A vida em tradução: entrevista com Gleiton Lentz, editor da Revista (n.t.) Nota do Tradutor

Gleiton Lentz é tradutor e editor-chefe da revista (n.t.) Nota do Tradutor. Doutor em Literatura (UFSC/Università degli Studi di Firenze) e pós-doutor em Estudos da Tradução (PGET/UFSC), dedica-se à tradução da poesia simbolista italiana e hispano-americana e ao estudo da origem das escritas antigas e suas literaturas, incluindo a maia e a suméria.
Para quem não conhece, a (n.t.) é uma publicação online e gratuita, uma revista inteiramente dedicada à tradução de textos das mais diversas línguas, culturas e épocas, à língua portuguesa. O último número, uma edição especial dedicada às mulheres, apresenta traduções de idiomas variados como o sumério, grego antigo, latim, farsi, japonês, russo, grego, polonês, italiano, francês, espanhol e inglês, textos de uma diversidade de autoras como En-hedu-Ana, Forugh Farrokhzad, Maria Polyduri, Isabella di Morra, Zitkala-Ša, Bronisława Ostrowska, Akiko Yosano, entre muitas outras.

Arte: Aline Daka

Nascida em 2010, em Santa Catarina, com uma frequência semestral, a (n.t.) é uma pérola literária no cenário editorial brasileiro. Uma grande obra em devir: um permanente work in progress de traduções. A diversidade linguística e cultural do acervo, a excelência não só das traduções, mas também estética – a composição, a forma, o conceito: tudo isso faz da (n.t.) uma revista essencial, no que concerne ao teor, e exuberante, quanto à forma. Encontra-se aí uma vasta pletora de traduções, empreendidas a partir dos mais diversos textos e contextos, dispersos no tempo e no espaço, reunidos na (n.t.) pelo pretexto de uma paixão comum pelo aprendizado de idiomas e pelo exercício da tradução.
Desde 2014, a (n.t.) tem publicado ensaios e aforismos de Cioran até então inéditos em português, traduções que eu tenho feito do francês e – mais recentemente – também do romeno. Na carência de suas obras completas disponíveis em língua portuguesa, Cioran tem encontrado uma acolhida providencial na revista, que tem suprido, pouco a pouco, a ausência das obras completas editadas em português. O Portal E.M. Cioran Brasil teve a honra de conversar o idealizador e editor-chefe da revista, Gleiton Lentz. Publicamos a entrevista neste dia 30 de setembro, o Dia do Tradutor.


RODRIGO MENEZES: Prezado Gleiton, agradeço enormemente a generosidade em nos conceder esta entrevista. Descobri a (n.t.) há muitos anos, quando vi na revista as traduções feitas por Fernando Klabin – tradutor de Nos cumes do desespero – de alguns autores romenos, entre eles Ciprian Vălcan.[1] Em 2014, então, submeti à (n.t.) algumas traduções de Cioran: dois ensaios, de dois livros franceses distintos, até então inéditos em português (um deles, extraído de A tentação de existir, como viria a descobrir, já existia em língua portuguesa, publicado em Portugal). Mal podia imaginar que seria o início de uma duradoura e auspiciosa colaboração com a Nota do Tradutor, de minha parte, traduzindo inéditos de Cioran. É um enorme orgulho para mim, e quero manifestar desde já o meu agradecimento por ter-me aberto esta inestimável porta. Para começar, eu gostaria de saber: como surgiu a (n.t.)? Pode contar um pouco sobre o processo, desde a ideação, a concepção, até a forma atual? A assinatura, Revista Literária em Tradução, viria a ser incorporada posteriormente? Gosto muitíssimo dela, pela ideia de movimento, de devir, de work in progress, que ela evoca… como uma torre de Babel em permanente construção.

GLEITON LENTZ: Em primeiro lugar, eu gostaria de agradecer gentilmente o convite, pois há muito acompanho também o Portal Cioran que, cumpre notar, nasceu junto com a revista (n.t.), há mais de uma década. E também, é uma honra estar ao lado, mesmo de forma evocativa, de Cioran, meu mestre de formação, que não só passou pelas páginas da revista, mas que é dono de uma das assertivas mais precisas sobre essa relação entre o lugar que se habita e a língua que se fala, e onde a escrita (e por extensão, a tradução), desempenha um papel fundamental. Em um aforismo de Aveux et anathèmes, o filósofo franco-romeno, ele próprio um escritor dividido entre duas línguas, entre duas pátrias linguísticas, disse que ninguém habita um país, mas sim, uma língua. Para ele, a “pátria” que ocupamos, antes que geográfica, era linguística, pois nos expressamos a partir de um idioma, tornando-nos, às vezes, bilíngues. E para nós da (n.t.), desde o início do projeto, este era o lugar onde se encontrava também, de forma análoga, a figura do tradutor, em especial, a do tradutor literário, que habita o nacional e o estrangeiro ao mesmo tempo, vivendo no limiar de dois ou mais sistemas linguísticos, mediador de duas ou mais culturas distintas, o que não significa dizer que ele não possua um lócus próprio, pois seu lócus originário parece ser a própria fronteira, seu lugar de atuação, enquanto sua “pátria”, o idioma. E foi a partir desse entendimento que concebemos o projeto, de que as fronteiras, embora existam geograficamente e separem politicamente, é nelas justamente onde o tradutor constrói suas pontes, e isso não é metafórico, e sim, uma questão de ofício. Em outras palavras, muito de nosso entendimento do mundo, que é construído através de inúmeras leituras, se dá através da tradução, geralmente, por intermédio de um tradutor.

E essa é a nossa percepção, de que a tradução não só vislumbra, mas aponta horizontes, sobretudo quando lemos um novo autor, algo que se amplia quando se trata de outro idioma. E os sistemas linguísticos, isto é, as línguas em seu caráter funcional e literário, não são fronteiras, mas a expansão desse mesmo horizonte, que mesmo para um poliglota parece infinito. E o tradutor é essa figura dividida entre duas línguas, conforme o bilinguismo de Cioran, ou então, um “cidadão do cosmos”, na visão cosmopolita de Diógenes, ou metaforicamente falando, um “decifrador de signos”, como nos dizia Baudelaire. Há muitas metáforas para tentar explicar a condição do tradutor, de fato, mas é preciso lembrar que se trata de um ofício secular, sem cuja intermediação, “estaríamos vivendo nas províncias que fazem fronteira com o silêncio”, como diria George Steiner. O tradutor é aquele que atua por detrás do texto traduzido, em sua eterna condição de presença-ausência.

Munidos desses princípios, lançamos o primeiro número da (n.t.) em setembro de 2010. Naquele então, havíamos percebido que a tradução literária, de poesia e prosa, no âmbito das revistas, já havia conquistado um espaço tanto nas páginas daquelas que se dedicavam a comentar traduções de textos literários, quanto nas páginas dos periódicos científicos que se voltavam ao estudo e pesquisa da tradução, ocupando, assim, um lugar dentre as chamadas seções temáticas, mas nunca um lugar específico, um lugar dela própria, onde pudesse estar acompanhada de sua contraparte, o original. Por outro lado, sabíamos que todo tradutor geralmente “excede” seu ofício, que vai além do que manda a demanda, não se dedicando apenas aos trabalhos editoriais, mas também que dispõe de traduções esparsas que vão se acumulando ao longo do tempo e de seu ofício e que vão sendo guardadas, esquecidas ou postergadas em sua “gaveta de tradutor”, tal como entendia José Paulo Paes. Foi por causa dessa figura, de contornos às vezes imprecisos, a do tradutor, propriamente, que décadas atrás era mal mencionado nos créditos dos livros, e que nas últimas passou a ganhar a capa ao lado do autor, que empreendemos o projeto, passando a divulgar o trabalho de um enorme grupo de tradutores, da nova e antiga geração.

A (n.t.) representa, portanto, a soma desses princípios e uma iniciativa lítero-tradutória, na busca, sobretudo, por ampliar não o corpus, mas o cosmos das traduções literárias em língua portuguesa, sempre dando uma atenção especial a autores de menor visibilidade em português, a textos pouco conhecidos ou inéditos de autores clássicos e, sobretudo, a textos em idiomas de difícil ou escasso acesso no sistema literário de traduções à língua portuguesa. Para além das dificuldades linguísticas e culturais de transposição inerentes à profissão, para nós, a infidelidade da tradução ou a invisibilidade do tradutor são questões que permeiam o campo das teorias, não da prática. Por isso, a (n.t.) é uma revista essencialmente literária, e seria uma revista de literatura se não fosse nossa visada sobre a tradução, uma vez que nos interessa o texto literário traduzido propriamente dito, isto é, aquele clássico, acompanhado de notas do tradutor e disposto em formato bilíngue. E isso explica o porquê da assinatura Revista Literária em Tradução, não só para passar a ideia de movimento, de work in progress – pois nossa Babel, para desespero dos deuses, continua a crescer, alcançando já mais de 40 idiomas –, mas também para deixar constância da tarefa do tradutor.

RODRIGO MENEZES: Para além ou aquém do conteúdo textual, é uma revista belíssima, com um tratamento visual requintado e extremamente cativante, sem falar nas traduções ilustradas, em formato de HQ, como a que você fez de Max Stirner (uma das leituras germanófilas do jovem Cioran). Embora me pareça perfeita do jeito que é, um trabalho de tirar o chapéu, fazê-la neste formato digital, e não em versão impressa, é uma escolha vinculada à condição de possibilidade de mantê-la gratuita? Afinal, não é uma publicação nada pequena, mas volumosa, chegando a ter mais de 300 páginas… Quais são os maiores desafios, e obstáculos, se houver, em editar semestralmente uma revista como a (n.t.)? Sei, por causa das traduções que fiz de Cioran, que em certos casos é necessário ter a autorização da editora que detém os direitos autorais do texto traduzido. Outra curiosidade: você conta com uma equipe de editores, designers, diagramadores e revisores? Pode falar um pouco sobre as tribulações – algumas das quais eventualmente burocráticas – que estão em jogo na edição da (n.t.)?

GLEITON LENTZ: A escolha do formato digital se dá porque fazemos parte de uma geração que cresceu não só com as bibliotecas físicas, mas também com as bibliotecas virtuais. Desde o princípio, o objetivo era criar uma plataforma livre de textos literários traduzidos, em formato de seleções ou de excertos, nunca a obra integral, e isso se concretizou já em 2016, quando lançamos nosso acervo digital, que conta com mais de 600 textos, entre traduções e originais. Nunca tivemos interesse comercial, institucional ou catártico em relação ao projeto, e sim, humanístico. A enorme variedade linguística fez com que a revista ganhasse também um considerável alcance internacional, sendo acessada em mais de uma centena de países, justamente por disponibilizar textos em muitos idiomas, algo que não ocorreria se fosse impressa em papel.

E claro que esse formato bilíngue e sem restrições linguísticas foi uma de nossas preocupações iniciais, pois seria preciso dar suporte a vários idiomas, com codificações distintas e tipografias variadas, além de editá-los em um só volume integral, e não separadamente. Para tanto, munimo-nos de uma série de dicionários, a linfa vital dos tradutores, e estudamos as tipografias de cada idioma, valendo-nos da tradição legada pelo saudoso editor Cleber Machado, da antiga Noa Noa, que nos ensinou a arte da tipografia. E depois, havia a questão da reprodução e do licenciamento dos textos, pois, ao seguir o modelo das bibliotecas virtuais, a proposta era disponibilizar gratuitamente as edições da revista, que em média contam com 15 traduções cada. Uma vez licenciada a revista no formato Open Access, publicamos não só textos em domínio público, que nos são disponibilizados por bibliotecas virtuais com as quais mantemos vínculos, como o projeto Gutenberg, por exemplo, e também textos em vigência autoral, mas apenas mediante excertos para fins de estudo e leitura, sem que isso prejudique os interesses dos autores ou dos selos editoriais. A proposta por trás do projeto é incentivar o leitor a adquirir a obra integral de um eventual autor publicado e impulsionar a publicação de novos autores estrangeiros no cenário de traduções do Brasil, e por extensão, nos demais países de língua portuguesa. E também, possibilitar aos tradutores divulgar seus trabalhos, pois há traduções que apareceram primeiro na revista, e que depois foram publicadas em livro, o que nos deixa muito contentes.

E para que esse projeto ganhasse envergadura, era preciso montar uma comissão que conhecesse e abarcasse um bom número de idiomas conjuntamente, e também, contar com uma equipe de colaboradores externos nos mais diversos idiomas como suporte. Feito isso, me reuni com o coeditor, Miguel Sulis, também tradutor e um exímio conhecedor de idiomas, e decidimos lançá-lo. A revista conta com uma equipe nos mesmos moldes de uma editora: após a recepção da tradução, seja através de chamada, seja através de convite, realizamos todo o processo editorial, de revisão e preparação não só da tradução, mas também do original, assim como de consultoria linguística, pois todas as traduções são lidas, independente do idioma, e também o licenciamento dos originais; não temos limitações linguísticas, o que queremos é justamente romper com a limitação de apenas traduzir a partir de idiomas convencionais.

O rigor estético e tipográfico é também uma característica da (n.t.), pois buscamos manter o legado das antigas revistas literárias do século XIX dedicadas à literatura e que publicavam poesia, contos, trechos de romances e ensaios literários, muitas vezes, com o uso de ilustrações. E para manter essa relação, desde o início contamos com a artista gráfica gaúcha Aline Daka, a ilustradora da (n.t.), responsável pelas HQs e pelos suplementos de arte, que vincularam nos primeiros anos do projeto. O trabalho gráfico dela, cujo estilo quadrinístico inspira-se, entre outros, na arte de Crepax e Breccia, reforça ainda mais a estética da revista, pelo traço visceral de seus desenhos e vínculo com o autor ilustrado. E nessa esteira, já traduzimos e ilustramos autores como Dino Campana, Alfonsina Storni, Forugh Farrokhzad, entre outros.

Em suma, a (n.t.) é como uma editora, mas sem fins comerciais, autogerida pelo apreço ao ofício e albergada pelo setor de obras digitais da Bibliotheca Alexandrina.

RODRIGO MENEZES: É uma revista no melhor espírito humanístico, cosmopolita e universalista. Como conseguem manter essa virtude na prática? Tenho em mente a variedade desconcertante de idiomas, e, portanto, hipoteticamente, uma extensa relação de tradutor@s qualificad@s para traduzir a partir de cada um deles, contribuindo ativamente, assim, para manter (e expandir) essa diversidade…

GLEITON LENTZ: Para entender esse viés humanístico e internacionalista do projeto, precisamos voltar no tempo até a assertiva de outro pensador, Diógenes de Sinope. Quando questionado acerca de sua pátria, isto é, acerca de sua condição citadina, ele respondeu: “Eu sou um cidadão do mundo”. Essa declaração seria lida com ênfase pela posteridade como a primeira a abordar o princípio do cosmopolitismo, em favor de uma filiação universal independente do critério de pertença a uma dada comunidade, a uma “pátria”. Para Diógenes, que considerava a si mesmo um desterrado, a verdadeira natureza humana estava entregue ao cosmos. E nesse sentido não há como não pensar, de maneira análoga, no caráter cosmopolita da tradução, que desconhece barreiras, que perpassa fronteiras, que aproxima costumes, que rompe distâncias, uma vez que ela é detentora de um caráter universal e um saber sui generis que lhe são intrínsecos. A tradução, antes que geográfica, é linguística, cognitiva. Para ela, parece não existir línguas mortas ou escritas que sejam indecifráveis. E este, pode-se dizer, é o seu modus operandi, a maneira como se projeta e atua no mundo, mostrando-nos que as fronteiras, especialmente em literatura, se existem, são mais contíguas do que comumente percebemos. Logo, todo tradutor “é um cidadão do mundo”, no sentido diogeniano do termo, cuja pátria não tem fronteiras. E esse sentimento cosmopolita é o motor principal da revista, pois a cada número publicado, rompemos e diminuímos ainda mais a distância entre as fronteiras, sobretudo em um mundo cada vez mais dividido e fragmentado, pois a tradução é como um aprendizado que nos desprovincializa a cada vez que entramos em contato com o Outro, enquanto o tradutor, por paradoxal que possa parecer, na solidão de seu ofício, é aquele que consegue tornar esse mundo menos isolado e mais universal. E nós temos a felicidade de contar com uma equipe de exímios tradutores que se dedicam aos mais diversos idiomas, e como a lista é grande, cabe mencionar alguns deles e a rica variedade de línguas que traduzem, como o próprio Miguel Sulis, que traduz do farsi, Théo de Borba Moosburger, do grego, Olga Kempińska, do polonês, Safa A.C. Jubran, do árabe, Fernando Klabin, do romeno, Verônica Filíppovna, do russo, Karen Kazue Kawana, do japonês, entre muitos outros. E também consideramos como nossa patrona a tradutora Denise Bottmann, com quem aprendemos muito sobre o ofício. Todos, sem exceção, a cada tradução, nos auxiliam a manter viva nossa Torre de Babel, pois sem esses “pobres tradutores bons”, como diria García Márquez, que “nos apresentam ao mundo”, como diria Calvino, as páginas da revista viriam em branco.

RODRIGO MENEZES: O que você diria que agora é diferente na revista, comparando com o início, há mais de 10 anos? Que inovações foram implementadas? De que maneirasa (n.t.) mudou, ou, melhor, vem mudando desde o primeiro até o número atual? Aliás, em termos de “tentativa e erro”, no sentido de aperfeiçoar-se a partir dos erros: há alguma coisa neste sentido, na história de vida da (n.t.), que você, como editor-chefe, poderia compartilhar?

GLEITON LENTZ: Nesses dez anos de (n.t.), a revista, de fato, não passou por mudanças significativas, pois mantém, desde o primeiro número, um formato padrão, que tem se permanecido imutável. E também não houve mudança na linha editorial, pois desde o início nosso interesse era o de aproximar a tradução da história da escrita, da qual era normalmente desvinculada, como se fosse algo exterior. Essa aproximação está presente no projeto gráfico das capas, pois cada número é dedicado a uma escrita antiga específica, decifrada ou não, e também em nossos editoriais, geralmente de viés histórico e arqueológico, pois todo tradutor é como um arqueólogo de autores, um decifrador de escritas. E cabia trazer esse novo elemento, que foi essencial para definir a linha editorial do projeto. Então, o que buscamos é sempre um aperfeiçoamento gradativo nesse sentido, uma torre construída não só com tijolos de barro cozido, mas com ladrilhos de pedra lápis-lazúli. A única mudança significativa que tivemos, e que foi necessária por causa do aumento da plataforma que alberga a revista, foi o lançamento de um novo site em 2017, mais minimalista e melhor navegável quando comparado ao anterior, que tinha um layout similar a de um blogue, com recursos gráficos mais limitados. Nessa mesma época, inauguramos o Acervo Digital de Literatura Traduzida e a Coleção de HQ’s Literárias, dois spin-offs, dois projetos paralelos derivados do conceito inicial da revista.

RODRIGO MENEZES: Você é formado em Letras, com uma sólida pós-graduação em Estudos da Tradução. Na própria (n.t.), você já traduziu inúmeros textos oriundos de uma diversidade de línguas. De quais idiomas você já traduziu – e traduz? Há uma língua de que você goste mais para traduzir? E um gênero textual? Qual a tradução mais espinhosa que já fez? Houve alguma que não pôde realizar devido a uma palavra, frase ou período que lhe pareceu absolutamente intraduzível?

GLEITON LENTZ: Para mim, a tradução é um devir. Logo, uma tarefa possível. Ou, parafraseando Valéry, uma tentativa de produzir efeitos análogos por meios distintos. E os idiomas um mundo misterioso aos quais, para acedê-los, é necessário decifrá-los, salvo para o poliglota, que já nasce um iniciado. E não obstante meu interesse por tradução vir antes de qualquer estudo, contei, sim, com uma sólida formação na área, pois, quando era estudante, tive a oportunidade de vivenciar uma época em que os Estudos da Tradução na UFSC, onde me formei, estavam se consolidando enquanto disciplina. E para além das teorias, que eram abundantes, assisti a uma série de palestras e seminários sobre tradução, eventos que contavam não só com estudiosos da área, mas com a presença de muitos editores e tradutores, que relatavam suas vicissitudes e curiosidades do ofício. E todo esse contexto e formação auxiliou-me a entender a dimensão da tradução, a importância de discuti-la enquanto estudo, e de historizá-la enquanto prática, e não mais relegá-la a uma área secundária, seja da própria literatura ou da linguística comparada, pois a tradução pode falar por si mesma. E nesse quadro, do qual a (n.t.) faz parte, é preciso consentir que a visibilidade que os tradutores ganharam nas últimas décadas se deve a todo um empenho acadêmico, de se fazer notar a tradução, enquanto que a tradução, por sua condição inerente, é predecessora de qualquer estudo, que inexistiria sem seu ofício. A (n.t.) é a soma desses dois polos: da tradução enquanto ofício e da tradução enquanto pensamento.

E embora eu tenha tido uma formação em letras, em línguas românicas, como o espanhol e o italiano, e em clássicas, com o grego e o latim, foi com o processo de preparação e revisão dos originais e das traduções que aprendi outros idiomas, o que levou a me interessar pelo estudo das escritas antigas e suas literaturas, como o maia e o sumério, por exemplo. Sempre me interessei pela tradução de poesia, sobretudo da estirpe dos poetas simbolistas, decadentes, crepusculares, scapigliati, ultrarromânticos, etc. E traduzi muitos deles, do italiano e do espanhol, de Dino Campana a Delmira Agustini. Já nos últimos anos, após passar uma temporada no Irã, tenho me dedicado ao estudo e tradução do sumério. Tem sido uma tarefa árdua, mas de um aprendizado quase arqueológico, pois desde cedo tinha interesse em tentar entender a escrita cuneiforme e as origens do povo sumério. Sabia da existência de uma série de escritos dessa antiga cultura, que incluía desde hinos a narrativas mitológicas, de modo que só havia uma possibilidade de adentrar este mundo: munir-me de dicionários e gramáticas, e tentar traduzi-lo. Passei a estudar, então, a escrita e o idioma do povo de Kalam, e até então traduzi a poeta acádia En-hedu-Ana e seu hino à deusa Inanna, Senhora de todos os me’s. Esta tradução, sem dúvida, foi umas das mais difíceis que empreendi, não pela dificuldade linguística, mas pelo distanciamento temporal, pois não se trata apenas de traduzir, e sim, transpor todo um passado, que ainda está sendo desvelado como o do sumério, para o presente. E no momento, finalizei a tradução do Senhora tingida como as estrelas celestes, um hino à deusa da escrita e padroeira dos escribas, Nisaba, um dos primeiros fragmentos da humanidade que fala sobre a origem da escrita, advinda do barro, em alusão às tabuinhas.

RODRIGO MENEZES: Quando e como começou para você, por assim dizer, o “casamento” entre leitura, tradução e escrita (literária, poética, crítica)? Quais foram as suas primeiras leituras? Que autor@s mais te marcaram? E sua primeira tradução, qual foi?

GLEITON LENTZ: Sou de formação anarquista, e durante minha juventude, lia desde Proudhon a Kropotkin, de Bakunin a Max Stirner, e claro, por extensão do pensamento, as obras mais sintomáticas de Nietzsche, Schopenhauer, Hartmann e Cioran. E também, como não poderia deixar de ser, a estirpe dos malditos, de Augusto a Florbela, de Rimbaud a Poe. Comecei a traduzir para uma revista político-literária underground que editava à época, chamada Jôgo de Absurdos, em 1999, onde publiquei minhas primeiras traduções livres, alguns poemas dadaístas do franco-romeno Tristan Tzara. Já em 2004, saíram as primeiras traduções, Os anarquistas expropriadores, do historiador uruguaio Osvaldo Bayer, e os Cantos Órficos, do poeta italiano Dino Campana. E de todos esses escritores, Max Stirner, de quem acabaria me tornando tradutor, foi um dos pensadores que mais me marcaram por sua crítica à condição humana, e por outro lado, Cioran, por sua lucidez incorrigível. Depois disso, veio a época da universidade, a formação em letras e os anos de estudos em tradução, que consolidariam essa experiência primária.

RODRIGO MENEZES: O escopo de interesse das perguntas que eu gostaria de fazer vão além da revista (n.t.), em matéria de tradução e edição (mas sem se desligar destes temas). Você é um leitor de Giacomo Leopardi, o grande poeta italiano, em relação ao qual Cioran era só elogios (como normalmente não costuma ser). Seu doutorado em Literatura, na Università degli Studi di Firenze, foi sobre Leopardi ou outro(s) poeta(s) italianos? Por fim, sei que, para além do acolhimento em virtude da tradução pela tradução, você também é um leitor cativo, conhecedor e apreciador de Cioran (aliás, foi você quem me apresentou devidamente à “Nave dos Malditos”,[2] a seleção de 193 aforismos traduzidos, em 1986, por Flávio Bazzo). Que paralelos você faz, ou considera possível fazer, entre Leopardi e Cioran? Há algum tempo, numa página de Facebook italiana sobre Leopardi, alguns dos participantes, que pareciam ser conhecedores da obra do poeta, reagiam com veemência, negativamente, à caracterização de Leopardi como um poeta “pessimista”. Você acha que inclusive nisso Leopardi e Cioran se assemelham, em dar a impressão de certo pessimismo e, não obstante, negá-lo categoricamente?

GLEITON LENTZ: Leopardi é como um farol que irradia por toda a literatura italiana, e se você busca o infinito na poesia, certamente chegará a ele. No meu caso, sempre fui leitor de sua poesia e um apreciador de seus diálogos. E em minha tese, que versava sobre a poesia simbolista entre os séculos XIX e XX na Itália, entre o Otto-Novecento, ele era uma figura recorrente. Eu estudei a poesia de vários poetas, entre os quais Gian Pietro Lucini, Arturo Graf e Dino Campana, por exemplo, poetas que haviam sofrido o influxo da poesia de Leopardi séculos depois, porque um expoente sempre deixa máculas. Lucini, autor do manifesto simbolista italiano, argumentava que Leopardi era um dos pais do simbolismo itálico, enquanto que Arturo Graf havia escrito ensaios sobre o poeta de Recanati e Dino Campana um livro que traduzi, os Cantos Órficos, que retomava a tradição dos cantos leopardianos e de quem o marradino se sentia herdeiro direto. E por essa razão pude argumentar que Leopardi era um dos escritores que estavam na gênese do chamado Simbolismo Nostrano defendido por Lucini. E fora as leituras, apenas como uma anedota, minha maior aproximação com ele se deu no Gabinetto Vieusseux, um dos maiores centros de leitura em Florença e ponto de intelectuais há dois séculos, onde apresentei minha tese, lugar que ele frequentara durante sua estadia na capital toscana em 1827. E claro que para os simbolistas italianos, a poesia de Leopardi era um terreno fértil para discutir questões existenciais, sobretudo seu viés pessimista. A meu ver, era um poeta melancólico, abalado por enfermidades, mas de espírito forte, cuja força se mostra um suas Operette morali, que são um grande compêndio filosófico do pessimismo, que antecipa quiçá o de Hartmann de derivação schopenhaueriana. Por isso, embora soe limitante, não vejo porque reagir contra essa caracterização, pois não incorre em uma inverdade, embora entenda que haja uma resistência maior a esse tipo de leitura, sobretudo na academia, no argumento de que a grandiosidade da obra de Leopardi não daria margem a isso. E claro, por extensão, o mesmo ocorre com o Cioran, considerado um arauto do pessimismo, um antiprofeta, mas que, na verdade, se deteve a falar do pessimismo de forma mais pungente, mais assertiva, e isso parece causar certo incômodo por parte daqueles que veem na vida um ato de superação. Acho que tanto o ítalo quanto o romeno abordaram questões existenciais da condição humana, sendo o pessimismo apenas uma de suas facetas, de modo que não podem ser reduzidos a uma única equação.

RODRIGO MENEZES: Você viajou muito, e, se não estou enganado, inclusive viveu em outros países. Inclusive para a Romênia, o que é para mim um sonho a ser realizado antes de morrer. Pode nos contar sobre algumas dessas viagens, e particularmente à Romênia? Você esteve na região da Transilvânia, a Romênia profunda que é o lugar de nascimento de Cioran? Conhecer a Romênia de perto contribuiu para compreender algum aspecto da obra e do pensamento de Cioran? Por fim, de que maneira você integra essa rica experiência acumulada, viajando e conhecendo as mais diversas alteridades, em proveito das suas atividades de tradutor e escritor, profissionalmente ou não necessariamente?

GLEITON LENTZ: Eu viajei para muitos lugares, de pequenas a grandes urbes, pois o mundo não gira se não nos movimentamos. Mas o fiz sempre como um andante, um deambulante, com uma mochila nas costas. E sempre no intuito de, além de tomar as ruas das cidades, visitar sobretudo sítios arqueológicos de antigas culturas, pois, para saber, de fato, como a história começou e se desenvolveu, e que não seja por meio de imagens, livros ou documentários, é preciso viajar, a fim de romper com aquela velha ignorância que nos faz ver o mundo como o queremos e não como ele simplesmente é. Em viagem pelos cinco continentes, visitei milhares de sítios arqueológicos, das mais diversas culturas, desde a tiahuanaco, chimú, nazca, moche, inca, zapoteca, olmeca, maia, asteca, nas Américas, passando pela etrusca, grega, romana, bizantina, urartiana, armênia, na Europa, pelas culturas egípcia, fenícia e berbere, na África, pela mesopotâmica, hitita, persa, nabateia e hebraica, na Ásia, e mesmo pela cultura de rapa-nui, na polinésia. E morei também em países como o Uruguai, Itália e Irã. E claro que todas essas experiências foram de grande valia para minha atividade, pois a função primária do tradutor, a meu ver, é justamente buscar equivalências e correspondências para tentar modestamente traduzir o mundo, e sem dúvida, toda e qualquer viagem tem o poder de ampliar seu léxico para além dos dicionários.

Foto: Gleiton Lentz

Já no caso da Romênia, eu tinhauma dívida com duas figuras do país: Vlad Țepeș e Emil Cioran. Primeiro, com Vlad Țepeș, o eterno Vlad Drăculea, pois a história do herói romeno sempre me fascinou, e uma vez em Bucareste, fui atrás de seus vestígios em sua antiga corte construída durante seu reinado no século XV, o palácio de Curtea Vechae, que hoje se encontra em ruínas em meio à capital romena. Nele passei horas vendo a partir da mesma janela que via Vlad. E também visitei o Castelo de Bran, um posto alfandegário no sopé dos montes Cárpatos que ele frequentava e o vilarejo transilvano de Codlea. Toda a história em torno do príncipe da Valáquia sempre me fascinou, e também, da Transilvânia, a antiga fronteira entre o Ocidente e o Oriente. E valendo-me do mito literário, é claro que trouxe um punhado de terra desde o Castelo de Drácula.

Foto: Gleiton Lentz

E Depois, com Cioran, pois ao ler, ainda na juventude, a versão espanhola de Nos cumes do desespero, havia ficado surpreso em como alguém que, atormentado por insônias dilacerantes, havia conseguido fazer uma espécie de vigília do pensamento. Um livro que, embora seja de sua época de juventude, nos remete ao drama inicial que o próprio Cioran chama de o “desastre por excelência”, o maior sobressalto que pode incidir sobre uma existência, o de ser insone da razão. Depois desse livro, li muitos outros, e só posso dizer que Cioran é como um mestre de formação para mim. Por isso, me vi na necessidade de viajar para a Romênia para também refazer seus passos em Rășinari, a cidade onde nascera, e Sibiu, a urbe da insônia e dos estudos. Após visitar seu vilarejo natal que parecia ter parado no tempo desde a sua época, e andar pelas ruas sinuosas e penumbrosas de Sibiu à noite, compreendi, de fato, quem foi Cioran, um desterrado, pois em Rășinari foi onde ele perdeu o contato com aquele mundo primitivo que depois se lhe escapou, enquanto que em Sibiu havia dado início às suas primeiras divagações e indagações, que o acompanhariam por anos e conformariam seu pensamento. E para visitar esses lugares, contei com a companhia e complacência do tradutor Fernando Klabin, que, analogias à parte, naquele mesmo ano de 2012, recém havia publicado sua tradução dos cumes.

Pensão Cioran, em Rășinari. Em vez de estrelas, as pensões na região são avaliadas com flores (sendo 3 a nota máxima, não 5). Foto: Gleiton Lentz.

RODRIGO MENEZES: Quando você leu Cioran pela primeira vez? Que livro foi? De que maneira te impactou?

GLEITON LENTZ: Minha primeira leitura de Cioran foi o Breviário da decomposição, seguida de História e Utopia, dois livros que, ambígua e decididamente, “arruinaram”, ao mesmo tempo que “edificaram”, minha visão da história e o modo como vejo a humanidade. E isso, por causa de seu estilo assertivo, que sempre me convence. Após passar por Nietzsche, Schopenhauer e Hartmann, e sobreviver às suas elucubrações existencialistas que pareciam apenas acumular vocábulos, Cioran foi o que me pareceu mais honesto, e até mesmo moderno. Alguém que, desenganado e com a implacável precisão de um silogismo ou aforismo, revelava minuciosamente, entre o sarcasmo e a lucidez, o nada que somos, uma vez que a pretensão humana sempre supera nosso humanismo. E o que Cioran fazia era simplesmente assinalar os paradoxos inerentes ao ser humano e à sociedade, cabendo ao seu leitor filtrar suas investidas, que não são, eu assumo, nada lisonjeiras para espíritos imberbes. Mas é justamente essa pungência que me atrai nele, por não apenas pensar, mas pôr o próprio pensamento em xeque. E claro que sua visão de história, que desmistifica o progresso mostrando seu lado regressivo e que questiona as utopias que apenas aplainam a sede de absoluto do humano, foi o seu maior contributo para mim, ilustrando todo e qualquer lugar que tenha visitado, pois é possível visitar um antigo sítio arqueológico a partir da perspectiva histórica dele. Já o breviário é como um código do desespero, uma espécie de bíblia às avessas, ao qual é preciso recorrer sempre que se perde a fé na humanidade.

RODRIGO MENEZES: Você tem preferência pelos textos romenos ou franceses de Cioran? Algum livro preferido do autor romeno de expressão francesa?

GLEITON LENTZ: Não tenho preferência, apenas considero a literatura em romeno de Cioran mais sintomática, própria quiçá do ímpeto juvenil, enquanto a francesa mais elucubrada, devido a anos sistemáticos de pensamento, por assim dizer. Além dos cumes, tenho um apreço particular pelo Amurgul Gändurilor, o livro que, me parece, junto com o breviário, encerra seu período romeno. E o aprecio justamente por ser um dos menos conhecidos do filósofo, que encerra aforismos que definem a sua própria obra, como: “Nada se explica, nada se comprova, tudo se ”. Contudo, o que mais aprecio em Cioran são suas entretiens, pois ali está o verdadeiro Cioran, desse “homem sem biografia”, como ele próprio se definia, especialmente em algumas entrevistas, como aquelas cedidas a Michael Jakob e Fernando Savater, onde vemos um Cioran frente ao qual os próprios interpeladores se sentem temerosos, mas que consegue transformar um exercício bastante formal e às vezes malogrado, como o da entrevista, em uma autêntica lição de vida e sabedoria, e isso, sem ser pessimista, mas externando um sutil sentido de humor.

RODRIGO MENEZES: Eu lhe agradecia, ao início, pela acolhida na (n.t.), graças à qual temos compensado, na medida do possível, a falta das obras completas de Cioran traduzidas ao português e publicadas no Brasil.Nem em Portugal estão editadas as suas obras completas (apenas 1 ou 2 livros a mais). Em contrapartida, a Espanha e a Itália já dispõem há algum um tempo, em suas respectivas línguas, das obras completas de Cioran – publicadas pelas maiores e mais renomadas editoras, e agora inclusive os Cahiers. Como você interpreta e avalia essa defasagem, esse atraso, talvez o reflexo de um desinteresse geral (ou, para falar em linguagem mercadológica, falta de “demanda”)? Você acha que Cioran é um autor fadado à impopularidade no Brasil – diferentemente de um Nietzsche?

GLEITON LENTZ: Embora soe contraproducente, eu prefiro, na verdade, que Cioran permaneça impopular, sobretudo no ambiente acadêmico, meio ao qual o próprio pensador tinha aversão. Acho também que os escritos dele reclamam por leitores, antes que estudiosos. Cioran não é um escritor fácil, e sim, incômodo, demasiado lúcido, e talvez isso explique o fato de sua pouca receptividade no Brasil, apesar dos esforços louváveis de José Thomaz Brum, Fernando Klabin e o seu em traduzi-lo. Lembro-me de uma outra anedota, desta vez, de um filósofo de academia, desses que se inflamam por apenas ter escrito uma simples orelha de livro, que uma vez me disse que não podia mais lê-lo pois Cioran prejudicava sua docência… Na verdade, parecia prejudicar a ele e às suas pretensões, embora haja certa verdade nisso, pois o pensamento de Cioran pode resultar, em parte, antididático, uma vez que não instrui, e sim, adverte. E acredito que haja uma acolhida maior na Europa, em vista de que os temas tratados por Cioran tocam muitas vezes a decadência moral e cívica do velho continente, e ele, pelo que lembre, era muito bem aceito e lido pelas novas gerações, que já não se comportavam ou sustinham antigos valores tradicionais. E isso talvez explique a demanda de sua literatura na Europa, e sobretudo em países como a Espanha e a Itália, sem falar da França que o acolheu, enquanto aqui no Brasil sua obra ainda esbarra em certo provincianismo e limitação editorial. Eu, enquanto editor, sempre tive interesse em publicar textos dele, e só estava aguardando o momento, que chegou através dos ensaios traduzidos por você, o que para mim, após ler praticamente toda a obra de Cioran, foi como um reencontro, de modo que o agradecimento é mútuo.

RODRIGO MENEZES: Outro autor sobre o qual eu gostaria de perguntar, e que além de ser italiano, como Leopardi, também mantém afinidades significativas com Cioran (embora seja muito menos conhecido que o poeta nascido em Recanati), é Carlo Michelstaedter (1887-1910), falecido 1 ano antes do nascimento de Cioran. Michaelstaedter foi, como Cioran, um “filho” do império austro-húngaro, dividido entre uma cultura oficial e heteronômica, por um lado, e sua própria identidade reprimida, por outro; um, transilvano romeno, o outro, judeu italiano. É um dos poetas traduzidos por você. Nunca li Carlo Michaelstaedter e não sei praticamente nada a respeito dele. Poderia falar um pouco deste importante e multifacetado intelectual? Que paralelos e conexões você vislumbra entre Michaelstaedter e Cioran? Que vínculos ele mantém com Leopardi?

GLEITON LENTZ: Eu conheci Michesltaedter na época em que estudava os simbolistas italianos, pois vislumbrei o nome dele em um verbete de poucas linhas em um dicionário de literatura há muito esquecido. Depois disso, me interessei por sua filosofia, impressa em La persuasione e la rettorica, cujo livro me debrucei a traduzir por dileção. Nele encontrei um poeta de notável valor literário, cuja poesia externava reminiscências filosóficas que se distinguiam dos demais poetas, que faziam uso sobretudo da carga simbólica do verbo. Sua obra exprime certa inclinação schopenhaueriana, no sentido de que a vida é destinada a uma desilusão perpétua, porque os termos aos quais se prende estão fora de controle e sempre se lhe escapam. E há um poema onde ele argumenta ou versa sobre este tema, chamado “Despertar”, em que questiona por que sua vida não vive, não acontece, assumindo que todo aspecto da vida lhe é estranho, e que a própria natureza humana lhe é inimiga, uma “trama de íncubos”. E esse pensamento ele traduziria em poesia, pois o “primado do espírito”, como ele chamava, dilatava e ampliava o âmbito de sua experiência poética. Ele escreveu um pequeno poemário, Poesie, do qual traduzi algumas composições, era um poeta bastante simples, mas complexo no conteúdo, precisamente porque em sua verve estão implícitas tais referências.

E claro que é possível uma aproximação entre o romeno e o italiano, que vai além da relação filosófica entre ambos, como as coincidências biográficas, por exemplo. Isso porque, enquanto Cioran escrevia, aos 23 anos, seu primeiro livro, Nos Cumes do Desespero (1934), Michelstaedter suicidava-se nessa mesma idade após concluir sua tese de graduação; outro detalhe é que a defesa de sua tese sobre La persuasione e la rettorica, ocorreu em 1910, um ano antes do nascimento de Cioran. E isso, sem falar do horror que Cioran sentia ao ver sua obra sendo discutida em teses acadêmicas, enquanto Michelstaedter, por sua vez, antes de se matar, enviou sua tese ao orientador com um bilhete dizendo: “Hei de me apagar”. E filosoficamente, ambos compartilham as mesmas convicções, seja a inconveniência de ter nascido, ou então, o desespero associado ao sofrimento da necessidade de viver, as falsas certezas sobre as quais se sustenta a retórica da sociedade humana e, sobretudo, a convicção de que as palavras não só devem fazer pensar, mas sangrar e causar feridas profundas, que mesmo assim são mais indeléveis do que a angústia de viver.

Conferência de encerramento do Colóquio Internacional Liliana Herrera em torno de Cioran.

Já em relação ao poeta de Recanati, e por uma questão geracional, evidentemente há ressonância dos cantos nos poemas de Michelstaedter, sobretudo na forma, através da adoção de hendecassílabos brancos, mas também de suas operetti, que ampliaram sua reflexão filosófica, pois Leopardi lhe era um predecessor que, séculos antes, já havia tocado muitos temas caros ao goriziano. De fato, como leitor, me parece que há um diálogo fecundo e constante entre ambos, mas não isento de oscilações e tensões, pois para Michelstaedter, Leopardi, embora fosse persuasivo, era “do lado da sombra”, isto é, ia até o infinito das questões existenciais, padecendo por elas se preciso, enquanto ele procurava divisar horizontes, sendo mais resolutivo, a ponto de se subtrair deste mundo.

RODRIGO MENEZES: Por fim, como você acha que a cultura romena se distingue, e como se destaca, atualmente, em meio às grandes potências culturais europeias a que estamos normalmente acostumados – como França, Alemanha ou Itália? Além de Cioran, que outras referências da cultura romena você destacaria, por um apreço pessoal, do presente e do passado?

GLEITON LENTZ: Eu tenho um fascínio enorme pela cultura romena, por sua história decididamente europeia, mas ao mesmo tempo, às margens da Europa continental, dona de uma cultura ímpar, povoada por romenos, húngaros e boêmios, mas também por sua história, que remonta desde a época dos dácios e romanos. E embora saiba que o mundo seja dominado por questões geopolíticas, que tornam uns países menores e outros maiores, eu prefiro ver a Romênia como um grande a partir desses elementos culturais e linguísticos seculares, que são muito profusos. Da modéstia parte que ocupo, tenho editado e lançado uma série de escritores romenos na (n.t.), como Tudor Arghesi, Max Blecher, Paul Celan, Grigore Cugler, Oscar Lemnaru e Urmuz, além de pensadores como o próprio Cioran e Ciprian Vălcan. Tenho um enorme apreço também por George Bacovia, poeta que se formou na escola do simbolismo e de quem visitei a casa memorial em Bucareste. E agora estamos lançando na revista o formato Folhetim, e quem abrirá essa nova seção é justamente um escritor romeno, Cezar Petrescu, traduzido pelo Fernando Klabin que, a meu ver, é o maior divulgador da cultura romena na atualidade. E logo mais, um poeta que há muito havia deixado de ler, mas que agora voltou a povoar minha biblioteca imaginária, Eminescu, através de sua tradução de “A oração de um dácio”. Esse pequeno quadro de escritores já mostra que a literatura do país é muito profícua, e que sempre surpreende o leitor desavisado, pois se trata de uma literatura que soube receber os influxos de inúmeras tendências europeias, sem, com isso, se desromanizar. Então, é desta forma que vejo a Romênia, não apenas como um lugar, mas um mundo.

RODRIGO MENEZES: Prezado Gleiton Lentz, quero manifestar uma vez mais meus sinceros agradecimentos por esta generosa e preciosa entrevista. É importante que a (n.t.) tenha toda a publicidade possível (e especialmente de tipo “orgânico”), pois é um trabalho grandioso, e o resultado, primoroso. Espero que esta entrevista contribua no sentido de fazer com que mais pessoas conheçam a publicação, e que a revista Nota do Tradutor ganhe mais e mais leitor@s. E, para quem se interessa por Cioran, nunca é demais assinalar o papel decisivo da (n.t.) na história da tradução e da recepção da obra de Cioran para o português, no Brasil. Não fosse pela (n.t.), muitos ensaios e aforismos de Cioran permaneceriam inéditos, sem nenhuma versão portuguesa consolidada, confiável e devidamente referenciada/catalogada. Poderia dar algum conselho, para terminar, a quem aspira a ser tradutor@? Agradecendo também pela inestimável acolhida encontrada na (n.t.), deixo a você as últimas palavras, para que conclua como lhe convier…

GLEITON LENTZ: Agradeço o convite e a acuidade da entrevista, sobretudo por poder falar de dois temas que me são muitos caros: tradução e Cioran. E ainda quanto à tradução, só me resta dizer que continuem traduzindo, pois assim o mundo se transforma em um lugar menos provinciano e mais cosmopolita, e que sempre desconfiem da velha sentença traduttore-traditore, oriunda de uma época em que a tradução não falava por si só, de modo que hoje é o momento de instituir uma nova, a do traduttore-tradizione.


[1] Os primeiros aforismos de Ciprian Vălcan traduzidos ao português, no Brasil, foram publicados na (n.t.). Posteriormente, Fernando Klabin traduziria um livro de ensaio seu, O suicida ou a era do niilismo (Zazie, 2016). De minha parte, tenho traduzido regularmente alguns ensaios de Ciprian, também do romeno, que têm sido publicados na revista Humanitas (ed. Escala).

[2] https://www.skoob.com.br/193-fragmentos-de-cioran-124281ed137899.html


LENTZ, Gleiton; SÁ MENEZES, Rodrigo Inácio R., “A vida em tradução: entrevista com Gleiton Lentz, editor da Revista (n.t.) Nota do Tradutor”, Portal E.M. Cioran Brasil, 30 de setembro de 2021.

Um comentário em “A vida em tradução: entrevista com Gleiton Lentz, editor da Revista (n.t.) Nota do Tradutor”

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