“Poética do desencanto: ‘Movimentos portáteis’, de Reynaldo Damazio, e outros lançamentos” – Michaela Schmaedel

Revista Cult, 17 de agosto de 2021

Uma poética do desencanto. Esta poderia ser uma definição para o conjunto de poemas apresentado por Reynaldo Damazio em Movimentos Portáteis (editora Kotter), seu oitavo livro, lançado no ano pandêmico de 2020. Nos 76 poemas que compõem a obra, o poeta, editor e gestor cultural paulista de 57 anos lança um olhar bastante triste sobre a cidade, as relações humanas e a política. Damazio faz um pouco o caminho do filósofo romeno Emil Cioran: ao nos tirar toda e qualquer esperança filosófica, nos obriga a prestar atenção ao mínimo movimento — interno e externo.

Damazio escreve poemas que acabam em lugares bastante solitários, onde reinam o silêncio e a constatação de que, por mais que se lute, as coisas custam a sair do lugar. É como se não houvesse, nos passos trôpegos que damos todos os dias dentro e fora de casa, uma luz no fim do túnel. Os poemas nos refletem, ora perdidos, ora absortos no individualismo, sem perspectivas – inclusive em relação à poesia – de que algo possa nos salvar. Como no poema em que escreve: “é possível que o sangue / da mãe fuzilada pela polícia / com o filho em seus braços / sirva para escrever o poema / mas é possível que não / que a memória seque / que a indiferença cegue / que o horror se coagule / e o poema  como um menino / também fuzilado por policiais / levando na mochila chuteiras / e sonhos / não seja nada / não seja nada / nada / não seja”… [+]

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