“Pensar contra si pr贸prio” – E.M. Cioran

Um requisit贸rio contra o otimismo new age, a cultura da autoajuda e suas receitas de felicidade, o dogmatismo indulgente e pernicioso ao quais nem os fil贸sofos saberiam escapar: “Pensar contra si pr贸prio” 茅 o texto de abertura de A tenta莽茫o de existir (1956), o terceiro livro de Cioran em l铆ngua francesa ap贸s o fiasco de cr铆tica e de vendas do anterior, Silogismos da amargura (1952). Trata-se de um texto crucial e uma importante chave de compreens茫o, no conjunto de uma obra fragment谩ria e polif么nica, de muitos outros textos (franceses e romenos, como O livro das ilus玫es), aos quais “Pensar contra si pr贸prio” encontra-se ligado por sua tem谩tica e pela problem谩tica que levanta.

Eis o texto integral, extra铆do da edi莽茫o portuguesa de A tenta莽茫o de existir (Rel贸gio D’脕gua, 1988), acompanhado de coment谩rios com aforismos e passagens citados de outros t铆tulos, para mostrar como “Pensar contra si pr贸prio” retoma tem谩ticas e obsess玫es constantes no pensamento de Cioran, muitas das quais j谩 enunciadas em livros como Brevi谩rio e Silogismos, e outras antecipando quest玫es que ser茫o aprofundadas em livros posteriores, como os dois que se seguir茫o a este (Hist贸ria e utopia, de 1960, e La chute dans le temps, de 1964), e tamb茅m o seguinte, Le mauvais d茅miurge (1969), Do inconveniente de ter nascido (1973) e 脡cart猫lement (1979). O t铆tulo mesmo, “Pensar contra si”, prefigura o “N茫o-liberto” (L’ind茅livr茅), de Le mauvais d茅miurge (1969).


PENSAR CONTRA SI PR脫PRIO

E. M. Cioran

Devemos a quase totalidade das nossas descobertas 脿s nossas viol锚ncias, 脿 exacerba莽茫o do nosso desequil铆brio. Mesmo Deus, na medida em que nos intriga, n茫o 茅 no mais 铆ntimo de n贸s que o discernimos, mas antes no limite exterior da nossa febre, no ponto preciso em que, confrontando-se a nossa ira com a sua, se produz um choque, um encontro t茫o ruinoso para Ele como para n贸s. Ferido pela maldi莽茫o que se liga aos actos, o violento s贸 for莽a a sua natureza, s贸 se ultrapassa a si pr贸prio, para a ela regressar, furioso e agressor, seguido pelas suas empresas, que o punem por as ter feito nascer. N茫o h谩 obra que n茫o se volte contra o seu autor: o poema esmagar谩 o poeta, o sistema o fil贸sofo, o acontecimento o homem de ac莽茫o. Destr贸i-se quem, respondendo 脿 sua voca莽茫o e cumprindo-a, se agita no interior da hist贸ria; apenas se salva aquele que sacrifica dons e talentos para, desprendido da sua qualidade de homem, poder repousar no ser. Se aspiro a uma carreira metaf铆sica, n茫o posso por pre莽o algum conservar a minha identidade: terei de liquidar o menor res铆duo que dela possa guardar; se, pelo contr谩rio, escolho a aventura de um papel hist贸rico, a tarefa que me cabe 茅 a de exasperar as minhas faculdades at茅 explodir eu pr贸prio com elas. Perece-se sempre pelo eu que se assume: ter um nome 茅 reivindicar um modo preciso de ru铆na.[1]

Fiel 脿s suas apar锚ncias, o violento n茫o se desencoraja, recome莽a e obstina-se, j谩 que n茫o pode dispensar-se de sofrer. Empenha-se em perder os outros? 脡 o desvio que toma para chegar 脿 sua pr贸pria perda. Sob o seu ar seguro, sob as suas bravatas, esconde-se um apaixonado da desgra莽a. Assim, 茅 entre os violentos que encontramos os inimigos de si pr贸prios. E todos n贸s somos violentos, seres enraivecidos que, tendo perdido a chave da quietude, j谩 s贸 t锚m acesso aos segredos da dilacera莽茫o.

Em vez de deixarmos que o tempo nos triturasse lentamente, preferimos refor莽谩-lo, acrescentar aos seus os nossos instantes. Este tempo recente, enxertado no antigo, este tempo elaborado e projectado, revelaria em breve a sua virul锚ncia: objectivando-se, tornar-se-ia hist贸ria, monstro por n贸s lan莽ado contra n贸s, fatalidade a que 茅 imposs铆vel escapar, ainda que recorrendo 脿s formas da passividade, 脿s receitas da sabedoria.[2]

Tentai uma cura de inefic谩cia; meditar os ensinamentos de mestres tao铆stas, a sua doutrina do abandono, da indiferen莽a, da soberania da aus锚ncia; seguir, imitando o seu exemplo, o percurso da consci锚ncia quando esta deixa de se medir com o mundo e passa a desposar os contornos de todas as coisas, como a 谩gua, elemento que lhes 茅 caro 鈥 por muito que nos esforcemos, nunca o conseguiremos. Os mestres tao铆stas condenam, ao mesmo tempo, a nossa curiosidade e a nossa sede de dores; e nisso se distinguem dos m铆sticos, e especialmente dos da Idade M茅dia, peritos em recomendar-nos as virtudes do burel 谩spero, dos cil铆cios, da ins贸nia, da inani莽茫o e dos gemidos.[3]

芦A vida intensa 茅 contr谩ria ao Tao禄, ensina Lao-Tse, o homem mais normal que alguma vez existiu. Mas o v铆rus crist茫o corr贸i-nos: herdeiros dos flagelantes, 茅 refinando os nossos supl铆cios que tomamos consci锚ncia de n贸s pr贸prios. A religi茫o declina? N贸s perpetuamos as suas extravag芒ncias, do mesmo modo que perpetuamos as macera莽玫es e os gritos das celas de outrora, igualando a nossa vontade de sofrer a dos conventos no tempo do seu florescimento mais vivo. Se a Igreja j谩 n茫o beneficia do monop贸lio do Inferno, nem por isso nos deixou menos presos a uma cadeia de suspiros, ao culto da prova莽茫o, da alegria fulminada e da tristeza jubilosa. A 芦vida intensa, faz-se 脿 custa tanto do esp铆rito como do corpo. Mestres na arte de pensar contra si pr贸prio, Nietzsche, Baudelaire e Dostoievski ensinaram-nos a apostar nos nossos perigos, a alargar a esfera dos nossos males, a ganhar exist锚ncia atrav茅s da divis茫o internado nosso ser. E aquilo que aos olhos do grande chin锚s era s铆mbolo de decad锚ncia, exerc铆cio de imperfei莽茫o, constitui para n贸s a 煤nica modalidade por que nos possu铆mos, por que entramos em contacto connosco pr贸prios.[4]

芦Que o homem nada ame, e ser谩 invulner谩vel禄 (Tchuang-ts茅). M谩xima t茫o profunda como inoperante. Como atingir o apogeu da indiferen莽a quando at茅 a nossa apatia 茅 tens茫o, conflito, agressividade? N茫o h谩 nenhum mestre de sabedoria entre os nossos antepassados, mas sim seres insatisfeitos, caprichosos, fren茅ticos, cujas decep莽玫es ou excessos temos, de uma maneira ou de outra, que continuar. Ainda segundo os nossos chineses, s贸 o esp铆rito desprendido penetra a ess锚ncia do Tao; o apaixonado, esse, s贸 v锚 os seus efeitos: a descida 脿s profundezas exige o sil锚ncio, a suspens茫o das nossas vibra莽玫es ou at茅 das nossas faculdades. Mas n茫o ser谩 revelador que a nossa aspira莽茫o ao absoluto se exprima em termos de actividade, de combate, que um Kierkegaard se intitule 芦cavaleiro da f茅禄 e que Pascal n茫o passe de um panflet谩rio? Atacamos e debatemo-nos; s贸 conhecemos, por conseguinte, os efeitos do Tao. De resto, o fracasso do quietismo, equivalente europeu ao tao铆smo, diz muito acerca das nossas possibilidades e das nossas perspectivas.[5]

A aprendizagem da passividade 鈥 n茫o vejo nada que seja mais contr谩rio aos nossos h谩bitos. (A 茅poca moderna inicia-se com dois hist茅ricos: Dom Quixote e Lutero.) Se fabricamos tempo, se o produzimos, 茅 porque nos repugna a hegemonia da ess锚ncia e a submiss茫o contemplativa que ela pressup玫e.[6] O tao铆smo parece-me conter a primeira e a 煤ltima palavra da sabedoria: sou-lhe, por茅m, refract谩rio, os meus instintos recusam-no, como recusam sofrer seja o que for, a tal ponto pesa sobre n贸s a hereditariedade da rebeli茫o. O nosso mal? S茅culos e s茅culos de aten莽茫o ao tempo, de idolatria do devir. Poderemos libertar-nos delas por um qualquer recurso 脿 China ou 脿 脥ndia?

Existem formas de sabedoria e de liberta莽茫o que n茫o podemos nem apreender por dentro nem transformar na nossa subst芒ncia quotidiana, nem mesmo encerrar numa teoria. A liberta莽茫o, se realmente a quisermos, dever谩 proceder de n贸s: n茫o devemos procur谩-la alhures, num sistema j谩 feito ou numa qualquer doutrina oriental. 脡, todavia, o que frequentemente acontece com muitos esp铆ritos 谩vidos, como costuma dizer-se, de absoluto. Mas a sua sabedoria 茅 uma contrafac莽茫o, a sua liberta莽茫o um logro. N茫o acuso apenas a teosofia e os seus adeptos, mas todos os que se valem de verdades incompat铆veis com a sua natureza.[7] Um certo n煤mero considera a 脥ndia f谩cil, imaginando ter decifrado os seus segredos quando nada a isso os disp玫e, nem o car谩cter, nem a forma莽茫o, nem as inquieta莽玫es. Que prolifera莽茫o de falsos 芦esp铆ritos libertos禄, contemplando-nos do alto da sua salva莽茫o! T锚m boa consci锚ncia; pois n茫o pretendem colocar-se acima dos seus actos? Impostura intoler谩vel. Para mais, visam t茫o alto que toda a religi茫o convencional lhes parece um preconceito de fam铆lia que jamais poderia satisfazer o seu 芦esp铆rito metaf铆sico禄. Fica melhor, sem d煤vida, reclamar-se da 脥ndia. Mas esquecem que esta postula o acordo entre a ideia e o acto, a identidade entre a salva莽茫o e a ren煤ncia. Quando se possui 芦esp铆rito metaf铆sico禄, isso s茫o bagatelas a que se d谩 pouca import芒ncia.[8]

Ap贸s tanta fraude e impostura, 茅 reconfortante contemplar um mendigo. Ele, ao menos, n茫o mente aos outros nem a si pr贸prio: a sua doutrina, se 茅 que a tem, encarna-a; n茫o gosta do trabalho e demonstra-o; como nada deseja possuir, cultiva o seu despojamento, condi莽茫o da sua liberdade. O seu pensamento resolve-se no seu ser, e o seu ser no seu pensamento. Falta-lhe tudo, 茅 ele pr贸prio, dura: viver imediatamente a eternidade 茅 viver apenas um dia de cada vez. Por isso, para ele, os outros s茫o presa da ilus茫o. Se depende deles, vinga-se observando-os, especialista que 茅 do reverso dos sentimentos 芦nobres禄. A sua pregui莽a, de uma qualidade muito rara, faz dele um ser verdadeiramente 芦liberto禄, perdido num mundo de gente tola e iludida. Sabe mais sobre a ren煤ncia do que a maior parte das vossas obras esot茅ricas. Para vos convencerdes disso, basta sairdes 脿 rua鈥 Mas n茫o! Preferias os textos que pregam a mendicidade. Como nenhuma consequ锚ncia pr谩tica acompanha as vossas liberta莽玫es, n茫o 茅 de admirar que o 煤ltimo dos mendigos valha mais do que v贸s: Poderia conceber-se o Buda fiel 脿s suas verdades e aos seus pal谩cios? N茫o se pode ser 芦liberto-vivo禄 e propriet谩rio.[9] Insurjo-me contra a generaliza莽茫o da mentira, contra aqueles que ostentam a sua pretensa 芦salva莽茫o禄 e a esteiam numa doutrina que n茫o emana do fundo do seu ser. Desmascar谩-los, faz锚-los descer do pedestal a que se al莽aram, p贸-los no pelourinho, eis uma campanha a que ningu茅m deveria ficar indiferente. Porque 茅 preciso, a todo o pre莽o, impedir aqueles que t锚m demasiado boa consci锚ncia de viver e morrer em paz.[10]

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Quando por toda a parte v贸s nos opondes 芦o absoluto禄, afectais um arzinho profundo, inacess铆vel, como se vos debat锚sseis, num mundo long铆nquo, com uma luz, com trevas que vos pertencem, a v贸s, senhores de um reino ao qual ningu茅m, para al茅m de v贸s, poder谩 aportar jamais. Dispensais-nos, a n贸s, mortais, alguns peda莽os das grandes descobertas que a铆 acabais de efectuar, alguns restos das vossas prospec莽玫es. Mas nem todos os vossos esfor莽os conseguem que fa莽ais mais do que soltar esse pobre voc谩bulo, fruto das vossas leituras, da vossa douta frivolidade, do vosso nada livresco e das vossas ang煤stias do empr茅stimo.

O absoluto 鈥 todos os nossos esfor莽os se reduzem a minar a sensibilidade que a ele conduz. A nossa sabedoria 鈥 ou antes, a nossa n茫o-sabedoria 鈥 repudia-o; relativista, prop玫e-nos um equil铆brio, n茫o na eternidade, mas no tempo. O absoluto que evolui, essa heresia de Hegel, tornou-se o nosso dogma, a nossa tr谩gica ortodoxia, a filosofia dos nossos reflexos.[11] Quem pensa poder escapar-lhe d谩 mostras de jact芒ncia ou de cegueira. Encurralados na apar锚ncia, cabe-nos a adop莽茫o de uma sabedoria incompleta, mescla de cisma e de arremedo. Se a 脥ndia, para citarmos de novo Hegel, representa 芦o sonho do esp铆rito infinito禄, a tend锚ncia do nosso intelecto, como a da nossa sensibilidade, obriga-nos a conceber o esp铆rito encarnado, limitado aos seus caminhos hist贸ricos, o esp铆rito puro e simples, que n茫o compreende o mundo, mas os momentos do mundo, tempo fragmentado a que s贸 raramente escapamos, quando tra铆mos as nossas apar锚ncias.

A esfera da consci锚ncia reduz-se na ac莽茫o; por isso ningu茅m que aja pode aspirar ao universal, porque agir 茅 agarrar-se 脿s propriedades do ser em detrimento do ser, a uma forma de realidade em preju铆zo da realidade. O grau da nossa emancipa莽茫o mede-se pela quantidade das iniciativas de que nos libert谩mos, bem como pela nossa capacidade de converter em n茫o-objecto todo o objecto. Mas nada significa falar de emancipa莽茫o a prop贸sito de uma humanidade apressada que se esqueceu de que n茫o 茅 poss铆vel reconquistar a vida nem goz谩-la sem primeiro a ter abolido.[12]

Respiramos demasiado depressa para sermos capazes de captar as coisas em si pr贸prias ou de denunciar a sua fragilidade. O nosso ofegar postula-as e deforma-as, cria-as e desfigura-as, e amarra-nos a elas. Agito-me e portanto emito um mundo t茫o suspeito como a minha especula莽茫o, que o justifica, adopto o movimento que me transforma em gerador de ser, em artes茫o de fic莽玫es, ao mesmo tempo que a minha veia cosmog贸nica me faz esquecer que, arrastado pelo turbilh茫o dos actos, n茫o passo de um ac贸lito do tempo, de um agente de universos caducos.[13]

Empanturrados de sensa莽玫es e do seu corol谩rio, o devir, somos seres n茫o libertos,[14] por inclina莽茫o e por princ铆pio, condenados de elei莽茫o, presas da febre do vis铆vel, pesquisadores desses enigmas de superf铆cie que est茫o 脿 altura do nosso des芒nimo e da nossa trepida莽茫o.

Se queremos recuperar a nossa liberdade, devemos pousar o fardo da sensa莽茫o, deixar de reagir ao mundo atrav茅s dos sentidos, romper os nossos la莽os. Ora, toda a sensa莽茫o 茅 um la莽o, tanto o prazer como a dor, tanto a alegria como a tristeza. S贸 se liberta o esp铆rito que, puro de toda a conviv锚ncia com seres ou com objectos, se aplica 脿 sua vacuidade. Resistir 脿 sua felicidade 茅 coisa que a maioria consegue; a infelicidade, no entanto, 茅 muito mais insidiosa. J谩 a prov谩steis? Jamais vos sentireis saciados, procur谩-la-eis com avidez e de prefer锚ncia nos lugares onde ela n茫o se encontra, mas project谩-la-eis neles, porque, sem ela, tudo vos pareceria in煤til e ba莽o. Onde quer que a infelicidade se encontre, expulsa o mist茅rio ou torna-o luminoso. Sabor e chave das coisas, acidente e obsess茫o, capricho e necessidade, far-vos-谩 amar a apar锚ncia no que ela tem de mais poderoso, de mais duradouro e de mais verdadeiro, e amarrar-vos-谩 para sempre porque, 芦intensa禄 por natureza, 茅, como toda a 芦intensidade禄, servid茫o, sujei莽茫o. A alma indiferente e nula, a alma desentravada 鈥 como chegar a ela? E como conquistar a aus锚ncia, a liberdade da aus锚ncia? Tal liberdade jamais figurar谩 entre os nossos costumes, tal como neles n茫o figurar谩 芦o sonho do esp铆rito infinito禄.

Para nos identificarmos com uma doutrina vinda de longe, seria necess谩rio que a despos谩ssemos sem restri莽玫es: de que serve aceitar as verdades do budismo se rejeitamos a transmigra莽茫o, base da ideia de ren煤ncia? Para qu锚 subscrever o Vedanta, aceitar a concep莽茫o da irrealidade das coisas, se nos comportamos como se elas existissem?[15] Inconsequ锚ncia inevit谩vel para todo o esp铆rito educado no culto dos fen贸menos. Ora, 茅 preciso confess谩-lo: temos o fen贸meno no sangue.[16] Podemos desprez谩-lo ou aborrec锚-lo, nem por isso ele deixa de constituir o nosso patrim贸nio, o nosso capital de esgares, o s铆mbolo da nossa crispa莽茫o neste mundo. Ra莽a de convulsion谩rios, no centro de uma farsa de propor莽玫es c贸smicas, imprimimos ao universo os estigmas da nossa hist贸ria, e para sempre seremos incapazes dessa ilumina莽茫o que convida a perecer tranquilamente. Foi pelas nossas obras, e n茫o pelos nossos sil锚ncios, que escolhemos desaparecer: o nosso futuro l锚-se no riso grosseiro dos nossos rostos, nas nossas fisionomias de profetas acabrunhados e activos. O sorriso do Buda, esse sorriso que paira sobre o mundo, n茫o ilumina as nossas faces. Quando muito, concebemos a felicidade; nunca a bem-aventuran莽a, apan谩gio, de civiliza莽玫es assentes na ideia de salva莽茫o, na recusa de saborear os seus males, de neles se comprazer; mas, sibaritas da dor, rebentos de uma tradi莽茫o masochista, qual de n贸s hesitaria entre o serm茫o de Benares e o Heautontimor煤meno?[17] 芦Sou a ferida e o punhal禄, eis o nosso absoluto, a nossa eternidade.

Quanto aos nossos redentores, vindos at茅 n贸s para nosso maior dano, amamos a nocividade das suas esperan莽as e dos seus rem茅dios, a precipita莽茫o com que favorecem e exaltam os nossos males, o veneno que em n贸s infundem as suas palavras de vida.[18] Devemos-lhes o facto de sermos mestres no sofrimento sem sa铆da. A que tenta莽玫es, a que extremos nos conduz a lucidez! Abandon谩-la-emos para nos refugiarmos na inconsci锚ncia? Qualquer pessoa pode salvar-se por meio do sono qualquer pessoa tem g茅nio quando dorme: n茫o h谩 a menor diferen莽a entre os sonhos de um carniceiro e os sonhos de um poeta.[19] Mas a nossa clarivid锚ncia n茫o pode tolerar que semelhante maravilha seja duradoura, nem que a inspira莽茫o fique assim ao alcance de todos: o dia arrebata-nos os dons que a noite nos concede. S贸 o louco possui o privil茅gio de passar sem barreiras da exist锚ncia nocturna para a exist锚ncia diurna: n茫o h谩 qualquer distin莽茫o entre os seus sonhos e a sua vig铆lia. Renunciou 脿 nossa raz茫o como o mendigo aos nossos bens. Um e outro descobriram o caminho que leva para l谩 do sofrimento, um e outro resolveram todos os nossos problemas; por isso permanecem como modelos que n茫o podemos seguir, salvadores sem adeptos.

Ao mesmo tempo que remexemos nos nossos males, os dos outros n茫o deixam de nos interpelar. Na 茅poca das biografias, ningu茅m pode encobrir as suas chagas sem que tentemos descobri-las e p么-las 脿 luz do dia; quando n茫o conseguimos faz锚-lo, afastamo-nos cheios de decep莽茫o. E mesmo aquele que acabou na cruz n茫o 茅 de maneira alguma por ter sofrido por n贸s que ainda conta aos nossos olhos, mas simplesmente por ter sofrido e soltado alguns gritos t茫o profundos quanto gratuitos. Porque aquilo que veneramos nos nossos deuses s茫o as nossas derrotas embelezadas.

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Entregues a formas degradadas de sabedoria, doentes da dura莽茫o, em luta com essa enfermidade que nos repugna tanto como nos seduz, em luta com o tempo, somos constitu铆dos de elementos que concorrem todos eles para fazer de n贸s rebeldes divididos entre um apelo m铆stico que n茫o tem qualquer liga莽茫o 脿 Hist贸ria e um sonho sanguin谩rio que 茅 o s铆mbolo e o halo desse apelo. Se tiv茅ssemos um mundo nosso, pouco importaria que fosse o da piedade ou o do sarcasmo. Nunca o teremos, porque a nossa posi莽茫o na exist锚ncia se situa na encruzilhada entre as nossas s煤plicas e os nossos esc谩rnios, zona de impureza onde os suspiros e as provoca莽玫es se misturam. Quem 茅 demasiado l煤cido para adorar ser谩 tamb茅m demasiado l煤cido para demolir, ou demolir谩 apenas as suas鈥 revoltas; pois de que serve revoltarmo-nos para redescobrirmos depois o universo intacto? Mon贸logo irris贸rio. Insurgimo-nos contra a justi莽a e a injusti莽a, contra a paz e a guerra, contra os nossos semelhantes e contra os deuses. Depois, acabamos por pensar que o mais senil de entre os homens talvez seja mais s谩bio do que Prometeu. No entanto, n茫o conseguimos abafar dentro de n贸s uni grito insurreccional, e continuamos a bradar acerca de tudo e nada: automatismo miser谩vel que explica porque somos todos Luc铆feres de estat铆stica.[20]

Contaminados pela supersti莽茫o do acto, cremos que as nossas ideias devem resultar. Que haver谩 de mais contr谩rio 脿 contempla莽茫o passiva do mundo? Mas 茅 o nosso destino: sermos incur谩veis que protestam, panflet谩rios prostrados.[21]

Os nossos conhecimentos, bem como as nossas experi锚ncias, deveriam ter por efeito paralisar-nos e tornar-nos indulgentes para com a pr贸pria tirania, a partir do momento em que esta representa uma constante. Somos clarividentes o bastante para nos sentirmos tentados a depor as armas; no entanto, o reflexo da rebeli茫o triunfa das nossas d煤vidas; e embora possamos agir como est贸icos consumados, o anarquista permanece 脿 espreita em n贸s, opondo-se 脿s nossas resigna莽玫es.[22]

芦Nunca aceitaremos a Hist贸ria禄, tal me parece ser a divisa da nossa impot锚ncia para sermos verdadeiros s谩bios ou verdadeiros loucos. Seremos comediantes da sabedoria e da loucura? Fa莽amos o que fizermos, estamos condenados, no que se refere aos nossos actos, a uma insinceridade profunda.[23]

脡 perfeitamente claro que um crente se identifica at茅 certo ponto com o que faz e com o que cr锚; nele n茫o existe dist芒ncia de monta entre a sua lucidez, por um lado, e as suas ac莽玫es e pensamentos, por outro. Esta dist芒ncia cresce desmesuradamente no falso crente, naquele que exibe convic莽玫es sem a elas aderir. O objecto da sua f茅 茅 um suced芒neo. 脡 preciso diz锚-lo sem rodeios: a minha revolta 茅 uma f茅 que subscrevo sem nela acreditar. Mas n茫o posso deixar de a subscrever. Nunca meditaremos o bastante nas palavras de Kirilov sobre Stavroguine: 芦Quando acredita, n茫o acredita que acredita; quando n茫o acredita, n茫o acredita que n茫o acredita.禄

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Mais ainda do que o estilo, o pr贸prio ritmo da nossa vida assenta na honorabilidade da revolta. Repugnando-nos admitir a identidade universal, afirmamos a individua莽茫o, a heterogeneidade, como fen贸meno primordial. Ora, revoltarmo-nos 茅 postular essa heterogeneidade. conceb锚-la de algum modo como anterior ao advento dos seres e dos objectos. Se oponho a Unidade, s贸 ela ver铆dica. 脿 multiplicidade, necessariamente enganadora, se, noutros termos. assimilo o outro a um fantasma, a minha revolta torna-se vazia de sentido, essa revolta que. para existir, tem de partir da irredutibilidade dos indiv铆duos, da sua condi莽茫o de n贸madas, de ess锚ncias circunscritas. Todo o acto institui e reabilita a pluralidade, e, conferindo 脿 pessoa realidade e autonomia, reconhece implicitamente a degrada莽茫o, a fragmenta莽茫o do absoluto. E 茅 dele, do acto, e do culto que lhe 茅 dedicado, que procede a tens茫o do nosso esp铆rito, bem como essa necessidade de explodirmos e nos destruirmos no cerne da dura莽茫o. A filosofia moderna, ao instaurar a supersti莽茫o do Eu, tornou-o a mola real dos nossos dramas e o eixo das nossas inquieta莽玫es. Chorar o repouso da indistin莽茫o, o sonho neutro da exist锚ncia sem qualidades, de nada serve; quisemo-nos sujeitos, e todo o sujeito 茅 ruptura com a quietude da Unidade. Quem se disponha a atenuar a nossa solid茫o ou as nossas dilacera莽玫es age contra os nossos interesses e contra a nossa voca莽茫o. Medimos o valor do indiv铆duo pela soma dos seus desacordos com as coisas, pela sua incapacidade de ser indiferente, pela sua recusa de tender para o objecto. Da铆 a deprecia莽茫o da ideia de Bem, da铆 a voga do Diabo.

Enquanto viv铆amos no meio de terrores elegantes, acomod谩vamo-nos muito bem a Deus. Quando outros terrores, mais s贸rdidos porque mais profundos, nos invadiram pass谩mos a precisar de outro sistema de refer锚ncias, de outro patrono. O Diabo era a figura ideal. Tudo nele concorda com a, natureza dos acontecimentos de que 茅 agente, princ铆pio regulador: os seus atributos coincidem com os do tempo. Enderecemos-lhe portanto as nossas preces, porque, longe de ser um produto da nossa subjectividade, uma cria莽茫o da nossa necessidade de blasf茅mia ou de solid茫o, ele 茅 o senhor das nossas interroga莽玫es e dos nossos p芒nicos, o instigador dos nossos desvarios.[24] Aos seus protestos, 脿s suas viol锚ncias, n茫o falta o equ铆voco: este 芦Muito Triste禄 茅 um rebelde que duvida. Se fosse simples, todo de uma s贸 pe莽a, n茫o nos tocaria; mas os seus paradoxos, as suas contradi莽玫es s茫o os nossos: acumula as nossas impossibilidades, serve de modelo 脿s nossas revoltas contra n贸s pr贸prios, ao nosso 贸dio por n贸s pr贸prios. A f贸rmula do Inferno? 脡 nesta forma de revolta e de 贸dio que devemos procur谩-la, no supl铆cio do orgulho destronado, nessa sensa莽茫o de sermos uma terr铆vel quantidade negligenci谩vel, nos tormentos do 芦eu禄, desse 芦eu禄 pelo qual come莽a o nosso fim鈥[25]

De todas as fic莽玫es, a da Idade de Ouro 茅 a que mais nos perturba: como p么de ela aflorar nas imagina莽玫es? E foi para a denunciar e por hostilidade contra ela que a Hist贸ria, agress茫o do homem contra si pr贸prio, ganhou alento e f么rma; de modo que consagrar-se 脿 Hist贸ria 茅 aprender a insurgir-se, a imitar o Diabo. Nunca a imitamos t茫o bem como quando, 脿 custa do nosso ser, emitimos tempo, projectamos o tempo no exterior e o deixamos converter-se em acontecimento. 芦Doravante n茫o haver谩 tempo禄: esse metaf铆sico improvisado que 茅 o Anjo do Apocalipse anuncia assim a fim do Diabo, o fim da Hist贸ria. Por isso os m铆sticos tem raz茫o quando procuram Deus em si pr贸prios ou em qualquer outro lugar que n茫o seja este mundo do qual fazem t谩bua rasa sem no entanto se rebaixarem 脿 revolta. Saltam para fora do s茅culo: loucura de que n贸s, cativos da dura莽茫o, raramente somos suscept铆veis. Se ao menos f么ssemos t茫o dignos do Diabo como eles de Deus!

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Que a rebeli茫o goze de uma honorabilidade indevida, basta para disso nos persuadirmos reflectir no modo como s茫o qualificados os esp铆ritos que lhe n茫o s茫o propensos. Chamamos-lhes frouxos. 脡 quase certo que estamos fechadas a todas as formas de sabedoria, porque vemos nelas apenas uma frouxid茫o transfigurada. Por muito injusta que seja semelhante reac莽茫o, n茫o posso impedir-me de a ter a prop贸sito do pr贸prio tao铆smo. Embora saiba que ele recomenda o apagamento e o abandono em nome do absoluto e n茫o da cobardia, recuso-o no preciso momento em que julgo t锚-lo adoptado; e apesar de dar mil vezes raz茫o a Lao-Ts茅, compreendo melhor um assassino. Entre a serenidade e o sangue, 茅 para o sangue que 茅 natural inclinarmo-nos. O assass铆nio pressup玫e e coroa a revolta: aquele que ignora o desejo de matar poder谩 professar opini玫es subversivas, por茅m nunca passar谩 de um conformista.

Sabedoria e rebeli茫o: dois venenos. Incapazes de os assimilarmos ingenuamente, n茫o encontramos nem numa nem noutra uma f贸rmula de salva莽茫o. N茫o deixa de ser verdade que, na aventura luciferina, adquirimos uma mestria que jamais possuiremos na sabedoria: Para n贸s, a pr贸pria percep莽茫o 茅 sobressalto, come莽o de transe ou de apoplexia.[26] Perda de energia, vontade de gastar as nossas disponibilidades. Insurgir-se perante todas as coisas comporta uma irrever锚ncia para consigo pr贸prio, para com as pr贸prias for莽as. Onde ir铆amos buscar for莽as para a contempla莽茫o, essa despesa est谩tica, essa concentra莽茫o na imobilidade? Deixar as coisas na mesma, olh谩-las sem as querer moldar, apreender a sua ess锚ncia, nada de mais hostil 脿 orienta莽茫o do nosso pensamento; aspiramos, pelo contr谩rio, a dar-lhes forma, a tortur谩-las, a emprestar-lhes as nossas raivas. E assim deve ser: id贸latras do gesto, do jogo e do del铆rio, amamos os que arriscam tudo, tanto na poesia como na filosofia. Tao Te King vai mais longe do que Une saison en enfer ou Ecce Homo.[27] Mas Lao-Ts茅 n茫o nos prop玫e qualquer vertigem, enquanto Rimbaud e Nietzsche, acrobatas que se debatem no extremo limite de si pr贸prios, nos convidam para os seus perigos. S贸 nos seduzem os esp铆ritos que se destru铆ram por terem querido dar um sentido 脿 sua vida.

*

N茫o h谩 sa铆da para aquele que, ao mesmo tempo, ultrapassa o tempo e nele se atola, que atinge por entre sobressaltos a sua 煤ltima solid茫o e, por茅m, se afunda na apar锚ncia. Indeciso, dividido, arrastar-se-谩 como doente da dura莽茫o, exposto simultaneamente 脿s atrac莽玫es do devir e do intemporal. Se, a crermos em Mestre Eckhart, existe um 芦odor禄 do tempo, por maioria de raz茫o dever谩 existir um 芦odor禄 da hist贸ria. Como ser-lhe insens铆vel? Num plano mais imediato, distingo a ilus茫o, a nulidade, a podrid茫o da 芦civiliza莽茫o禄; sinto-me, por茅m, solid谩rio dessa podrid茫o; sou o fan谩tico de uma carca莽a apodrecida.[28] Acuso o nosso s茅culo de nos ter subjugado ao ponto de continuar a assombrar-nos precisamente no momento em que dele nos afastamos. Nada de vi谩vel pode nascer de uma medita莽茫o de circunst芒ncia, de uma reflex茫o sobre o acontecimento. Noutras idades mais felizes, os esp铆ritos podiam delirar livremente, como se n茫o pertencessem a 茅poca alguma, emancipados que estavam do terror da cronologia,[29] abismados num momento do mundo que, para eles, se confundia com o pr贸prio mundo. Sem se preocuparem com a relatividade da sua obra, consagravam-se-lhe inteiramente. Estupidez genial, para sempre passada, exalta莽茫o fecunda que a consci锚ncia dividida em nada comprometia. Adivinhar ainda o intemporal e saber, por茅m, que somos tempo, que produzimos tempo, conceber a ideia de eternidade e acarinhar o nosso nada; irris茫o de onde emergem tanto as nossas rebeli玫es como as d煤vidas que alimentamos acerca delas.[30]

Procurar o sofrimento para evitar a reden莽茫o, seguir ao contr谩rio o caminho da liberta莽茫o, tal 茅 o nosso contributo em mat茅ria de religi茫o: iluminados biliosos, budas e cristos hostis 脿 salva莽茫o, pregando aos miser谩veis os encantos da sua desgra莽a. Ra莽a superficial, se quiserem. Mas n茫o deixa de ser verdade que o nosso primeiro antepassado s贸 nos deixou por heran莽a o horror ao Para铆so. Ao dar um nome 脿s coisas, preparava a sua e a nossa queda. Se quisermos remedi谩-la, teremos de come莽ar por desbaptizar o universo, por retirar a etiqueta que, posta em cada apar锚ncia, a eleva e lhe empresta um simulacro de sentido. Entretanto, tudo em n贸s, at茅 as c茅lulas nervosas, sente repulsa pelo Para铆so. Sofrer: 煤nica modalidade de aquisi莽茫o da sensa莽茫o de existir; existir: 煤nico modo de salvaguardarmos a nossa perda. E assim ser谩 at茅 que uma cura de eternidade nos desintoxique do devir, enquanto n茫o nos aproximarmos desse estado no qual, segundo um budista chin锚s, ao instante vale dez mil anos禄.

*

Se o absoluto corresponde a um sentido que n茫o soubemos cultivar, entreguemo-nos a todas as rebeli玫es: elas acabar茫o por se voltar contra si pr贸prias, contra n贸s pr贸prios鈥 Talvez recuperemos, ent茫o, a nossa supremacia sobre o tempo; a menos que, no extremo oposto, e querendo escapar 脿 calamidade da consci锚ncia, nos juntemos aos animais, 脿s plantas e aos objectos, e a essa estupidez primordial de que, por culpa da Hist贸ria, perdemos at茅 mesmo a recorda莽茫o.


CIORAN, E. M., “Pensar contra si pr贸prio”, A tenta莽茫o de existir. Trad. de Miguel Serras Pereira e Ana Luisa Faria. Lisboa: Rel贸gio D’脕gua, 1988.


NOTAS E COMENT脕RIOS:

[1] No Brevi谩rio j谩 se encontra o leitmotif da dessubjetiva莽茫o ou esvaziamento eg贸ico da subjetividade (dissolu莽茫o do 鈥渆u鈥), de onde a lucidez como um estado negativo de 鈥渘茫o-subjetividade鈥 e sobretudo de 鈥渘茫o-identidade鈥 (o que parece aproxim谩-la do Tao铆smo e do Budismo). 鈥淥utrora tive um 鈥榚u鈥; agora sou apenas um objeto… Empanturro-me de todas as drogas da solid茫o; as do mundo foram fracas demais para me fazer esquec锚-lo. Tendo matado o profeta em mim, como terei ainda um lugar entre os homens? […] Quem n茫o admite sua nulidade 茅 um doente mental. E o crente, entre todos, 茅 o menos disposto a consentir. A vontade de durar, levada at茅 tal ponto, apavora-me. Recuso-me 脿 sedu莽茫o mals茫 de um Eu indefinido. Quero chafurdar-me em minha mortalidade. Quero permanecer normal.鈥 Um pouco adiante, em 鈥淧ensar contra si pr贸prio鈥, Lao-Tse ser谩 evocado como o modelo do 鈥渉omem mais normal que alguma vez existiu鈥.

[2] Esta reflex茫o cr铆tica sobre o problema metaf铆sico do tempo na economia da exist锚ncia humana (autoconsciente) antecipa Hist贸ria e utopia (1960) e La chute dans le temps (1964), os dois livros seguintes 脿 Tenta莽茫o de existir. Ainda pr贸ximo de sua fase inicial como escritor franc锚s, inaugurada pelo Brevi谩rio de decomposi莽茫o e marcada por esse 鈥渙rgulho da incurabilidade鈥 de que fala Sloterdijk (P贸s-Deus), pelo orgulho luciferino de estar ca铆do e desconsolado (e hiperconsciente disso), 鈥淧ensar contra si pr贸prio鈥 茅 um texto de transi莽茫o entre a 鈥渄ecomposi莽茫o鈥 do Brevi谩rio e posteriores ensaios de cunho 鈥渟oteriol贸gico鈥 e 鈥渟apiencial鈥, nos quais Cioran esbo莽ar谩 uma teoria (a meio caminho entre a heresia gn贸stica e o budismo) da 鈥渓iberta莽茫o鈥 (d茅livrance) tal como ele a concebe (notadamente, os dois ensaios de Le mauvais d茅miurge, 鈥淧aleontologia鈥 e 鈥淥 n茫o-liberto鈥). O motivo das receitas de sabedoria ser谩 retomado no livro de 1964, para reafirmar a constata莽茫o desfavor谩vel sobre a situa莽茫o do Ocidente moderno: 鈥淪em necessidade de buscar receitas de sabedoria nos esgotos, como n茫o reconhecer a vantagem da ratazana sobre n贸s, justamente porque 茅 uma ratazana e nada mais?鈥 A cr铆tica da idolatria do devir e da hist贸ria, cujos 鈥渙dores鈥 seriam, segundo Cioran, leitor de Eckhart, insuportavelmente f茅tidos, tamb茅m antecipa grande parte de 脡cart猫lement (鈥淎p贸s a hist贸ria鈥 e 鈥淯rg锚ncia do pior鈥, por exemplo). O gnosticismo latente em 鈥淧ensar contra si pr贸prio鈥 se evidenciar谩 progressivamente nos livros seguintes (a partir de Hist贸ria e Utopia), particularmente no que tange a problem谩tica existencial do tempo, da finitude e do ser-para-a-morte. Essa vincula莽茫o direta e necess谩ria entre pessimismo metaf铆sico voltado para o problema da conting锚ncia do mundo submetido ao devir, por um lado, e as doutrinas gn贸sticas da Antiguidade tardia, por outro, 茅 corroborada por Cioran em seus livros e, al茅m deles, em muitas entrevistas, como a concedida a Sylvie Jaudeau (Sulina, 2001).

[3] Esta f贸rmula t茫o idiossincr谩tica, 鈥渃ura de inefic谩cia鈥, 茅 um paradoxo cuja ironia remete ao paradoxo da f贸rmula-t铆tulo do ensaio: 鈥淧ensar contra si pr贸prio鈥 茅 como Cioran pretende exprimir-se equivocamente para os seus leitores e interlocutores ocidentais, sabendo que ser谩 interpretado de maneira equ铆voca. 鈥淧ensar contra si pr贸prio鈥 茅 a 煤nica maneira sincera e ir么nica de comunicar e de fazer entender, na linguagem pr贸pria do Ocidente moderno, o que significa 鈥渟alva莽茫o鈥, 鈥渞eden莽茫o鈥, 鈥渓iberta莽茫o鈥. Aqui, como se verificar谩 logo adiante, Cioran se insurge abertamente contra a teosofia e movimentos adjacentes, como o tradicionalismo, com suas 鈥渧erdades perenes鈥, com sua injustific谩vel certeza de uma ordem espiritual eterna, verdadeira e reguladora, para al茅m da impureza do mundo imanente, dessa mistura do que n茫o 茅 e do que parece ser. N茫o surpreende, portanto, que Lao-Tse e Tchuang-ts茅 sejam evocados, al茅m do Buda, ou seja, o Tao铆smo e o Budismo como modelos de uma forma de realiza莽茫o desconhecida da cultura ocidental.

[4] 鈥淪e Nietzsche, Proust, Baudelaire ou Rimbaud sobrevivem 脿s flutua莽玫es da moda, devem isso 脿 gratuidade de sua crueldade, 脿 sua cirurgia demon铆aca, 脿 generosidade de seu fel. O que faz durar uma obra, o que a impede de envelhecer 茅 sua ferocidade. Afirma莽茫o gratuita? Considere o prest铆gio do Evangelho, livro agressivo, livro venenoso entre todos.鈥 (Silogismos da amargura)

[5] Cioran afirma retoricamente algo que contradiz suas mais profundas e sinceras paix玫es: o jansenista Pascal como nada mais que um 鈥減anflet谩rio鈥. Sobre Kierkegaard, paralelamente a Nietzsche, cf. 鈥淎s verdades de temperamento鈥, no Brevi谩rio de decomposi莽茫o.

[6] Sobre essa (opressiva, insuport谩vel) 鈥渉egemonia da ess锚ncia鈥, em oposi莽茫o ao 鈥済osto (ou paix茫o) das ilus玫es鈥, cf. O livro das ilus玫es.

[7] 鈥淓, de fato, as conjunturas modernas da gnose seguem as trilhas 鈥 e as modas 鈥 das interpreta莽玫es do mundo e autointerpreta莽玫es atuais; como isso vale para a teologia processual de Hegel e os ensinamentos de Heidegger sobre a queda no mundo e apropria莽茫o se evidencia nitidamente nas proje莽玫es iluminadas de Baur e Jonas; isso se aplica tamb茅m 脿s outras correntes do pensamento mais recente, nas quais ocorreram renascimentos do interesse pela gnose dos mais variados tipos. Quando Helena P. Blavatsky, ap贸s 1870, escreveu sua Isis unveiled embriagada de mist茅rios, ela ocupou a velha express茫o 鈥榞nose鈥 com as ambi莽玫es de uma teosofia moderna; desde ent茫o, 鈥榞nose鈥 representa a tend锚ncia de c铆rculos ocultos de traduzir coisas outrora esot茅ricas para a linguagem exot茅rica da forma mais direta. A antroposofia de Steiner acatou o exemplo teos贸fico; boa parte da produ莽茫o de Rudolf Steiner dos anos 1903 a 19080 foi publicada em revistas chamadas Luzifer e Luzifer-Gnosis.鈥 SLOTERDIJK, Peter, P贸s-Deus, p. 69-70. Em Cioran descobrimos, pelo contr谩rio, uma verve radicalmente anti-esot茅rica obstinada a esvaziar os fen么menos de todo 鈥渕ist茅rio鈥: De tanto acumular mist茅rios nulos e monopolizar o sem-sentido, a vida inspira mais pavor do que a morte: 茅 ela a grande Desconhecida. […] Eis por que os Mist茅rios antigos, pretensas revela莽玫es dos segredos 煤ltimos, n茫o nos legaram nada em mat茅ria de conhecimento. Sem d煤vida, os iniciados estavam obrigados a n茫o transmitir nada. No entanto, 茅 inconceb铆vel que em t茫o grande n煤mero n茫o se tenha encontrado um s贸 tagarela; o que h谩 de mais contr谩rio 脿 natureza humana que tal obstina莽茫o no segredo? O que acontece 茅 que n茫o havia segredos; havia ritos e estremecimentos. Uma vez afastados os v茅us, o que podiam descobrir sen茫o abismos sem import芒ncia? S贸 h谩 inicia莽茫o ao nada 鈥 e ao rid铆culo de estar vivo. […] Repisar o 鈥榩orqu锚鈥 e o 鈥榗omo鈥; remontar a todo instante at茅 a causa 鈥 e a todas as causas 鈥 denota uma desordem das fun莽玫es e das faculdades, que acaba em 鈥榙el铆rio metaf铆sico鈥, caducidade do abismo, degringolada da ang煤stia, 煤ltima fealdade dos mist茅rios…鈥

[8] Cioran parece esquecer-se de que ele mesmo incorre, n茫o raras vezes, na 鈥渋mpostura鈥 de recha莽ar a 鈥渞eligi茫o tradicional鈥, como um 鈥渆sp铆rito metaf铆sico鈥 que prefere mil vezes o Budismo 脿 religi茫o da sua fam铆lia e do seu pai, sacerdote crist茫o ortodoxo. Apenas um livro antes: 鈥淗谩 tantos anos que me descristianizo a olhos vistos!鈥 (Silogismos da amargura)

[9] 鈥淥 mais louv谩vel nas utopias 茅 haver denunciado os danos que causa a propriedade, o horror que representa, as calamidades que provoca. Pequeno ou grande, o propriet谩rio est谩 contaminado, corrompido em sua ess锚ncia: sua corrup莽茫o recai sobre o menor objeto que toca ou de que se apropria. Se amea莽am sua fortuna, se o despojam dela, ser谩 obrigado a uma tomada de consci锚ncia da qual normalmente 茅 incapaz. Para readquirir uma apar锚ncia humana, para recuperar sua 鈥渁lma鈥, 茅 preciso que o propriet谩rio se veja arruinado e que consinta em sua ru铆na. A revolu莽茫o o ajudar谩. Devolvendo-o 脿 sua nudez primitiva, ela o aniquila no imediato e o salva no absoluto, pois liberta 鈥 interiormente, bem entendido 鈥 aqueles mesmos que atinge em primeiro lugar: os que possuem bens e riquezas; ela os reclassifica, lhes devolve sua antiga dimens茫o e os traz de volta para os valores que tra铆ram.鈥 (Hist贸ria e utopia)

[10] 鈥淪e demolimos as certezas, n茫o 茅 por escr煤pulo te贸rico ou por jogo, mas pelo furor de v锚-las desaparecer, por desejo tamb茅m de que n茫o perten莽am a ningu茅m j谩 que n茫o as possu铆mos mais. E a verdade, com que direito a possuiriam os outros? Por que injusti莽a se revelaria 脿queles que valem menos do que n贸s? Penaram por ela? Velaram para merec锚-la? Enquanto que n贸s nos esfalfamos em v茫o para alcan莽ar a verdade, outros se pavoneiam com ela como se lhes estivesse reservada por um des铆gnio da provid锚ncia. A verdade, no entanto, n茫o 茅 seu patrim么nio, e, para impedir que a reivindiquem, os persuadimos de que, quando julgam possu铆-la, trata-se na realidade de uma fic莽茫o. Para colocar a salvo nossa consci锚ncia, gostamos de descobrir neles ostenta莽茫o e arrog芒ncia, o que nos permite perturb谩-los sem remorsos e, ao inocular-lhes nossos assombros, torn谩-los t茫o vulner谩veis e infelizes quanto n贸s mesmos. O ceticismo 茅 o sadismo das almas atormentadas.鈥 (Hist贸ria e Utopia)

[11] O motivo do 鈥渁bsoluto que faz progresso na hist贸ria鈥, de onde o injustific谩vel otimismo hist贸rico de Hegel, segundo Cioran, j谩 aparece no Brevi谩rio: 鈥淗egel 茅 o grande respons谩vel pelo otimismo moderno. Como n茫o viu que a consci锚ncia muda somente de forma e de modalidade, mas n茫o progride em nada? O devir exclui uma realiza莽茫o absoluta, uma meta: a aventura temporal desenrola-se sem um objetivo exterior a ela, e acabar谩 quando suas possibilidades de caminhar tenham-se esgotado. O grau de consci锚ncia varia com as 茅pocas, sem que a dita consci锚ncia aumente com sua sucess茫o. N茫o somos mais conscientes do que o mundo greco-romano, o Renascimento ou o s茅culo XVIII; cada 茅poca 茅 perfeita em si mesma, e perec铆vel. H谩 momentos privilegiados em que a consci锚ncia se exaspera, mas jamais houve eclipse de lucidez tal que o homem fosse incapaz de abordar os problemas essenciais, pois a hist贸ria 茅 apenas uma perp茅tua crise, uma quebra da ingenuidade. Os estados negativos 鈥 que s茫o precisamente os que exasperam a consci锚ncia 鈥 distribuem-se diversamente, contudo, est茫o presentes em todos os per铆odos hist贸ricos; se s茫o equilibrados e 鈥榝elizes鈥, conhecem o t茅dio 鈥 t茅rmino natural da felicidade; se descentrados e tumultuosos, sofrem o Desespero, e as crises religiosas que dele derivam. A ideia de Para铆so terrestre foi composta com todos os elementos incompat铆veis com a Hist贸ria, com o espa莽o onde florescem os estados negativos.鈥

[12] 鈥淧ara que pud茅ssemos conservar a f茅 em n贸s e nos outros, e para que n茫o perceb锚ssemos o car谩ter ilus贸rio, a nulidade de todo ato, a natureza nos fez opacos a n贸s mesmos, sujeitos a uma cegueira que gera o mundo e o governa. Se realiz谩ssemos uma investiga莽茫o exaustiva sobre n贸s mesmos, o nojo nos paralisaria e nos condenaria a uma exist锚ncia sem proveito. A incompatibilidade entre o ato e o conhecimento de si mesmo parece ter escapado a S贸crates; sem isto, na sua qualidade de pedagogo, de c煤mplice do homem, teria ousado adotar o lema do or谩culo com todos os abismos de ren煤ncia que sup玫e e aos quais nos convida?鈥 (Hist贸ria e Utopia)

[13] 鈥淎 vida se cria no del铆rio e se desfaz no t茅dio.鈥 (Brevi谩rio de decomposi莽茫o)

[14] 鈥淣on-d茅livr茅s鈥, prenunciando L鈥檌nd茅livr茅, um dos textos de Le mauvais d茅miurge.

[15] O tema da irrealidade (e do vazio) universal, em chave oriental, ser谩 retomado em Le mauvais d茅miurge. O vazio postulado por tradi莽玫es orientais como o Tao铆smo e o Zen Budismo n茫o 茅 o “absoluto鈥, e menos ainda equivale, na mentalidade que lhe 茅 pr贸pria, a Deus.

[16] Constata莽茫o da real intransced锚ncia n茫o somente de Cioran enquanto exist锚ncia individual (pensando contra si pr贸prio), mas da civiliza莽茫o ocidental moderna em bloco, que se encontra num impasse, sem poder recuar ou evitar a perdi莽茫o por vir. No arco da sua obra e do seu pensamento polif么nico, Cioran alterna entre a hip贸tese de que somos (feitos de) tempo, e nada al茅m disso (portanto absolutamente mortais), e a hip贸tese de que, 鈥渇elizmente, o tempo n茫o esgota nossa subst芒ncia. O indestrut铆vel, o alhures, 茅 conceb铆vel: em n贸s? fora de n贸s? Como sab锚-lo? No ponto em que as coisas se encontram, s贸 merecem interesse as quest玫es de estrat茅gia e de metaf铆sica, aquelas que nos fixam na hist贸ria e as que nos afastam dela: a atualidade e o absoluto, os jornais e os Evangelhos.鈥 (Hist贸ria e Utopia)

[17] Poema de Baudelaire, L鈥橦eautontimoroumenos (1857): 鈥淓u sou a faca e o talho atroz! / Eu sou o rosto e a bofetada! / Eu sou a roda e a m茫o crispada / Eu sou a v铆tima e o algoz!鈥

[18] 鈥淥lhe 脿 sua volta: por toda parte larvas que pregam: cada institui莽茫o traduz uma miss茫o; as prefeituras t锚m seu absoluto como os templos: a administra莽茫o, com seus regulamentos 鈥 metaf铆sica para uso de macacos… Todos se esfor莽am por remediar a vida de todos; aspiram a isso at茅 os mendigos, inclusive os incur谩veis: as cal莽adas do mundo e os hospitais transbordam de reformadores. A 芒nsia de tornar-se fonte de acontecimentos atua sobre cada um como uma desordem mental ou uma maldi莽茫o intencional. A sociedade 茅 um inferno de salvadores! O que Di贸genes buscava com sua lanterna era um indiferente.鈥 (Brevi谩rio de decomposi莽茫o)

[19] 鈥淥 verdadeiro saber reduz-se 脿s vig铆lias nas trevas: s贸 o conjunto de nossas ins么nias nos distingue dos animais e de nossos semelhantes. Que ideia rica e estranha foi alguma vez fruto de um adormecido? Seu sono 茅 bom? Seus sonhos, tranquilos? Engrossar谩 a turba an么nima. O dia 茅 hostil aos pensamentos, o sol os obscurece; s贸 florescem em plena noite… Conclus茫o do saber noturno: quem chega a uma conclus茫o tranquilizadora sobre o que quer que seja d谩 provas de imbecilidade ou de falsa caridade. Quem achou algum dia uma s贸 verdade alegre que fosse v谩lida? Quem salvou a honra do intelecto com prop贸sitos diurnos? Feliz daquele que pode dizer: 鈥楾enho o saber triste.鈥欌 (Brevi谩rio de decomposi莽茫o)

[20] Muitos dos textos do Brevi谩rio de decomposi莽茫o manifestam um simbolismo luciferino meio byroniano, meio baudelairiano.

[21] 鈥淥 homem desocupado que ama a viol锚ncia salvaguarda seu savoir-vivre confinando-se em um inferno abstrato. Deixando de lado o indiv铆duo, ele se liberta dos nomes e dos rostos, responsabiliza o impreciso, o geral, e, orientando para o impalp谩vel sua sede de exterm铆nio, concebe um g锚nero novo: o panfleto sem objetivo.鈥 (Hist贸ria e Utopia)

[22] 鈥淪olicitado pela viol锚ncia e pelo desengano, pare莽o um terrorista que, tendo sa铆do com a ideia de perpetrar algum atentado, se deteve no caminho para consultar o Eclesiastes ou Epitecto.鈥 (Do inconveniente de ter nascido)

[23] 鈥淧or mais implac谩veis que sejam nossas recusas, n茫o destru铆mos totalmente os objetos de nossa nostalgia. De nada vale deixar de acreditar na realidade geogr谩fica do para铆so ou em suas diversas figura莽玫es, ele reside de qualquer maneira em n贸s como um dado supremo, como uma dimens茫o de nosso eu original; trata-se agora de descobri-lo a铆. Quando o conseguimos, entramos nessa gl贸ria que os te贸logos chamam essencial; mas n茫o 茅 Deus que vemos face a face, 茅 o eterno presente, conquistado acima do devir e da pr贸pria eternidade… O que importa, a partir da铆, a hist贸ria! Ela n茫o 茅 o fundamento do ser, mas sua aus锚ncia, o n茫o de toda coisa, a ruptura do vivente consigo mesmo; n茫o sendo constitu铆dos pela mesma subst芒ncia que ela, nos recusamos a cooperar em suas convuls玫es. Pode nos esmagar 脿 vontade, s贸 atingir谩 nossas apar锚ncias e nossas impurezas, esses restos de tempo que ainda arrastamos, s铆mbolos de fracasso, marcas de escravid茫o.鈥 (Hist贸ria e Utopia)

[24] 鈥淰oltaremo-nos para o Diabo? Mas n茫o saber铆amos dirigir-lhe ora莽玫es: ador谩-lo seria rezar introspectivamente, rezar a n贸s. N茫o se reza 脿 evid锚ncia: o exato n茫o 茅 objeto de culto. Colocamos em nosso duplo todos os nossos atributos e, para real莽谩-lo com uma apar锚ncia de solenidade, o vestimos de negro: nossas vidas e nossas virtudes, de luto. Dotando-o de maldade e de perseveran莽a, nossas qualidades dominantes, nos esgotamos para torn谩-lo t茫o vivo quanto fosse poss铆vel; nossas for莽as se consumiram em forjar sua imagem, em faz锚-la 谩gil, saltitante, inteligente, ir么nica, e sobretudo mesquinha. As reservas de energia de que disp煤nhamos para forjar Deus reduziam-se a nada. Ent茫o recorremos 脿 imagina莽茫o e ao pouco de sangue que nos restava: Deus s贸 podia ser o fruto de nossa anemia: uma imagem vacilante e raqu铆tica.鈥 (Brevi谩rio de decomposi莽茫o)

[25] 鈥淥 paradoxo da exist锚ncia 鈥 Cioran acrescentaria, n茫o sem alguma raz茫o, seu horror 鈥 茅, pois, de uma s贸 vez, de ser alguma coisa e de n茫o contar para nada. Sendo demais para ser considerado nada, mas pouco demais para ser levada em conta, a exist锚ncia se apresenta apenas em estado de tra莽o que n茫o pode ser dosado, como dizem os qu铆micos, quando estabelecem que um elemento est谩 presente na solu莽茫o que analisam, mas numa quantidade pequena demais para ser apreci谩vel. 脡 o que acontece com toda coisa existente: inapreci谩vel porque pequena demais, tal qual uma sombra que n茫o se conformasse com corpo algum. A ordem do tempo e da morte, que faz de toda realidade uma realidade nata-morta e de todo presente um tempo j谩 p贸stumo, 茅 o aspecto mais imediatamente vistoso e doloroso dessa incur谩vel pobreza da exist锚ncia, de sua incomensur谩vel 鈥榩equenez鈥.鈥 ROSSET, Cl茅ment, 鈥淥 descontentamento de Cioran鈥, in Alegria: a for莽a maior. Dispon铆vel em: https://portalcioranbr.wordpress.com/2012/10/26/descontentamento-de-cioran/

[26] Noutro texto de A tenta莽茫o de existir: 鈥淓stamos longe da literatura: mas longe s贸 na apar锚ncia. Palavras apenas, pecados do Verbo. Recomendei-lhe a dignidade do cepticismo; e eis-me aqui 脿s voltas com o Absoluto. T茅cnica da contradi莽茫o? Lembre-se antes do que dizia Flaubert: 鈥楽ou um m铆stico e n茫o acredito em nada.鈥 Vejo nessas palavras a divisa do nosso tempo, de um tempo infinitamente intenso, e sem subst芒ncia. Existe uma vol煤pia que 茅 realmente nossa: a do conflito enquanto tal.鈥 (Carta a prop贸sito de certos impasses).

[27] Rimbaud e Nietzsche s茫o dois “casos”, dois grandes modelos de subjetividade moderna para Cioran (problem谩tica, fulminante, dram谩tica), portadores de um frenesi vital e de um del铆rio criativo que beiram o 锚xtase ou a dem锚ncia, com todas as contradi莽玫es imagin谩veis e uma profunda divis茫o interior consigo mesmos. Nietsche representa para o pensador romeno um 鈥渃aso鈥 interessante e riqu铆ssimo do ponto de vista est茅tico, mas a ant铆tese de toda sabedoria conceb铆vel 鈥 a n茫o ser que se trate de uma sabedoria do frenesi e da loucura. Talvez uma nova “sabedoria” (e uma nova “ascese”), pondera ele, pr贸pria para tempos febris como os nossos, “infinitamente intensos, e sem subst芒ncia“.

[28] 鈥淥 Ocidente: uma podrid茫o que cheira bem, um cad谩ver perfumado.鈥 (Do inconveniente de ter nascido)

[29]Ontem, hoje, amanh茫: categorias para uso de criados. Para o ocioso suntuosamente instalado no Desconsolo, e ao qual todo instante aflige, passado, presente e futuro s茫o somente apar锚ncias vari谩veis do mesmo mal, id锚ntico em sua subst芒ncia, inexor谩vel em sua insinua莽茫o e mon贸tono em sua persist锚ncia. E esse mal possui a mesma extens茫o do ser, 茅 o ser mesmo.鈥 (Brevi谩rio de decomposi莽茫o)

[30] Cioran retomar谩 o motivo do intemporal, com uma surpreendente (e apaixonada) convic莽茫o, em Hist贸ria e Utopia (na 煤ltima se莽茫o do 煤ltimo texto, 鈥淎 Idade de ouro鈥): 鈥淥 rem茅dio para nossos males 茅 em n贸s mesmos que devemos busc谩-lo, no princ铆pio intemporal de nossa natureza. Se a irrealidade de tal princ铆pio fosse demonstrada, provada, estar铆amos irremediavelmente perdidos. Que demonstra莽茫o, que prova contudo poderiam prevalecer contra a convic莽茫o 铆ntima, apaixonada, de que uma parte de n贸s escapa 脿 dura莽茫o, contra a irrup莽茫o desses instantes em que Deus 茅 sup茅rfluo ante uma claridade surgida subitamente de nossos confins, beatitude que nos projeta para longe de n贸s mesmos, como莽茫o exterior ao universo? N茫o h谩 mais passado, nem futuro; os s茅culos se desvanecem, a mat茅ria abdica, as trevas se esgotam; a morte parece rid铆cula, e tamb茅m a pr贸pria vida. E essa como莽茫o, mesmo que s贸 a tiv茅ssemos sentido uma vez, bastaria para nos reconciliar com nossas vergonhas e com nossas mis茅rias, das quais ela 茅 sem d煤vida a recompensa. 脡 como se o tempo em sua totalidade tivesse vindo nos visitar, uma 煤ltima vez, antes de desaparecer…鈥 (Hist贸ria e Utopia)

Um coment谩rio em ““Pensar contra si pr贸prio” – E.M. Cioran”

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