O meu encontro com o antiprofeta. Cioran na Itália – Vincenzo FIORE ðŸ‡®ðŸ‡¹

Texto da conferência realizada no Colóquio Internacional Liliana Herrera em torno de Cioran (16/10/2021). Trad. de Rodrigo Menezes.

Descobri Cioran quando ainda era estudante do ensino secundário. Eu tinha passado um ano inteiro lendo Nietzsche, que tinha me ajudado a superar uma grande dor. Um dia, deparei-me acidentalmente com um aforismo do pensador romeno, e fiquei literalmente fulgurado. Era Do inconveniente de ter nascido. Num curto espaço de tempo, comprei todas as suas obras. A leitura do cético dos Cárpatos foi a melhor terapia que pude descobrir, sim, porque a prática da escrita, mas também da leitura, inclusive para o próprio Cioran, eram práticas autoterapêuticas, e no seu caso, como ele próprio afirma, evitaram o suicídio. Mas para compreender isso, precisamos de dar alguns passos atrás.

No início dos anos 90, quando Cioran já tinha deixado de escrever e se aproximava do abismo sem fundo do Alzheimer, não foram poucos os que acusavam o cético dos Cárpatos de um pseudo-pessimismo mórbido e de ser um ator brilhante em narrativas fúnebres. Na linha da frente dos detratores do autoproclamado Privatdenker estava o escritor russo mais conhecido pelo pseudônimo Alain Bosquet, que, imaginando enviar uma carta a Cioran, acusava-o de ser um impostor e inconsistente com o seu próprio pensamento: “Ordeno-te […] que te enforques”. […] Suprime tua existência, nem que seja por respeito a teus escritos”. Em muitos de seus editoriais, e especialmente na sua obra La mémoire ou l’oubli [A memória ou o esquecimento], Bosquet falava de Cioran como um filósofo reacionário que seria logo arquivado pela história. Sua previsão revelou-se completamente infundada; houve, inversamente, nos primeiros vinte anos do século XXI, um crescimento constante do interesse pela figura do pensador romeno, não só na Itália e na Europa, como no resto do mundo.

Contudo, a crítica lançada contra Cioran nos estimula a examinar e a aprofundar certos pontos que podem ser obscuros para leitores que abordam sua obra superficialmente ou munidos de preconceitos. De fato, não poucas pessoas se perguntam por que razão, com uma tal concepção de vida, o pensador romeno não pôs um fim precoce aos seus dias. Antes de responder a esta pergunta, contudo, é necessário dar alguns passos atrás e mergulhar nos textos do filósofo.

O suicídio é um dos temas centrais já em seu primeiro livro, Nos cumes do desespero. O livro intitulava-se inicialmente Entre a vida e a morte, como Cioran revela numa carta a Petru Comarnescu, datada de 21 de abril de 1933, e posteriormente intitulado Nos cumes do desespero, pois o autor tinha se inspirado em artigos publicados em jornais romenos locais por ocasião de suicídios. Aqui, Cioran se lança contra a vileza daqueles que dizem que o suicídio é uma afirmação da vida. Como poderia traduzir-se a incapacidade de viver, pergunta-se o pensador romeno, senão em termos de uma tragédia interior assustadora. É absurdo, escreve Cioran, que continuemos a procurar as motivações para o gesto mais extremo, a fim de estabelecer hierarquias, encontrar justificações ou, pior ainda, para querer diminui-lo.

Pode-se encontrar razões válidas para acabar com isto mesmo para um amor irrealizado, pois uma relação inatingível pode significar uma aniquilação do próprio ser, uma perda total de significado. De fato, as paixões impossíveis levam à morte mais rapidamente que as doenças graves, porque se neste último, escreve Cioran, nos consumimos progressivamente, para aquelas é preciso apenas um instante. Além disso, a primeira vez que o filósofo ponderou a ideia de acabar com tudo havia sido aos dezesseis anos de idade, quando, ao caminhar nas profundezas de uma floresta de Sibiu, deparou-se com a menina por quem estava secretamente apaixonado havia dois anos, na companhia de um rapaz repugnante apelidado de “pulga”. Foi nesse momento que Cioran pensou não poder suportar a traição; mas, voltando ao seu primeiro trabalho, escreve: “A minha admiração vai apenas para duas categorias de homens: aqueles que poderiam enlouquecer a qualquer momento e aqueles que a qualquer momento seriam capazes de cometer o suicídio”. E, em conclusão, referindo-se a um interlocutor fictício, ele diz que não comete suicídio porque a morte lhe inspira o mesmo desgosto que a vida.

Mais tarde, no prefácio à edição francesa de Nos cumes do desespero, ele disse que se não tivesse transposto as suas ansiedades para o papel, provavelmente teria posto um fim aos seus dias. Num exemplar do livro dado a Friedgard Thoma, ele reiterou: “Se eu não tivesse produzido estes lamentos na minha juventude, já teria abandonado o palco há muito tempo’” A única razão pela qual o pensador romeno não terminou os seus dias na universidade foi porque encontrou no exercício da escrita uma verdadeira terapia. Chega ao ponto de considerar que o termo “livro” é forçado para qualquer dos seus escritos, porque escrita é no fundo apenas uma prática autoterapêutica, razão pela qual nunca parou, mesmo contra a sua vontade: “Tenho a certeza de que, não fossem os blocos de papel, teria me suicidado há muito tempo. A escrita é um enorme alívio. Tal como a publicação.”

Deslocando-nos ao seu primeiro livro em língua francesa, o Breviário de decomposição, o suicídio é descrito aí como uma das descobertas do ser humano, uma das propriedades distintivas do homo sapiens; uma solução inacessível às bestas e aos anjos. É precisamente a tentação de acabar com tudo isto, reiteraria ele numa das suas últimas entrevistas em 1992, que distingue o homem dos animais. Aquele que nunca concebeu a sua própria anulação, meditando sobre a corda ou a bala, é um ser desprezível (carogna). Ademais, Cioran acrescenta que se estivéssemos tão conscientes à nascença como estamos no final da adolescência, é muito provável que o suicídio já seria um fenômeno habitual aos cinco anos de idade. A escolha desta idade precisa não é acidental: foi de fato aos cinco anos, durante uma tarde de verão em Drăgășani, que Cioran teria vivido a sua primeira crise de ennui (noia, em italiano), uma crise que ele definiria posteriormente como um verdadeiro despertar da consciência. Para aqueles poucos homens capazes de pôr em questão a obrigação de existir, contudo, o despertar chega sempre demasiado tarde. Por esta razão, escreve Cioran em Do inconveniente de ter nascido (1973), não vale a pena cometer suicídio. Além disso, o pensador romeno afirma que nem mesmo a experiência ilusória do vazio é capaz de nos reintegrar “à doçura de antes do nascimento”, nem mesmo o suicídio tem a capacidade de compensar os homens de “haver sido”. Por conseguinte, o suicídio é um ato inconclusivo pois impotente no sentido de resolver a tragédia do primeiro suspiro.

Que o fato de considerar o nascimento como um infortúnio não fornece necessariamente nenhum um argumento pró-suicídio é uma conclusão em torno da qual estão de acordo os principais antinatalistas contemporâneos, como Peter Wessel Zapffe, Thomas Ligotti e David Benatar. Ainda que, cumpre especificar, o antinatalismo contemporâneo frequentemente assuma uma conotação política e ambientalista, ao contrário das páginas de Cioran, que ecoam puramente a antiga sentença sileniana do me phynai, ou ainda o grito do sofrimento universal que parece subjugar cada ser na criação, tudo o que tem forma, até o granito.

Em vez disso, o que é útil é “a ideia do suicídio”, a certeza de que cada indivíduo está livre para pôr um termo à sua existência. O que torna a vida tolerável é a ideia de que você pode evadi-la a qualquer momento. Poder dispor dos próprios dias é o único ato verdadeiramente destituído de desespero, e o único razoável: “Nascidos em uma prisão, com fardos sobre nossos ombros e nossos pensamentos, não poderíamos alcançar o termo de um só dia se a possibilidade de acabar não nos incitasse a recomeçar o dia seguinte… Os grilhões e o ar irrespirável deste mundo roubam-nos tudo, salvo a liberdade de matar-nos; e esta liberdade nos insufla uma força e um orgulho tais que triunfam sobre os pesos que nos esmagam. […] Mas, demônios fanfarrões, adiamos nosso fim: como renunciaríamos ao desdobramento de nossa liberdade, ao jogo de nossa soberba?…”

Como antecipado, um dos principais motivos pelos quais Cioran não pôs fim aos seus dias é por ter encontrado na escrita uma “profilaxia do suicídio”, ou ainda uma prática cotidiana e terapêutica que, com o passar do tempo, como ressalta Bernd Mattheus, assume para o pensador romeno o mesmo efeito da talking cure psicanalítica. Segundo Simone Boué, seu companheiro no fundo não gostava de escrever, mas era uma necessidade incontornável, porque para ele um livro nada mais era que um “suicídio adiado”.

Cioran confidencia a Paul Assall, numa entrevista: “Sempre escrevi para me libertar de algo. E o que escrevi não é exatamente filosofia ou literatura, mas uma terapia pessoal de que precisava. Eu não escrevi livros, simplesmente tornaram-se livros! Com exceção, talvez, de dois ou três textos, como o ensaio sobre Joseph de Maistre, sobre o pensamento reacionário [ou mesmo Transfiguração da Romênia, única obra sistemática do autor e depois renegada]”. Não só a escrita em si, mas também a publicação é uma etapa fundamental, pois as obsessões comunicadas vão se distanciando. Escrever sobre o suicídio significa de alguma forma superá-lo, profaná-lo; colocar uma ideia no papel também significa matá-la. Cioran conhece as suas contradições, que ele não esconde, mas destaca, porque, uma vez que se opta por viver, todo ato tem a ver com a prostituição, toda a existência assume o carácter de um passeio na “calçada”.

O que foi exposto até aqui permite-nos compreender que, pelo menos a maior parte do tempo, Cioran não pensava em produzir uma obra quando escrevia, mas limitava-se a anotar sensações temporárias em cadernos para depois selecionar algumas anotações e publicar como um livro. Isto explicaria a presença de repetições nos seus textos, além da repetição de frases idênticas nos seus livros publicados que se encontram também nos Cahiers. De fato, não é fortuito que fossem trinta e quatro cadernos idênticos (marcados com número de identificação e datas), dos quais o filósofo extraía os seus livros e que eram, na realidade, repetições ou aforismos. Entre os muitos exemplos que poderiam ser dados, o caso do seguinte aforismo é singular: “Após uma doença grave, em certos países asiáticos, como o Laos, por exemplo, costuma-se mudar de nome. Que visão na origem de um tal costume! De fato, deveríamos mudar de nome depois de cada experiência importante” (Écartèlement, 1979). Seis anos antes, em Do inconveniente de ter nascido, ele havia escrito: “Após certas experiências, deveríamos mudar de nome, pois a verdade é que já não somos os mesmos.” Dando mais um passo atrás e abrindo as páginas de Le mauvais démiurge (1969), encontramos: “Depois de certas noites, deveríamos mudar de nome, pois já não somos os mesmos.” É evidente que em todos os três casos estamos diante da mesma concepção, reformulada através de nuances linguísticas distintas.

O primeiro a adotar essa prática autoterapêutica foi, segundo Cioran, Cícero. O orador romano, em retiro no campo após a morte da filha, começou a escrever cartas de consolação para si mesmo para suportar a dor. O pensador romeno lamenta que essa prática não tenha se tornado corrente, pois se o tivesse – explica ironicamente Cioran – o homem teria encontrado um remédio aos seus males e, por conseguinte, as religiões não teriam mais sua razão de ser. Esse efeito revigorante e vivificante produzido pela escrita não envolve apenas Cioran como autor, mas também parte de seus leitores. Há testemunhos de pessoas que sofreram uma verdadeira catarse filosófica graças à leitura dos livros do pensador romeno, como o caso de uma menina libanesa que, sob os bombardeios de Beirute, lia Cioran porque, naquela situação desastrosa, achava o seu humor tonificante, e o de uma japonesa que queria se matar, mas mudou de ideia e iniciou uma troca de cartas com o seu “salvador” após ter lido seus livros. O testemunho de Mattheus também é fundamental nesta perspectiva: “Há algum tempo conheci o poeta austríaco Ernst Jandl aqui em Paris, após uma aula dele. Ele me disse: leio seus livros [de Cioran] toda vez que estou deprimido”.

A necessidade de “criar” uma terapia para si mesmo deriva do fato de as abordagens “oficiais” não serem válidas. Se quando jovem Cioran se interessou particularmente pela psicanálise, tanto que escreveu artigos sobre relacionados ao assunto, ele desenvolverá ao longo do tempo uma aversão progressiva em perspectiva antifreudiana. Quanto mais se lê Freud, escreve o filósofo romeno, mais se convence de que se trata do fundador de uma nova seita, do proclamador de novos artigos de fé, do profeta intolerante disfarçado de homem de ciência. Em particular, Cioran ataca a facilidade das hipóteses da psicanálise, elevadas ao estatuto de delírios, um campo em que as explicações mais seduzem os ouvintes quanto mais absurdas parecem. Mas este não é o momento para investigar o assunto mais a fundo.

Por outro lado, o que é importante relatar hoje, e assim me encaminho para a conclusão, é uma visão geral do estado das pesquisas sobre Cioran na Itália. Com uma resposta extremamente concisa, poderia dizer que percorremos o caminho certo e já percorremos muitos quilômetros. Mas vamos distinguir as diferentes seções em detalhes: obras, correspondência, entrevistas e crítica.

Obra: A maior parte da obra de Cioran foi publicada na Itália graças a Roberto Calasso, fundador das edições Adelphi, além de grande pensador, e a Mario Andrea Rigoni, professor emérito da Universidade de Pádua que conheceu o pensador romeno em Paris. Como sabemos, Cioran escreveu em romeno até cerca de 1946-1947, para em seguida exilar-se na língua francesa, razão pela qual é necessário distinguir entre os livros romenas os franceses. Dos franceses temos praticamente tudo publicado, desde o Breviário até Aveux et anathèmes (1987), enquanto para as obras romenas a situação é mais problemática. Temos pequenas pérolas graças à editora Voland, como Îndreptar pătimaş [Breviário dos vencidos] I e II e Divagazioni, mas dos cinco livros romenos propriamente ditos temos três grandes ausências e uma edição incompleta. As três grandes ausências, em ordem cronológica: O livro das ilusões, a obra rejeitada Transfiguração da Romênia e O crepúsculo dos pensamentos; e o livro incompleto é Lágrimas e santos – incompleto porque foi reeditado a pedido do autor, eliminando-se algumas partes mais escabrosas. Há, portanto, muito trabalho a ser feito neste sentido. Também encontram-se ausentes do catálogo italiano a produção dos artigos de juventude, que foi publicada em outros lugares com os títulos de Solitude et destin e Apologie de la barbarie.

Correspondências e entrevistas: Talvez deste ponto de vista a Itália seja o país que mais realizou. Encontramos muitas correspondências na Italia, e mencionarei apenas algumas: a correspondência com George Bălan, que em minha opinião está entre as mais bonitas, a com seu irmão, as cartas de juventude na Romênia, correspondências com Eliade, com Friedgard Thoma, mulher que foi muito importante nos últimos anos da vida de Cioran, e muitas outras.

Quanto às entrevistas, temos dois pontos cardeais: Un apolide metafisico, coleção que também é um clássico da Adelphi, e Ultimatum all’esistenza, uma coleção monumental, sem querer ser tendencioso, já que aí também está há um trabalho meu, e que é uma visão integral sobre existência parisiense de Cioran. Uma coleção projetada por Antonio di Gennaro e que por enquanto só se encontra na Itália.

Crítica: Nos últimos anos, os estudos sobre Cioran têm aumentado na Itália e na Romênia. Nas universidades L’Orientale, de Nápoles, e Tibiscus, de Timişoara, nasceu um verdadeiro projeto de pesquisa que a cada ano traz muitos estudiosos de diferentes partes do mundo, graças sobretudo a professores como Giovanni Rotiroti e Irma Carannante. Além disso, a editora Criterion, que foi fundada recentemente, liderada por Mattia Pozzi, já publicou muito material interessante e mais será publicado em termos de literatura secundária. Para orientar-se sobre os ensaios científicos e escritos de divulgação, recomendo a página de Orizzonti culturali italo-romeni.

Quanto às biografias completas do autor, que podem funcionar como uma bússola para mover no seu pensamento: Emil Cioran. A filosofia como desfascinação e a escrita como terapia (Nulla Die 2018), escrita por mim, e além dela uma interessante reconstrução da vida do pensador romeno importada da Alemanha, para a qual escrevi o prefácio, Cioran. Rittrato di uno scettico estremo, de Bernd Mattheus (Lemma Press). Em agradecimento ao Portal E.M. Cioran Brasil, em particular a Rodrigo Menezes, concluo meu breve relato sobre o cético dos Cárpatos, com a esperança de que os estudos sobre Cioran possam multiplicar-se não só na Itália e na Europa, mas também em outros continentes, como na América Latina, vindo a ter a atenção internacional merecida. Estou aqui para responder a eventuais perguntas que vocês possam ter.

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