“Sociedade da intimidade” – Byung-Chul HAN

O século XVIII é caracterizado como theatrum mundi, no qual o espaço público é equiparado a um palco. A distância cênica impede o contato imediato entre corpos e almas. O teatral é contraposto ao táctil, pois através de formas e sinais rituais comunica-se aquilo que pesa sobre a alma. Na Modernidade, renuncia-se cada vez mais a distância teatral em favor da intimidade. Richard Sennett vê nisso uma evolução perniciosa que retira do ser humano a capacidade de “jogar com autoimagens externas e possuí-las com sentimento”[1]. Formalização, convencionalização e ritualização não excluem a expressividade, pois o teatro é lugar de expressões, que são sentimentos objetivos, e não manifestações da interioridade psíquica. Por isso, elas são representadas, e não expostas. Hoje, o mundo não é um teatro no qual são representadas e lidas ações e sentimentos, mas um mercado onde se expõem, vendem e consomem intimidades. O teatro é um lugar de representação, enquanto que o mercado é um lugar de exposição. Assim, atualmente a representação teatral dá lugar à exposição pornográfica.

Sennett admite que a “teatralidade tem uma relação específica, e até hostil, com a intimidade, e, por outro lado, uma relação mais amistosa com a vida que se desenrola no espaço público”[2]. A cultura da intimidade caminha de mãos dadas com a decadência daquele mundo objetivo-público, que não é objeto de sensações e vivência íntimas. Segundo a ideologia da intimidade, as relações sociais são tanto mais reais, autênticas, fidedignas e verdadeiras quanto mais próximas das necessidades internas, psíquicas do indivíduo. A intimidade é a fórmula psicológica da transparência; imagina-se alcançar a transparência da alma revelando-se os sentimentos e emoções íntimos, desnudando-a.

As mídias sociais e sites de busca constroem um espaço de proximidade absoluto onde se elimina o fora. Ali encontra-se apenas o si mesmo e os que são iguais; já não há mais negatividade, que possibilitaria alguma modificação. Essa proximidade digital presenteia o participante com aqueles setores do mundo que lhe agradam. Com isso, ela derriba o caráter público, a consciência pública; sim, a consciência crítica, privatizando o mundo. A rede se transforma em esfera íntima ou zona de conforto. A proximidade pela qual se elimina a distância também é uma forma de expressão da transparência.

A tirania da intimidade psicologiza e personaliza tudo, e até mesmo a esfera política não escapa desse processo. Assim, os políticos não são avaliados por suas ações. Seu interesse está voltado para a pessoa, o que provoca neles coerção por encenação. A perda do caráter público deixa atrás de si um vazio onde se derramam a intimidade e as estâncias privadas. No lugar do caráter público entra a publicização da pessoa; o público se transforma em espaço de exposição, afastando-se cada vez mais do espaço do agir comum.

Originalmente, pessoa (latim persona) significa máscara, dando um caráter, uma forma e uma configuração à voz que toa por intermédio dela. A sociedade da transparência, enquanto sociedade da revelação e do desnudamento, trabalha contra qualquer forma de máscara, contra a aparência.

Também a crescente espiritualização e desnarrativização da sociedade esvaziam-na de suas formas aparentes e a deixam desnuda. Nos jogos e nos rituais o decisivo são as regras objetivas, e não os estados psíquico-subjetivos; quem joga com outros se submete a regras de jogo objetivas. A comunalidade do jogo não reside na autoabertura mútua, mas as pessoas socializam-se mutuamente quando guardam distância umas das outras. A intimidade, ao contrário, destrói essa socialização.

A sociedade da intimidade desconfia dos gestos ritualísticos e dos comportamentos cerimoniais e formais; estes lhe parecem por demais exteriores e inautênticos. O ritual é uma ação a partir de formas de expressão externalizadas, que têm um efeito desindividualizador, despersonalizador e despsicologizador. Os que deles participam “são expressivos”[3], sem, no entanto, colocar a si mesmos sob holofotes ou ter de se desnudar. Mas a sociedade da intimidade é uma sociedade psicologizada, desritualizada; uma sociedade da confissão, do desnudamento e da falta pornográfica de distância.

A intimidade aniquila espaços objetivos de jogo em favor de regulamentações subjetivo-afetivas, sendo que no espaço cerimonial-ritualístico circulam sinais objetivos, não se deixando tomar por um ambiente narcisista; em certo sentido, vazio e ausente. O narcisismo é expressão de distância em relação a si, falta de autodistância. A sociedade da intimidade é habitada por sujeitos íntimos narcisistas, aos quais falta qualquer capacidade de distanciamento cênico. Sobre isso, Sennett escreve: “O narcisista não está propenso a fazer experiências, mas quer vivenciar; em tudo que lhe vem ao encontro ele busca vivenciar a si mesmo. Com isso ele desvaloriza toda e qualquer interação e cena […]”[4]. Para Sennett, as perturbações narcisistas estão crescendo muito em nossos dias “porque a sociedade atual organiza psicologicamente seus processos de expressão internos, minando o sentido para interações sociais com sentido fora dos limites do si-mesmo individual”. A sociedade da intimidade elimina sinais rituais, cerimoniais nos quais se escapa de si, se perde. Nas experiências encontramos o outro; mas nas vivências, ao contrário, sempre encontramos a nós mesmos. O sujeito narcísico não pode colocar um limite a si mesmo; os limites de si mesmo desaparecem. Por isso ele não consegue fazer surgir uma imagem estável do si-mesmo; funde-se de tal forma em si, que não se torna possível jogar consigo mesmo. O narcisista, tornado depressivo, engole a si mesmo em sua intimidade ilimitada. Não há qualquer vazio ou distância que consiga distanciar o narcisista de si mesmo.

Byung-Chul HAN. “Sociedade da intimidade”, Sociedade da transparência. Trad. de Enio Paulo Giachini. Petrópolis, RJ : Vozes, 2017.


NOTAS:

[1]. SENNETT, R. Verfall und Ende des öffentlichen Lebens – Die Tyrannei der Intimität. Berlim, 2008, p. 81.

[2]. Ibid.

[3]. Ibid., p. 467.

[4]. Ibid., p. 563.

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