Prioridade, Autoridade, Angústia da Influência – Harold BLOOM

Nietzsche e Freud são, até onde me é dado ver, as influências básicas na teoria da influência apresentada neste livro. Nietzsche é o profeta do antitético, e sua Genealogia da moral é
o mais profundo estudo de que disponho das tensões revisionárias e ascéticas no temperamento estético. As investigações por Freud dos mecanismos de defesa e seu ambivalente funcionamento
oferecem os análogos mais claros que encontrei para as proporções revisionárias que governam as relações intrapoéticas. Contudo, a teoria da influência aqui explicada não é nietzschiana em seu deliberado literalismo, e na insistência de Vico em que a prioridade na intuição é crucial para todo poeta forte, para que não se reduza simplesmente a um retardatário. Minha teoria também rejeita o limitado otimismo freudiano, de que é possível uma feliz substituição, que uma segunda oportunidade
pode nos salvar da busca repetitiva de nossas primeiras ligações. Os poetas como poetas não podem aceitar substituições, e lutam até o fim para ter apenas a oportunidade inicial. Nietzsche e Freud subestimaram os poetas e a poesia, deram mais poder à fantasmagoría do que ela de fato possui.
E também, apesar de seu realismo moral, idealizaram demais a imaginação. O discípulo de Nietzsche, Yeats, e o de Freud, Otto Rank, mostram uma maior consciência da luta do artista contra a
arte, e da relação dessa luta com a antitética batalha do artista contra a natureza.

Freud reconheceu a sublimação como a mais alta realização humana, um reconhecimento que o alia a Platão e a todas as tradições morais do judaísmo e do cristianismo. A sublimação freudiana
implica abrir mão de modos de prazer mais primordiais por modos mais refinados, o que significa exaltar a segunda oportunidade acima da primeira. O poema de Freud, na visão deste livro, não é suficientemente severo, ao contrário dos severos poemas escritos pelas vidas criativas dos poetas fortes. Equiparar maturação emocional com a descoberta de substitutos aceitáveis pode ser sabedoria pragmática, sobretudo no reino de Eros, mas não é essa a sabedoria dos poetas fortes. O sonho
de que se abre mão não é apenas uma fantasmagoría de interminável satisfação, mas a maior de todas as ilusões humanas, a visão da imortalidade. Se a Ode: Intimations o f Immortality from Recollections o f Early Childhood [Ode: sinais de imortalidade que vêm de lembranças da primeira infância], de Wordsworth, tivesse apenas a sabedoria também encontrada em Freud, poderíamos deixar de chamá la de “a Grande Ode”. Também Wordsworth via a repetição ou segunda oportunidade como
essencial para o desenvolvimento, e sua ode admite que podemos reorientar nossas necessidades com substituição ou sublimação. Mas a ode também desperta, plangentemente, para o fracasso, e para o protesto da mente criativa contra a tirania do tempo. Um crítico wordsworthiano, mesmo um tão leal como Geoffrey Hartman, pode insistir em distinguir claramente entre prioridade, como um conceito vindo da ordem natural, e autoridade, da ordem espiritual, mas a ode de Wordsworth recusa fazer essa distinção. “Procurando superar a prioridade”, diz sabiamente Hartman, “a arte combate a natureza no terreno da própria natureza, e tem de perder.” A tese deste livro é que os poetas fortes estão condenados exatamente a essa falta de sabedoria: a Grande Ode de Wordsworth combate a natureza no terreno dela, e sofre uma grande derrota, embora retenha seu sonho maior. Esse sonho, na ode de Wordsworth, é sombreado pela angústia da influência, devido à grandeza do poema-precursor,
o Lycidas de Milton, onde a recusa humana a sublimar inteiramente é ainda mais áspera, apesar da ostensiva rendição às doutrinas cristãs de sublimação.

Pois todo poeta começa (por mais “inconscientemente” que seja) por rebelar-se com mais força que os outros homens e mulheres contra a consciência da necessidade da morte. O jovem cidadão da poesia, ou efebo, como o chamaria Atenas, já é o homem antinatural e antitético, e desde seu começo como poeta busca um objetivo impossível, como fez antes seu precursor. O fato de que sua busca abrange necessariamente a diminuição da poesia parece-me uma compreensão inevitável, que a história literária exata tem de suportar. Os grandes poetas do Renascimento inglês não são igualados por seus descendentes do Iluminismo, e toda a tradição do pós-Iluminismo, que é o romantismo, mostra um declínio maior em seus herdeiros modernistas e pós-modernistas. A morte da poesia não será apressada pelas ruminações de nenhum leitor, mas parece justo supor que a poesia em nossa tradição, quando morrer, será auto-assassinada, pela sua própria força passada. Uma angústia implícita em todo este livro é de que o romantismo, apesar de todas as suas glórias, pode ter sido uma tragédia visionária, um empreendimento confuso não de Prometeu, mas do Édipo cego, que não sabia que a Esfinge era sua Musa.

Édipo, cego, encaminhava-se para a divindade oracular, e os poetas fortes o seguiram, transformando sua cegueira em relação aos precursores nas intuições revisionárias de sua própria obra. Os seis movimentos revisionários que identificarei no ciclo vital dos poetas fortes bem podiam ser mais, e tomar nomes bastante diferentes daqueles que empreguei. Mantive-os reduzidos a seis, porque me parecem mínimos e essenciais para minha compreensão de como um poeta se desvia de outro. Os nomes, embora arbitrários, continuam várias tradições que foram fundamentais na vida imaginativa ocidental, e espero que possam ser úteis.

O maior poeta de nossa língua está excluído da argumentação deste livro por vários motivos. Um deles é necessariamente histórico: Shakespeare pertence à era gigantesca de antes do dilúvio, antes que a angústia da influência se tornasse fundamental para a consciência poética. Outro motivo tem a ver com o contraste entre forma dramática e lírica. A medida que a poesia se tornava mais subjetiva, a sombra lançada pelos precursores foi-se tornando mais dominante. O motivo principal, porém, é
que o precursor básico de Shakespeare foi Marlowe, um poeta muito menor que seu herdeiro. Milton, com toda a sua força, ainda assim teve de lutar, sutil e crucialmente, com um grande precursor em Spenser, e essa luta o formou e deformou. Coleridge, efebo de Milton e depois de Wordsworth, ficaria feliz em encontrar seu Marlowe em Cowper (ou no muito mais fraco Bowles), mas a influência não depende da vontade. Shakespeare é o maior exemplo na língua de um fenômeno que fica fora do
interesse deste livro: a absoluta absorção do precursor. A batalha entre iguais fortes, pais e filhos como poderosos opostos, Laio e Édipo na encruzilhada; só isso é meu tema aqui, embora alguns dos pais, como se verá, sejam figuras compostas. O fato de até os poetas mais fortes estarem sujeitos a influências não poéticas é óbvio mesmo para mim, mas, de novo, meu interesse é apenas pelo poeta no poeta, ou o eu poético aborígene.

Uma mudança como a que proponho nas idéias de influência deve ajudar-nos a 1er com mais exatidão qualquer grupo de poetas passados contemporâneos uns dos outros. Para dar um exemplo: como intérpretes equivocados de Keats, em seus poemas, os discípulos vitorianos dele incluem Tennyson, Arnold, Hopkins e Rossetti. Que Tennyson haja triunfado na longa e oculta disputa com Keats, não se pode afirmar definitivamente, mas a visível superioridade dele em relação a Arnold, Hopkins
e Rossetti se deve à sua vitória relativa, ou pelo menos a não haver cedido, em contraste com a parcial derrota dos outros. A poesia elegíaca de Arnold mistura nervosamente estilo keatsiano com sentimentos anti-românticos, enquanto as tensas intensidades e circunvoluções da dicção de Hopkins e a arte intensamente ornada de Rossetti também estão em desacordo com o fardo que eles buscam aliviar em seus eus poéticos. Do mesmo modo, em nossa época, precisamos rever a interminável
briga de Pound com Browning, assim como a longa e em grande parte oculta guerra civil dos grandes poetas do romantismo inglês e americano — Wordsworth, Keats, Shelley, Emerson e Whitman. Como acontece com os keatsianos vitorianos, esses são exemplos entre muitos, se se quer contar uma versão
mais exata da história poética.

O principal objetivo deste livro é, necessariamente, apresentar a visão crítica de um leitor, tanto no contexto da crítica e da poesia de sua geração, onde as atuais crises delas mais o tocam, quanto no contexto de suas próprias angústias de influência. Nos poemas contemporâneos que mais me comovem, como Corsons Inlet e Saliences [Saliências], de A. R. Ammons, e Fragment [Fragmento] e Soonest Mended [Quanto mais cedo consertado], de Joh n Ashbery, eu reconheço uma força que combate a morte da poesia, mas também as exaustões do retardatário. Do mesmo modo, na crítica contemporânea que esclarece para mim o que me escapa, em livros como Allegory [Alegoria], de Angus Fletcher, Beyond Formalism, (Além do formalismo), de Geoffrey Hartman, e Blindness and Insight
[Cegueira e intuição], de Paul de Man, tomo consciência do esforço mental para superar o impasse da crítica formalista, a estéril moralização que veio a ser a crítica arquetípica, e a pura e simples monotonia de todos aqueles acontecimentos na crítica européia que ainda não demonstraram que podem ajudar na leitura de qualquer poema de qualquer poeta. Meu Intercapítulo, propondo uma crítica prática mais antitética que qualquer uma que temos hoje, é minha resposta nessa área do contemporâneo.

Uma teoria de poesia que se apresenta como um severo poema, baseado em aforismo, apotegma e um padrão mítico bastante pessoal (embora inteiramente tradicional), ainda assim pode ser julgada, e pedir para ser julgada, como tese. Tudo que compõe este livro — parábolas, definições, o exame das
proporções revisionárias como mecanismos de defesa — pretende ser parte de uma meditação unificada sobre a melancolia da desesperada insistência da mente criativa sobre a prioridade. Vico, que leu toda criação como um severo poema, compreendeu que prioridade na ordem natural e autoridade na ordem espiritual haviam sido uma coisa só e tinham de continuar sendo uma coisa s o, p ara os poetas, porque só essa severidade constitui o Saber Poético. Vico reduziu a prioridade natural e a autoridade espiritual a propriedade, uma redução hermenêutica que eu reconheço como a Ananke, a horrenda necessidade que ainda governa a imaginação ocidental.

Valentino, especulador gnóstico do século II, foi a Alexandria ensinar o Pleroma, a Plenitude dos trinta Éons, partes da Divindade-. “Era um grande espanto que estivessem no Pai sem conhecê-Lo.” A busca do lugar onde já se está é a mais estúpida das buscas, e a mais condenada. A Musa de todo poeta forte,
sua Sofia, salta tanto para fora e para baixo quanto possível, numa paixão solipsista de busca. Valentino impôs um Limite, no qual finda a busca, mas nenhuma busca finda, se seu contexto é a Mente Incondicionada, o cosmo dos maiores poetas pós-miltônicos. A Sofia de Valentino recuperou-se, fundiu-se de novo no Pleroma, e só sua Paixão ou Intenção Sombria foi separada para o nosso mundo, além do Limite. Nessa Paixão, a Sombria Intenção que Valentino chamou de “fruto impotente e fêmea”, deve cair o efebo. Se sair dela, por mais estropiado e cego que seja, estará entre os poetas fortes.


BLOOM, Harold, A angústia da influência: uma teoria da poesia. Trad. de Marcos Santarrita. Rio de Janeiro: Imago, 2002.

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