“O nada absoluto no Zen em Eckhart e em Nietzsche” – Shizuteru UEDA

Natureza Humana, 10(1): 165-202, jan.-jun. 2008

O texto que será tomado aqui como ponto de partida é do século 12 e foi traduzido para o alemão por Der Ochs und sein Hirte. Eine altchinesische Zen-Geschichte (“O Boi e seu Pastor. Uma antiga história zen”).4 Este texto é ainda bastante usado no círculo zen japonês. Ele apresenta explicitamente o processo da auto-realização do homem, em dez estações. O texto trás para cada estação um prefácio curto, uma aquarela em moldura circular e um conciso esclarecimento de cada estação, em forma de poema. Cada desenho mostra por sua vez, de maneira clara, um determinado modo e dimensão da existência a caminho do verdadeiro si-mesmo. Diz-se: o boi e seu pastor, no qual o boi é símbolo temporário do si-mesmo que está sendo procurado, enquanto o pastor representa o homem que se esforça por atingir o verdadeiro si-mesmo. Deve-se inicialmente chamar a atenção para o fato de que, apesar do título “O Boi e o seu Pastor”, a figura do boi não aparece em todos os dez desenhos, mas somente em quatro. Essa relação é decisivamente importante para a compreensão zen-budista do si-mesmo e a esse ponto voltarei posteriormente.

O título da 1a estação é “À Procura do Boi”; a 2a se chama “O Encontrar das Pegadas do Boi”; a 3a “O Encontrar do Boi”; a 4a “A Captura do Boi”; a 5a “O Domar do boi”; a 6a “O Retorno para casa montado no dorso do Boi”. Deste modo a relação do pastor e do boi se torna sempre mais próxima e mais íntima até a 7a estação, onde o tornar-se-um é alcançado de tal forma que o homem não mais vê o boi como objeto de unificação. O si-mesmo, que deste modo e até então fora simbolizado pelo boi, se realiza nesse momento, e através dessa realização ele é suprimido como símbolo do si-mesmo. O título da 7a estação é “O Boi é esquecido e o Pastor continua”. No desenho relativo a esse capítulo o boi desapareceu e só o homem permanece existindo, de modo “calmo e sereno”, como seu próprio senhor entre o céu e a terra, como é dito no prefácio respectivo. O trecho da 1a até a 7a estação mostra, em um progressivo desenvolvimento, os momentos consecutivos dos ensinamentos budistas, do exercício da meditação, da disciplina rigorosa e intensa, da unificação na bem-aventurança, etc. Mas, ao atingir a 7a estação, o verdadeiro si-mesmo, como é compreendido no Zen-budismo, ainda não está realizado. A caminho do si mesmo, nós estamos sempre a caminho de, em um salto decisivo para irromper e atingir a estação 8a. Agora a característica do verdadeiro si-mesmo, na concepção zen-budista, aparece claramente com a 8a estação.

Estação 1
Estação 3
Estação 5
Estação 7
Estação 9
Estação 2
Estação 4
Estação 6
Estação 8
Estação 10

Com o título “O completo esquecimento do Pastor e do Boi” ou “O duplo esquecimento”, a 8a estação é representada por um desenho estranho, ou seja, um “círculo vazio” no qual nada é desenhado, nem pastor nem boi, nada. Esse vazio, onde nada está desenhado, deve ser, nesse contexto, acentuado. Nada desenhado significa o nada absoluto que aqui, depois da 7a estação, significa, em um primeiro momento, a negação absoluta.

No Budismo, porém, o nada absoluto não quer dizer que nada exista. Ele deve, ao contrário, libertar o Homem do pensamento substancializante e da comoção substancializante de si mesmo. Para o Budismo a auto-substancialização do homem serve de base para o pensamento substancializante, e essa auto-substancialização tem uma raiz oculta no eu tal como o aprisionamento do eu. O eu é compreendido no ensinamento budista como o eu-consciência e o modo mais elementar do eu-consciência diz: “Eu sou eu”, e no seguinte modo: “Eu sou eu, pois eu sou eu”. Este “eu sou eu” que, por sua vez, tem seu fundamento em “eu sou eu”, de tal forma fechado e trancado em si mesmo, este eu-sou-eu com sua chamada tripla auto-intoxicação, qual sejam, ódio contra outros, cegueira elementar contra si mesmo e cobiça, é tido como o equívoco fundamental do homem e como o motivo que impede sua cura. Ao contrário, o verdadeiro si-mesmo, que na compreensão budista é um si-mesmo abnegado, diria sobre si mesmo: “Eu sou eu e ao mesmo tempo eu não sou eu” (de acordo com a formulação do Prof. Nishitani), ou: “Eu sou eu porque eu não sou eu” (Daisetzu Suzuki). Tudo vem para a completa dissolução do eu-sou-eu fechado e trancado, para a separação definitiva do eu-aprisionado. O eu-homem deve morrer definitivamente em função do querer do verdadeiro si-mesmo, que é abnegado.

O caminho da 1a até a 7a estação é ao mesmo tempo o processo de desprendimento do eu-sou-eu. Porém, quando o homem permanece parado na 7a estação, onde ele como si-mesmo se encontra, ou seja, onde ele ainda está como si-mesmo, em sua auto-suficiência e sua auto-segurança, ele recai com sua consciência de si-mesmo – “eu sou agora o que eu deveria ser” -, no seu escondido eu-sou-eu. Uma forma sublime do egoísmo religioso, por assim dizer. Até mesmo o abandono de sua própria religião seria aqui o último objetivo religioso. Por isso, a 8a estação conduz, de uma vez por todas, com um decisivo e determinado salto ao nada absoluto, aonde não há mais nem pastor que procura nem boi que é procurado, nem homem nem Buda, nem dualidade nem unidade. (Neste contexto faz-se referência aos seguintes pensamentos de Mestre Eckhart: esquecer Deus; deixar Deus; da união com Deus para o nada da Deidade, que é ao mesmo tempo o fundamento da alma.)

Para atingir o irromper da passagem para o verdadeiro si-mesmo, que corresponde à incondicional abnegação, o homem deve deixar completamente todas as experiências e conhecimentos religiosos que ele atingira até então. Ele deve tornar-se o seu si-mesmo e Buda na sua forma mais simples e, de uma vez por todas, entrar no nada puro, ou seja, no “morrer maior”, como se diz no Zen-budismo. No texto comentário do círculo vazio pode-se ler: “Todas as cobiças do mundo são abandonadas. Ao mesmo tempo, o sentido de santidade esvaziou-se completamente. Não se sinta bem no lugar onde o Buda mora. Passe depressa pelo lugar onde não mora mais nenhum Buda”. “Em um golpe só, o grande céu se rompe em escombros. Sagrado e mundano desaparecem sem deixar vestígios.” Isto expressa o 8° desenho.

Então, o nada budista, que é o nada da dissolução do pensamento substancial, não deve ser mantido como nada, não deve ser tido como uma forma de substância, como uma substância negativa, ou seja, como um nihil. Trata-se do movimento dessubstancializado do nada absoluto, do nada do nada, ou, em uma terminologia filosófica, da negação da negação. Na verdade trata-se do movimento puro do nada em uma dupla e concatenada direção, qual seja: 1) como negação da negação no sentido ulterior da negação da negação, para o nada infinitamente aberto, sem retornar à afirmação e 2) como negação da negação no sentido do retorno à afirmação sem traço algum de mediação. O nada absoluto se afirma como essa copertença dinâmica da negação infinita e do movimento imediato, despretensioso e ele chega a essa copertença de modo único. O nada absoluto se movimenta como o nada do nada. O nada absoluto, que a partir da 7a estação age como sua negação absoluta, é como tal nada mais que esta dinâmica correspondência da negação e da afirmação. Assim acontece neste nada como para o nada do nada e, por conseguinte, uma mudança fundamental e uma virada completa como em “o morra e o torne” ou em “morte e ressurreição”.

O desenho da próxima estação, da 9a, representa uma árvore em florescência à margem do rio, e nada mais. O comentário a essa figura diz: “as flores florescem como florescem por si mesmas; o rio corre como corre por si mesmo”. Trata-se do homem em seu verdadeiro si-mesmo. Por que aqui, repentinamente, uma árvore em florescência à beira do rio? Não se trata aqui de uma paisagem exterior, objetificante em torno de nós, visto que nos encontramos a caminho do si-mesmo, mas também não se trata de uma paisagem metafórica como expressão de um estado interior do homem ou da projeção de uma paisagem interior da alma, e sim de uma realidade completamente nova, como uma pré-sentificação do si-mesmo abnegado. Trata-se da ressurreição a partir do nada, da mudança radical da absoluta negação para o grande “sim”. Sim, é isso! Visto que na 8a estação, a cisão sujeito-objeto, em todas as formas, fora deixada para trás no nada, antes da cisão, assim, na ressurreição a partir do nada, uma árvore em florescência à beira do rio não é outra coisa senão o si-mesmo. Na verdade, não no sentido da identidade da natureza e do homem, mas sim no sentido de que uma árvore em florescência, tal como floresce, e a abnegação do homem se incorporam de uma forma não objetificante. O florescer da árvore, o fluir da água, é aqui, portanto, assim como acontece, ao mesmo tempo um jogar da liberdade abnegada do si-mesmo. A natureza, como as flores florescem, como o rio flui, é o primeiro corpo ressuscitado do si-mesmo abnegado, a partir do nada.

No movimento da 8a para a 9a estação não se trata mais, como nas estações precedentes, de um desenvolvimento progressivo e sim de uma copertença, ou seja, de um girar para lá e para cá. O nada na 8a e o simples na 9a estação se copertencem, de acordo com a questão referida, de tal forma que eles – para falar em alegoria – formam os dois lados de um mesmo pedaço de papel, que não é espesso. Ambos os lados não são nem dois nem um. De maneira geral trata-se de uma perspectiva dupla que se copertencem, que se penetram reciprocamente. Neste sentido a direção da 8a para a 9a estação “está em unidade com” a direção oposta da 9a para a 8a estação de tal forma que, em uma dupla afirmação invertida, significa “flores que florescem, ou seja, o nada; o nada, ou seja, flores que florescem”. A formulação clássica no budismo diz: “o que tem forma é o vazio, o vazio é o que tem forma”.5 Trata-se, portanto, da coincidência absoluta do nada com o que tem forma, na qual porém a entonação não se situa na identidade – isto seria novamente uma substancialização equivocada – e sim na perspectiva dupla relacional, que por sua vez relaciona “morte e ressurreição” em um âmbito existencial. Uma perspectiva de ver o que tem forma como o nada recebe o nome de “grande conhecimento”, enquanto que a outra perspectiva de ver concretizar o nada, sem mediação, como o que tem forma, é denominada de “grande simpatia”.

Na 10a e última estação, o encontro entre pessoas é, expressamente, o tema. Aqui, o verdadeiro si-mesmo, ressuscitado do nada, age e joga entre homem e homem como uma dinâmica abnegada do “entre”. Neste caso esse “entre” é, agora, o próprio campo de ação, o campo interno de ação do si-mesmo, ou também: o si-mesmo que, cortado, aberto pelo nada absoluto, se desenvolve como o “entre”. O desenho representa aqui a forma como um velho e um jovem se encontram pelas estradas do mundo. Não se trata aqui de duas pessoas diferentes que se encontram por acaso: “um velho e um jovem”, isto é, o desdobramento do si-mesmo, do velho mesmo, abnegado. Como o outro vai, é agora, para o si-mesmo, em seu caráter abnegado, seu objetivo interior. A questão do jovem, tal como é, é a própria questão do velho, que por sua parte, para si mesmo, não tem questão alguma. A comunidade da vida em comum é o segundo corpo ressuscitado do si-mesmo abnegado. Eu sou “eu e você”, “eu e você”, isto sou eu. Trata-se do si-mesmo como duplo si-mesmo com base na abnegação do si mesmo… [PDF]

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