Cioran e Keats: o imperativo da intensidade e poéticas do grotesco

Segundo o tradutor Péricles Eugênio da Silva Ramos, o princípio da intensidade desempenha um papel fundamental na poética de John Keats (1795-1821). Em 21 de dezembro de 1817, o poeta inglês escreveria, em carta ao irmão George, que “a excelência de toda arte está em sua intensidade, capaz de fazer o desagradável (‘all desagreeables’) evaporar do estreito contato com Beleza e Verdade.”

O imperativo da intensidade estabelece uma cumplicidade poética entre Keats e Cioran. Em Amurgul gândurilor (“O Crepúsculo dos pensamentos”, inédito em português), o filósofo romeno redefine a categoria do religioso, à sua maneira heterodoxa, em termos de intensidade: “O religioso não é uma questão de conteúdo, mas de intensidade”, de modo que “a intensificação de qualquer sensação é sinal de religiosidade”, a despeito de toda fé ou ausência de fé, crença ou descrença. Com amor, ódio ou uma mescla impura de ambos os sentimentos, as “experiências religiosas” do ser humano se desenrolam ao ritmo da flutuação de sua saúde, à medida de seus estremecimentos, frenesis e estados febris, e “sem ‘febre’, nós não ultrapassamos o campo da percepção, o que significa que não vemos nada. […] Um desgosto, levado ao grau mais elevado, nos revela o Mal (a via negativa em direção a Deus). O vício está mais próximo do absoluto que um instinto não pervertido, pois não podemos participar do divino senão à medida que deixamos de ser natureza.”

O critério da intensidade vital permite a Cioran interpretar Nietzsche, ao lado de Beethoven, como um espírito criador de natureza “religiosa”: “Beethoven é religioso pela tensão infinita que caracteriza seu trabalho de criador, exatamente como Nietzsche, cujo titanismo é de essência religiosa.” (O livro das ilusões). Ademais, é importante destacar que o pensador romeno associa esse “deixar de ser natureza” (proporcional ao aumento da intensidade das pulsões, vivências e experiências, ao ponto do paroxismo) à condição do artista, com as exigências estéticas que lhe são próprias. No seu primeiro livro escrito em francês, o Breviário de decomposição, há um texto em que o autor romeno discorre sobre “as vantagens da debilidade”, afirmando que, “quanto mais natureza se é, menos se é artista. […] A ‘vida interior’ é patrimônio dos delicados, desses abortos trêmulos, submetidos a uma epilepsia sem queda nem baba.” Ou seja, não há “vida interior” sem desequilíbrio interior, sem a consciência de um mal não localizado que se confunde com a própria existência, com ese maldito yo, conforme ao título de Aveux et anathèmes em espanhol. Saúde e vida interior são termos antitéticos na antropologia cioraniana da enfermidade.

Como observa José Thomaz Brum no prefácio ao Breviário, traduzido por ele, o livro está embebido de Shakespeare e Shelley, dois autores ingleses que Cioran leu avidamente em seus primeiros anos de estudante-bolsista na França (além do português Antero de Quental), razão pela qual se dedicava naquela época ao estudo do inglês (e do português). E Keats? A única menção a ele no conjunto da obra de Cioran provavelmente se encontra no último livro, Aveux et anathèmes (1987): “«Sou um covarde, não posso suportar o sofrimento de ser feliz.» Para penetrar alguém, para conhecê-lo verdadeiramente, basta ver como reage a esta confissão de Keats. Se não compreende no ato, inútil continuar.”

Trata-se de uma frase extraída de uma carta enviada pelo poeta à poetisa Fanny Browne, com quem tivera secretamente um relacionamento amoroso. Cioran já a havia anotado em seus cadernos de agosto de 1963, e ela serviria de pretexto para o aforismo do livro publicado mais de 20 anos mais tarde. Três anos mais tarde, em 1966, esta anotação: “O poeta que disse as coisas mais profundas sobre a poesia é Keats, nas suas cartas. Infinitamente mais lúcido do que qualquer um dos seus contemporâneos, inclusive Coleridge, ou mesmo do que os românticos alemães, incluindo Schlegel e Novalis.”

A partir da cumplicidade na intensidade poética geradora de desconforto, cumpre destacar outro fator de aproximação entre Cioran e Keats (o mesmo que aproxima o pensador romeno de Baudelaire): a experiência da melancolia, ou ennui na tradição francesa de Pascal, o Weltschmerz ou Spleen dos românticos alemães. Keats compôs muitas odes, dentre as quais a “Ode sobre a Melancolia” e a “Ode a um Rouxinol”. Cioran, que se dedicava a caçar a Melancolia nas produções do espírito (na poesia, na música, na filosofia), certamente conhecia as odes de Keats. Leu, ademais, o livro que se supõe ter sido uma importante leitura inspiradora da “Ode sobre a Melancolia”, o tratado de Robert Burton sobre o tema, The Anatomy of Melancholy (1621). Sobre ele, anota nos Cahiers: A Anatomia da Melancolia de Robert Burton. O mais belo título que já existiu. Que importa então que o livro seja ilegível?”

É pelo imperativo poético da intensidade e pela poética do grotesco que Cioran se aproxima de John Keats. E retornar a este aforismo em Silogismos da amargura: “Em um mundo sem melancolia, os rouxinóis se poriam a arrotar.”


SÁ MENEZES, Rodrigo Inácio R., “Cioran e Keats: o imperativo da intensidade e poéticas do grotesco“, Portal E. M. Cioran Brasil, 22/09/2021.

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