Visões (e cegueiras) do Pior: Emil Cioran e Clément Rosset em contraponto – Rodrigo Menezes

RESUMO: Emil Cioran e Clément Rosset foram discretos interlocutores filosóficos através de suas respectivas obras. Amigos unidos por uma admiração mútua, leitores um do outro. Se é verdade que Cioran não costumava citar seus amigos em seus textos, Rosset amiúde elege Cioran como interlocutor preferencial, citando-o inclusive nominalmente, ora para reforçar um argumento, ora para refutá-lo, construindo seu pensamento em franca oposição ao do amigo romeno, 28 anos mais velho. Mesmo quando Cioran não é trazido explicitamente à baila (como em Alegria: a força maior, O princípio de crueldade e Princípios de sabedoria e de loucura), os textos de Rosset são, por si só, bastante elucidativos, por contraste e diferença, do pensamento do amigo romeno.

Muitos leitores de Cioran torcem o nariz para Clément Rosset, o que talvez se deva menos às críticas do filósofo francês ao pensamento do amigo romeno, provavelmente desconhecidas em grande medida, mas pelo simples fato de Rosset construir a sua filosofia, em muitos aspectos, nas antípodas de Cioran. Rosset ficou conhecido, não sem razão, como o filósofo da “alegria trágica” (a “força maior”, la force majeure), ao passo que Cioran tem sido descrito como “o rei dos pessimistas” e “o niilista do século”, entre outros epítetos crepusculares. Uma ética afirmativa, da aprovação, e uma ética negativa, da recusa; uma linguagem do júbilo e uma linguagem da insatisfação.

Cioran compartilha com Nietzsche o paradoxo de reunir discípulos e seguidores ao seu redor quanto mais declaram rejeitá-los, quanto mais os querem à distância. Rosset não é um deles. Foram bons amigos, isto sim, cujos pensamentos filosóficos têm muito em comum, mas também muitas divergências significativas. Nenhuma “angústia da influência” de Cioran sobre Rosset, que não tinha a necessidade de imitar o autor balcânico. É digno de nota que, quanto mais aprofundam-se as afinidades, mais as divergências se intensificam, e quanto mais aprofundam-se as divergências, mais constata-se uma koinonía fundamental entre eles (o que só se confirma pelas cartas). Afinidades e divergências que são, fundamentalmente, de ordem subjetiva e contingente, não indícios de uma relação absoluta com uma suposta verdade universal e objetivamente dada à qual seus respectivos pensamentos se adequariam melhor ou pior.

Cioran e Rosset não tinham nenhuma pretensão de convencer um ao outro de nada, de converter o outro à sua própria perspectiva.

Quem quer mediar entre dois pensadores decididos mostra que é medíocre: não tem olhos para o que é único; enxergar semelhanças e fabricar igualdades é característica de olhos fracos.

NIETZSCHE, Gaia Ciência

Não se trata aqui de provar nada, mas antes de provocar (o pensamento, a reflexão a partir do confronto e do contraste entre singularidades irredutíveis); tampouco se trata de afirmar que um está mais certo, ou mais próximo da verdade (ainda que trágica, negativa), do que o outro. Também não se trata de preferir e preterir, nem de argumentar que um é melhor do que o outro. São apenas diferentes – e, a despeito de toda diferença, possuem muitos pontos em comum em matéria de pensamento filosófico. Existências, pensamentos, fisiologias e destinos distintos. Eu, particularmente, gosto de Cioran em virtude de uma singularidade no limite indefinível: porque é Cioran, não Rosset, nem Nietzsche, nem outro qualquer. Assim, também gosto de Rosset porque é Rosset e não Cioran, nem Nietzsche, nem Deleuze, nem outro qualquer. São singularidades irredutíveis, cada qual com suas “verdades de temperamento”.

Cioran não é Rosset, e Rosset não é Cioran: tautologia gratuita só na aparência, mas oportuna numa sociedade do fast-food e do fast-thought, da erudição pelos memes do Facebook. Alguém disse uma vez que “Cioran só é verdadeiramente recepcionado por quem sente no íntimo o que ele diz. Por isso acho patético academicizar o pensamento dele”. Não resta dúvidas de que o autor deste comentário, tão irrisório, tem a si mesmo na mais elevada conta, como o único leitor que “sente no íntimo o que Cioran diz”. Entendeu Cioran melhor do que Rosset! Mas não é essa idealização fetichista que importa: é falso que Rosset “academicize” Cioran (mal teve condições de “credenciar” a sua própria filosofia, se assim o quis, de torná-la amplamente reconhecida nos meios acadêmicos). É verdade que, diferentemente do amigo “exilado metafísico”, o autor de Lógica do pior (1971) construiu uma longa e sólida carreira universitária, primeiro no Canadá, como professor-visitante, e em seguida na Universidade de Nice, onde José Thomaz Brum o teria como orientador do seu doutorado em Filosofia.

Como se Rosset tivesse sido um professor universitário e nada mais: ensaísta e escritor, crítico de cinema, autor de dezenas de livros sobre os mais diversos temas – nenhum dos quais se possa dizer que sejam mais “acadêmicos” que os de Cioran (guardadas as diferenças de estilo). Há, aqui, além da idealização fetichista, uma falsa compreensão da liberdade: como se pudessem ter feito, como se estivessem livres para fazer algo diferente do que cada um deles fez, em termos da relação autor-obra. Cioran sabia escrever os livros que escreveu, exatamente daquela forma, assim como Rosset se dedicou ao que sabia fazer melhor. Duas formas de pensar, duas linguagens tão distintas como podem sê-lo duas pessoas.

Rosset é, sem sombra de dúvida, um filósofo universitário “heterodoxo”, um “ponto fora da curva”, um intelectual rebelde e singular, um “terrorista” trágico alheio às modas filosóficas e ideológicas que pululavam à sua época (estamos falando da França na segunda metade do século XX, do existencialismo e dos intelectuais engagés). O estilo de Clément Rosset, cujos textos também um sabor próprio, é muito pouco acadêmico (herança de Nietzsche). Longe de ser um filósofo sistemático, um autor de sistemas de pensamento, como Hegel ou Schopenhauer, ou ainda um epistemólogo, Rosset escreve ensaios filosóficos que não deixam de primar pelo rigor conceitual, pela razão argumentativa e expositiva. Diferentemente de Cioran, que dá “adeus à filosofia” e desenvolve uma prosa mais ou menos poética em que o estilo tem a primazia na economia do logos, em detrimento da objetividade conceitual, despreocupada com a argumentação, com a transmissão de saberes e ideias claras distintas.

A necessidade de provar uma afirmação, de caçar argumentos por toda parte, supõe uma anemia do espírito, uma incerteza da inteligência e da pessoa em geral. Quando um pensamento nos invade com força e violência, surge da substância da nossa existência; prová-lo, encerrá-lo em argumentos, equivale a enfraquecê-lo e a duvidar de nós mesmos. Um poeta ou um profeta não demonstram nada, pois o seu pensamento é o seu ser; a ideia não se distingue da sua existência. O método e o sistema são a morte do espírito. Inclusive Deus pensa por fragmentos: mas em fragmentos absolutos.

CIORAN, Amurgul gândurilor (1940)

Não só é um grande equívoco supor que Rosset “academiciza” Cioran; é também uma enorme injustiça. Ainda que seja para discordar do amigo e refutá-lo, Rosset tem a virtude dialética de trazer Cioran como um interlocutor privilegiado em muitos de seus textos, o que significa reconhecê-lo como uma voz filosófica qualificada no debate filosófico contemporâneo, notadamente no âmbito da cultura francesa, quanto grande parte dos mandarins do pensamento preferiria ignorá-lo ou cancelá-lo. Rosset não “academiciza” Cioran; ele cita parcimoniosamente aforismos e passagens dos livros do amigo como pretexto de contribuição dialética, ora para mostrar como seus pensamentos estão em sintonia, ora para diferenciá-los em seus desdobramentos ulteriores.

Por fim, “academicizar” (ou antes, ler, interpretar, criticar, comentar) é preciso. Savater o fez. Liliana também. E tantos outros, inclusive eu. Não fosse pela tarefa inglória de “academicizar” Cioran, em diálogo com outros autores, nem este Colóquio nem o Encuentro Internacional Emil Cioran existiriam. Falsa generalização: tudo o que é acadêmico é suspeito, o que garantiria, logicamente, a quem está fora da academia, ou não quer nenhum vínculo com ela, uma inata credibilidade intelectual. Tolice.

Acadêmico ou não acadêmico, Clément Rosset faz mais por Cioran, mesmo criticando-o, do que toda uma legião de seguidores. Esta apresentação é um ensaio argumentativo neste sentido. Por fim, Cioran nunca “desautorizou” Rosset, nunca se deu o trabalho de desdizer ou refutar , em entrevistas ou nos próprios livros, ou mesmo nos cadernos, os juízos do amigo mais novo, por mais críticos que fossem, a seu respeito. O que é patético é supor que haja uma “essência” do Leitor cioraniano que sabe recepcionar Cioran verdadeiramente, sentindo no íntimo o que ele diz, e que essa “essência” seja incompatível com a inserção e a participação nos meios acadêmicos.


O objeto deste ensaio hermenêutico é fazer dialogar, em contraponto, as filosofias de Emil Cioran e Clément Rosset. A controvérsia começa pelo seguinte questionamento: mas, há uma filosofia em/de Cioran? Se não há uma teoria filosófica, como em Rosset, há certamente a manifestação literária de uma visão filosófica, e essa visão filosófica interessa sobremaneira, por proximidade e contraste, ao autor de Lógica do pior. Uma vez que Rosset nunca é citado por Cioran, a recíproca não sendo verdadeira, trata-se aqui de um contraponto a partir do filósofo francês, tendo como ponto de partida sua proposta de uma filosofia trágica conforme elaborada em Lógica do pior.

Amigos, amigos, filosofias à parte

Em seu livro Cioran et compagnie, Roland Jaccard relata uma conversa que teria tido com Clément Rosset, na qual Cioran – amigo em comum deles dois – era evocado:

Nós falamos de Cioran, que ele, com sua insolência habitual, me disse que achava agradável, mas que achava seus livros um pouco ‘scrogneugneu’. ‘Eu não consigo entender’, acrescentou, ‘que Cioran possa se comprazer com uma música tão caótica quanto a de Brahms. Seu lado ‘música cigana’ me irrita.’ Evocou também o livro que corria para publicar: Alegria – a força maior. Pretendia abordar aí, num post-scriptum intitulado ‘O descontentamento de Cioran’, a questão mais grave colocada, segundo ele, pelo autor dos Silogismos da amargura: há aliança possível entre a alegria e a lucidez?[1]

Amigos unidos por uma admiração mútua e leitores um do outro,[2] Emil Cioran e Clément Rossetforam discretos interlocutores filosóficos através de suas respectivas obras. Se é verdade que Cioran não costumava citar seus amigos em seus textos, Rosset amiúde escolheu Cioran como seu interlocutor preferencial, citando-o nominalmente, ora para reforçar um argumento, ora para refutá-lo, construindo seu pensamento em oposição ao do amigo romeno, 28 anos mais velho. Mesmo quando Cioran não é trazido explicitamente à baila,[3] os textos de Rosset são por si só bastante elucidativos do pensamento do amigo romeno. Rosset é importante para compreender Cioran por contraste e diferença – ainda que haja tantas afinidades entre eles. Um dos textos de Rosset que mais se prestam a essa elucidação por antítese é Lógica do pior, que bem poderia ser um título de Cioran (o mesmo não se poderia dizer de Alegria: a força maior). Mas, apesar do que possa parecer, a começar pela coincidência terminológica, o pior pensado por Clément Rosset não tem nada a ver com o pior de que fala Cioran (que também emprega este termo). Se, para um, o pior deixa de ser efetivamente “o pior” uma vez que temos a dignidade de aprová-lo e amá-lo incondicionalmente, sendo uma lógica do pensamento e da linguagem, passível de “correção”, para o outro o pior, sendo uma lógica ontológica (negativa) do mundo, não pode nem merece ser aprovado, amado incondicionalmente, pois se assim fizéssemos, não seria “o pior” e, como o é (na concepção de Cioran), jamais poderia ser objeto de afirmação e amor inequívocos.

A intenção de Clément Rosset em Lógica do pior é estabelecer uma filosofia rigorosamente trágica,[4] ou seja, nem pessimista nem otimista: um realismo trágico afirmador do acaso (hasard) como princípio de realidade e força maior da existência. Afirmar o acaso implica negar ao que “é” toda razão de ser e toda finalidade (telos); o que “é”, “é” sem sentido, sem razão, sem fundamento. Não há “ser”, “natureza”, “mundo” a serem interpretados. É digno de nota que isso não configure nenhum motivo de pessimismo para Clément Rosset. Seu “terrorismo filosófico” não quer nenhuma cumplicidade com as filosofias pessimistas e suas razões. Desnecessário dizer que “terrorismo” nada tem a ver, aqui, com as atividades de extremistas religiosos ou políticos, no Afeganistão talibã ou no Brasil bolsonarista. Assim também a “corrupção” a que visa “O Corruptor”, no Breviário de decomposição,[5] é no fundo um exercício de “contra-corrupção”, uma “vacinação” abstrata do espírito contra fanatismos e dogmatismos diversos. São contraterrorismos céticos que rejeitam como fantasmagóricas todas as crenças consoladoras pelas quais as pessoas estão dispostas a matar ou morrer.[6]

Terrorismo trágico e pessimista: finalidades e conteúdos

Rosset é bastante criterioso a respeito do trágico em filosofia, o que se nota pela observação de que “o pensamento trágico quase não encontrou, desde Nietzsche, intérprete filósofo.”[7] Nietzsche é seu critério seletivo. Na sua interpretação, Cioran não seria (como Schopenhauer) um bom intérprete filosófico do trágico, mas antes um filósofo do absurdo pessimista ( “absurdismo” e pessimismo caminham juntos para Rosset). Por outro lado, curiosamente, Rosset encontra em Pascal outro importante filósofo trágico. O que nos leva a pensar que se a grande fonte de angústia da influência de Cioran é Nietzsche, a de Rosset é Pascal.[8]

 “Pensamento trágico e pessimismo diferem pois por seu conteúdo (antes: pelo fato de que o pessimismo se dá um conteúdo, diferentemente do pensamento trágico), e também por suas intenções.”[9] O conteúdo das filosofias pessimistas seria o “mundo”, a “natureza humana”, “a história”, como se fossem entidades metafísicas absolutas e evidentes às quais pode-se apontar. Nenhuma razão para pessimismos senão diante da constatação de que algo “é”, e “é” de modo imperfeito, insatisfatório, negativo. A lógica do pior rossetiana não reconhece nenhum “mundo” constituído, nenhuma “natureza humana” essencial, nenhuma “história” teleologicamente direcionada a um final feliz – ou simplesmente a um final.[10] O acaso é imponderável; pode-se apenas suportá-lo, amá-lo ou odiá-lo, adorá-lo ou temê-lo. Sendo uma lógica do dado [donné], o pessimismo filosófico culmina, segundo Rosset, numa filosofia do absurdo da qual Schopenhauer seria o representante mais original.[11]

A intenção das filosofias pessimistas vai da constatação de um dado “estado de coisas” (insatisfatório) ou de uma dada “natureza” (reprovável), à resignação (expressão de impotência diante do fatum), à libertação e à salvação.[12] Não sendo uma lógica do dado, a filosofia trágica rossetiana não reconhece nenhum “ser”, “natureza”, “mundo” cuja constituição possa ser verificada de forma positiva. Neste sentido, trata-se de uma filosofia da não-interpretação: não há texto nem enigma do mundo a ser interpretado, compreendido, decifrado (hipótese na qual parece insistir Cioran, do começo ao fim). Sua intenção não é uma “redenção” ou “libertação”[13] em relação ao que quer que seja; não é “fazer despertar”, como quer Cioran, nem mesmo a resignação estoica; seu objetivo e catártico, de índole psicanalítica, é fazer passar o trágico do silêncio à fala:[14] não há nenhuma razão para as coisas serem como são; foi assim, mas poderia ter sido de outro modo; foi, mas poderia não ter sido[15] A primazia ontológica do acaso não deveria conduzir-nos à frustração, ao desânimo, e ao pessimismo, mas à paixão do incerto e a essa louca alegria trágica, igualmente sem razão nem causa.[16]

O paradoxo é inevitável, estando na origem do equívoco que consiste em tomar Clément Rosset por um “pessimista”. Ninguém menos inclinado a pessimismos, na medida em que “pessimismo” implica uma ética negativa e  uma ascética (não necessariamente religiosa, inclusive estética como em Schopenhauer) com vistas à superação de uma situação imperfeita ou insatisfatória (que Rosset ignora).[17] No suplemento literário do Jornal do Brasil, em 16 de setembro de 1989, Wilson Coutinho anuncia (com um título sensacionalista, “A filosofia no fio da navalha”, em completa discordância com o espírito filosófico de Rosset[18]) que “o pensador francês lança a moda do pessimismo chique”. O crítico de arte (que também evoca Cioran na matéria, como se fosse um congênere de Rosset) não parece preocupado com as sutilezas (nem tão sutis assim), mostrando-se incapaz ou indisposto a discernir o grau de ironia e ambiguidade no “terrorismo” em questão: seu objetivo é conduzir a uma experiência filosófica da aprovação integral da existência, afirmando a alegria, paradoxalmente, como o sentimento trágico por excelência.

O paradoxo do filósofo francês consiste em operar, por um lado, uma disjunção entre o pior como acaso e todo pessimismo e, por outro, entre o princípio de realidade e as ideias de “essência”, “substância”, “identidade”, “necessidade”, “ser” – redefinindo ontologicamente o “real” como o que se dá por força e artifício do acaso. Poder-se-ia dizer que a filosofia trágica rossetiana é um realismo antimetafísico, afirmador do acaso como princípio de realidade e força maior da existência. O paradoxo resume-se na interrogação: como alegrar-se com o pior? Se é o pior, como esperar que seja amado, fonte de aprovação e alegria? É por libertar a o fatum do peso de toda necessidade ontológica (não “é” nada) e moral (não impõe nenhuma lei de conduta e comportamento), por libertar a existência, em sua muda nudez, de toda arkhé e todo telos, que o filósofo trágico pode afirmá-lo digno de ser amado. O alvo da intenção terrorista é uma experiência filosófica da aprovação e do júbilo, mesmo na crise e na doença.

Visões e cegueiras do pior

Segundo Clément Rosset, “o pessimista fala após ter visto”, pressupondo o reconhecimento de “algo” (mundo, natureza, ser) do qual “afirma posteriormente o caráter constitutivamente insatisfatório.”[19] Podemos reconhecer Cioran nesta descrição, no que estaria próximo a Schopenhauer e aos filósofos do pessimismo. O pensador romeno não só pensa e diz “mundo”, como emprega ademais uma terminologia pseudoteológica, maneja de modo heterodoxo, como um herege gnóstico do século XX: a “Criação fracassada”.[20] Pensar e dizer “Criação” pressupõe a existência de um “Criador”, “Deus” ou – segundo a hipótese gnóstica de Cioran – “o mau demiurgo”.[21] Retornaremos a essas obsessões tão cioranianas pela perspectiva psicanalítica de Rosset. Por mais que as leiamos como meras alegorias, recursos poéticos e não objetos de crença religiosa, cumpre reconhecer ainda assim a necessidade vital que Cioran tem de recorrer a essas fabulações como pretexto de criação (e existência) autopoiética. É a matéria-prima de sua “demiurgia verbal”.[22]

Formulando uma hipótese fantástica, digna de um roteiro de ficção científica, mas com a qual ele não se identifica, Clément Rosset descreve uma maneira não trágica de interpretar o trágico, uma espécie de “paranoia metafísica”[23] que parece coincidir com certas doutrinas gnósticas antigas, e com o próprio Cioran na medida que se faz porta-voz da heresia gnóstica no século XX:

Dir-se-ia que um programador divino e universal, a menos que se trate apenas do acaso das coisas como sugere Epicuro, cometeu aqui um erro de base, endereçando uma informação confidencial a um terminal incapaz de recebê-la, de dominá-la e de integrá-la a seu próprio programa: revelando ao homem uma verdade que ele é incapaz de admitir, mas também, e infelizmente, muito capaz de entender.[24]

Peter Sloterdijk vincula o pessimismo niilista de Cioran à originalidade existencial e lógico-discursiva introduzida pelos antigos gnósticos, que teriam sido os primeiros a distinguir radicalmente entre “estar no mundo” (como “visitante”, “estrangeiro”), e “ser do mundo” (pertencer a ele, ser-lhe consubstancial).[25] Um abismo infinito e intransponível se abre entre essas duas modalidades de ser e de não-ser; “o tamanho da engenhosidade da nova distinção”, que Sloterdijk denomina a “diferença gnóstica”, evidencia-se pelas operações que ela viabiliza: “a partir do momento em que a diferença gnóstica entre ‘no mundo’ e ‘do mundo’ é estabelecida, abre-se um campo de negabilidades do mais alto nível de generalizações. Este é imediatamente invadido por enormes energias mitológicas e teológicas. Agora, os diques simbólicos, que represavam a negatividade psíquica, podem ser rompidos. A diferença gnóstica gera uma nova língua da insatisfação com o mundo – ela solta a língua do espírito mudo da grande negação.”[26]

Sloterdijk e Rosset parecem concordar a respeito de Cioran: a insatisfação total, esse mécontentement de que fala o filósofo francês, no post-scriptum a Alegria: a força maior, culminaria na “filosofia do puro ressentimento” de que fala o alemão.[27] Em ambas as análises, uma atitude negativa de insatisfação total, desaprovação e negação da existência, com a nota paradoxal de queixar-se ao mesmo tempo da insuficiência e do excesso inerentes à existência. Segundo Sloterdijk, “Cioran foi o primeiro a subir a rampa e declarar: falta-me tudo – e, pela mesma razão, tudo me é demasiado.”[28] Rosset escreve:

O paradoxo da existência – Cioran acrescentaria, não sem alguma razão, seu horror – é, pois, de uma só vez, o de ser alguma coisa e de não contar para nada. Sendo demais para ser considerada nada, mas muito pouca para ser levada em conta, a existência se apresenta apenas em estado de traço que não pode ser dosado, como dizem os químicos, quando estabelecem que um elemento está presente na solução que analisam, mas numa quantidade pequena demais para ser apreciável.[29]

Portanto, se a lógica pessimista é uma lógica do dado, e o pessimista fala após constatar o caráter pessimum do mundo, para então negá-lo em sua totalidade, a lógica do pior rossetiana é uma lógica da impossibilidade de pensar um “mundo” em termos essenciais, como uma realidade ontológica constituída: “a Criação fracassada”, nas palavras de Cioran. “O terrorista trágico fala para dizer a impossibilidade de ver”, argumenta o autor de Lógica do pior, enquanto que “o mundo do pessimista está constituído de uma vez por todas; donde a grande palavra do pessimista: ‘Não se escapa.’ O mundo trágico não foi constituído; donde a grande questão trágica: ‘aí não se entrará jamais’.”[30]

“O pessimista chega necessariamente a uma filosofia do absurdo”, já que “a lógica do dado é forçosamente uma lógica do ordenado” – ou do desordenado, caso não encontre uma instância superior para unificá-la e legitimá-la.[31] O absurdo é a percepção surpreendida e decepcionada pela própria expectativa de uma ordem que não se pôde verificar. Quem quer que busque ou espere descobrir uma “ordem” das coisas, um “sentido” da vida, uma “verdade” que se oculta e revela sobre todas as coisas, termina por não encontrar o que esperava, deparando-se com o… “absurdo”. “Mau ordenamento, mas ordenamento: o mundo está reunido (mal reunido), ele constitui uma ‘natureza’ (má); e é precisamente na medida em que ele é um sistema que o filósofo pessimista poderá declará-lo tenebroso in aeterno, não suscetível de modificação ou melhora.”[32] Noutras palavras, “o pior pessimista designa uma lógica do mundo, o pior trágico, uma lógica do pensamento (descobrindo-se incapaz de pensar um mundo).”[33]

Por mais que insista na negação e no mécontentement, na acusação pessimista do homem, do mundo e até de um Deus improvável, uma leitura aprofundada de Cioran nos leva a reconhecer uma flutuação (e uma contradição espontânea) entre essas duas perspectivas antitéticas: a trágica, que fala para dizer a impossibilidade de “ver” (pensar, conhecer) “mundo”, “ser”, “natureza”, e a pessimista, que fala após ter constatado o caráter péssimo de tudo isso. Assim, teríamos o paradoxo segundo o qual do mundo não se escapa, e nele tampouco se entra. E o homem, “criatura metafisicamente divagante, perdida na Vida, insólita na Criação”, é um “trânsfuga do ser”, um animal sem contornos claros nem “pátria ontológica” determinada. É como se o escritor romeno revestisse o saber trágico, em sua mudez tautológica, de camadas e mais camadas de significados e referenciais surgidos da necessidade vital de dar um conteúdo ao que não saberia possuir nenhum. Quando Cioran medita sobre a “Criação fracassada”, que mais pareceria um “patíbulo” ou uma “masmorra”, um “centro de tortura” universal, está pensando (na contramão de Rosset) em chave metafísica pessimista (de índole gnóstica), interpretando o mero jogo do acaso, em sua muda e ingênua idiotia, de modo a preenchê-lo com significações (mitológicas, teológicas, místicas); quando, por outro lado, evoca o motivo poético (e místico) da “cegueira” (cécité), na ambivalência do perspectivismo entre a visão exterior e a interior,[34] ou quando afirma que nimic n-a fost niciodată, “nada nunca existiu”,[35] ou ainda que “a função dos olhos não é ver, mas chorar”,[36] parece ser em sintonia com a ausência trágica de um mundo constituído, de onde a impossibilidade e vê-lo, segundo Rosset.

Não veremos nenhuma das posições assumir-se como definitiva no logos polifônico de Cioran. O autor romeno pretende emular a vida mesma em seu contraditório devir, em seu conturbado “romance com a matéria”.[37] Haveria no autor romeno uma profundidade estranha ao espírito trágico rossetiano, algo além do reconhecimento do acaso como único “ser”, única “realidade”: eis o fatalismo balcânico de Cioran, a crença heterodoxa em um destino terrível de decomposição e morte, em um élan vers le pire. É uma alternância ou “flutuação” entre axiomas contraditórios, ora a afirmação de uma necessidade primeira, fundamental, ora do acaso. O que se evidencia em suas especulações gnósticas é uma lógica negativa (pessimista) do mundo como “Criação fracassada” e, no limite, como não-mundo, não-lugar, irrealidade universal.[38] Um fatalismo histórico (cronológico) e cosmológico de tipo gnóstico, que os estudiosos do gnosticismo designam “acosmismo” (afirmação epideitica de um “mundo” desordenado, hostil, cruel, monstruoso, em que “nada está em seu lugar, começando pelo próprio mundo”[39]); existencialmente, uma lógica do desespero e uma ética negativa, o sentimento do ennui e essa vanitas universal de que fala o Eclesiastes; inadaptação à vida e à morte, ao ser e ao não-ser (incapacidade nostálgica-ansiosa de instalar-se na existência presente e imediata, habitando-a ingenuamente); tédio e “insatisfação total” (título de um texto de Nos cumes do desespero), a consciência do mal como lucidez “luciferina”, consciência exasperada de “saber-se fora do Paraíso” – ici-bas.

Universalidade e “elitismo” do saber trágico

Clément Rosset critica Georges Bataille, em Lógica do pior, por supostamente mistificar o saber trágico e a consciência trágica, dando a entender que seriam o apanágio de um “despertar” espiritual reservado a poucos brilhantes intelectuais, como Bataille (e, Rosset poderia acrescentar, Cioran também). Ainda que seu alvo aqui seja o Bataille, Rosset poderia tecer a mesma crítica a Cioran, que costuma dizer que a função de seus livros é “despertar” (éveiller) o leitor[40] – ainda que, uma vez desperto, ele não tenha nada a lhe propor.[41] Rosset pensa que o saber trágico é um “patrimônio universal da humanidade (à exceção dos ‘brilhantes solitários’)”, ainda que nem sempre (raramente) se manifeste, seja falado.[42] Cumpre assinalar este ponto fundamental acerca do “terrorismo filosófico” de Clément Rosset: sua função psicanalítica e catártica, o objetivo de fazer falar o acaso, em sua idiotia sem razão nem propósito, expurgando da mente toda fantasmagoria metafísica.[43] Intenção e finalidade que contribuem para compreender, por contraste, o pensamento (gnóstico) de Cioran, cuja função seria “despertar” para a universalidade do tormento, para a consciência do intolerável. Tendo em vista a função terapêutica definida por Rosset para sua filosofia trágica da aprovação, o que pressupõe a universalidade da consciência trágica, o autor de Lógica do pior desvincula o não falado do não pensado (ou impensado) e do desconhecido (ignorado); quem silencia muitas vezes sabe (e mais silencia quanto melhor sabe).

A teoria psicanalítica é útil a Rosset para diferenciar psicologicamente a filosofia trágica das filosofias otimistas, por um lado, e das pessimistas, por outro. Interessam-nos estas últimas por se tratar do setor de Cioran. Rosset evoca “uma outra forma de lógica do pior”, distinta da filosofia trágica, e avaliada por ele em chave sádica-masoquista, cuja finalidade seria fazer aparecer (e falar) a dor. Para essa lógica, afirmar a dor como realidade negativa seria um pretexto para afirmar, antes, que há realidade (“ser”), e ela é dolorosa por natureza. Assim, “a afirmação de que ‘há algo’ importa muito mais do que o fato de que este algo seja ‘dor’. Enfim, a afirmação da dor é sobretudo a afirmação de um ‘ser’.”[44] Cioran, bastante influenciado por suas leituras budistas, faz o discurso Dor, elevada ao estatuto de um pandolorismo: “Não é Deus, mas a Dor quem desfruta das vantagens da ubiquidade”, lemos em Silogismos da amargura, o segundo livro de Cioran em língua francesa.[45]

De fato, Cioran precisa afirmar a realidade ontológica da Dor, e a do Mundo, equacionando-os, para justificar – como causa real – sua nostalgia de um “paraíso perdido” e sua necessidade de salvação, redenção ou libertação (délivrance). Em Le mauvais démiurge, ele afirma que “só está maduro para a libertação quem é oprimido pela universalidade do tormento. Buscar libertar-se, sem a consciência desse tormento, é uma impossibilidade ou um vício.”[46] Um contraponto entre os pensamentos de Cioran e Rosset, e particularmente a partir de Lógica do pior, é um fecundo exercício hermenêutico que dá a entender em que medida Cioran elabora uma filosofia da libertação (délivrance), na linha das filosofias pessimistas como a de Mainländer cuja visão negativa da existência exige uma saída, uma libertação ou redenção. A consciência como doença e fatalidade instaura a necessidade de um remédio, de uma solução para a opressão causada pela “onipresença do Intolerável” que sentimos, segundo Cioran, “tanto na hipótese do ser quanto do não ser, pois as coisas e as aparências de coisas fazem sofrer igualmente.”[47]

Nada a ver com a filosofia trágica de Clément Rosset, cujo “terrorismo filosófico” desconhece “realidades”, “mundos”, “naturezas”, “ser” que se possa constatar, condenar e negar como sendo “mau”, “corroído”, “decadente”, “imperfeito”, “intolerável”; nada mais alheio ao saber trágico rossetiano que essa “onipresença do Intolerável” de que fala o metafísico Cioran, e que equivale, segundo ele, à “universalidade do tormento”.[48] Como bem observou Peter Sloterdijk, o pensamento da libertação exige, como premissa existencial necessária, a existência do mundo em sua pior condição, pois “a fuga de sua escuridão é o único sentido do tempo remanescente. A gnose negra também precisa do mundo escandaloso para fugir dele.”[49] Trata-se do fatalismo gnóstico do último aforismo de Le mauvais démiurge (1969): “Estamos todos no fundo de um inferno no qual cada instante é um milagre.”[50]

Permanece a dúvida: estaria Cioran efetivamente convencido dessa “universalidade do tormento” que ele mesmo postula em seu livrinho gnóstico por excelência? Ou, para formular a pergunta de outra forma: esteve ele continuamente consciente dela? A resposta é negativa, pois, como o próprio Cioran teria respondido a dois estudantes andaluzes, após a publicação do Breviário em espanhol, “não estamos despertos e não nos interrogamos o tempo todo, sendo a lucidez absoluta incompatível com a respiração. Se estivéssemos a cada momento, conscientes do que sabemos, se, por exemplo, a sensação da falta de fundamento fosse ao mesmo tempo contínua e intensa, cometeríamos suicídio ou cairíamos na idiotia. Só existimos graças aos momentos em que esquecemos certas verdades e isso porque durante esses intervalos acumulamos a energia que nos permite enfrentar as ditas verdades.” É somente durante esses intervalos salutares que o trágico, para Cioran, pode ser vivido alegre, ingênua e frivolamente, sem remoê-lo o tempo todo ao ponto de transformá-lo numa trama gnóstica cósmica. Rosset diria que Cioran “duplica” o trágico, ou antes fá-lo dobrar-se sobre si mesmo, de modo a parecer mais “espesso”, como se dotado de uma profundidade obscura e temível. Sendo trágica, a existência acaba sendo trágica demais, e a neutralidade moral-afetiva do acaso se inverte em negatividade diante da necessidade de um “mundo constituído e tenebroso in aeterno” (Rosset). Cioran flutua, com suas “verdades de temperamento”, entre a negação pessimista, baseada numa necessidade constatada, e essa louca aprovação do acaso como fator de alegria trágica. Lucidamente doente de sua própria consciência de existir, o pensador romeno ressente a necessidade de um remédio para a sua condição intolerável, para em seguida (felizmente) esquecê-la, ignorando grande uma boa parte do tempo as verdades amargas que tornam a vida impraticável.

Cioran é em grande medida um pessimista filosófico, na linha de Schopenhauer e Mainländer, um metafísico negativo proponente de uma negatio mundi que só encontra equivalente entre os sistemas gnósticos da Antiguidade. A diferença entre esse pessimismo metafísico e a ontologia trágica de Rosset, calcada no princípio do acaso, pode ser claramente apreciada pelas intenções de seus respectivos “terrorismos”: a obra de Cioran pretende “fazer despertar”, não para a indiferença de uma existência alegremente conduzida pelas mãos do acaso, mas para o inconveniente de ter nascido e a consciência como enfermidade, como partícipe no drama da “Criação-Queda”, sabendo o que nos espera ao final. L’élan vers le pire [o impulso ao pior], a certeza negativa de uma necessidade fatal inerente ao ser, é o que aproxima Cioran de Mainländer e dos gnósticos, afastando-o da filosofia trágica e alegre de Rosset: “O verdadeiro, o único azar, é o de ver o dia. Ele remonta à agressividade, ao princípio de expansão e de raiva alojado nas origens, ao impulso para o pior que as abalou.”[51] E, no Breviário, elaborando uma “Gênese da tristeza”, Cioran diz que “não há insatisfação profunda que não seja de natureza religiosa: […] a tristeza remonta à raiz de nossa perdição…, a tristeza é a poesia do pecado original”,[52] e “feliz daquele que pode dizer: ‘tenho o saber triste.’”[53]

Segundo Rosset, “se o homem tem necessidade de uma solução, é porque lhe falta alguma coisa. Ora, dizer que ao homem falta alguma coisa é negar o trágico, já definido como a perspectiva segundo a qual o homem não carece de nada.”[54] Sendo “artificioso” e “criativo”, dir-se-ia mesmo “musical”, o acaso é generoso e providencial, cabendo a cada um interpretá-lo como dádiva ou fardo; segundo a lógica trágica de Rosset, nenhuma razão para odiá-lo ou temê-lo, a não ser a impotência de amá-lo como um adjuvante na cocriação da própria existência.[55] Nenhuma falta, nenhuma insuficiência ontológica na condição trágica, assevera o filósofo francês. Animado por uma vontade trágica radical, ele “transvalora” o acaso em alegre providência; Cioran, dotado de uma vontade trágica igualmente radical, parece afirmar, em vez do acaso, uma má providência, uma lógica da queda e do desespero. O que o singulariza Cioran diante de Rosset é a presença de (ou do esboço de) uma filosofia do mal e de uma filosofia da libertação. Se os pensamentos de ambos coincidem no silêncio, chegam a ele por caminhos distintos. Onde Cioran diz “Criação fracassada”, do fundo do seu “saber triste”, Rosset se limitaria a dizer “Acaso”, e acrescentaria: “Sejamos felizes, tudo vai mal”. Para concluir, este aforismo que poderia ser uma réplica de Cioran ao amigo francês, o filósofo da alegria trágica por antonomásia (se é que o amigo evocado no aforismo não é mesmo Rosset): “Existência = Tormento. A equação parece-me evidente. Ela não o é para um dos meus amigos. Como convencê-lo disso? Não posso emprestar-lhe as minhas sensações; quando só elas teriam o poder de o persuadir, de lhe levarem esse acréscimo de mal-estar que ele há tanto reclama insistentemente.”[56]


NOTAS:

[1] JACCARD, Roland, “Clément Rosset, um drôle de pistolet”, Cioran et compagnie, p. 100.

[2] Não há registros substanciais de leitura dos textos de Clément Rosset por Cioran, como inversamente (o filósofo francês amiúde cita o amigo romeno em seus livros). Foi publicada, em contrapartida, parte da correspondência entre os dois. Em carta datada de 23 de abril de 1980, Cioran agradece ao amigo pelo envio de Le réel (Traité de l’idiotie, de 1977) e de L’objet singulier (1979), acrescentando: “Eu adoraria denunciá-lo – admirativamente – em Critique, mas a degringolada de meu irmão me deixou abatido de tal modo que me é impossível escrever neste momento qualquer coisa de persuasiva ou de coerente.” Carta de Emil Cioran a Clément Rosset, 23 de abril de 1980. In TACOU, Laurence ; PIEDNOIR, Vincent (orgs.), Cahier L’Herne Cioran, p. 484.

[3] De todos os livros de Clément Rosset traduzidos para o português e publicados no Brasil, Cioran é citado nominalmente em dois deles: O princípio de crueldade (Rocco, 1989) e Alegria: a força maior (Relume Dumará, 2000). Há outro livro de Rosset, disponível em espanhol, em que Cioran também aparece citado: Principios de sabiduría y de locura (Marbot, 2007).

[4] No primeiro capítulo de Lógica do pior, Rosset questiona-se sobre a possibilidade de uma filosofia trágica, começando por esta constatação: “A história da filosofia ocidental abre-se por uma constatação de luto: a desaparição das noções de acaso, de desordem, de caos. […] É com efeito a noção de ‘filosofia trágica’ que se encontra no centro do debate. Noção contestada por uma recíproca exclusiva: o trágico não sendo admitido senão a título de não filosófico, e o filosófico a título de não trágico. […] Enfim, ora filósofos, ora trágicos: nunca filósofos trágicos. Do que se trata realmente, ao longo desse processo de exclusão recíproca? Da simples questão do reconhecimento, ou do não-reconhecimento, dos direitos à existência de uma ‘filosofia trágica’: de saber se o exercício do pensamento pode estar habilitado a se desqualificar a si mesmo.” ROSSET, Clément, Lógica do pior, p. 18.

[5] “Queria semear a Dúvida até nas entranhas do globo, impregnar com ela a matéria, fazê-la reinar onde o espírito jamais penetrou e, antes de alcançar a medula dos seres vivos, sacudir a quietude das pedras, introduzir nelas a insegurança e os defeitos do coração. Arquiteto, teria construído um templo à Ruína; predicador, revelado a farsa da oração; rei, hasteado a bandeira da rebelião. Como os homens nutrem um desejo secreto de repudiar-se, teria estimulado em toda parte a infidelidade a si mesmo, mergulhado a inocência no estupor, multiplicado os traidores de si mesmos, impedido multidões de corromperem-se no podredouro das certezas.” CIORAN, E. M., “O Corruptor”, Breviário de decomposição, p. 193-194.

[6] “Uma única fórmula basta para caracterizar o pensamento trágico: a impossibilidade de crer que possa haver crença. […] O homem pode então crer em tudo o que bem entender, ele não poderá nunca se impedir de saber silenciosamente que aquilo no que ele crê é – nada.” ROSSET, Clément, Lógica do pior, p. 39.

[7] Ibid., p. 16.

[8] Segundo, Harold Bloom, “a angústia da influência resulta de um complexo ato de má leitura” poética ou filosófica, da qual depende a apropriação e a interpretação criativa do sucessor. BLOOM, Harold, A angústia da influência: uma teoria da poesia, p. 23-24. É o que faz Cioran em relação ao grande ídolo de sua juventude, Nietzsche, distorcendo-o e fazendo dele, no limite, um Cioran avant la letrre, um grande espírito precursor cujo retrato reflete o retratista, como se fosse um duplo anterior de Cioran. Assim, não seria Cioran um pensador pós-nietzschiano, mas Nietzsche um filósofo pré-cioraniano. Quanto a Rosset e Pascal, limitamo-nos a salientar sua leitura improvável, e provocadora, do jansenista Pascal como um filósofo-intérprete do acaso trágico, junto a Demócrito, Lucrécio e Nietzsche, e sem nenhuma relação histórico-filosófica com Agostinho e a tradição (teológica, mística) cristã. Desconsiderar Deus, por mais absconditus que seja, dos pensamentos de Pascal parece-nos uma impertinência (justificável pela teoria da angústia da influência de Bloom). Assim, o grande conflito de interpretações entre Cioran e Rosset pareceria recair antes sobre Pascal que sobre Nietzsche (por exemplo, Rosset acolhe a leitura sociológica que Lucien Goldmann faz de Pascal, e que Cioran rechaça). Para Rosset, Pascal é um filósofo trágico afirmador do acaso; para Cioran, é um místico jansenista de herança agostiniana.

[9] Ibid., p. 23. A julgar pelo título de seu importante estudo sobre Schopenhauer, “Uma filosofia da tragédia”, Alexis Philonenko discorda de Clément Rosset a respeito da índole trágica da filosofia de Schopenhauer. A disjunção entre “absurdo” e saber trágico é uma particularidade da lógica do pior rossetiana. Negando que a metafísica da vontade schopenhaueriana possa ser entendida como uma filosofia puramente trágica, como será a de Nietzsche na sua visão, Rosset sugere uma indistinção inusitada entre Schopenhauer e Kierkegaard como filósofos do absurdo, proponentes de filosofias “pseudotrágicas” (a mesma crítica recai sobre Cioran). Cf. ROSSET, Clément, Schopenhauer, philosophe de l’absurde. Paris : Quadrige/Presses Universitaires de France, 1967.

[10] A concepção trágica do tempo, na descrição de Rosset, valeria um estudo à parte. O filósofo elabora uma fenomenologia do tempo trágico em seus primeiros livros, como La philosohie tragique (1960) e Le monde et ses remèdes (1964), ambos traduzidos em espanhol e publicados pela editora argentina Cuenco de la Plata.

[11] ROSSET, Clément, Lógica do pior,p. 22.

[12] “Constatação, resignação, sublimação mais ou menos compensatória são aqui as palavras da sabedoria pessimista. A intenção trágica – a intenção propriamente terrorista, tal como se encontra em Lucrécio, Montaigne, Pascal ou Nietzsche – diferente sobre todos esses pontos. Ela verifica-se incapaz de erigir uma constatação (salvo a da impossibilidade de constatação: constatação única da filosofia trágica, que não é sem importância); e não busca nem uma sabedoria ao abrigo da ilusão, nem uma felicidade ao abrigo do otimismo. Busca uma coisa inteiramente outra: loucura controlada e júbilo.” Ibid., p. 23.

[13] Em alemão: Erlösung, conforme ao título do livro de Philipp Mainländer, La Philosophie der Erlösung (1876). Cioran o leu avidamente em sua juventude, durante os anos de formação filosófica na Romênia, e retornaria a ele em meados da década de 1960, como atesta o seu Caderno de Talamanca, no qual há notas sobre a necessidade de reler o livro de Mainländer para aprofundar-se no tema da redenção.

[14] “O que autoriza muitos pensadores contemporâneos a negar, como Bataille, a universalidade do saber trágico, é o fato de que o trágico não fala, ou quase não fala. Conclui-se daí que não há ‘consciência trágica’ – pelo menos naquele que não fala trágico: ou seja em quase todos os homens. Essa concepção superficial, que encontra numerosos ecos na filosofia contemporânea, resulta de uma assimilação, ou antes de uma confusão (esta assimilação não sendo, precisamente, ‘pensada’ enquanto tal), entre o não falado e o não pensado – por vezes batizado ‘impensado’. Há aí uma utilização fraudulenta do conceito freudiano de inconsciente que resulta numa representação simplista das relações entre o silêncio e a fala, na qual se imagina mecanicamente que todo pensamento vem à fala e que, reciprocamente, toda não-fala significa necessariamente um não-pensamento.” Ibid., p. 35.

[15] “Querer liberta: mas como se chama o que acorrenta até mesmo o libertador? ‘Foi’: assim se chama o ranger de dentes e solitária aflição da vontade. Impotente quanto ao que foi feito — ela é uma irritada espectadora de tudo que passou. A vontade não pode querer para trás; não poder quebrantar o tempo e o apetite do tempo — eis a solitária aflição da vontade.” NIETZSCHE, Friedrich, “Da redenção”, Assim falou Zaratustra, p. 133.

[16] Tema de Alegria: a força maior, um ensaio filosófico sobre o tema da beatitude em Nietzsche (especialmente a partir da Gaia Ciência). O livro inclui um post-scriptum, “O descontentamento de Cioran”, em que o pessimismo do amigo romeno é contraposto à alegria trágica de Nietzsche.

[17] Para Rosset, o trágico da existência não equivale a uma “insuficiência ontológica”, a uma miséria essencial da condição humana, como a tradição de pensamento cristão nos ensinou a pensar (e como o próprio Cioran parece pensar), mas num excesso crítico de pulsão vital.

[18] “Em primeiro lugar, a filosofia trágica considera a aprovação (e seu contrário, que é o suicídio) como o único ato cuja disponibilidade é deixada ao sujeito da ação, ao homem – ou seja, como a única forma de ‘ato’. […] Tudo o que ele pode ‘fazer’ é se solidarizar ou não com sua viagem, aceitar estar nela (o que significa aprovação global) ou recusá-la (o que significa desaprovação global, ou seja, suicídio).” ROSSET, Clément, Lógica do pior, p. 53-54.

[19] Ibid., p. 19-20.

[20] Ainda que seja um motivo gnóstico presente em muitos de seus livros, trata-se do tema por excelência de Le mauvais démiurge (1969). Eu me interessei pela Gnose, é óbvio. Disso resultou um livrinho, Le mauvais démiurge, cujo título em alemão, Die verfehlte Schöpfung (A Criação fracassada), me agrada. Só podemos imaginar o Criador como um malfeitor ou, na melhor das hipóteses, desastrado. Após o eclipse de alguns séculos, essa concepção retorna hoje com força. Mas eu não careço de senso de humor a ponto de me erigir em teólogo.” CIORAN, E. M., Entrevista com Gerd Bergfleth, Entretiens, p. 157.

[21] “Necessito do mau demiurgo como de uma indispensável hipótese de trabalho. Dispensá-lo equivaleria a nada compreender do mundo visível.” IDEM, Cahiers: 1957-1972, p. 549.

[22] Título de um dos ensaios de A tentação de existir (1956).

[23] “Nesse sentido, podem-se distinguir duas formas antitéticas de lógica do pior: uma (paranoica) cuja lógica é afirmar (o pior), a outra (trágica) cujo ‘pior’ é nada afirmar.” ROSSET, Clément, Lógica do pior, p. 26.

[24] IDEM, O princípio de crueldade, p. 22.

[25] “A confiança panteísta ou panlogística da Antiguidade é feita em pedaços no Gnosticismo. O self descobre-se incomensurável com todas as coisas da natureza. Essa descoberta primeiro faz o self emergir na mais radical solidão: ele descobre-se a partir de uma ruptura com o mundo. Ao mesmo tempo, esse recuo em relação à alienação cósmica conduz a uma nova ênfase na comunhão humana como o único domínio de parentesco restante, unidos não apenas pela comunidade de origem como também pela situação de estrangeiros [aliens] no mundo. Mas essa comunhão não se refere às preocupações naturais e sociais dos homens, ou seja, à sua existência mundana, mas tão-somente ao self interior acósmico e sua preocupação com a salvação.” JONAS, Hans, The Gnostic Religion: The Message of the Alien God and The Beginnings of Christianity, p. 55.

[26] SLOTERDIJK, Peter, Pós-Deus, p. 75.

[27] “Pode-se, portanto, afirmar que Cioran foi o primeiro a realizar aquilo que Nietzsche quis desmascarar como se tivesse existido desde sempre: uma filosofia do puro ressentimento. E se uma filosofia desse tipo só tivesse sido possível após Nietzsche e sob o seu impulso? Nela, o existencialismo da obstinação de origem alemã – contornando o existencialismo da resistência, da obediência francesa, que Cioran desprezava como uma moda – se transforma em um existencialismo da incurabilidade, tingido com tintas cripto-romenas e dácio-bogomilas, para parar na fronteira do inexistencialismo asiático. Em todas as épocas de sua vida, Cioran experimenta, ao modo da vanitas europeia, o sentimento de uma irrealidade global; no entanto, ele não chega a decidir-se a seguir o budismo na medida em que este abandona a tese da realidade enquanto tal e, junto com ela, a tese de Deus.” IDEM, “Cioran ou l’excès de la parole sincère”, Cahier L’Herne Cioran, p. 234.

[28] Ibid., p. 232.

[29] ROSSET, Clément, “O descontentamento de Cioran (post-scriptum)”, Alegria: a força maior, p. 96.

[30] IDEM, Lógica do pior, p. 20.

[31] Ibid., p. 21.

[32] Ibid., p. 20.

[33] Ibid., p. 20.

[34] “Um cego, por uma vez verdadeiro, estendia a mão: na sua atitude, na sua rigidez, havia qualquer coisa que vos prendia, que vos cortava a respiração. Ele passava-vos a cegueira dele.” CIORAN, E. M., Do inconveniente de ter nascido, p. 52. No Breviário de decomposição, ele afirma que “a função dos olhos não é ver, mas chorar; e para ver realmente é preciso fechá-los: é a condição do êxtase, da única visão reveladora, enquanto que a percepção esgota-se no horror do já visto, do irreparavelmente sabido desde sempre.” IDEM, “Lipemania”, Breviário de decomposição, p. 121.

[35] O pensamento de Cioran revela um fundo místico a partir do qual ele acolhe para si a noção antropológica e psicológica do homo duplex, operando uma distinção (tão familiar a Pascal e Agostinho) entre o “homem interior” e o “homem exterior”.

[36] CIORAN, E.M., “Lipemania”, Breviário de decomposição, p. 121.

[37] IDEM, “A mentira imanente”, Ibid., p. 116.

[38] Lumea nu-i decît un Nicăieri universal. De aceea, n-ai unde să te duci niciodată… [O mundo não é mais que um Não-lugar universal. Por isso, não tens para onde ir nunca…] IDEM, Amurgul gândurilor. Bucureşti: Humanitas, 1991, p. 10. Sobre a negação gnóstica do cosmo (de onde o acosmismo gnóstico), Cf. SLOTERDIJK, Peter, “A verdadeira heresia: a gnose – Sobre a religião mundial da ausência do mundo”, Pós-Deus. Trad. de Markus A. Hediger. Petrópolis: Vozes, 2019, p. 64.

[39] IDEM, “Os anjos reacionários”, Breviário de decomposição, p. 59.

[40] “Duas palavras fundamentais, no texto de Cioran, para delimitar o desígnio da lucidez: ‘dupe’ e ‘éveil’. É preciso evitar o engano, desenganar-se plenamente; tal desengano pleno se chama ‘despertar’, termo cujas ressonâncias místicas e orientais não é necessário sublinhar. Vejamos como são empregadas estas duas expressões na descrição de um dos grandes lúcidos dos nossos tempos, Valéry: saber desmontar o mecanismo de tudo, já que tudo é mecanismo, soma de artifícios, truques, ou, para empregar uma palavra mais honrosa, operações; ocupar-se dos meios, transformar-se em relojoeiro, ver dentro, cessar de estar enganado (cesser d’être dupe), é isto o que conta aos seus olhos. O homem, tal como ele (Valéry) o concebe, só vale por sua capacidade de não-consentimento, pelo grau de lucidez que alcançou. Esta exigência de lucidez fará pensar no grau de despertar (éveil) que supõe toda experiência espiritual, e que será determinado pela resposta que se dará à questão capital: ‘Até onde você foi na percepção da irrealidade?’ (EA).” SAVATER, Fernando, Ensayo sobre Cioran, p. 45-46.

[41] “Estimular as pessoas, arrancá-las do seu sono, sabendo perfeitamente que estamos assim a cometer um crime, e que seria mil vezes preferível deixá-las perseverar nele, visto que assim que acordam nada temos a propor-Ihes…” CIORAN, E. M., Do inconveniente de ter nascido, p. 178.

[42] “O que autoriza muitos pensadores contemporâneos a negar, como Bataille, a universalidade do saber trágico é o fato de que o trágico não fala, ou quase não fala.” ROSSET, Clément, Lógica do pior, p. 35.

[43] Sobre a teoria rossetiana do duplo, enquanto sucedâneo metafísico da realidade nua e crua, cf. O real e seu duplo.

[44] ROSSET, Clément, Lógica do pior, p. 25.

[45] CIORAN, E. M., “Religião”, Silogismos da amargura, p. 73.

[46] IDEM, “L’indélivré”, Le mauvais démiurge, in Œuvres, p. 1224.

[47] IDEM, Ibid., p. 1224.

[48] Trata-se aqui, segundo Sloterdijk, de uma metafísica tornada psicopatologia e pneumatologia: “A fim de compreender as valências terapêuticas da abordagem gnóstica, é recomendável lembrar a situação dos psíquicos da gnose negra. Eles são os enfermos do mundo no sentido pleno da palavra, os misfits do cosmo, que desfrutam das desvantagens do fato de terem nascido até o amargo fim.” SLOTERDIJK, Peter, Pós-Deus, p. 94.

[49] IDEM, Ibid., p. 93.

[50] CIORAN, E. M., Le mauvais démiurge, Op. cit., p. 1259.

[51] IDEM, Do inconveniente de ter nascido, p. 12.

[52] IDEM, “Gênese da tristeza”, Breviário de decomposição, p. 175.

[53] IDEM, “O cenário do saber”, Ibid., p. 183.

[54] ROSSET, Clément, Lógica do pior, p. 52.

[55] A exemplo destas belas palavras do aforismo 277 de Gaia Ciência, citadas por Rosset em Alegria: a força maior: “Ora — quero dizer, apesar de tudo isso! —, vamos deixar em paz os deuses e também os prestativos gênios e satisfazer-nos com a suposição de que nossa própria habilidade prática e teórica em interpretar e arrumar os acontecimentos tenha atingido seu ponto alto. Tampouco vamos ter em bem alta conta essa destreza de nossa sabedoria, se por vezes nos surpreender muito a maravilhosa harmonia que surge de nosso instrumento: uma harmonia que soa bem demais para que ousemos atribuí-la a nós mesmos. De fato, aqui e ali alguém toca conosco — o querido acaso: ele eventualmente guia a nossa mão, e a mais sábia providência não poderia conceber música mais bela do que a que então consegue esta nossa tola mão.” NIETZSCHE, Friedrich, Gaia ciência, IV (“Sanctus Januarius”), § 277 (“Providência pessoal”), p. 188-189.

[56] CIORAN, E. M., Do inconveniente de ter nascido, p. 106.


Rodrigo Menezes é bacharel em Filosofia, mestre em Ciências da Religião e doutor em Filosofia pela PUC-SP. Dedicou-se à investigação da obra de Cioran no mestrado e no doutorado. Tem publicado artigos acadêmicos, em periódicos brasileiros e internacionais, sobre Cioran, autores e temas relacionados. Tem participado de congressos e colóquios internacionais dedicados ao filósofo romeno, entre eles (em quatro ocasiões) o Encuentro Internacional Emil Cioran, na Colômbia. Tem traduzido ensaios e aforismos de Cioran, até então inéditos em português, do original francês e (mais recentemente) do romeno, publicados na revista (n.t.) Nota do Tradutor. É criador e editor do Portal E.M. Cioran Brasil (2010-2021).

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s