrolável de uma fervorosa decomposição. Quem se atreveria a perguntar-se como ele sentiu a vida quando era através da morte que se fez vivente?

Eminesco viveu na invocação do não-ser. E esta invocação desdobra-se entre uma sensação material, que é o frio da vida, e uma espécie de oração, que é o seu resultado.

A Oração de um Dácio, um dos poemas mais desesperados de toda as literaturas, é um hino à aniquilação. Ele clama pela graça do eterno repouso. E para garantir que nada o amarrará ainda à vida, e que nenhum obstáculo entravará o seu desejo de aniquilação, exige que Deus amaldiçoe todo homem que tenha piedade dele, que abençoe quem o ferir, que dê forças ao braço que quiser matá-lo, e que seja este entre os homens o primeiro a tirar-lhe a pedra sobre a qual descansar a cabeça.

E àquele, Pai, dá-lhe coroas e posses,
que lance seu cão para que o coração me destroce,
E daquele que com pedras me fere a cara doída
Tende piedade, mestre, concede-lhe a eterna vida!

Rugaciunea unui dac

É só assim que ele pode agradecer a Deus por lhe ter concedido “a oportunidade de viver”. Desaparecer irremediavelmente na “extinção eterna” parece-lhe a suprema realização. Em Mortua est, ele pergunta: “Não é tudo loucura? Os homens são “sonhos encarnados que perseguem sonhos”.

Eminesco não encontrou o sublime subterfúgio do êxtase. Ele ergue-se do interior da morte por cima da vida. No êxtase, descobrimo-nos para além de ambos. Esta é a solução de Shelley, que conseguiu transcender o irredutível da vida e da morte dissolvendo-os em música irreal. Filosoficamente falando, isto equivale a escamoteá-las; poeticamente, é salvá-las numa irrealidade mais eficaz do que a sua real dissemelhança.

Em todo êxtase há algo de divino; e também de adulterado.

Para escapar a semelhante lucidez, um Hölderlin comprazia-se com uma Grécia ideal da alma; queria iludir-se. Sentia que estava condenado. E queria fazer algo para escapar ao seu destino. É grandioso por não ter podido realizar-se. Para um poeta, não desabar sob o seu próprio ideal é mentir. Mais do que qualquer outro ser humano, ele está em busca da ilusão, sem nunca poder estabelecer-se nela.

Ter-se-ia a impressão de que Eminesco tentou enganar-se pelo amor. No entanto, ele conhece a ilusão de todos os seus langores. Entrega-se à paixão apenas pelos sofrimentos que ela inspira, pelo seu fracasso. Ademais, não se observou que o amor serve de material para a poesia apenas porque exclui a felicidade? Para os corações dissociados do mundo, ele só pode ser vivido na forma de felicidade ou de infortúnio. Que Eminesco tenha amado uma mulher que todo o mundo havia possuído, menos ele, isso pode estar relacionado a muitas coisas. O fato importante é que ele não pôde sucumbir à degradação da felicidade. A sua alma não era suficientemente mística para desertar na felicidade (Shelley), mas forte o suficiente para recorrer ao infortúnio, que também é uma deserção. Assim, para o poeta, tudo é possível, salvo a sua vida.

Comœdia, 16 janvier 1943.


[1] Mantivemos a grafia do nome do poeta tal qual Cioran o escreve em francês: além do sobrenome terminado em “o”, no intuito de adaptá-lo à morfologia onomástica da língua francesa (assim como Eugen Ionescu assinaria Eugène Ionesco), o primeiro nome Mihail, grafia antiga que foi suplantada por Mihai.

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