“A visão de mundo pessimista de Julius Bahnsen” – Frederick C. BEISER

Um dos mais ardentes, originais e profundos pessimistas da época do Weltschmerz foi Julius Bahnsen (1830-81). Embora a descoberta e publicação de sua autobiografia em 1905 o tenha salvado do esquecimento, e embora tenha havido um leve ressurgimento do interesse em sua psicologia nos anos 30, Bahnsen foi largamente esquecido. Se ele é lembrado, é geralmente por causa de Nietzsche, que uma vez o considerou como um companheiro pessimista. Contudo, fazer de Nietzsche o único motivo de interesse em Bahnsen trai uma perspectiva histórica distorcida. Bahnsen merece ser tratado como um fim em si mesmo, como um objeto de investigação em seu próprio direito, tanto quanto Nietzsche.

A principal razão para exumar Bahnsen reside em sua visão de mundo original e poderosa. Sua perspectiva sobre o mundo deriva de uma única visão: que a essência da realidade consiste no conflito interior da vontade. Desde que Bahnsen considerou este conflito como incessante, interminável, irresolúvel e fonte de todo sofrimento, sua visão de mundo é totalmente trágica. Entre as partes beligerantes da vontade, não há uma síntese superior, nenhum acordo apaziguador, nenhuma mediação atenuante. O sofrimento mais intenso, até mesmo a insanidade, surge porque o eu está dividido em si mesmo, “querendo o que não quer e não querendo o que quer”. Esse sofrimento constante e irredimível é, para Bahnsen, o destino inelutável da humanidade. Não admira, então, que ele, como um verdadeiro pessimista, pense que seria melhor se não tivéssemos nascido.

Uma das razões para a queda de Bahnsen no esquecimento virtual – apesar de sua visão de mundo original e poderosa – é a sua prosa desafiadora. Ela tem o poder exasperante de esgotar até mesmo o leitor mais simpático. Sua sintaxe é tortuosa e tentadora, seu vocabulário vasto e excêntrico, seus significados elusivos e vagos. Nunca, ao que parece, Bahnsen reescreve suas frases; é como se nunca lhe tivesse ocorrido lutar pela formulação mais simples e mais elegante. Ele copia aspectos do estilo de Schopenhauer – as metáforas coloridas e as alusões clássicas – mas nunca alcança a clareza e a objetividade de seu mestre. O próprio Bahnsen admitiu estas deficiências e reconheceu que elas eram uma das principais razões de sua falta de sucesso literário; mas ele se desculpou por não ter tido tempo ou oportunidade de polir sua prosa. Mas a dificuldade de sua escrita também era, em parte, uma questão de escolha. Pois Bahnsen não se disciplina deliberadamente: ele estimula a elaboração conceitual e o raciocínio apertado em nome da percepção e da inspiração do momento. Embora isto torne sua prosa viva e enfática, também a torna confusa e errática.

A principal razão do descuido de Bahnsen, no entanto, vem de sua classificação como membro da “escola schopenhaueriana”. Levados muito a sério, estes termos historiográficos são redutores. Eles sugerem que há pouca necessidade de considerar um pensador pelo seu valor próprio porque, ao que parece, se alguém conhece o diretor da escola sabe tudo o que é necessário sobre os seus alunos. No caso de Bahnsen, isto é especialmente enganoso. Por pouco tempo, ele foi de fato um discípulo próximo de Schopenhauer, e sempre reconheceu suas grandes dívidas para com o “mestre”. Mas logo romperia com ele sobre tantos pontos fundamentais que se torna impossível considerá-lo um schopenhaueriano em qualquer sentido estrito ou estreito. A visão de mundo de Bahnsen contradiz Schopenhauer em três pontos fundamentais. Em primeiro lugar, Bahnsen nega, como Mainländer, o monismo de Schopenhauer, sustentando, em vez disso, que existe uma pluralidade de vontades individuais; em segundo lugar, ele contesta o idealismo transcendental de Schopenhauer e defende um realismo transcendental; e, terceiro, torna dialética a vontade de Schopenhauer, de modo a possibilitar que ela contradiga a si mesma. Até mesmo o voluntarismo de Bahnsen – o ponto onde ele está mais próximo de Schopenhauer – é uma versão mais radical e consistente da doutrina de seu mestre, pois Bahnsen nega que o intelecto possa jamais escapar, muito menos governar, a vontade. A aparente incoerência no voluntarismo de Schopenhauer – que a vontade domine, embora seja controlada pelo intelecto – é resolvido inteiramente a favor da vontade.

Mais do que uma simples variação da filosofia de Schopenhauer, a visão de mundo de Bahnsen é antes uma síntese de Schopenhauer e de Hegel. A filosofia de Hartmann, como já vimos, pode ser descrita em termos semelhantes. Mas há algo de único na síntese de Bahnsen, algo que a diferencia da de Hartmann. Enquanto a síntese de Hartmann tenta domar e moderar o pessimismo de Schopenhauer com a crença otimista de Hegel no progresso histórico, a síntese de Bahnsen é completamente trágica: exclui a evolução ou o desenvolvimento porque a história é cíclica e a contradição, constante. O que Bahnsen extrai de Hegel não é seu historicismo, mas sua dialética, e, especificamente e unicamente, o momento negativo de sua dialética – sua ênfase na contradição, o próprio aspecto da dialética de Hegel que Hartmann havia rejeitado em seus primeiros dias. Veremos mais tarde como estas sínteses opostas se tornaram autoconscientes para Bahnsen e Hartmann nos anos 1870, e como eles foram a principal fonte de suas diferenças filosóficas.

O pessimismo de Bahnsen tem sido descrito como o mais extremo e radical da era do Weltschmerz. Um forte argumento pode ser apresentado para esta visão. Bahnsen é de fato mais radical do que Schopenhauer e Hartmann, uma vez que nega a possibilidade de redenção. Ele é cético em relação ao fato de que a arte, a ascese ou a cultura possam nos afastar do mundo do sofrimento, ou de que eles proporcionam a fuga do tormento autoinfligido pela vontade. O irracionalismo de Bahnsen também é maior que o de Schopenhauer e Hartmann, pois ele sustenta que o esforço da vontade não é apenas incessante, mas também autocontraditório. Mas é contestável se Bahnsen é mais radical e extremo do que Mainländer. Se Bahnsen nega a possibilidade de redenção, Mainländer sustenta que só há redenção na morte. Enquanto Bahnsen desaprova o suicídio, Mainländer acena em direção a este passo definitivo. Quem, então, é mais pessimista? Bahnsen ou Mainländer? Deixo ao leitor para que decida.

O tema principal da filosofia de Bahnsen é sua “dialética real” (Realdialektik), representando a sua tese central de que a realidade é irracional porque a vontade é autocontraditória. Como Bahnsen via os conflitos internos da vontade como autocontraditórios em um sentido estritamente lógico, ele estava comprometido com a afirmação ousada e controversa de que a própria realidade é autocontraditória. Isso contraria a doutrina lógica padrão de que a contradição se aplica às proposições e não às coisas mesmas. O objetivo da verdadeira dialética de Bahnsen, entretanto, é negar justamente essa doutrina padrão; é uma dialética real e não artificial precisamente porque sustenta que a contradição se aplica à própria realidade. Somente em seus últimos anos Bahnsen começou a explicar e defender sua tese controversa no que se tornou sua obra-prima, seus dois volumes Der Widerspruch im Wissen und Wesen der Welt [A Contradição no Conhecimento e na Essência do Mundo]. Teremos a oportunidade de examinar a tese de Bahnsen abaixo.

A tarefa do capítulo seguinte é traçar a gênese da visão de mundo de Bahnsen, seu encontro inicial com Schopenhauer e os passos pelos quais ele gradualmente se emancipou do legado de seu mestre para desenvolver sua própria visão de mundo. Veremos como Bahnsen se afastou do monismo e do idealismo de Schopenhauer em direção a um pluralismo e a um realismo, e como removeu as inconsistências no voluntarismo de Schopenhauer de modo a formular um pessimismo radical muito próprio.

Este capítulo não é de forma alguma o primeiro estudo sobre o desenvolvimento intelectual de Bahnsen. O esforço mais importante nesta direção foi empreendido há mais de setenta anos por Heinz-Joachim Heydorn. Seu Julius Bahnsen, que se baseia em grande parte em um estudo dos manuscritos não publicados de Bahnsen, ainda é uma fonte indispensável para a pesquisa sobre Bahnsen. Minha própria investigação tem contado muito com o trabalho e a bibliografia de Heydorn. Eu difiro, entretanto, de Heydorn em um aspecto importante: ele pensa que o desenvolvimento intelectual de Bahnsen está essencialmente completo em meados da década de 1860, e que sua filosofia mais tardia simplesmente realiza uma metafísica que ele já havia concebido inteiramente naquela década. Veremos, porém, que Bahnsen ainda estava trabalhando em sua filosofia até a década de 1870, e que só chegaria próximo de sua forma final após a contenda com Hartmann. Até mesmo o pessimismo de Bahnsen, eu argumentaria, encontrou sua última e característica formulação somente nos últimos anos de sua vida.

Um capítulo significativo no desenvolvimento filosófico de Bahnsen veio com sua amizade com Hartmann. Durante cerca de quatro anos, de 1871 a 1875, os dois filósofos se encontraram e se corresponderam. Cada um aprendeu com o outro e desenvolveu cada qual seu pontos de vista. Para Bahnsen, as discussões com Hartmann foram decisivas para formar sua própria visão de mundo, não menos importante do que a reação contra Hartmann. Em sua intensidade e importância, a relação de Bahnsen com Hartmann não lembra um pouco outra relação entre dois pessimistas: aquela entre Nietzsche e Wagner. Como se sabe tão pouco sobre o antigo relacionamento; como era tão crucial para o desenvolvimento intelectual de Bahnsen; como não era menos importante na história do pessimismo; e como é do maior interesse filosófico, este capítulo dedicará várias seções a uma discussão sobre ele.

BEISER, Frederick C., “The Pessimistic Worldview of Julius Bahnsen (An Original and Powerful Worldview)”, Weltschmerz. Pessimism in German Philosophy, 1860-1900. Oxford: Oxford University Press, 2016, p. 229-232. Trad. do inglês por Rodrigo Menezes.

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