Estamos próximos do Apocalipse?

O Apocalipse, o livro mais impressionante e extremo da Bíblia, é um texto sagrado que profetiza o final dos tempos. Que segredos estão ocultos em suas páginas? Quanto tempo de vida resta à espécie humana? Segundo vários especialistas, dos sete selos que compõem o Apocalipse, cinco já foram abertos, e agora o sexto está prestes a se abrir, trazendo a destruição de grande parte da população mundial. Mas, afinal, o Apocalipse é o melhor roteiro de um filme de ficção ou é realmente um aviso de um final anunciado?

Nem novo céu, nem nova terra, nem mais o anjo para abrir o “poço do abismo”: aliás, não possuímos, nós mesmos, a chave? O abismo está em nós e fora de nós, é o pressentimento de ontem, a interrogação de hoje, a certeza de amanhã. A instauração do império futuro, assim como sua desarticulação, acontecerá em meio a comoções sem precedentes. Na condição a que chegamos, nos seria impossível, em um sobressalto de sabedoria, retornar sobre nossos passos e corrigir-nos, mesmo que o quiséssemos. Nossa perversidade é tão virulenta que, em lugar de atenuá-la, nossas reflexões sobre ela e nossos esforços para submetê-la consolidam-na e agravam-na. Predestinados à soçobra, representamos, no drama da criação, o episódio mais espetacular e mais lamentável. Como foi em nós que despertou o mal adormecido nos demais seres vivos, nos cabia perder-nos para que eles fossem salvos. […]

Mas paremos com essas divagações, pois de nada serve inventar um “intermédio consolador”, esse procedimento fastidioso das escatologias. Não é que não tenhamos o direito de imaginar essa nova humanidade, transfigurada ao sair do horrível; mas quem nos garante que, alcançado seu objetivo, ela não recairia nas misérias da antiga? E como acreditar que não se cansaria da felicidade ou que escaparia à atração da degringolada, à tentação de desempenhar, ela também, um papel? O tédio em meio ao paraíso gerou em nosso primeiro ancestral um apetite de abismo que nos valeu esse desfile de séculos cujo término agora entrevemos. Esse apetite, verdadeira nostalgia do inferno, não deixará de assolar a raça que nos sucederá, fazendo dela a digna herdeira de nossos defeitos. Renunciemos, portanto, às profecias, hipóteses frenéticas, cessemos de nos deixar enganar pela imagem de um futuro distante e improvável, atenhamo-nos a nossas certezas, a nossos abismos indubitáveis.

Emil CIORAN. “Urgência do pior” [Urgence du pire], Écartèlement. Paris: Gallimard, 1979. Tradução: Luiz Cláudio Gonçalves e Rodrigo Inácio Ribeiro Sá Menezes. In: (n.t.) Nota do Tradutor, nr. 9, novembro de 2014.

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