“Discursos do silêncio” – Guilherme Castelo Branco

Jornal do Brasil, 28 de março de 1987

Clement Rosset, autor da trilogia Elementos para uma filosofia do trágico, reconhece o valor dos pensadores que, recusando a tradição, afirmam o pior. Conheça um pouco da teoria deste francês que será lançado no Brasil no segundo semestre deste ano.

A filosofia, segundo a tradição, é um saber em busca do ser, da identidade, da natureza, em oposição ao caos, à antinatureza. A tarefa clássica da filosofia seria a de revelar o melhor: uma ordem profunda ou superior à desordem de superfície, constatando a existência de relações estáveis e inteligíveis entre as coisas. Na base deste “otimismo ontológico”, toda uma série de suposições está presente: uma organização no domínio das coisas, uma ordem no domínio do pensamento, e um isomorfismo, real ou a se constituir, entre estes dois domínios. Associado ao otimismo ontológico está o “otimismo teleológico”, supondo que em decorrência da revelação desta ordem intelectual metafísica pode-se chegar a uma perfectibilidade ou a um viver melhor.

Para Clément Rosset, filósofo radicado em Nice, o que importa são as características e possibilidades de um pensamento desvinculado desta tradição dominante de busca da verdade, do poder e da conduta correta. Rosset, talvez visando intensificar o atual “caosmos” filosófico, nas suas obras mais conhecidas — Logique du pire, L’anti-nature, Le réel et sou double — reconhece o valor e a potência de pensadores trágicos ou terroristas, que, ao invés de pretenderem melhor, afirmam o pior. Os Sofistas, Lucrécio, Pascal, Montaigne, Hume, Nietzsche, são alguns exemplos desta posição filosófica. O pior afirmado pela filosofia trágica vem de uma posição de princípio: “o terrorismo trágico fala para dizer a impossibilidade de ver, afirma Rosset na Logique da pire. Distante do otimismo tradicional, a filosofia trágica também nada tem em comum com os pessimismos ou com as filosofias do absurdo. Estas vêem primeiro o mundo para só depois afirmar seja a sua falta de sentido, seja a impossibilidade de alteração da situação humana. O pensamento trágico, diferentemente, esbarra de cara na impossibilidade de crer. Por este motivo, a filosofia trágica considera seu discurso do pior o único necessário, e sua finalidade é ter êxito na mostragem de que somos apenas habitantes da superfície, do campo fenomênico, da esfera dos acontecimentos, e de que estamos envolvidos por acasos e por uma desorganização evidentes e insuperáveis. O discurso trágico fala somente para dizer o acaso, não como um elemento aleatório e raramente encontrável na natureza, mas como o elemento constituinte e originário da antinatureza, deste mundo que funciona independente de toda lei ou regulação. Se é isto, por que então dizer o pior? Porque sem nenhum motivo ou razão estamos como em uma jocosa peste da qual não adianta fugir ou fechar os olhos: por isto “o trágico falado é preferível ao trágico silencioso” (Logique du pire).

Realizando o terrorismo com as noções de ser e de natureza, a filosofia trágica rompe igualmente com o sentimento de familiaridade típico de quem está num lugar reconfortante e arrumado, na medida em que tudo revela-se estrangeiro, esquisito, impalpável. Sem o recurso às significações habituais dadas pelos diversos naturalismos, torna-se indispensável experimentar uma desaprendizagem capaz de fornecer um contato diferenciado com os acontecimentos, levando-nos a ter uma apreensão “insólita” do mundo, como afirma Rosset em L’anti-nature. Num mundo aleatório, repleto de relações aleatórias, nada há que não exista sob o signo do artificio. Na filosofia trágica as fronteiras do natural e do artificial estão eliminadas, pois estas fronteiras mesmas são consideradas um artificio.

A filosofia trágica está desta maneira muito próxima da produção artística, pois ambas operam com um mundo essencialmente desnaturalizado. Para a estética trágica conceitos como mimesis, invenção artística, engajamento arte-sociedade são pura e simplesmente postos de lado como impossíveis, pois toda a problemática relacionada a estes conceitos só se entende a partir das idéias de natureza e de verdade. Se estamos numa antinatureza, tudo é artificial e a beleza aparece como uma coisa casual entre as outras, como um acontecimento percebido por acaso. Por este motivo, a arte é considerada uma expressão de gosto, que é múltiplo e manifesta-se em distintos níveis. O talento ou gênio artístico ainda são levados em conta, mas enquanto a capacidade do artista de discernir e de antecipar aquilo que no caso dos encontros possa redundar num efeito agradável. O que interessa, em resumo, é que a obra de arte possa revelar-se um objeto de prazer para determinadas pessoas em determinadas ocasiões. A filosofia trágica. portanto, supõe uma estética pluralista e multidimensional. caracterizando-se pela tolerância que tudo acolhe, recebendo em si os elementos risíveis e contraditórios da existência, acatando as mais distintas manifestações do prazer face à arte.

No tema da moral, um pensamento artificialista não se apóia, de nenhuma maneira, em princípios racionais, em entidades transcendentes, ou em determinismos biológicos. Sua posição ética só pode ser de uma tolerância absoluta: recolher e aceitar todos os pontos de vista, sem optar por nenhum fundamento teórico. Claro que, na prática, o trágico fará suas escolhas, mas o único elemento norteador da ação será a oportunidade. Sem qualquer apoio em dados objetivos da consciência ou da extremidade, a questão da relação entre teoria e prática fica permanente no pensamento moral trágico. Se existe um critério moral válido na filosofia trágica, será o que indicar o fortalecimento da potência da vida. Este critério simples e óbvio: a felicidade, qualquer que seja sua origem, forma ou modalidade, e desde que seja uma expansão e afirmação da existência humana. A filosofia artificialista, portanto, ao apregoar a antinatureza, é um materialismo não-doutrinário, logo não dogmático. Mais. É um hiper-realismo cheio de humor, vivenciando apenas as intensidades momentâneas. Nele não há espaço para o consolo de memória nem de esperança de futuro. A ilusão, por sinal, é o tema do Le réel et son double. Segundo Rosset, a ilusão surge devido à extrema dificuldade em se aceitar o real que se dá de imediato, que é tão evasivo aos ordenamentos dos sonhos e das expectativas racionais. A ilusão metafísica também vem dessa origem e joga com a seguinte estratégia: constrói um “duplo”, cria um principio de inteligibilidade capaz de tornar explicável o real e de torná-lo aceitável ao formalismo da lógica. O que resulta num paradoxo, pois a metafísica, ao demonstrar o ser, só pode fazê-lo através do artificio teórico da “duplicação”. No fim, este esforço de caça ao fantasma resulta numa inutilidade. Em volta de suas pretensas ilhotas de verdade, as doxoi sempre proliferaram, normalmente oceanos de estranha sabedoria. O terrorismo trágico, neste sentido, é muito arguto. Por saber que o real é impensável e incomunicável, realiza-se enquanto discurso do silêncio.


Guilherme Castelo Branco é professor de Filosofia da UERJ e UFRJ.

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