“Rumo a lugar algum: niilismo, pessimismo e antinatalismo em Cioran”. Entrevista com Fernando OLSZEWSKI

Não penso que a abulia política de Cioran seja uma apologia velada ao capitalismo ou ao privilégio de sociedades tradicionais e conservadoras, mas sim derivada (na maior parte) de sua visão negativa da realidade: ele considera a existência um absurdo e uma chaga terrível. Para lidarmos com essa chaga, o melhor que fazemos é nos abstermos de praticamente tudo, visto que toda a ação (e principalmente a procriação) contribui com o devir.

Fernando F. Olszewski

FERNANDO F. OLSZEWSKI é mestrando em filosofia na Universidade Estadual do Rio de Janeiro, bacharel em economia pela Universidade da Dakota do Norte e bacharel em filosofia pela Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro. Sua pesquisa de mestrado é sobre a influência das metafísicas dualistas gnósticas no desenvolvimento das éticas pessimistas de Schopenhauer e Cioran. Suas áreas de concentração na filosofia são: ética, filosofia da religião, filosofia da ciência e da tecnologia, filosofia política, niilismo e pessimismo. Entre os filósofos que mais incidem sobre o seu pensamento, incluem-se Sêneca, Hobbes, Hume, Kant, Schopenhauer, Peter Wessel Zapffe, Julio Cabrera e David Benatar. É autor do blog Exilado Metafísico, e do canal YouTube de mesmo nome, no qual o nosso entrevistado da vez publica textos e vídeos sobre os referidos temas e autores, inclusive Cioran.[1] Além disso, é membro do projeto Academos, uma plataforma de difusão de conteúdos filosóficos, humanísticos e literários (artigos, podcast).


RODRIGO MENEZES: Quando e como você descobriu a obra de Cioran? Qual (livro) foi sua primeira leitura e como ela te impactou?

FERNANDO OLSZEWSKI: Descobri Cioran depois de começar a ler Schopenhauer, e comecei a ler Schopenhauer depois de ler um pouco de Nietzsche. Antes dessas leituras, tinha pouco interesse em filosofia, independente do tema. O que me levou a ler Nietzsche — e me fez chegar até Cioran — foi minha mãe me dar alguns livros para ler, depois de algumas decepções pessoais e profissionais que tive, por volta dos meus 30 anos de idade. Especificamente, os livros que minha mãe me deu foram A Gaia Ciência e Humano, Demasiado Humano. Depois desses, peguei O Nascimento da Tragédia para ler por conta própria. Gostei do pensamento Nietzsche, mas o achei “esperançoso” demais. Por alguma razão, não conseguia ou não queria aceitar sua mensagem de um pessimismo dionisíaco, que diz sim ao mundo mesmo reconhecendo todas as suas dores. Através de Nietzsche, cheguei em Schopenhauer. Gostei tanto que acabei indo estudar filosofia na universidade, coisa que anos antes jamais pensaria em fazer. Foi entre perceber que adorava a negatividade de Schopenhauer e voltar a ser universitário que descobri Cioran. O primeiro livro que li dele foi Nos Cumes do Desespero. A impressão que tive ao ler Cioran pela primeira vez foi a seguinte: tudo o que eu desejava ter encontrado em Nietzsche, mas não consegui, eu agora estava encontrando na escrita de Cioran. Isso se solidificou ainda mais nas leituras que vieram depois, principalmente depois de O Breviário de Decomposição e Do Inconveniente de Ter Nascido.

R.M.: Muitas são as tentativas – sempre aproximativas, mais ou menos parciais e insatisfatórias – de descrever, definir, classificar um pensamento tão fragmentário e polifônico, aporético, atópico, como o de Cioran. Qual é a sua interpretação geral da obra e do pensamento de Cioran? Filosofia? Literatura? Um “híbrido” (como se fosse um plasma discursivo de distintos gêneros aparentemente heteróclitos)? E no que concerne à significação filosófica de sua obra, se alguma, como vê o concurso entre ceticismo, pessimismo, niilismo, cinismo, ateísmo e misticismo nessa “soma de atitudes” sem nenhuma “vontade de ordem”, nenhuma “preocupação de unidade”[2] que é a obra de Cioran?

F.O.: Em 2018 comprei e li o recém publicado Mal-estar e Moralidade do filósofo Julio Cabrera. Em determinado momento, já no final da obra, Cabrera tenta diferenciar seu pensamento do pensamento de Cioran, escrevendo que o estilo de Cioran é lírico, poético e que o próprio Cioran em alguns momentos afirma não se considerar filósofo. Mesmo que Cioran tenha dito que não era filósofo, a sua obra está sujeita à interpretação dos leitores. Para mim, Cioran é filósofo. Sua escrita é ensaística e aforística, mas há diversos outros exemplos de pensadores que não expõem seus pensamentos de maneira sistematizada. Podemos contrastar a escrita de um Aristóteles, de um Kant, Hegel e até mesmo Schopenhauer, como a de Platão (que escreveu diálogos), Sêneca, Montaigne e Nietzsche. Mas a forma de expor o pensamento é apenas parte da questão. E quanto ao pensamento em si? Há consistência no pensamento de Cioran? Eu acredito que sim. Podemos ver Cioran como cético e pessimista, ateu niilista e místico, coisas que à primeira vista não se encaixam, mas ele próprio nos dá a chave para entendê-lo ao longo dos seus vários livros. O ceticismo em Cioran não é absoluto, ele cessa no momento que a dor aparece. Em Cioran, não há nada mais real do que a dor. Ela é o dado da realidade que nos faz sair do “automático”, quase como se disséssemos: sinto dor, logo existo. Já o ateísmo niilista e o misticismo não se excluem, mas se complementam na obra de Cioran. Ao tratar de místicos e de seitas como os cátaros, os bogomilos e os seguidores de Marcião, Cioran os adapta. O êxtase do místico não é apenas a unidade com Deus no senso comum, mas com o Nada. O mesmo ocorreria na iluminação do sábio budista. Essa aniquilação temporária da prática ascética serve para nos lembrar que nossas consciências, que nos trazem tanta dor, vieram do nada e voltarão para o nada. Neste sentido, embora Cioran não diga com todas as letras, interpreto-o como um pensador que aceita a visão científica de mundo — e daquilo que a ciência diz sobre o homem e a natureza, ele tira as conclusões mais sombrias. Mas Cioran não faz isso gratuitamente, pelo contrário, parafraseando-o: nós humanos somos primatas que perdemos os pelos e os substituímos por ilusões de grandeza, de destino histórico e de importância. Ele expõe em seus aforismos e ensaios razões de sobra para tirarmos as conclusões mais sombrias.

R.M.: A julgar pelos temas de reflexão e pelo estilo, quais autores – presentes e passados – poderiam ser equiparados a Cioran?

F.O.: Penso que Cioran é, no século XX, o sucessor do espírito pessimista de Schopenhauer. Portanto, quanto a temas de reflexão, acredito que o autor que mais pode ser equiparado a Cioran é Schopenhauer. Outros autores que creio que se aproximam — uns mais, outros menos — do pensamento de Cioran são Philip Mainländer, Thomas Ligotti (por conta de seu livro The Conspiracy Against the Human Race) e, ironicamente, Julio Cabrera. Já em questão de estilo, Nietzsche e Montaigne. Além desses, por alguma razão, ele também me lembra algumas máximas de La Rochefoucauld.

R.M.: Menção seja feita ao blog e ao canal YouTube que você mantém, “O Exilado Metafísico”, que só vim a conhecer recentemente – para minha surpresa e contentamento. Você afirma escrever “do ponto de vista de filosofias negativas ou pessimistas”, a partir de uma atitude filosófica que, como você mesmo diz, “tem implicações éticas e, também, políticas”. Você considera justa a tendência a equacionar pessimismo filosófico e conservadorismo, ou mesmo reacionarismo, em matéria de orientação política? Queria direcionar a pergunta especificamente a Cioran: no seu entendimento, a “lição” ou conclusão a ser tirada da leitura do autor romeno é necessariamente uma de apatia, indiferença, conformismo em relação à ordem estabelecida? A despeito do seu “passado infame” (Marta Petreu), em referência aos descaminhos políticos de Cioran e seu engajamento utópico de juventude com a extrema-direita romena (ulteriormente abjurado, renegado), a conclusão ética a extrair-se da leitura da obra cioraniana, se alguma, é uma posição reacionária? Por reacionário, penso em autores como Joseph de Maistre ou, no contexto alemão, Jacobi. O reacionarismo que conhecemos, historicamente, parece acompanhar-se, via de regra (como uma condição quase necessária de possibilidade), do dogmatismo religioso (notadamente cristão). O Cético consequente pode ser, ou afirmar-se, ao mesmo tempo reacionário?

F.O.: Sendo um filho da classe média brasileira, apesar das minhas particularidades, eu gravitei durante muitos anos em volta do pensamento político que normalmente caracterizamos como sendo de direita. Em certas épocas, me identifiquei com o conservadorismo bastardo que temos hoje no Brasil (digo bastardo porque o conservadorismo brasileiro hoje não passa de um filho ilegítimo da direita norte-americana contemporânea, que é insuflada por veículos como a Fox News, e que deu ao mundo a presidência Trump e o Qanon). Porém, na maior parte do tempo em que estive à direita, identifiquei-me como liberal e não como conservador. Depois de minhas decepções pessoais e profissionais, por volta dos meus 30, comecei a questionar muitas coisas, o que me levou às filosofias de Schopenhauer e, depois, Cioran — mas não apenas a elas. Também abri espaço para críticas ao capitalismo, fossem elas clássicas (Marx) ou contemporâneas (Piketty, Dawbor). Ao mesmo tempo que era informado por tais críticas, meu foco foi se tornando cada vez mais o estudo de autores pessimistas, principalmente Schopenhauer e Cioran. E, embora haja uma falta de engajamento político na obra dos dois autores (visto que, para eles, a existência não é algo pelo qual devemos lutar mas escapar — afinal, na concepção de ambos, melhor seria se nunca tivéssemos nascido), também há neles a ideia de identificarmos nossa própria dor nos outros seres dotados de um mínimo de consciência. Isso fica muito mais explícito em Schopenhauer, mas não é algo que esteja ausente em Cioran. Essa ideia me impactou, especialmente quando fiz a ponte entre ela e as críticas ao capitalismo.

Entendo que é possível ler Cioran como justificativa da apatia apenas devido ao seu pessimismo cósmico e seu niilismo existencial. Para ele, a história humana não tem propósito. Ela é um desfile de horrores perpetrados por fanáticos e tiranos, pontuado por alguns momentos de impotência generalizada. Porém, quando Cioran escreve para Constantin Noica, ele não demonstra uma preferência pela sociedade liberal francesa por acreditar na superioridade do capitalismo e da democracia liberal ocidental, mas porque nesse tipo de sociedade ele tem a liberdade de escrever e falar o que bem entender — de resto, ele reconhece suas falhas. Ele até ironiza essa liberdade ao escrever que, na sociedade francesa, uma democracia liberal, temos a liberdade de morrer de fome à nossa própria maneira. Ao lermos o que Cioran escreveu sobre Joseph de Maistre, fica patente a ironia. Sua admiração é mais pelo completo atrevimento de Maistre do que pelos seus posicionamentos. É verdade que Cioran foi um entusiasta da Guarda de Ferro, movimento fascista e antissemita romeno, especialmente no período anterior à sua mudança para Paris. É possível ver sua própria falta de entusiasmo com ideais políticos alternativos como sendo reflexo dessa desilusão.

Contudo, não penso que a abulia política de Cioran seja uma apologia velada ao capitalismo ou ao privilégio de sociedades tradicionais e conservadoras, mas sim derivada (na maior parte) de sua visão negativa da realidade: ele considera a existência um absurdo e uma chaga terrível. Para lidarmos com essa chaga, o melhor que fazemos é nos abstermos de praticamente tudo, visto que toda a ação (e principalmente a procriação) contribui com o devir. Isso não o impede de, aqui e ali, demonstrar o que pensa sobre a sociedade em que vive. No Breviário de Decomposição, há um fragmento intitulado “A Miséria: Excitante do Espírito”. Nele, Cioran discorre de maneira breve, porém contundente, sobre a sociedade na qual vivia, uma sociedade que permitia (e, se pensarmos no contexto do capitalismo, ainda permite) milhões de pessoas viverem com medo do dia seguinte, da possibilidade de se encontrarem na pobreza abjeta. Sobre essa sociedade, em determinado momento ele escreve que é “[…] inexplicável que ninguém tenha sido capaz de demolir seu edifício […]”. Ao ver que a sua sociedade contém tantos miseráveis obrigados a implorar esmola de “[…] macacos engravatados, sortudos, enfatuados!”, Cioran não entende como “[…] que não tenha havido até agora pessoas de bem, desesperadas e decentes, para arrasá-la e apagar seus vestígios.” Para ele, portanto, é inacreditável que pessoas decentes ainda não tivessem posto o edifício de nossa sociedade abaixo. Claro que isso não chega nem perto das críticas ao capitalismo feitas por entusiastas do devir, que consideram a existência como algo que vale a pena, mas também seria esperar demais de alguém que afirma que nascer é a raiz de todos os males.

R.M.: Você considera correto apontar uma dualidade irredutível no logos cioraniano, de onde a ambivalência de dois registros discursivos concomitantes que não poderiam reduzir-se um ao outro, leia-se, uma racionalidade cética (“zetética”, infinitamente questionadora, incapaz de apreender a verdade) e uma racionalidade pessimista (dir-se-ia “dogmática”, mas não um dogmatismo ipsis litteris, sistemático, com pretensão de objetividade epistêmica, senão experimental, intuitivo e veleidoso, ao modo das “verdades de temperamento” do Breviário)? Quando Cioran pensa e escreve sobre o mundo, como uma “Criação fracassada”, sobre a existência como uma permanente “Queda no tempo”, sobre o ser humano como um animal “enfermo” e “incurável”, é possível atribuir essas reflexões (aparentemente escoradas em certo “conhecimento de causa”) a uma racionalidade cética, como as conclusões de um exercício cético de suspensão do juízo?

F.O.: Não penso que o ceticismo cioraniano seja irreconciliável com o seu pessimismo. Temos que perguntar: Cioran é cético com relação a quê? Ele parece utilizar a dúvida extrema quando trata de temas metafísicos, em especial para iluminar asserções metafísicas dogmáticas, sejam elas da filosofia ou da religião. Em O Malévolo Demiurgo, Cioran escreve: “Apesar de ser atraído pelo budismo, catarismo ou qualquer sistema ou dogma, preservo um núcleo de ceticismo que nada pode penetrar e para o qual retorno após cada um dos meus entusiasmos.” (tradução nossa) Seu ceticismo sempre (ou quase sempre) é direcionado a sistemas ou dogmas metafísicos — mas ele não é cético dos seus sentidos, em especial da capacidade de sentir dor. Para ele, a dor é o dado mais concreto que podemos ter da realidade. Em Do Inconveniente de Ter Nascido, ele escreve: “Tudo gira em torno da dor; o resto é acessório, ou até mesmo inexistente, visto que só nos lembramos do que nos faz sofrer.” Já no Breviário, ele diz: “Sob o aguilhão da dor, a carne desperta; matéria lúcida e lírica, canta sua dissolução.” E no livro A Queda no Tempo, ele escreve: “E a dor, que afeta todos os viventes, é a única indicação que nos permite supor que a consciência não é privilégio do homem.” (tradução nossa). Seu pessimismo é baseado na concretude da dor e do sofrimento, não apenas seu, mas de todas as criaturas minimamente conscientes. Não à toa ele considera a consciência como sendo o grande mal dos seres “nascidos”. Em Do Inconveniente ele escreve: “É preferível ser animal do que homem, inseto do que animal, planta do que inseto, e assim sucessivamente. A salvação? Tudo o que diminui o reino da consciência e lhe vem comprometer a supremacia.”

R.M.: Pelo que pude ver no seu blog, e no canal de YouTube a ele vinculado, um dos temas centrais das suas investigações e publicações é o antinatalismo. Cioran é amiúde comparado e até mesmo hierarquicamente subordinado a Nietzsche, como se fosse um epígono, um discípulo de Nietzsche que devesse prestar contas ao mestre, sendo-lhe fiel. Por mais que eu reconheça a importância ímpar de Nietzsche na formação intelectual de Cioran (e especialmente do jovem Cioran, ainda na Romênia), inclusive nos termos da teoria poética da “angústia da influência” de Harold Bloom, considero que Cioran é (como Nietzsche) um caso único e excepcional, um pensador da singularidade radical (no limite infinita), da atopia e da inapreensibilidade, que em hipótese alguma se deve ler, avaliar e julgar pelo filtro de Nietzsche ou de qualquer outro importante filósofo. Cioran não é mais nietzschiano do que schopenhaueriano ou chestoviano ou gnóstico, e, no limite, poderíamos dizer: Cioran não é nem mesmo cioraniano![3] Como você enxerga a posição de Cioran entre Nietzsche e o antinatalismo, enquanto ética negativa? Em A Ética e suas negações, Cabrera coloca Nietzsche, com sua vontade de potência, como o inimigo número 1 do antinatalismo, reconhecendo em Schopenhauer, em contrapartida, uma voz solidária à proposta de uma ética negativa.[4] Por mais que fosse um pensador solitário, da solidão, você acha que os “exercícios negativos” de Cioran, e particularmente esse princípio enunciado no Breviário de decomposição da “negativa de procriar”, coincidem com o antinatalismo contemporâneo, a meio-caminho entre ética e crítica filosóficas e ideologia política?

F.O.: Sou um pouco suspeito para falar, já que tanto a minha pesquisa da graduação quanto a que desenvolvo para o mestrado tratam Schopenhauer e Cioran como os dois grandes expoentes do pensamento negativo contemporâneo, mas não concordo que Nietzsche seja a principal ou a maior influência no pensamento de Cioran. Quando falamos de estilo, sim. Mas a filosofia de Cioran chega a ser uma antítese das teses afirmativas de Nietzsche. Cioran chega a ridicularizar o pensamento de Nietzsche em um trecho Do Inconveniente de Ter Nascido. Claro que se pode interpretar isso como Cioran tentando fugir da sombra de Nietzsche, mas dado todo o resto da sua obra (inclusive esse livro), eu acredito nas intenções de Cioran quando ele escreve o seguinte sobre Nietzsche: “Apenas demoliu ídolos para os substituir por outros. Um falso iconoclasta […]” Vejo Cioran muito mais como um pensador que resgata a proposta schopenhauriana de negação da Vontade de vida do que alguém que afirma a vontade de potência. Não apenas nos seus escritos publicados, mas também nas suas cartas, publicadas postumamente, Cioran demonstra negar a vida e condenar a reprodução como um crime moral — ele inclusive usa as palavras “crime moral” para se referir à reprodução, o que vai contra uma série de pontos centrais da filosofia nietzscheana. Para Nietzsche, não podemos julgar a vida ou a existência pois estamos inseridos dentro dela, não há nada fora deste “todo” ao qual pertencemos. Ainda que possamos dizer que Cioran tenha mudado entre sua fase romena e francesa, ele nunca se furtou de fazer exatamente isso: julgar a existência. Mas é verdade que, depois de se estabelecer na França e escrever o Breviário, a obra de Cioran tornou-se muito mais clara na condenação da vida e da consciência. É aí que ele passa a rejeitar o nascimento explicitamente. Minha pesquisa privilegia sua obra a partir do Breviário.

Sobre a negativa da procriação, que ele trata em determinada parte do Breviário e também em diversas outras obras (mais notadamente em Do Inconveniente de Ter Nascido, mas não só, O Malévolo Demiurgo e A Queda no Tempo estão repletos de reflexões negativas a respeito da reprodução e do nascimento), penso que Cioran pode ser considerado um antinatalista. Caso seja anacrônico utilizar o termo “antinatalista”, visto que ele foi popularizado apenas no século XXI, no mínimo acredito que podemos considerar Cioran como um precursor de filosofias antinatalistas, mesmo que ele não seja reconhecido como tal por Cabrera e sequer seja mencionado por David Benatar. A recusa e a condenação da procriação não são coisas passageiras nos escritos de Cioran, especialmente a partir do momento que ele escreve Breviário de Decomposição. Em praticamente todos os seus livros subsequentes Cioran escreve sobre o assunto, ainda que em alguns deles o assunto seja tratado de forma breve. Uma das hipóteses de trabalho da minha pesquisa na graduação foi argumentar que Cioran tem uma ética minimalista baseada na abstenção da ação, mostrando que seus escritos indicam uma clara preferência pela inação. Ele justifica sua preferência pela inação afirmando que qualquer ação contribui com o devir, com a existência. E o pior tipo de ação que existe é o ato de criar algo — até mesmo o ato de escrever livros, algo que ele admite em tom irônico. Contudo, nada supera a reprodução, que é a geração de um novo ser que não apenas terá consciência, como todos os animais têm, mas “lucidez”, que nada mais é do que a “consciência da consciência”, como ele escreve em A Queda no Tempo sobre a condição do homem.

R.M.: Que haja pessimismo em Cioran, que o autor romeno possa ser corretamente descrito como um filósofo pessimista, na linha de Schopenhauer e Mainländer (entre outros filósofos alemães da escola de Schopenhauer), mas sem sistema, ou ainda na tradição dualista dos antigos gnósticos, creio que seja um ponto pacífico entre nós. Penso que Cioran não é nenhuma exceção à seguinte hipótese: todo pessimismo filosófico se faz acompanhar de uma teoria eudaimonológica ou soteriológica (não necessariamente no sentido da salvação cristã), de uma teoria da vida feliz, quando não da “libertação”, ou “redenção”, a exemplo de Philipp Mainländer: Die Philosophie der Erlösung (“A Filosofia da Redenção”). Na sua compreensão, todo o conjunto da obra de Cioran pode reduzir-se a uma pura negatividade crítica, desconstrução, destruição (pars destruens), ou haveria também, aqui e ali, indicações de uma contrapartida positiva (pars construens), apontamentos acerca da felicidade ou alegria possível (uma eudaimonologia em germe)? Você vê alguma perspectiva no horizonte do pensamento cioraniano de uma libertação ou redenção em vida, concebida talvez negativamente, nos termos de uma ascética negativa de inspiração budista – pautada na ideia do vazio?

F.O.: Talvez a frase mais famosa de Cioran seja aquela Do Inconveniente de Ter Nascido: “Não vale a pena matarmo-nos, visto que nos matamos sempre demasiado tarde.” Um pouco antes, nesse mesmo livro, ele diz que não corremos em direção à morte, mas fugimos da catástrofe do nascimento. Novamente, vejo paralelos entre o pensamento de Cioran e Schopenhauer. Ambos negam a vida sem desejarem a morte. Ambos também admiram o budismo e filosofias como o estoicismo imperial, escolas de pensamento que buscaram a imperturbabilidade através de determinadas práticas, como a meditação e a ascese. Apesar de Cioran não condenar o suicídio moralmente como fazem as grandes religiões monoteístas — ele até elogia a prática —, ele enxerga o ato como sendo fútil no final das contas, preferindo uma ética de inação abúlica, parcialmente inspirada na vida dos sábios da antiguidade clássica e do budismo. Similarmente, Schopenhauer também não condenava os suicidas. Sua oposição ao ato se dava porque o suicida destruía apenas uma representação individuada da Vontade. O correto, para Schopenhauer, é justamente negar a Vontade dentro de nós mesmos, e vivermos vidas inspiradas no ascetismo dos sábios hindus e budistas. Apesar das semelhanças, há aqui uma diferença crucial entre Schopenhauer e Cioran. Para Schopenhauer, existe uma vitória particular daquele que consegue negar a Vontade em si próprio. Em Cioran não há vitória alguma, porque ele, apesar de utilizar o vocabulário da metafísica, não acredita na existência da Vontade ou qualquer outro Absoluto ou realidade metafísica por trás dos fenômenos, por trás do devir. Creio que há um estancamento do sofrimento na filosofia de Cioran — e esse estancamento, embora não seja uma vitória como é para Schopenhauer, pode servir de alento.

R.M.: Que perspectiva você tem acerca de Cioran na Academia, como um objeto de estudo entre outros nos departamentos de filosofia das universidades brasileiras? Na sua compreensão, há uma resistência ou mesmo uma recusa, da parte da universidade, em reconhecer a importância de um autor como Cioran? A causa dessa indisposição teria mais a ver com o conteúdo, com a forma, ou as duas coisas, que seriam inseparáveis em Cioran?

F.O.: Eu tive a sorte de encontrar na UNIRIO um professor que fez sua dissertação de mestrado sobre Cioran. Refiro-me a Rossano Pecoraro. Ele até publicou sua dissertação em livro. O título é Cioran: a filosofia em chamas. Eu realmente não tinha a menor ideia de que encontraria naquele ambiente alguém interessado em Cioran, foi sorte mesmo. Apesar disso, não acho que teria sido impossível pesquisar Cioran, visto que ao menos um outro professor da graduação também o conhecia, embora não fosse sua especialidade. Caso não fosse possível, certamente daria para realizar minha pesquisa em Schopenhauer, porque tenho amigos na universidade que trabalharam com este autor sem nenhum problema. Sobre esse ponto, é provável que tive a sorte de estudar na UNIRIO, pois talvez em outra universidade não encontrasse um clima favorável para estudar nenhum desses dois autores, que são os que mais gosto. Há professores que trabalham com Schopenhauer na rural (UFRRJ) e já li artigos e dissertações sobre Mainländer e Cioran de universidades fora do estado do RJ, em SP, MG e outros lugares. Acredito que determinadas instituições acadêmicas devam ser mais favoráveis do que outras ao estudo de Cioran. Vai depender muito de haver ali um docente que seja familiarizado e esteja aberto a trabalhar com esse autor. Recentemente, quando enviei meu pré-projeto de mestrado para o processo seletivo da UERJ, pesquisei para saber se havia alguém que trabalhava ao menos com Schopenhauer. Para minha sorte, vi que havia uma professora que publicou diversos textos sobre Schopenhauer. Vi também que ela orientou um aluno de doutorado que trabalhou com Nietzsche, Schopenhauer e Cioran. Além disso, o artigo que enviei para a revista de graduação da UFRJ (a revista chama-se “Aproximação” e o título do artigo é “Interpretações do conceito de história e da ideia de progresso a partir da obra de Emil Cioran”) foi aceito para publicação, o que me dá a impressão de que a academia esteja se abrindo ao pensamento de Cioran como filósofo.

São Paulo – Rio de Janeiro, novembro/dezembro 2021


NOTAS:

[1] O título desta entrevista é o mesmo de um dos seus textos: “Rumo a lugar algum: niilismo, pessimismo e antinatalismo”. Disponível em: https://www.exiladometafisico.com/2020/10/rumo-lugar-algum-niilismo-pessimismo-e.html

[2] CIORAN, “O comércio dos místicos”, A Tentação de existir. Trad. de Miguel Serras Pereira e Ana Luisa Faria. Lisboa: Relógio D’Água, 1988, p. 119.

[3] “Não somos nós mesmos senão quando, postos diante de si, não coincidimos com nada, nem mesmo com nossa singularidade.” CIORAN, “L’Arbre de vie”, La Chute dans le temps, in Œuvres. Paris: Gallimard, 1995, p. 1071.

[4] “Eu diria a cristãos e moralistas criticados por Nietzsche: se Nietzsche os assusta, então levem as suas ideias morais até as últimas consequências, o que os conduzirá a abraçar uma Ética negativa, ou seja, uma Ética na qual a verdade terá absoluta primazia sobre a vida. Se Nietzsche os assusta, não deveria assustá-los o não ser, pois o não ser é o único meio que eles têm para enfrentar Nietzsche. […] Schopenhauer não pode ser suspeito, como os outros filósofos mencionados, de insensibilidade diante dos méritos morais do nada. Devemos-lhe páginas memoráveis acerca do nada e da aniquilação da vontade de viver.” CABRERA, Julio, A Ética e suas negações. Rio de Janeiro: Rocco, 2011, p. 14, 50.

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