“Contra Emil Cioran” – Julio CABRERA

Num livro de título irresistível (Acerca do inconveniente de ter nascido), o escritor romeno Emil M. Cioran escreve, entre outras pérolas:

“O único, o verdadeiro azar: nascer.”

“Não ter nascido, de só pensá-lo, que felicidade, que liberdade, quanto espaço!”

“Matar-se não vale a pena: a gente sempre o faz demasiado tarde.”

“Ao nascer perdemos o mesmo que perderemos ao morrer. Tudo.”

“E pensar que tantos conseguiram morrer!”

“Tudo se explica perfeitamente se admitirmos que o nascimento é um acontecimento nefasto, ou pelo menos inoportuno; mas se pensarmos de outra maneira, devemos resignar-nos ao ininteligível…”

“Achava-me sozinho neste cemitério… quando entrou uma mulher grávida. Retirei-me de imediato para não ver de perto essa portadora de cadáver…”

“…não existe algo que seja a morte independentemente da vida. É isso o que torna a morte universal…”

“Quando alguém se queixa da sua vida não ter tido sucesso, basta lembrar-lhe que a vida mesma está numa situação semelhante, se não pior.”

“Só ao insensato a vida lhe parece um bem, dizia há vinte e três séculos o filósofo cirenaico Hegésias, de quem quase ficou apenas essa frase… A sua é uma obra que eu gostaria de reinventar.”

Alguém que lesse os livros de Julio Cabrera sobre ética poderia comentar: “É puro Cioran!” Pois encontrará em meus aforismos o mesmo pathos do desencanto e inocuidade do real, de decepção e desistência. Apenas com uma diferença: Cioran se entedia, é um enfastiado, um aborrecido e um insone, enquanto eu não me entedio, estou interessado em tudo e durmo bem. Mas esses são detalhes, ambos partilhamos de quase todos os sentimentos primordiais. Não obstante isso, posso dizer que meu trabalho nada tem a ver com a escrita poética de Emil Cioran. A imensa diferença reside na atitude de ambos perante a filosofia. Cioran não se considera filósofo; inclusive, creio que faz questão de não sê-lo. No pequeno prefácio ao livro que Fernando Savater lhe dedicara, Ensayo sobre Cioran (1974), ele prefere falar de “minha maneira de ver as coisas”, e depois diz claramente: “É muito evidente que não sou filósofo”, mas a seguir fica claro que ele identifica filósofo com pensador sistemático, e define a sua obra como “uma luta contra toda forma de sistema”.

Como a filosofia há muito tempo deixou de ser sistemática, nada impediria considerar Cioran como um filósofo no sentido que interessa a ele. Mas Cioran se recusa a ser filósofo porque prefere expressar sua “maneira de ver as coisas” na forma de um alarido poético e não mediante argumentos. De fato, seus textos são curtos, contundentes e biográficos, impactos sensíveis, gritos de protesto, atitudes de revolta e desorientação, sem qualquer intuito organizador ou reflexivo. Como se sentisse que perderia algo de importante colocando seus pensamentos em forma argumentada.

A minha atitude filosófica é bem diferente (e é aqui que se manifestam as nossas distâncias reais, insônia à parte): mesmo também descrente de sistemas (talvez levado de maneira inerte e preguiçosa pelo “espírito dos tempos”?), ainda me importam os argumentos e fios reflexivos. Acredito que o ponto de vista de Cioran e o meu sobre a inocuidade do real e o caráter lastimável do nascimento é sustentável, e que se pode provar como sustentável. É o que tento fazer neste livro. Parece uma pena perder a oportunidade de argumentar sobre essas coisas, em lugar de ficar apenas vociferando-as sob o risco do estudioso de filosofia não levá-las a sério em virtude da sua mera forma.

Meus aforismos não são fragmentários, mas aforismos-rio; seguem um fluxo quase infinito de reflexão contínua e teimosa, e pretendem obter conclusões e desfechos, mesmo que frágeis e provisórios. Enquanto Cioran exprime uma emoção, eu tento mostrar que essa é realmente a emoção que deveríamos sentir. Recuso-me a aceitar que pontos filosóficos cruciais (como a mistificação da procriação ou o caráter “excepcional” da desonestidade) recebem apenas uma expressão poética e renunciem a seu valor filosófico de verdade, mesmo fora de qualquer “sistema”.

Eu gostaria de complementar o movimento de Cioran percorrendo também o caminho desde o narrativo ao argumentativo. O que é que – segundo Cioran – perderíamos ao argumentar? Talvez aquilo que Nietzsche significa quando dizia que de pouco vale o que precisa ser argumentado? Eu faço um esforço de estilo para conservar, ao mesmo tempo, a contundência literária e o rigor do argumento. E devolveria o ataque perguntando: o que é isso que perderíamos ao não argumentar? (Talvez Cioran ficasse impaciente nesse ponto; mas sejamos compreensivos com um homem que não dorme).


Julio CABRERA, Mal-estar e moralidade: situação humana, ética e procriação responsável. Brasília: Editora UnB, 2017.

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