“Sobre a Melancolia” – E.M. Cioran

Quando não se pode livrar-se de si mesmo, deleita-se devorando-se. Em vão se chamaria o Senhor das Sombras, o distribuidor de uma maldição precisa: se está doente sem doença e se é réprobo sem vícios. A melancolia é o estado sonhado do egoísmo: nenhum objeto fora de si mesmo, nenhum motivo mais de ódio ou de amor, a não ser essa mesma queda em um lodo lânguido, essa mesma agitação de condenado sem inferno, essas mesmas reiterações de um ardor de perecer… Enquanto que a tristeza contenta-se com uma moldura de fortuna, a melancolia necessita de uma orgia de espaço, de uma paisagem infinita para nela espalhar sua graça desagradável e vaporosa, seu mal sem contornos, que, por medo de curar-se, teme um limite à sua dissolução e às suas ondulações. Floresce – a flor mais estranha do amor-próprio – entre os venenos dos quais extrai sua seiva e o vigor de todos os seus desfalecimentos. Nutrindo-se do que a corrompe, esconde, sob seu nome melodioso, o Orgulho da Derrota e a Compaixão de si mesmo…

CIORAN, E.M., “Sobre a melancolia”, Breviário de decomposição. Trad. de José Thomaz Brum. Rio de Janeiro: Rocco, 2011.

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