A Oração de um Dácio – Mihai EMINESCU

Revista (n.t.) Nota do Tradutor, nr. 22, ano XI, vol 1, junho de 2021

O texto: Escrito em 1879 e publicado em 1884, “Rugăciunea unui dac” (“A oração de um dácio”) é um poema intrigante, em virtude dos paradoxos e da ambivalência no trato com a divindade. O dácio, que assume a voz poética, é um dos ancestrais do povo romeno (como os trácios), antes da invasão romana. O poeta moderno encarna seu ancestral longínquo para dar voz à sua lamentosa oração, alternando entre bendição e maldição, louvor e anátema, salvação e perdição. No poema, o dácio anseia pela beatitude do “eterno repouso” no nada absoluto, e para garantir que não haverá obstáculos ao seu desejo, exige que a divindade amaldiçoe todo homem que tiver piedade dele, mediante uma oração negativa e de aparência niilista que subverte a fé religiosa ortodoxa, invertendo o que normalmente se entende por vantagem e desvantagem, o melhor e o pior a ser desejado.

Texto traduzido: Eminescu, M. „Rugăciunea unui dac”. In. Poezii. Bucureşti: Casa de Editură şi Presă „Viaţa Românească”, 1991, pp. 105-106.

O autor: Mihai Eminescu (1850-1889), poeta, romancista e ensaísta romeno, nasceu em Botoşani. Considerado o poeta nacional da Romênia por antonomásia, foi um espírito universalista cujas influências incluíam, para além do horizonte nacional, a filosofia de Schopenhauer e o Romantismo, no âmbito da cultura ocidental, o Budismo e a tradição dos Vedas, na oriental. Teve uma existência romântica por excelência, para a qual vida e criação estiveram dolorosamente vinculadas, como uma questão de destino. Viveu apenas 39 anos, terminando sua vida em uma instituição psiquiátrica, acometido de demência. Dentre suas obras, destacam-se a prosa Sarmanul Dionis (Pobre Dionísio), de 1872, e os poemas Luceafărul (Vésper) e Mai am un singur dor (Resta-me um só desejo), ambos de 1883.

O tradutor: Rodrigo Menezes é doutor em Filosofia pela PUC-SP, pesquisador da obra de Cioran, tradutor e editor do Portal E.M. Cioran Brasil (2010-2020). Para a (n.t.) traduziu ensaios de Cioran e a poesia de Héctor Escobar Gutiérrez.


Rugăciunea unui dac – Mihai Eminescu

Pe cînd nu era moarte, nimic nemuritor,
Nici sîmburul luminii de viață dătător,
Nu era azi, nici mîne, nici ieri, nici totdeauna,
Căci unul erau toate și totul era una;
Pe cînd pămîntul, cerul, văzduhul, lumea toată
Erau din rîndul celor ce n-au fost niciodată,
Pe-atunci erai Tu singur, încît mă-ntreb în sine-mi:
Au cine-i zeul cărui plecăm a noastre inemi?

El singur zeu stătut-au nainte de-a fi zeii
Și din noian de ape puteri au dat scînteii,
El zeilor dă suflet și lumii fericire,
El este-al omenimei izvor de mîntuire:
Sus inimile voastre! Cîntare aduceți-i,
El este moartea morții și învierea vieții!

Și el îmi dete ochii să văd lumina zilei,
Și inima-mi împlut-au cu farmecele milei,
În vuietul de vînturi auzit-am al lui mers
Și-a glas purtat de cîntec simții duiosu-i vers,
Și tot pe lîng-acestea cerșesc înc-un adaos:
Să-ngăduie intrarea-mi în vecinicul repaos!

Să besteme pe-oricine de mine-o avea milă,
Să binecuvînteze pe cel ce mă împilă,
S-asculte orice gură, ce-ar vrea ca să mă rîdă,
Puteri să puie-n brațul ce-ar sta să mă ucidă,
Ș-acela între oameni devină cel întîi
Ce mi-a răpit chiar piatra ce-oi pune-o căpătîi.

Gonit de toată lumea prin anii mei să trec,
Pîn’ ce-oi simți că ochiu-mi de lacrime e sec,
Că-n orice om din lume un dușman mi se naște,
C-ajung pe mine însumi a nu mă mai cunoaște,
Că chinul și durerea simțirea-mi a-mpietrit-o,
Că pot să-mi blestem mama, pe care am iubit-o –
Cînd ura cea mai crudă mi s-a părea amor…
Poate-oi uita durerea-mi și voi putea să mor.

Străin și făr’ de lege de voi muri – atunce
Nevrednicul-mi cadavru în uliță l-arunce,
Ș-aceluia, părinte, să-i dai coroană scumpă,
Ce-o să amuțe cînii, ca inima-mi s-o rumpă,
Iar celui ce cu pietre mă va izbi în față,
Îndură-te, stăpîne, și dă-i pe veci viață!

Astfel numai, părinte, eu pot să-ți mulțumesc
Că tu mi-ai dat în lume norocul să trăiesc.
Să cer a tale daruri, genunchi și frunte nu plec,
Spre ură și blestemuri aș vrea să le înduplec,
Să simt că de suflare-ți suflarea mea se curmă
Și-n stingerea eternă dispar fără de urmă!

1879, 1 septembrie


A Oração de um Dácio – Mihai Eminescu

“Não havia hoje, amanhã, ontem, tempo algum,
Pois um era o todo, e todos eram um.”

Quando não havia morte, e nada imortal,
Nem a fecunda semente que gera a luz vital,
Não havia hoje, amanhã, ontem, tempo algum,
Pois um era o todo, e todos eram um;
Quando a terra, o céu, o ar e o mundo inteiro
Eram ausentes do que havia primeiro
Quando era Tu apenas, e eu, cheio de interrogações:
A que deus confiamos nossos corações?

Ele, único deus, antes que os deuses viessem a ser
que do mais fundo das águas a centelha dotou de poder,
Ele, aos deuses dá alma, ao mundo, felicidade,
Ele, a fonte de salvação da humanidade:
Animai vossos corações! Dedica-lhe uma canção,
Da morte, ele é a morte, da vida, a ressurreição!

Ele me deu estes olhos para ver a luz do dia,
E com piedade meu coração encheu de encanto e alegria,
No rumor dos ventos eu o senti passar
E em vozes melodiosas sua música soar,
E além de tudo isso, mais um clamor eu ouso:
Permite-me a entrada no eterníssimo repouso!

Que amaldiçoes quem por mim demonstrar compaixão
E abençoes todo aquele que me trata com opressão,
Que escutes toda boca quando queira me insultar
E ao braço concedas força que quiser me trucidar,
E entre os homens, faz dele o primeiro
O que me rouba a pedra que serve de travesseiro.

Que me acosse o mundo inteiro por anos a fio,
Até sentir que meus olhos estão de lágrimas vazios,
Que todo homem no mundo seja para mim um inimigo,
E eu desconheça sempre o estrangeiro que há comigo,
E com a alma por tormento e dor petrificada,
Que eu maldiga minha mãe, por mim tão adorada –
Quando o ódio mais cruel me pareça só amor…
Então talvez morrendo esqueça eu a minha dor.

Estrangeiro e fora da lei é como morrerei – então
Com meu indigno cadáver lançado em um desvão,
E dá-lhe, pai, uma coroa com valor contido,
Ao que lance um cão para que meu coração seja partido,
E daquele que com pedras me fere a cara doída
Tem piedade, mestre, concede-lhe a eterna vida!

Somente assim, pai, posso eu te agradecer
Pela graça que me deste de no mundo poder viver.
E por tuas dádivas rogar, sem joelhos nem fronte dobrar,
Mas por ódio e maldições gostaria de implorar,
E que em teu sopro possa sentir que se apaga meu astro,
E na extinção eterna desaparecer sem deixar rastro!

1º de setembro de 1879

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