“Do inconveniente de ter escrito” – Cassionei Niches PETRY

Digestivo Cultural, 09/09/2015

Dia desses, provocado por muitos elogios sobre seu primeiro livro, li um romance de um escritor da nova geração da literatura brasileira. A leitura, no entanto, me decepcionou. Desde o prefácio, que demonstra um escritor medroso, como que se desculpando por ter trabalhado determinado tema, passando por algumas incoerências narrativas e uso de muitos lugares-comuns, a obra seria criticada por mim de forma impiedosa, apesar de alguns momentos muito bem elaborados. Já antevia alguma polêmica, talvez o escritor me bloqueasse nas redes sociais, como já o fizeram outros escritores, apesar de não fazer críticas muito duras a eles, ou talvez meu texto fosse apenas ignorado, como acontece geralmente.

Pensei melhor, porém, até porque minhas resenhas não têm como objetivo fazer críticas negativas. Apesar de muitas vezes me denominar como crítico literário, o que faço é algo como uma crônica literária, impressões de leitura, ensaios curtos. Sigo o conselho do filósofo romeno Emil Cioran: “Não perca tempo criticando os outros, censurando suas obras; faça a sua, dedique a ela todas as suas horas.” Gosto mais da expressão ensaio, em que pese ela denominar geralmente textos mais longos. Isso tudo a partir de Montaigne. Acredito, porém, que o que escrevo são tentativas de entender algo, treinos para chegar ao conhecimento, logo, são ensaios, mesmo que, em geral, meus textos não ultrapassem duas laudas. São parte da minha obra literária esse diálogo com outros livros. Não por acaso utilizei textos do meu blog no meu primeiro romance, emprestando-os a um dos protagonistas.

Volto a Cioran, até porque este texto era para ser sobre ele, depois resolvi escrever sobre crítica literária e as coisas que escrevo, porém a leitura e releitura de novos textos de Cioran me perseguem, me inquietam, me jogam no desespero. Ensaiei, tentei escapar dele, no entanto não deu. Ensaio agora uma reflexão sobre algumas coisas que ele escreveu e no que elas me afetaram. Vou tentar, vou ensaiar. Não seguirei, portanto, seu conselho. Ou seguirei, de certa forma, pois, escrevendo sobre ele, escrevo também minha obra.

Filósofo contraditório (por isso me identifico com ele, pois também o sou), que disse em uma entrevista que não era ateu, porém também não acreditava em Deus e nem rezava. Aliás, uma análise sobre o autor feita por um crítico literário aponta como defeito justamente suas contradições. Respeito o crítico, por sinal, um dos melhores que temos (não estou citando nomes, não por ser medroso como o jovem escritor a quem me referi, mas é porque não é necessário), porém está nessa aparente contradição boa parte do que fez Cioran ser o que foi, ou melhor, o que é.

Só o título das obras do filósofo romeno já daria boas análises. Do inconveniente de ter nascido, por exemplo, de 1973, já é praticamente um aforismo da mais alta profundidade filosófica. Por que nascer? Por que isso é inconveniente? É inconveniente nascer ou quem nasceu se torna inconveniente? Cioran era inconveniente? Escrever é inconveniente? A morte é um dos temas mais presentes na obra de Cioran, porém neste livro é o início da vida o objeto das reflexões. Ou melhor, não é, porque morrer é o oposto de nascer. Só pode chegar à morte quem nasceu. “Gostaria de ser livre, inimaginavelmente livre. Livre como um ser abortado.”… [+]

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