“À tumba de Cioran” – Liliana HERRERA

O guarda se equivocou ao dar a orientação da tumba de Cioran, dizendo “dez ao norte, cinco ao leste”, porque na divisão do número 13 é preciso contar pelo menos dezoito tumbas ao norte, e nove ao leste, para encontrar a do filósofo. Pode-se ver então uma lápide cinza, limpa e brilhante, na qual estão inscritos os nomes: abaixo do de Cioran está o de Simone Boué, sua discreta companheira por cerca de quarenta anos. Também está escrito o seu local de nascimento, Rășinari, que adquiriria características quase míticas para tornar-se seu paraíso perdido, original e primitivo. É a indicação do nada misterioso do qual surgiu, como o túmulo é a representação do nada ao qual retornou. Os nomes, essas simples inscrições do local e da data de nascimento, são as únicas evidências do ser que foi alguém, seja um personagem ilustre ou desconhecido. Cada data é a certeza de que um corpo, um personagem e uma certa história, feliz e infeliz, existiu em algum momento, em algum lugar remoto ou próximo, desaparecido ou existente. É esse o destino terrível e comunitário que nos torna existencialmente iguais. E essa é uma das razões para venerar os restos, os ossos ou as cinzas macias daqueles que amamos, e daqueles cujos nomes só sabemos ao caminhar pela calmaria dos cemitérios. Restos mortais e ossos … a única consistência do ser.

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A lista de muitos dos que estão enterrados no cemitério de Montparnasse é longa e notável. Entre nomes como Maupassant, Poincaré ou Rampal, está o de Cioran, que há três décadas era um ilustre desconhecido. Localizado próximo aos jardins de Luxemburgo, tem-se à disposição um mapa com a lista dos nomes dos mortos e, ao lado, o número da zona e a localização da sepultura. Os mausoléus são de todos os tipos: uns imponentes, outros já envelhecidos e abandonados; barras corroídas e bustos deteriorados por anos de chuva, sol e neve.

Outros, de séculos anteriores, com a morte forjada em ferro ou longos epitáfios que informam os visitantes sobre quem fora o personagem, suas obras e o amor de seus familiares. E algumas tumbas mais recentes são de um barroquismo quase chocante, simulando altares com fotografias emolduradas de quem jaz ali, a serviço de sua honra. É, em todo caso, um lugar charmoso, tranquilo e limpo que incita – como os museus de paleontologia[1] – a uma melancólica e serena meditação.

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Restos e ossos: a consistência do ser. Mas, além disso, a recordação… Visitar o sepulcro de quem amamos não deixa de ser um exercício de constatação do que é o ser em sua essência, ou, ao menos, de como se revela a nossa humanidade. Dos outros, já irremediavelmente perdidos, não nos resta senão a memória e o lugar definitivo tornado jardim, consolo, um altar para a lamentação… Não importa. É a ausência absoluta. O qualificativo adquire ali seu sentido mais terrível: a impotência, o nunca mais. Já nada pode ser remediado, acrescido, feito ou desfeito. Apenas uma tumba, alguns restos, alguns ossos, a recordação atormentada. Quem visita o sepulcro de Cioran? E por quê? Quem levou para ele, como oferenda e prova de amor ou admiração, um buquê de rosas? Quem colocou sobre o granito cinza uma cruz de mar, uma humilde imagem ortodoxa ou duas pequenas velas que a brisa ou o vento de inverno não deixou consumir? São votos modestos de caráter evidentemente religioso para a sepultura do mais cético e paradoxal dos contemporâneos, que afirmava ser, já aos vinte anos, um especialista no problema da morte.[2] A ironia continua assediando Cioran em sua tumba. Porque foi enterrado pelo rito ortodoxo. Porque decidiu morrer e permanecer em paris, já que há tempos seu paraíso estava perdido. Porque talvez desejasse continuar sendo o cidadão de um novo exílio. Porque os visitantes lhe oferecerem respeito e amor através de modestos objetos religiosos, ortodoxos ou não. Porque a dimensão religiosa e a reflexão metafísica constituem, com efeito, o coração da sua obra.

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Nossos cemitérios já não conservam o antigo estilo europeu. Ao contrário dos antigos, hoje simulam campos verdes. As flores que os familiares carregam em suas visitas periódicas não sobrevivem uma semana. Às vezes menos, porque podem servir a outros que não encontram outra alternativa a não ser senão roubá-las para enfeitar as pequenas lápides fixadas no chão, com os nomes dos mortos gravados. De qualquer forma, o túmulo, pelo espaço que ocupa, é personalizado. Ossários e urnas de cinzas se perdem no espaço mesquinho. Ela não representa um depósito; o ossário, a urna de cinzas, sim. A tumba continua a simbolizar o corpo na extensão vital que foi.

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Para sobreviver à morte de um ente querido, o cadáver é necessário, pois a alma, como o amor, é um produto do corpo, sempre necessitado, o indigente do ser. As cinzas ganham realidade, dimensão, densidade, se as contemplamos convencidos da identidade do cadáver já despojado dela e, assim, deixam de ser uma questão de fé… Minha mãe, um ser anônimo exceto por seu mundo familiar, silenciosa, melancólica e fatalista por destino pulsional, teve o mesmo destino que Cioran. Mas, ao contrário do túmulo do meu mais admirado e agora ilustre conhecido, não posso plantar flores. À espera da cremação dos seus restos mortais, futura e única evidência da sua doce e desaparecida humanidade, minha oferta no túmulo de Cioran representa também o testemunho da minha orfandade.

Liliana Herrera, junho de 2007
Trad. de Rodrigo Menezes, 20 de setembro de 2021


[1] Possível alusão ao texto “Paléontologie”, de Le mauvais démiurge (1969), em que Cioran narra a visita a um museu de história natural como pretexto de meditação metafísica e ascética acerca do esqueleto.

[2] CIORAN, Emil, “Eu e o mundo”, Nos cumes do desespero. Trad. de Fernando Klabin. São Paulo: Hedra 2012, p. 28.

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