“Restauração de um culto” – E.M. Cioran

Como gastei minha qualidade de homem, nada me é mais de nenhum proveito. Só vejo por toda parte carneiros com ideal que se ajuntam para balir suas esperanças… Mesmo os que nunca viveram juntos, são empurrados para o rebanho, como fantasmas, pois com que outro fim concebeu-se a “comunhão” dos santos?… Em busca de um autêntico solitário, percorro as épocas, e o único que encontro e invejo
é o Diabo… A razão o exclui, o coração o implora… Espírito da mentira, Príncipe das Trevas, o Maldito, o Inimigo – como é doce rememorar os nomes que difamaram sua solidão! E como o aprecio desde que o relegam dia após dia! Oxalá pudesse restabelecê-lo em seu primeiro estado! Creio n’Ele com toda minha incapacidade de crer. Sua companhia me é necessária: o solitário dirige-se ao mais solitário, ao Solitário… Vejo-me obrigado a tender a ele: meu poder de admirar – por medo de ficar sem emprego – obriga-me a isso. Eis-me aqui frente a meu modelo: com minha adesão a ele, castigo minha solidão por não ser total, forjo outra que a supera: é minha maneira de ser humilde
Cada qual substitui Deus como pode: pois todo deus é bom, contanto que perpetue na eternidade nosso desejo de uma solidão capital…


CIORAN, E. M., “Restauração de um culto”, Breviário de decomposição. Trad. de José Thomaz Brum. Rio de Janeiro: Rocco, 2011.

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