“Deus no pensamento de Bergson” – Franklin Leopoldo e Silva

Revista Cult, nr. 131, dezembro de 2009

O que habitualmente chamamos de condição humana é basicamente determinado, segundo Bergson, pela natureza. A partir da aceitação das linhas gerais da teoria da evolução, Bergson afirma que a natureza teria seguido dois caminhos paralelos com a mesma intenção de desenvolver e preservar a vida. De um lado, o instinto, que se caracteriza pela estrutura fixa no interior da qual o animal se comporta de modo relativamente imutável, cumprindo os requisitos de sobrevivência prescritos pela natureza; de outro, a inteligência, capacidade humana dotada de flexibilidade para que o homem possa se adaptar às situações fabricando para tanto meios de sobrevivência cada vez mais aprimorados.

É importante notar que o mesmo objetivo é realizado por via de dois percursos diferentes e de dois resultados distintos, até porque tudo deriva da mesma origem, a Vida, a princípio indiferenciada e que, no itinerário evolutivo, se teria bifurcado em duas linhagens. Devido a essa origem comum, cada uma dessas formações vitais guarda em si algo da outra, submerso e camuflado pelas características que se impuseram de maneira predominante. À origem comum, corresponde o mesmo princípio orientador das ações da vida, em ambos os casos: sobrevivência e preservação, o que faz com que, no ser humano, a inteligência esteja quase totalmente voltada para a satisfação das necessidades práticas da vida individual e coletiva.

Isso significa, simplesmente, que cada organismo desenvolve o esforço necessário para persistir na existência e, que no caso do homem, a inteligência é o instrumento para a realização dessa tarefa. Para tanto são produzidos os utensílios materiais e as formas imateriais de sustentação da vida: entre essas últimas, destaca-se a tendência para a sociabilidade, uma vez que a vida em comum facilita a realização dos trabalhos necessários à manutenção de todos. A sociedade é, em princípio, uma organização fechada, formada por hábitos e regras (tanto explícitas quanto implícitas), que a inteligência sistematiza e que se apresenta aos indivíduos como obrigações sociais e morais a serem cumpridas por todos em benefício de cada um.

Mas esse perfil objetivo da organização social não basta para que o indivíduo venha a fazer a experiência do equilíbrio entre -egoísmo e solidariedade, requisitos da vida social. A tendência natural a sobreviver individualmente é mais forte do que o raciocínio que me faria entender que é do meu interesse considerar o interesse dos outros. Esse relativo desprendimento só aparece motivado por uma outra atividade: a função fabuladora, pela qual é incutida no indivíduo a neces-sidade de certas ações que ultrapassam a esfera exclusiva da vida individual. Histórias acerca da origem da coletividade, de deuses protetores que podem premiar ou punir, normas cuja origem se perde na tradição, mas que, por isso mesmo, devem ser respeitadas etc. Note-se que tudo isso, embora não diga respeito diretamente ao interesse individual, é absolutamente necessário para a preservação organizada da vida coletiva, impedindo que esta se dissolva na fragmentação dos interesses individuais. Esse patamar de experiência vital, pelo qual a função fabuladora é responsável, chama-se religião.

Vista dessa forma, a religião cumpre uma finalidade análoga à da sociedade no que concerne à coesão dos indivíduos, e ela se situa, por isso, num nível natural. Trata-se de uma organização fechada de costumes, normas, símbolos e rituais destinados a sustentar a integridade do grupo, por via da comunidade de crenças geradoras de comportamentos. É, ainda, a intenção da natureza que prevalece no interesse da manutenção da Vida numa escala maior do que a individualidade. Nesse sentido, as obrigações morais socialmente instituídas e a instituição das religiões cumprem funções análogas e complementares… [+]

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