“Nos Funerais do Desejo” – E.M. CIORAN

Uma caverna infinitesimal boceja em cada célula… Sabemos onde se instalam as doenças, seu lugar, a carência definida dos órgãos; mas esse mal sem sede…, essa opressão sob o peso de mil oceanos, esse desejo de um veneno idealmente maléfico…

As vulgaridades da primavera, as provocações do sol, do viço, da seiva… Meu sangue se desintegra quando os brotos se abrem, quando o pássaro e o bruto florescem. Invejo os loucos sem remédio, o embotamento do arganaz, os invernos do urso, a secura do sábio, trocaria por seu torpor minha agitação de assassino difuso que sonha crimes aquém do sangue. E mais que qualquer outro, como invejo esses imperadores da decadência, arredios e cruéis, e que foram apunhalados no auge de
seus crimes!

Abandono-me ao espaço como a lágrima de um cego. De quem sou a vontade, quem quer em mim? Gostaria que um demônio planejasse uma conspiração contra o homem: me aliaria a ele. Cansado de debater-me com os funerais de meus desejos, teria enfim um pretexto ideal, pois o tédio é o martírio dos que nem vivem e nem morrem por nenhuma crença.


CIORAN, E. M., “Nos funerais do desejo”, Breviário de decomposição. Trad. de José Thomaz Brum. Rio de Janeiro: Rocco, 2011.

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