“Dos males, qual o pior? Acaso trágico e fatalismo gnóstico em Clément Rosset e Emil Cioran” – Rodrigo Inácio R. Sá Menezes

Clément Rosset critica Georges Bataille, em sua Lógica do pior (1971), por supostamente mistificar o saber trágico e a consciência trágica, dando a entender que seriam o apanágio de um seleto grupo de intelectuais iluminados (a começar por Bataille, provoca Rosset), graças a um suposto “despertar” espiritual que nem todos os mortais podem ter.

Esta é uma parte da conferência sobre “Visões (e cegueiras) do Pior: Emil Cioran e Clément Rosset em contraponto”, que acontecerá em 6 de outubro de 2021, às 16h, durante o Colóquio Internacional Liliana Herrera em torno de Cioran.

Querendo ou não, a verdade é que a crítica de Rosset aplicar-se-ia também a Cioran, para quem a função de seus livros é “despertar” (éveiller) o leitor[1] – ainda que, uma vez desperto, ele não tenha nada a lhe propor.[2] Rosset pensa, inversamente, que o saber trágico é “patrimônio universal da humanidade (à exceção dos ‘brilhantes solitários’)”, ainda que raramente se manifeste, raramente seja falado.[3] Um ponto-chave do “terrorismo filosófico” empreendido pelo filósofo francês é sua função psicanalítica (profilática) ou catártica, o objetivo de fazer falar o acaso (a ausência de razão, causa, destino), expurgando do pensamento e da linguagem todo fantasma ou “duplo metafísico” (angelical ou diabólico, paradisíaco ou infernal) do real, em sua idiotia sem razão nem sentido.[4] Intenção e finalidade que contribuem para a compreensão, por contraste, do fatalismo gnóstico de Cioran, cuja obra pretende “despertar” para uma lucidez “luciferina” (Blaga) que seria como que a consciência dilacerada de não pertencer a este mundo – e, a bem da verdade, a nenhum mundo.

Tendo em vista essa função terapêutica claramente estabelecida de sua filosofia trágica afirmadora do acaso, pressupondo a universalidade da consciência trágica, Rosset dissocia o não falado do não pensado (ou impensado), do desconhecido (ou ignorado); quem silencia muitas vezes sabe (e mais silencia quanto melhor sabe). A teoria psicanalítica é útil ao autor de Lógica do pior Rosset para diferenciar psicologicamente a filosofia trágica das filosofias otimistas, por um lado, e das pessimistas, por outro. Interessam-nos estas últimas por se tratar do setor de Cioran. Rosset alude a “uma outra forma de lógica do pior” muito distante do pensamento trágico, e avaliada por ele em chave sádica-masoquista, cujo “prazer filosófico” consistiria em fazer aparecer a dor. Segundo essa forma peculiar de pensamento, afirmar a dor como realidade negativa seria apenas um pretexto para afirmar, antes, que há realidade, e ela é dolorosa por natureza. Nesta perspectiva, “a afirmação de que ‘há algo’ importa muito mais do que o fato de que este algo seja ‘dor’. Enfim, a afirmação da dor é sobretudo a afirmação de um ‘ser’.”

Cioran, bastante influenciado por suas leituras budistas, afirma a realidade absoluta da Dor (com maiúscula alegórica), elevada ao estatuto de um pandolorismo: “Não é Deus, mas a Dor quem desfruta das vantagens da ubiquidade”, escreve ele nos Silogismos da amargura, seu segundo livro em língua francesa (1952).[5] De fato, o pensador romeno precisa afirmar a realidade ontológica da Dor, como a do Mundo, e equacioná-los, para justificar, como uma causa real, a sua necessidade de salvação, redenção ou libertação (délivrance). “Só está maduro para a libertação quem é oprimido pela universalidade do tormento. Buscar libertar-se, sem a consciência desse tormento, é uma impossibilidade ou um vício.”[6]

Um contraponto entre os pensamentos de Cioran e Rosset, especialmente a partir de Lógica do pior, é um fecundo exercício hermenêutico que dá a conhecer em que medida Cioran é, como muitos leitores se recusam ou são inaptos a ver, um insuspeitável filósofo da redenção ou da libertação (délivrance), na linha das filosofias pessimistas e absurdistas cujo pessimismo irrespirável exige uma saída, nunca desacompanhado de uma preocupação de índole ascética, cuja consciência horrorizada implora por um remédio, uma solução para a opressão causada pela “onipresença do Intolerável”, que sentimos, segundo Cioran, “tanto na hipótese do ser quanto do não ser, pois as coisas e as aparências de coisas fazem sofrer igualmente.” (“L’indélivré”, Le mauvais démiurge) Isso nada parece ter a ver com o “terrorismo filosófico” de Clément Rosset, cuja lógica desconhece “realidades”, “mundos”, “naturezas”, “ser” que se possa constatar, condenar e negar como sendo “mau”, “decadente”, “imperfeito”, “reprovável”; nada mais alheio ao saber trágico rossetiano que essa “onipresença do Intolerável” de que fala Cioran em Le mauvais démiurge, cuja contrapartida subjetiva seria a “universalidade do tormento”.[7]

Como bem observou Peter Sloterdijk, o pensamento soteriológico da redenção ou da libertação exige, como sua premissa existencial necessária, a existência do mundo em sua pior condição, pois “a fuga de sua escuridão é o único sentido do tempo remanescente. A gnose negra também precisa do mundo escandaloso para fugir dele.” Trata-se do fatalismo gnóstico do último aforismo de Le mauvais démiurge (1969): “Estamos todos no fundo de um inferno no qual cada instante é um milagre.”[8] Permanece a dúvida: estaria Cioran efetivamente convencido dessa “universalidade do tormento” que ele mesmo postula em seu livrinho gnóstico por excelência? Ou, para formular a pergunta de outra forma: esteve ele continuamente consciente dela? A resposta é negativa, pois, como o próprio Cioran teria respondido a dois estudantes andaluzes, após a publicação do Breviário em espanhol,

[…] não estamos despertos e não nos interrogamos o tempo todo, sendo a lucidez absoluta incompatível com a respiração. Se estivéssemos a cada momento, conscientes do que sabemos, se, por exemplo, a sensação da falta de fundamento fosse ao mesmo tempo contínua e intensa, cometeríamos suicídio ou cairíamos na idiotia. Só existimos graças aos momentos em que esquecemos certas verdades e isso porque durante esses intervalos acumulamos a energia que nos permite enfrentar as ditas verdades.

“Relendo…”, Exercícios de admiração (1986)

É somente durante esses intervalos salutares que o trágico, para Cioran, pode ser vivido alegre, ingênua e frivolamente, sem remoê-lo o tempo todo ao ponto de transformá-lo numa trama gnóstica cósmica. Rosset diria que Cioran “duplica” o trágico, ou antes fá-lo dobrar-se sobre si mesmo, de modo a parecer mais “espesso”, como se dotado de uma profundidade obscura e temível. Sendo trágica, a existência acaba sendo trágica demais, e a neutralidade moral-afetiva do acaso se inverte em negatividade diante da necessidade de um “mundo constituído e tenebroso in aeterno” (Rosset).

Cioran flutua, com suas “verdades de temperamento”, entre a negação pessimista, cujo avesso é a afirmação de uma necessidade do pior, e essa louca (alegre) aprovação do acaso, na ausência de toda razão e de todo sentido, como prova de nobreza trágica do espírito. Indícios de uma afirmação trágica em Cioran, tal como propõe Rosset, para além ou aquém de pessimismo e otimismo:

Subitamente, necessidade de demonstrar agradecimento, não apenas aos seres como também aos objetos, à pedra porque é pedra… Tudo parece então animar-se como se fosse para a eternidade. De imediato, inexistir parece inconcebível. Que esses calafrios se produzam, que possam produzir-se, mostra que a última palavra talvez não esteja na Negação.”

Écartèlement

O pessimismo, como ademais o otimismo, é um signo de desequilíbrio mental.

Cahiers : 1957-1972

Lucidamente doente de sua própria consciência do inconveniente de ter nascido, o pensador romeno ressente a necessidade de um remédio para a sua condição intolerável, vindo a esquecê-la em seguida, durante boa parte do tempo, ignorando alegremente as verdades amargas que tornam a vida impraticável. “25 [dezembro de 1965]. Natal. A felicidade como eu a entendo: caminhar no campo e simplesmente observar, esgotar-me na pura percepção.” (Cahiers)


SÁ MENEZES, Rodrigo Inácio R., “Dos males, qual o pior? Acaso trágico e fatalismo gnóstico em Clément Rosset e Emil Cioran”, Portal E.M. Cioran Brasil, 31/08/2021.


NOTAS:

[1] “Duas palavras fundamentais, no texto de Cioran, para delimitar o desígnio da lucidez: ‘dupe’ e ‘éveil’. É preciso evitar o engano, desenganar-se plenamente; tal desengano pleno se chama ‘despertar’, termo cujas ressonâncias místicas e orientais não é necessário sublinhar. Vejamos como são empregadas estas duas expressões na descrição de um dos grandes lúcidos dos nossos tempos, Valéry: saber desmontar o mecanismo de tudo, já que tudo é mecanismo, soma de artifícios, truques, ou, para empregar uma palavra mais honrosa, operações; ocupar-se dos meios, transformar-se em relojoeiro, ver dentro, cessar de estar enganado (cesser d’être dupe), é isto o que conta aos seus olhos. O homem, tal como ele (Valéry) o concebe, só vale por sua capacidade de não-consentimento, pelo grau de lucidez que alcançou. Esta exigência de lucidez fará pensar no grau de despertar (éveil) que supõe toda experiência espiritual, e que será determinado pela resposta que se dará à questão capital: ‘Até onde você foi na percepção da irrealidade?’ (EA).” SAVATER, Fernando, Ensayo sobre Cioran, p. 45-46.

[2] “Estimular as pessoas, arrancá-las do seu sono, sabendo perfeitamente que estamos assim a cometer um crime, e que seria mil vezes preferível deixá-las perseverar nele, visto que assim que acordam nada temos a propor-Ihes…” CIORAN, E. M., Do inconveniente de ter nascido, p. 178.

[3] “O que autoriza muitos pensadores contemporâneos a negar, como Bataille, a universalidade do saber trágico é o fato de que o trágico não fala, ou quase não fala.” ROSSET, Clément, Lógica do pior, p. 35.

[4] Sobre a teoria rossetiana do duplo, enquanto sucedâneo metafísico da realidade nua e crua, cf. O real e seu duplo.

[5] CIORAN, E. M., “Religião”, Silogismos da amargura, p. 73.

[6] IDEM, “L’indélivré”, Le mauvais démiurge, in Œuvres, p. 1124.

[7] Trata-se aqui, segundo Sloterdik, de uma metafísica tornada psicopatologia e pneumatologia: “A fim de compreender as valências terapêuticas da abordagem gnóstica, é recomendável lembrar a situação dos psíquicos da gnose negra. Eles são os enfermos do mundo no sentido pleno da palavra, os misfits do cosmo, que desfrutam das desvantagens do fato de terem nascido até o amargo fim.” SLOTERDIJK, Peter, Pós-Deus, p. 94.

[8] CIORAN, E. M., Le mauvais démiurge, Op. cit., p. 1259.

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