“À margem de um poema de Verlaine” – CIORAN

Um poema de Verlaine equivale à harmonia melódica de uma sinfonia executada sob um céu azul; transporta-nos para além da fuga fragmentária e banal da vida; dá-nos a impressão de viajar rodeados de asas de anjo…

É profundamente irracional; transporta-nos, aguçando nossa sensibilidade, para além da categoria do espaço concreto, palpável e apreensível; sua ondulação, confusa e melodiosa, recusa a lógica. Não podemos compreender Verlaine – ou melhor, senti-lo – quando nossa consciência se encarrega de buscar o óbvio, de fragmentar o curso contínuo do real. A poesia de Verlaine coincide, óbvia e diretamente, com a ideia bergsoniana de fluxo sem fim, sem intermitências nem rupturas. Comprometer-se a analisar a poesia de Verlaine, a compreender os elementos de sua composição, a ilustrar suas analogias? Seria destruir isso que, em última análise, ela contém de mais precioso e mais digno de dar frutos.

Um poema de Verlaine só oferece a amplitude de sua concretização poética do irracional quando se lida com a sua totalidade sem analisá-la.

Tenho a sensação de que Verlaine, ao escrever seus poemas, perdia-se em sonhos alucinatórios; ele escreveu sob o impulso de uma paixão irracional; a poesia não era, para ele, senão a poetização do ritmo secreto, melodioso e apaixonado de sua sensibilidade, em contraposição à realidade ordinária e cotidiana.

Este curto texto, inspirado pelo poema « L’Angoisse », de Verlaine, foi escrito aos 18-19 anos. Trad. do romeno de Vincent Piednor. TACOU, L. ; PIEDNOIR, V. (eds.), Cahier L’Herne Cioran. Paris: L’Herne, 2009. Trad. do francês de Rodrigo Menezes.


A ANGÚSTIA – Paul Verlaine

Nature, rien de toi ne m’émeut, ni les champs
Nourriciers, ni l’écho vermeil des pastorales
Siciliennes, ni les pompes aurorales,
Ni la solennité dolente des couchants.

Je ris de l’Art, je ris de l’Homme aussi, des chants,
Des vers, des temples grecs et des tours en spirales
Qu’étirent dans le ciel vide les cathédrales,
Et je vois du même oeil les bons et les méchants.

Je ne crois pas en Dieu, j’abjure et je renie
Toute pensée, et quant à la vieille ironie,
L’Amour, je voudrais bien qu’on ne m’en parlât plus.

Lasse de vivre, ayant peur de mourir, pareille
Au brick perdu jouet du flux et du reflux,
Mon âme pour d’affreux naufrages appareille.

Dans: “Melancholia” (“Poèmes saturniens”; 1866)

Nada em ti me comove, ó doce natureza,
Nem campos nem os sons rubros das pastorais
Sicilianas, nem as pompas aurorais,
Nem os poentes de tão solene tristeza.

Rio do homem, dos cantos, rio da beleza
Dos templos gregos, das torres em espirais
Que estendem para o céu vazio as catedrais,
Para mim são iguais a bondade e a torpeza.

Não acredito em Deus, abjuro a fantasia,
O pensamento, e quanto à antiquada ironia,
O amor, que eu nunca mais à sua sombria ligue.

Medrosa de morrer, a minha alma semelha
No jogo das marés o mais perdido brigue:
Para o horror do naufrágio agora se aparelha.

Em: “Melancolia” (“Poemas Saturnianos”; 1866)

Referências:

Em Francês

VERLAINE, Paul. L’angoisse. In: __________. Poems under saturn / Poèmes saturniens. A bilingual edition translated and with na introduction by Karl Kirchwey (French / English). Princeton, NJ: Princeton University Press, 2011. p. 30.

Em Português

VERLAINE, Paul. A angústia. Tradução de Jamil Almansur Haddad. In: __________. Passeio sentimental (poemas). Seleção, tradução, prefácio e notas de Jamil Almansur Haddad. São Paulo, SP: Círculo do Livro, 1989. p. 41-42.

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