“O trágico de repetição” – Clément ROSSET

Uma análise sumária do trágico de repetição permite precisar um pouco a natureza do silêncio trágico e de sua inaptidão à interpretação.

Marx, parafraseando Hegel, diz que os eventos históricos se produzem sempre duas vezes, a primeira de modo trágico, a segunda (repetição) de modo cômico (O dezoito brumário). É certo que a repetição possui uma virtude cômica (cômico de repetição) e que, caricaturalmente repetida, uma tragédia verte no tragicômico (é necessariamente o caso da condição humana na filosofia de Schopenhauer). Mas uma outra questão seria determinada se, para ser trágico, o evento nº 1 não repete já ele mesmo alguma coisa. É, com efeito, notável que o acontecimento não interpretável, que pode assim ser qualificado de trágico, se desdobre sempre sobre um fundo de repetição e que, de maneira imediata, a repetição apareça tão logo haja tragédia. Mesmo se original num certo sentido, o acontecimento trágico é também e mais fundamentalmente segundo (ou seja: refere-se sempre a um primeiro termo que ele repete a seu modo). No que é incapaz, precisamente, de constituir um ”acontecimento”, no único sentido que lhe reconhece a filosofia terrorista.

Que na tragédia em cena, e no teatro em geral, o trágico seja inseparável da repetição é a evidência mesma. A presença da repetição aí se manifesta em todos os níveis. No nascimento da tragédia: o culto dos mortos, donde é bem provavelmente derivada a tragédia grega, constituindo essencialmente na representação mimada (repetidora) dos grandes fatos da vida daquele que se inuma. Na prática do teatro: pelas repetições, de época em época e também de uma sessão a outra, que são um dos principais componentes do trabalho do ator (toda representação teatral é também um Navio
de Teseu
comparável àquele de Valery Larbaud). Enfim, no conteúdo do teatro trágico, onde o trágico de repetição desempenha um papel pelo menos tão importante quanto, na comédia, o cômico de repetição. A ação trágica repete um drama inscrito (já completo) desde o levantar do pano, e que ela deve limitar-se a reproduzir: é porque não há, rigorosamente falando, ”ação” trágica (uma ação supõe acontecimentos modificadores em profundidade, que significariam precisamente o fim da tragédia). Em Sófocles (como no Édipo rei, modelo do gênero), todos os acontecimentos importantes se passam antes que comece a peça: a investigação trágica não é mais desde então senão uma reconstituição, ou
melhor, uma repetição do passado. Em Racine, a relação de forças que preexiste à tragédia não será sensivelmente modificada ao curso desta. Em Samuel Beckett, a repetição trágica é particularmente
manifesta, a segunda parte da peça repetindo — uma vez literalmente: na Comédia — a primeira (esta repetindo já um dado cujo destino é dever transmitir-se sem parada nem modificação).

Donde a importância, tanto no trágico de cena quanto no trágico em geral, da noção de reconhecimento. Uma das características. maiores do fato trágico — além de sua gratuidade, seu caráter inevitável, irreparável — é que o herói (e, no teatro, o espectador) “aí se reconhece”, como se encontrasse enfim escrita claramente uma palavra prevista desde sempre, sem jamais ter sido dita nem propriamente pensada. Esse jogo do manifesto e do inconsciente explica facilmente a importância da noção de reconhecimento num outro domínio: a investigação psicanalítica. É porque se deixa imprevisivelmente reconhecer que o ato trágico se revela ao mesmo tempo como necessário (“eu sabia”); o princípio que assegura simultaneamente o reconhecimento e a necessidade sendo precisamente a repetição que, sublinha, por detrás do fato trágico, a presença de um trágico difuso e repetível, mais exatamente ainda, temível.

Em que sentido o caráter temível do acontecimento trágico supõe a repetição? Num sentido bastante preciso:

  1. Se o acontecimento não é nem previsível nem previsto, se constitui uma novidade radical, um puro N° 1 (por exemplo, um cataclismo de natureza desconhecida), ele não é propriamente temível.
  2. Se o acontecimento é, ao contrário, inteiramente previsto, se constitui uma repetição exata do mesmo, ao qual se espera e não se pode impedir, se é um puro N° 2, não é temível tampouco (o temível supondo simultaneamente expectativa e imprecisão quanto ao objeto da espera).
  3. Resta então que, para ser temível e trágico, a repetição suponha a seguinte lei: que N° 1 a partir do qual sobrevém o N° 2 repetidor não seja revelado senão ao mesmo tempo que o N° 2. A repetição trágica é de uma só vez o repetido e o original. Videntes e profetisas procedem assim: repetindo desejos e terrores já presentes no consulente. A repetição é o olhar sobre o que é repetido, mais que sobre a repetição propriamente dita.

Que dizer agora desse N° 1, fonte de todas as representações? Pode-se defini-lo como a revelação posterior [après coup] de que um elemento passado qualquer era o primeiro termo de uma série. Esse primeiro termo pode ser de duas ordens. Pode representar um elemento que pertença ao tempo e ao mundo: um assassinato no Édipo rei, um conflito de forças em Racine, uma situação de enfado em Beckett. Mas pode ser também (segunda hipótese) um x, passado de todo tempo, que desempenha junto ao tempo o papel de um ordenador, de um precursor desconhecido, estranho tanto ao tempo como ao mundo.A repetição trágica em estado puro revelaria assim o acontecimento enquanto repetição de um 1 desconhecido: não é mais, propriamente falando, um 1, mas uma incógnita x que repete o 1, como se fosse um 1 que repetisse. Esta segunda hipótese é a melhor, e inclui aliás a primeira: os elementos no tempo (Sófocles, Racine, Beckett) remetem, notadamente pela via do mito, a este elemento x fora do tempo, razão de toda presença, a partir do que foram possíveis tanto esses elementos quanto suas repetições – tal como, mais uma vez, o Navio de Teseu. Poder-se-ia pois definir o temível como a aparição no tempo de um acontecimento que repete um primeiro termo desconhecido, alheio ao tempo. Pensar-se-á inevitavelmente aqui na teoria platônica da reminiscência. Mas notar-se-á que a teoria da reminiscência supõe um mesmo na origem das Ideias, que não existem senão à sua imagem: em consequência se trata de uma teoria da recognição, antes que da repetição (esta supondo, com efeito, um elemento diferencial). Em realidade, um dos únicos filósofos a ter pressentido, antes de Nietzsche, o problema da repetição, é Schopenhauer, em certos escritos consagrados à música.

Aquilo que repete a repetição remete então inevitavelmente ao mito e ao desconhecido; em contrapartida, é possível observar como a repetição repete (como se opera a passagem dos 1 aos
s 2). Problema de importância simultaneamente psicanalítica (análise dos atos falhos) e filosófica (análise do trágico).

A passagem dos N°s 1 aos N°s 2 pode conceber-se, e é concebida na história da filosofia, de duas maneiras bem diferentes. Essas duas concepções da repetição engajam, nos planos filosófico e psicanalítico, uma visão inteiramente diferente do exercício da vida, Distinguir-se-á, pois:

  1. A repetição mecânica, patológica, ou repetição-lugar-comum. Ela significa rigorosamente o retorno do mesmo. Concepção pessimista no plano filosófico (Eclesiastes, Schopenhauer), e patológica no plano psicanalítico (instinto de morte, compulsão de repetição, ato falho).
  2. A repetição operante, ou repetição diferencial, que significa retorno de um elemento diferente a partir de uma intenção do mesmo. Concepção trágica no plano filosófico (pluralismo irredutível a qualquer unidade ou síntese, mas que é ao mesmo tempo trágico e jubilatório, tanto nos Gregos quanto na teoria nietzscheana do eterno retorno), e terapêutica no plano psicanalítico (acesso a um comportamento “normal”).

O problema desta diferença entre as duas repetições e da natureza desse diferencial introduzido pela repetição de tipo N° 2 é bastante complexo, mas também uma questão importante que engaja toda representação filosófica da experiência vital, e da qual depende também o sucesso ou o fracasso de um tratamento psicanalítico. Sabe-se que o psicanalista, no decorrer da cura, deve lutar frequentemente contra a tendência à repetição (no sentido 1) que conduz o analisado a se acomodar em sua experiência neurótica ao repetir um certo tipo de comportamento que lhe proíbe sair de um certo círculo neurótico cujas fronteiras definem o “conforto” de sua doença. A tarefa do analista consiste então em fazer progressivamente o analisado renunciar à repetição. Mas isto não significa que peça ao analisado para renunciar em bloco à repetição. Isto seria pedir-lhe para renunciar a viver: pois a vida é feita de repetições exigindo sem cessar um retorno dos apetites diversos. Tratar-se-á de passar de um certo tipo de repetição a um outro: donde a diferença entre duas formas de repetição, e a ideia de que é preciso passar de uma repetição morta (sem diferença) a uma repetição viva (com diferença). Todavia, isto ainda é demasiado simples. Com efeito, não basta dizer que, na repetição morta (compulsão
de repetição), o analisado não diferencia de modo algum. Em realidade, as coisas são são mais complexas e, a seu nível de repetição mecânica, o analisado sabe muito bem diferenciar, a seu modo. Todos os analistas são sensíveis, não somente à repetição no comportamento, mas também e talvez sobretudo à novidade na qual o prisioneiro de um círculo neurótico camufla sem cessar suas repetições.

Há decerto repetição, mas somente no modo analógico, cuja analogia só é perceptível ao analista, o analisado vivendo como novidade radical seu analogicamente repetido. Onde está pois a diferença entre as duas repetições? Não no fato de que a repetição no sentido 1 não diferencie, enquanto a repetição no sentido 2 diferencia, mas no fato de que esses dois tipos de repetição diferenciam
diferentemente. O problema é então passar de uma certa forma de diferenciação a uma outra: falar-se-á assim de “boa” e de “má” diferença, que fazem respectivamente a repetição no sentido 1 e a repetição no sentido 2.

Cabe a Schopenhauer ter descrito de maneira sistemática uma experiência humana fundada sobre o princípio da “má” diferença. Da filosofia de Schopenhauer inteira, pode-se dizer que é uma filosofia de repetição-lugar-comum. A repetição foi o grande pensamento, a grande obsessão de Schopenhauer, muito mais que o pessimismo, a moral de renúncia, a estética de contemplação, que são dela derivados. A prova é que Freud, quando empreendeu estudar as com pulsões de repetição e o instinto de morte, começou ao mesmo tempo a se interessar pela obra de Schopenhauer. Com efeito, o caráter maior da vontade schopenhaueriana não é “querer” (a vontade não quer nunca o que ela quer, mas o que sofre) mas repetir. Se não há no mundo, segundo Schopenhauer, nem causalidade, nem finalidade, nem liberdade, é que a vontade repete cegamente, fora de todo princípio ou fundamento. Schopenhauer reencontra as palavras do Eclesiastes: nada de novo sob o sol. Donde um mundo morto (que lembra as descrições freudianas do instinto de morte) onde todo gesto é falso gesto, caricatura desajeitada de uma vida ausente. Sexualidade, nascimento, morte, sentimentos, ações não são acontecimentos, mas repetições. Dir-se-á que a repetição é, para Schopenhauer, precisamente o defeito que revela o caráter postiço dos gestos da vida. Donde também um mundo não trágico, mas tragicômico. Aí, tudo estando previsto, uma vez que não se podem produzir senão repetições-lugares-comuns, nada se pode produzir de propriamente temível: é este o conforto específico da “neurose” schopenhaueriana.

Múltiplas são as fontes nas quais se pode beber para ilustrar a natureza da outra diferença, a “boa”, a repetição diferencial que é, num certo sentido, a lei de toda vida. Mencionar-se-ão, aqui, três: Proust, a repetição musical, Nietzsche.

Sabe-se que a Busca do tempo perdido é fundamentalmente a história de uma repetição (a ligação Swann-Odette que prefigura a do narrador com Gilberte, Gilberte que prefigura Albertine, e assim
sucessivamente). A questão é: a essência buscada incansavelmente através dessas repetições, ou seja, através do conjunto da Busca, é de tipo platônica? Representa uma “Ideia” do amor, da qual todas as aventuras (repetições) seriam por sua vez cópias que se aproximariam cada vez mais de seu modelo ideal? O amor assim buscado seria lei geral, e repetível. Essa concepção de um Proust platônico, favorecida por certas páginas do Tempo reencontrado, releva de uma leitura bem distraída. É evidente – como mostrou muito precisamente G. Deleuze em Marcel Proust e os signos — que o alvo de Proust está alhures. A pequena Madeleine, os campanários de Martinville, os pavimentos desiguais do pátio do hotel de Guermantes, todas essas análises conduzem à ideia de que a essência assim buscada não é uma essência generalizada, mas, bem ao contrário, um singular diferencial. A repetição proustiana visa a
aparição de uma diferença; melhor, é a diferença que é ela mesma princípio de repetição, convidando à retomada perpétua da busca dos singulares. E enquanto Gilberte difere de Odette, Albertine difere de Gilberte, que a repetição amorosa é possível (Schopenhauer aqui aguçaria o ouvido e falaria de ardil da vontade repetidora, assimilando assim a repetição diferencial ao efeito de um espelho deformante destinado a fazer esquecer o elemento de lugar-comum da repetição). O motor da repetição é a diferença, única capaz de assegurar o retorno das repetições.

Em matéria de repetição, a música é domínio privilegiado em muitos aspectos: sendo muito numerosos os níveis onde intervém a repetição musical, para citar apenas o problema da interpretação (refazer o novo com o velho, dar o sentimento de que a obra escutada se escuta em primeira audição é o talento do intérprete: passar da repetição-lugar-comum à repetição diferencial). Repetição também no seio mesmo da partitura: frequentes reexposições de um terna, frequentemente sem modificação harmônica nem rítmica nem de nenhum tipo, cuja reprise, no curso de um movimento de sonata ou de sinfonia, constitui um exemplo perfeito. (Aqui se conciliam da maneira mais evidente esses dois termos que parecem inconciliáveis: diferença e repetição, retorno do mesmo e aparição do novo. Há ao mesmo tempo diferença e repetição, o contexto (momento do discurso musical onde intervém a reprise) conferindo um valor novo a um tema estritamente repetido.

Assim o grande filósofo da repetição diferencial é naturalmente um filósofo músico: Nietzsche. A diferença entre as duas, diferenciações (uma congelada, a outra diferencial) no seio das duas formas de repetição acha uma ilustração filosófica decisiva na diferença entre a filosofia de Schopenhauer (visão da repetição) e a filosofia de Nietzsche (visão do eterno retorno). Sem insistir sobre as múltiplas oposições que fazem desses dois pensadores dois pólos opostos, notar-se-á somente aqui que a linha de demarcação entre esses dois pensamentos passa precisamente por essa noção de repetição, que difere radicalmente de um a outro. Pois, do mesmo modo que em Schopenhauer, a repetição foi a grande questão de Nietzsche, mas num sentido inteiramente novo. O que é repetido, no eterno retorno, não é a reprodução mecânica do já produzido, mas um retorno do passado enquanto era novo, ou seja, uma reaparição da diferença, do singular, do mesmo enquanto era diferente: uma aparição de um novo singular que faz renascer o mesmo do júbilo devido à diferença. Por uma renovação da diferença, retorno do mesmo do júbilo. É assim que o mesmo e o outro, a repetição e a diferença, se confundem finalmente na intuição daquilo que, para Nietzsche, era o único objeto da reflexão: a vida.

Através da repetição, é então uma perpétua diferenciação que é visada. Donde o caráter trágico dessa repetição diferencial, tanto em Nietzsche como em Proust. Trágico, em quê? Poder-se-ia estimar que ela representa, ao contrário, o modo da vida feliz e renovada; de um ponto de vista psicanalítico, o tipo do comportamento “normal”. Mas essas virtudes, que são reais, não contradizem a natureza trágica da repetição diferencial. Esta é trágica por remeter ao silêncio do não interpretável, pelo qual se define,
a princípio, o trágico. A interpretação racional, religiosa ou moral supõe necessariamente, com efeito, que seja possível uma redução ao idêntico, ao semelhante, a referências, a pontos fixos, enfim, a essências de tipo generalizável, não a singularidades de tipo diferencial. A interpretação é cega caso se ofereça à consideração filosófica apenas uma plêiade infinita de diferenças indefinidamente diferenciadas. Assim, o filósofo trágico, também anticartesiano, e pelas mesmas razões antiplatônico, fala não de ideias “claras e distintas”, mas de ideias obscuras e distintas, como diz G. Deleuze em Diferença e repetição. Obscuras por sua distinção mesma: a ideia “distinta”, ou seja, inteiramente distinguida das outras, não é clara, mas obscura; a ausência de referenciais em que se mensurar a torna silenciosa e cega. Aspecto simples e imediato dessa penúria interpretativa que assegura a cotidianeidade do trágico, dir-se-á que, na repetição diferencial, tudo se renova, mas também que tudo se perde par sempre antes de ter sido, sequer pensado. Assim a história da Busca do tempo perdido é a história de uma perda. Sem dúvida a memória afetiva da qual fala Proust conserva por vezes um traço frágil e inesperado de um passado não pensado, não interpretado, não compreendido; mas não se trata senão de uma marca fugidia, que não revela um eco senão a fim de melhor acusar a irreparável perda do som primeiro. Tal é a lei trágica repetição diferencial: aprender a “bem” ou “mal” repetir, a “bem” ou “mal” diferenciar, supõe que cada repetição, cada diferenciação assim conquistada é oferecida previamente em holocausto; cada diferença conquistada sobre a repetição-lugar-comum é perdida para a razão interpretativa. É nisso que, finalmente, a diferença é o trágico mesmo: no fato de que porta em si a razão do não-interpretável, ou seja, o princípio de silêncio.


ROSSET, Clément, “O trágico de repetição”, Lógica do pior. Trad. de Fernando J. Fagundes Ribeiro e Ivana Bentes. Rio de Janeiro: Espaço e Tempo, 1989, p. 71-79.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s