Cioran e a Colômbia: entrevista de Liliana Herrera com Ciprian Vălcan e Ilinca Ilian

Entrevista publicada na versão espanhola (da Colômbia) do livro de entrevistas de Ciprian Vălcan, Cioran: un aventurier nemişcat [Cioran: un aventurero inmóvil], traduzido do romeno por Miguel Angel Gómez Mendoza.

CIPRIAN VĂLCAN: Como você conheceu a obra de Cioran?

LILIANA HERRERA: Descobri Cioran em 1979, quando era estudante de Filosofia e Letras na Universidade de Caldas (em Manizales, cidade próxima a Pereira, onde trabalho e vivo hoje). As ressonâncias espirituais e psicológicas, assim como uma empatia intelectual logo transformada em paixão, não demoraram a surgir. Decidi escrever minha monografia de graduação sobre sua obra. Foi um dos primeiros trabalhos realizados na Colômbia sobre ele. Mais tarde, quando fiz meus estudos de doutorado na Universidade Javeriana (Bogotá), minha tese foi a obra de Cioran.

ILINCA ILIAN: Como seu deu sua correspondência com Cioran? Você chegou a encontrá-lo pessoalmente?

LILIANA HERRERA: A correspondência com Cioran durou uma década. Mas não foi uma correspondência regular. Uma vez por ano, ou a cada dois anos, eu lhe escrevia, e suas respostas eram sempre gentis, sinceras e cordiais. A primeira carta que enviei foi quando comecei a monografia de graduação em Manizales, trabalho com o qual ele estava familiarizado. Seu comentário foi muito generoso. Cioran se referiu principalmente a um capítulo dedicado à sua relação com a filosofia, que fora o tema de uma carta, negligenciado até então pelos críticos europeus. Eu não tive a sorte de conhecê-lo. Quando comecei a considerar a possibilidade de uma viagem a Paris para conhecê-lo, ele já havia morrido.

CIPRIAN VĂLCAN: Poderia nos contar sobre a correspondência com Cioran? Quantas cartas recebeu de Cioran? Quais temas eram abordados?

LILIANA HERRERA: Entre 1983 e 1990, recebi cinco cartas e dois livros de Cioran. Na primeira carta, Cioran se referia à sua obra e à impossibilidade de manter uma “relação epistolar contínua”, o que foi durante muito tempo, para ele, uma “verdadeira paixão”. Além disso, afirmou que estava “cansado de mim mesmo, estou tão cansado … do meu próprio trabalho, se é que posso usar uma palavra tão pomposa para nomear tentativas mais ou menos falidas.” A segunda carta fazia referência ao trabalho de graduação universitária que eu fazia sobre sua obra, e sobre o qual ele fez uma consideração realmente generosa. As outras foram mais curtas. A última carta, curta, é igualmente notável: “Para mim só existe um sentimento superior a todos os outros: a melancolia. O tango só existe por causa da melancolia.” Os dois livros que recebi foram: Valéry faces à ses idoles (L’Herne), que ele me enviou em 1983, e em 1987 recebi Aveux et anathèmes (coleção Arcades da Gallimard), no qual ele escreveu na folha de rosto: “Eis aqui, talvez, meu último livro. Não tenho mais vontade de escrever.”

CIPRIAN VĂLCAN: Quais aspectos da obra de Cioran chamaram sua atenção na primeira leitura? Quais deles lhe parecem importantes até hoje?

LILIANA HERRERA: Quando li Cioran pela primeira vez eu era adolescente, uma fase em que as predileções se formam, os gostos que determinam os jovens a aderir às ideias que o impactam, como alguém próximo ou atraente por seu caráter explosivo e implicitamente direto. Então, os temas que trabalhei inicialmente foram Deus, o suicídio e a crítica à filosofia contemporânea. O tema de Deus na obra de Cioran é, em nosso meio (por assim dizer), estranho. Mas considero um dos fundamentos da filosofia, que os cientistas e comentaristas colombianos têm desconsiderado. Outro aspecto importante do grupo de investigação que dirijo na Universidade Tecnológica de Pereira, e que permite a reconstrução do contexto da obra de Cioran, é a cultura à qual pertence. Acreditamos que a abordagem da cultura romena pode revelar aos leitores colombianos vários aspectos necessários para uma boa compreensão da obra de Cioran. Neste sentido, nosso grupo realizou traduções do francês para o espanhol de ensaios de especialistas romenos, franceses, canadenses e holandeses, cuja perspectiva amplia e enriquece o horizonte de pesquisa em torno de Cioran na Colômbia. É uma tarefa na qual estou bastante comprometida. Até agora, traduzi e publiquei sete escritores romenos e cinco europeus. Espero poder continuar com esta atividade, que é uma importante contribuição para a divulgação da obra de Cioran e da intelectualidade romena no meio colombiano. Do mesmo modo, consegui introduzir no programa de filosofia da Universidade Tecnológica de Pereira, no âmbito da filosofia contemporânea, alguns cursos sobre o Cioran. É uma conquista importante e quase única no país.

CIPRIAN VĂLCAN: Há alguma diferença entre a maneira como Cioran era lido 20 anos atrás e como é lido hoje?

LILIANA HERRERA: Para começo de conversa, há 20 anos Cioran ainda não era nem conhecido entre nós. Os poucos leitores de seus livros, que chegavam aqui traduzidos em espanhol, eram marginais. Com isso quero dizer que eram pessoas que estavam à margem do meio acadêmico, mas interessadas no mundo intelectual; leitores de poetas blasfemos e existencialistas franceses, principalmente boêmios desapontados; alguns professores universitários, realmente poucos, também eram leitores de Cioran. De qualquer forma, as interpretações que uns e outros faziam de sua obra, naquela época, eram unilaterais e centradas nos temas mais evidentes que esta lhes oferecia. Por exemplo, o problema do suicídio e o que se entende pelo “ateísmo” de Cioran. Isso se deveu, entre outras coisas, à falta de conhecimento que temos sobre a cultura e história romenas e a falta de bibliografia sobre Cioran. Hoje, sem dúvida, é estudado de forma mais científica – se a expressão for permitida. Os preconceitos acadêmicos têm sido lentamente superados, de modo que agora temos estudos mais rigorosos sobre Cioran. Um exemplo é o ensaio-prefácio que um dos mais importantes filósofos do nosso país, Guillermo Hoyos Vásquez, escreveu para a compilação do Encontro Internacional Emil Cioran 2008-2011, publicado pela Universidade Tecnológica de Pereira. Este prefácio constitui um marco importante na história da recepção da obra cioraniana em nosso país, pois trata da abordagem de Cioran à fenomenologia de Husserl, tendo sido escrito por um filósofo que anos atrás havia expressado suas reservas em relação à obra de Cioran.

CIPRIAN VĂLCAN: Você compartilha da opinião de Michel Onfray, expressa no contexto de uma entrevista que fiz com ele em 2010, segundo a qual Cioran é um filósofo para adolescentes?

LILIANA HERRERA: Onfray está certo se estivermos falando de leitores adolescentes que são atraídos tão-somente pelos temas cioranianos que têm um impacto direto (como o suicídio, a decadência) e, são via de regra, mal interpretados. Mas as leituras de segundo e terceiro níveis, que devem ser feitas de todas as obras valiosas, neste caso a de Cioran, conduzem a uma maior riqueza temática: dos problemas linguísticos e literários aos problemas relacionados com a crítica das ideologias, da cultura, da metafísica e filosofia.

CIPRIAN VĂLCAN: O que a atrai à obra de Cioran, o pessimismo, o absoluto ou o humor subterrâneo que percorre suas páginas?

LILIANA HERRERA: Li Cioran pela primeira vez quando era adolescente. Você pode imaginar que minha leitura foi marcada pela idade; foi uma leitura ingênua e intuitiva. Uma das questões que estavam presentes naquela época era o problema religioso, um problema que ainda me interessa. Com o tempo, tive acesso à bibliografia francesa sobre Cioran e consegui me inteirar da história e da cultura romenas, de tal forma que o horizonte interpretativo se abriu para mim de maneira significativa. Os livros de Cioran são, sem dúvida, um estimulante e um antídoto tanto para a crítica devota da ilusão quanto pelo humor fascinante. Em suma, Cioran é um grande escritor, e bons escritores devem ser lidos para serem estudados rigorosamente, como parte de um permanente treino intelectual, e também para o conforto da mente.

CIPRIAN VĂLCAN: Cioran foi muitas vezes comparado ao grande pensador Nicolás Gómez Dávila. Você acha esta comparação proveitosa para a compreensão de suas obras?

LILIANA HERRERA: Existem diferenças fundamentais entre eles. Os escritos aforísticos de cada um diferem na estrutura formal, bem como em intenção e significado; há também uma grande diferença no que diz respeito às suas respectivas posições ideológicas. São dois escritores de origens espirituais distintas. No entanto, partilham alguns elementos com os quais se podem estabelecer paralelos interessantes: escolha do tipo de escrita, escolha de um tipo de vida (embora, obviamente, em contextos diferentes e por motivos diversos), tempo livre, dedicação exclusiva à leitura.

ILINCA ILIAN: Você considera que Cioran é um continuador de Nietzsche, como sustentam muitos comentaristas?

LILIANA HERRERA: Creio que não. Basta ler as afirmações que o próprio Cioran fez em relação a este assunto. E esta é uma das interpretações que circularam na Colômbia. Por exemplo, é importante para nós, em nosso meio, insistir no tema dos moralistes franceses e da escrita fragmentária, porque permite cada vez mais uma apropriação da interpretação pelos estudantes do espírito da obra cioraniana. Outra questão sobre a qual tenho insistido é a relação entre filosofia e literatura, aspecto que permite que a obra de Cioran seja abordada de forma flexível e igualmente mais adequada.

CIPRIAN VĂLCAN: Poderia nos contar quais atividades você realiza na Colômbia para difundir a obra de Cioran? Em quais projetos está trabalhando neste momento?

LILIANA HERRERA: Eu coordeno um grupo de pesquisa na UTP. Nosso primeiro projeto foi focado em Cioran. Deste projeto surgiu um resultado permanente: os Encuentros Internacionais Emil Cioran. Este evento, que já teve quatro edições, tem três objetivos principais: primeiro, dar a conhecer as produções de investigadores estrangeiros sobre Cioran, especialmente romenos. A segunda, discutir problemas mais amplos sobre a relação entre filosofia e literatura (linha em que também se destaca a obra de Cioran) e, por fim, apresentar uma cultura romena não tão conhecida. Para atingir esses objetivos, passei alguns anos trabalhando na tradução de textos sobre a obra de Cioran escritos em francês por professores europeus, especialmente romenos. Algumas traduções foram publicadas pela UTP, outras em revistas colombianas.

Ao mesmo tempo, me dedico a dois outros projetos: um, diferente de “minhas preocupações cioranianas”, tem a ver com a relação filosofia-psicologia, e o outro tem a ver com a tradução de La concurrence des influences culturelles françaises et allemandes dans l’oeuvre de Cioran, de Ciprian Vălcan. Gostaria de terminar um livro de ensaios que comecei há algum tempo e que tem a ver com Cioran (mas este livro terá que esperar).


VĂLCAN, Ciprian. Cioran, un aventurero inmóvil. Treinta entrevistas. Trad. del rumano de Miguel Ángel Gómez Mendoza. Pereira: Universidad Tecnológica de Pereira, 2019, p. 121-125.

Tradução do espanhol de Rodrigo Inácio R. Sá Menezes (27/09/2021)

Deixe um comentário

Faça o login usando um destes métodos para comentar:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s