“A secura de Deleuze” – Clément ROSSET

Revista Trágica: estudos de filosofia da imanência, Rio de Janeiro, v. 12, nº 2, p. 150-152, 2019

Um leitor de Diferença e Repetição declarava durante a leitura: “Tenho a impressão de comer um biscoito em que falta manteiga. Ele é excelente, mas seco”. Impressão frequente de secura ao ler Deleuze, e que não enfraquece com o hábito; ao contrário, que tem antes a tendência a se reforçar. Mas, ao mesmo tempo, ela se valoriza: a secura, que de início engasga, chega a seduzir o leitor ao descobrir tudo o que ela lhe poupa. Aqui não há lágrimas, não há emoção, não há tremores metafísicos; mas também não há cumplicidade com os grandes temas que geralmente continuam a reter o interesse filosófico: nenhuma preocupação com a transcendência da alma ou da mente, nenhum interesse por um sentido da história ou uma racionalidade do devir (que os modernos neo-hegelianos pretendem exibir em nome de Nietzsche, de Marx ou de Freud), nenhum respeito em relação a valores quaisquer, de ordem estética ou moral. Assim, o que caracteriza Deleuze é, acima de tudo, uma bela falta de entusiasmo: a filosofia não é feita para contribuir para a manutenção deste ou daquele devaneio humano. Trata-se apenas de descrever e, tanto quanto se puder fazê-lo, de avaliar. Avaliar, não em função de valores extrínsecos e exteriores ao discurso considerado, mas em função da coerência e da riqueza internas de uma filosofia. Jacques Lacan declara, no início de um de seus Escritos: “Um pouco de entusiasmo é a marca mais garantida em um escrito para que ele fique datado”. Essa marca está ausente de todos os textos de Deleuze. Contenção tanto mais exemplar na medida em que ela não significa de modo algum uma relativa insensibilidade alojada na própria pessoa de Deleuze: essa, ao contrário, possui como todo mundo uma gama de fantasmas pessoais, porém aos quais Deleuze soube recusar, até o presente, o acesso direto à sua obra escrita. Essa censura deve ser colocada, entre outras virtudes, no crédito de Deleuze: ela é uma marca obrigatória do que se faz de honroso em matéria de literatura… [PDF]

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