A Repetição – Søren Aabye KIERKEGAARD

“O amor da recordação é o único feliz, disse um autor!” Nisso tem também inteira razão, se nos recordarmos de que primeiro faz um homem infeliz. O amor da repetição é na verdade o único feliz. Tal como o da recordação, não tem a inquietação da esperança, não tem a alarmante aventura da descoberta, mas também não tem a melancolia da recordação, tem sim a ditosa certeza do instante. A esperança é um vestuário novo, rígido e justo e brilhante, porém nunca o envergámos e portanto não se sabe como assentará ou como se ajustará. A recordação é um vestuário usado que, por belo que seja, não serve, porque não se cabe nele. A repetição é um vestuário inalterável que assenta firme e delicadamente, não aperta nem flutua. A esperança é uma deliciosa rapariga que se nos escapa por entre as mãos; a recordação é uma bela mulher avançada na idade com quem no entanto nunca se está bem servido no momento; a repetição é uma amada esposa de quem nunca se fica farto; porque só do novo se fica farto. Nunca se fica farto do que é velho; e, quando se tem o que é velho perante si, fica-se feliz; e só fica plenamente feliz aquele que se não ilude imaginando que a repetição deveria ser algo de novo; pois nesse caso fica-se farto dela. É preciso juventude para ter esperança, juventude para recordar, mas é preciso coragem para se querer a repetição. Porque aquele que apenas quer ter esperança é cobarde; aquele que apenas quer recordar é voluptuoso; mas aquele que quer a repetição é um homem, e quanto mais energicamente for capaz de a tomar clara para si próprio, tanto maior será a sua profundidade como criatura humana. Aquele, porém, que não compreende que a vida é uma repetição e que essa é a beleza da vida, esse condenou-se a si mesmo e não merece melhor fim do que o que lhe acontecerá, ou seja, sucumbir; porque a esperança é um fruto sedutor que não satisfaz, a recordação é um pobre viático que não satisfaz; mas a repetição é o pão de cada dia que abençoadamente satisfaz. Se um indivíduo circum-navegou a existência, tornar-se-á evidente se tem coragem para entender que a vida é uma repetição e desejo suficiente para com ela se regozijar. Aquele que não circum-navegou a vida antes de começar a viver nunca chegará a viver; aquele que a circum-navegou, e porém ficou satisfeito, tinha uma fraca constituição; aquele que escolheu a repetição, esse vive. Não corre como um rapaz atrás de borboletas, nem se põe em bicos de pés para vislumbrar as maravilhas do mundo, pois que as conhece; nem se senta como uma velha mulher fiando na roca da recordação; antes avança calmamente pelo seu caminho, contente da repetição. Sim, se não houvesse a repetição, o que seria a vida? Quem poderia desejar ser uma ardósia na qual o tempo inscrevesse a cada instante um novo texto, ou ser um memorial de coisas passadas? Quem poderia desejar deixar-se mover por tudo o que é efémero, pelo novo, que constantemente entretém a alma, amolecendo-a? Se o próprio Deus não tivesse querido a repetição, o mundo nunca teria surgido. Deus teria seguido os planos superficiais da esperança, ou teria voltado a retirar todas as coisas e tê-las-ia preservado na recordação. Não o fez, por isso continua a haver mundo, e continua a haver pelo facto de ser repetição. A repetição é a realidade, e é a seriedade da existência. Aquele que quer a repetição amadureceu em seriedade. Esta é a minha declaração de voto, e isto também quer dizer que a seriedade da vida não é de todo alguém sentar-se no seu sofá e palitar os dentes – e ser-se alguém, por exemplo, conselheiro de justiça: ou andar com ar grave pelas ruas – e ser-se alguém, por exemplo, reverendíssimo -; do mesmo modo que não é a seriedade da vida ser-se estribeira-mor da casa real. Tudo isso, aos meus olhos, não passa de facécia, e por vezes bastante pobre.


KIERKEGAARD, Søren Aabye, A Repetição. Tradução, introdução e notas de José Miranda Justo. Lisboa: Relógio D’Água, 2009.


Arte: “Difference and Repetition #5”, de Isabella Garrucho

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