Purismo, Impurismo e a Antropologia Trágica no Livro das Ilusões – CIORAN

I will join with black despair against my soul, and to myself become an enemy.

SHAKESPEARE, Richard III (epígrafe do Breviário de decomposição)

O espírito não tem defesa contra os miasmas que o assaltam, pois surgem do lugar mais corrompido que existe entre a terra e o céu, do lugar onde a loucura jaz na ternura, cloaca de utopias e vermineira de sonhos: nossa alma. E mesmo que pudéssemos mudar as leis do universo ou prever seus caprichos, ela nos subjugaria por suas misérias, pelo princípio de sua ruína.

“O pensamento interjetivo”, Breviário de decomposição (1949)

Alguma dose de sujeira sendo indispensável ao organismo (fisiologia e imundície são termos intercambiáveis), a perspectiva de uma higiene em escala universal inspira uma legítima apreensão. Deveríamos ter-nos contentado, piolhentos e serenos, à companhia das bestas, definhar ao lado delas por mais milênios, respirar o odor dos estábulos e não o dos laboratórios, morrer de nossas doenças e não de nossos remédios, rodopiar em torno do nosso vazio e afundar nele docemente.

“Retrato do homem civilizado”, La chute dans le temps (1964). In: (n.t.) Revista Literária em Tradução, ano IX, 2º vol., nº 17, Dezembro de 2018. [PDF]

Todo aquele que se confunde com o que quer que seja mostra disposições mórbidas: não existe salvação nem saúde fora do ser puro, tão puro quanto o vazio.

“Ensaio sobre o pensamento reacionário: Joseph de Maistre”, Exercícios de admiração (1986)

Em 1936, muito antes de sua estreia como escritor de expressão francesa, com o Précis de décomposition (1949), um jovem Cioran exprimia no Livro das ilusões a convicção de que é preciso “colocar o homem diante de um novo princípio da História”, a necessidade de uma “revolução antropológica”, de um “novo homem”, de um “Adão sem pecado que possa pôr em marcha uma história sem pecado”. Ao mesmo tempo, ele afirmava que, diante da oposição irredutível entre consciência e vida, ou essência e ilusão, não pode existir senão uma antropologia trágica.

O “vitalismo” do jovem Cioran (ou seu “mortalismo”, segundo Gustavo Romero) está fundado sobre a esperança desiludida ou a crença contrariada numa forma de “pureza” ou “perfeição” necessária e, contudo, impossível (a exemplo da definição do trágico proposta por Jankélévitch, como a “aliança do necessário e do impossível”). É necessário um “Adão sem pecado”, mas é justamente o pecado de Adão que o impede de ser sem pecado e de “pôr em marcha uma história sem pecado” (pelagianismo). Ser humano, pecado e história (“queda no tempo”) são termos indissociáveis… “Destrua os pecados: a vida murcha bruscamente.” (Breviário)

Esse “purismo” ou angelismo (Bloom), essa utopia antropológica manifestada no Livro das ilusões, em todo caso, não poderia parecer mais discrepante em relação a livros como o Breviário de decomposição e História e utopia, nos quais o pensamento de Cioran se desenvolve, negativamente, no sentido inverso: o da anti-utopia, o do “impurismo”. “Só a impureza é sinal de realidade” (Breviário). É preciso ter em mente sempre que a “genealogia do fanatismo” empreendida pelo “Antiprofeta”, no Précis, é um exercício negativo de palinódia: uma forma de “pensar contra si mesmo”, contra os ídolos, as esperanças e ilusões que pautaram a sua juventude de fanatismos e extremismos ideológicos. Buscando purificar-se da ilusão (fanática) de toda e qualquer “pureza”, o autor do Breviário chafurda agora na imperfeição, graças à qual “somos superiores a Deus; é o temor de perdê-la que nos faz fugir da santidade! […] Quem adora suas imperfeições inquieta-se com uma transfiguração que seus sofrimentos poderiam provocar. Desaparecer em uma luz transcendente… Mais vale encaminhar-se para o absoluto das trevas, para as doçuras da imbecilidade…” (Breviário)

Cioran ousa dar um passo temerário adiante para afirmar que Deus é o modelo das nossas imperfeições e dos nossos conflitos “demasiado humanos”. “E nós o compreendemos por tudo o que em nós é fragmentário, inacabado, malfeito. Sua empresa carrega os estigmas do provisório, e, no entanto, não foi tempo o que lhe faltou para realizá-la bem. […] Teologia sumária? Contemplando esta criação sabotada, como não incriminar seu autor? Como, sobretudo, julgá-lo hábil ou simplesmente destro? Qualquer outro deus teria dado provas de maior competência ou equilíbrio do que ele: para onde quer que se olhe, só existe erro e confusão.” (História e utopia) A impureza de tudo o que vive é coextensiva ao princípio incriado, ao Criador desta “criação sabotada”. Na entrevista com Gerd Bergfleth, Cioran diz:

Toda heresia – como amo essa palavra! – é exaltante. Após a demasiado longa hegemonia cristã, podemos adotar agora, sem constrangimento, a ideia de um princípio impuro, imanente ao Criador e ao criado. Essa ideia nos permite compreender melhor e, sobretudo, enfrentar melhor o inqualificável devir histórico e, a bem da verdade, o devir puro e simples. A crença em tal princípio não é, certamente, um remédio milagroso, mas não deixa de constituir um refúgio para todos os que não cessam de ruminar sobre a carreira triunfal do Mal.” (Entretiens, 1995, p. 157)

Refletindo sobre as utopias, em História e Utopia (1960) Cioran escreve que, , “as trevas estão proibidas, só a luz é admitida. Nenhum vestígio de dualismo: a utopia é, por essência, antimaniqueísta. Hostil à anomalia, ao disforme, ao irregular, tende para o fortalecimento do homogêneo, do modelo, da repetição e da ortodoxia.” (História e utopia) Hostil também à noção de “impureza”, a utopia tende a “purismos”, ao fortalecimento da crença de que é necessário ser e manter-se “puro” (em todos os sentidos), o que implica separar-se de elementos “impuros”, da ameaça externa de uma “impureza” qualquer. Um caso real dos tempos atuais que revela o grau de delírio, paranoia e hipocrisia a que pode chegar esse angelismo ideológico é o movimento assim-chamado QAnon, que já se disseminou dos Estados Unidos e Confederados de Trump para os 4 cantos do globo. É forçoso reconhecer, a partir de Harold Bloom e John Gray, QAnon como uma superstição (e uma seita) tipicamente milenarista, outra maneira de dizer “apocalipticista”, de onde a sua demonologia secularizada: “Nós e eles”, o “herói” Trump contra a “conspiração globalista-marxista universal”, “bem versus mal”, etc., numa guerra cósmica que é preciso vencer para que o “bem” finalmente triunfe. Enfim, qualquer “utopia” só se constrói eliminando uma massa de “impuros”, socialmente indesejáveis segundo os padrões e ditames da “utopia”.

Outra passagem que serve de índice do desengaño de Cioran em relação a todo e qualquer ideal de pureza e perfeição, de onde a lucidez ulterior como consciência da impureza e da doença universalmente consideradas (antropológica e ontologicamente), é este esboço de alegoria: “Um dia um doente decidiu nunca mais apertar a mão de uma pessoa sadia. Mas logo descobriu que muitos dos que julgava com saúde não estavam no fundo incólumes. Por que então fazer inimigos baseado em suspeitas apressadas?” (História e utopia)


A ANTROPOLOGIA TRÁGICA NO LIVRO DAS ILUSÕES

Lutar contra o ser até não poder conceber que, depois de ti, ainda haja algo. Esse tem de ser o sentimento, quando não a convicção, de todo homem cuja alma tenha as dimensões do mundo. Se, além disso, este homem também estiver convencido, não poderíamos saber então se é Deus ou se está louco. As almas humildes e humilhadas carecem desse sentimento, já que estas, mais que as outras, se sentem e se reconhecem criaturas e não se envergonham disso. Na antropologia se abrirá um novo capítulo só quando o sentimento de ser uma criatura for uma evidência inadmissível, quando o homem não se adapte mais a si mesmo.


Depois da oposição entre consciência e vida, essência-ilusão é o segundo capítulo trágico da antropologia. (O que significa que só existe uma antropologia trágica.) Desde que o mundo existe, as essências são só potenciais; o homem despertou as ilusões de seu sonho irresponsável pela indesejável luz das essências.


É preciso colocar o homem diante de um novo princípio da História. O homem novo tem de ser um Adão sem pecado que possa pôr em marcha uma história sem pecado. Só assim pode-se conceber uma nova vida, uma vida transformada na base. A humanidade só espera um profeta: o da vida sem pecado. Se a morte não pode ser nem vencida nem destruída, é o pecado o que há de destruir ou vencer. Como o esforço individual é ilusório, um cataclismo da História e uma revolução antropológica que façam saltar pelos ares tudo o que herdamos ao longo dos séculos anunciarão a aurora de um outro mundo. Então o homem rivalizará com todos os deuses dos séculos vencidos, e cada ser será uma aurora. Muitos mundos morrerão. Mas muitos nascerão. E conheceremos então as encruzilhadas do espírito, e não só as do homem.

CIORAN, O Livro das ilusões. Trad. de José Thomaz Brum. Rio de Janeiro: Rocco, 2014.

Deixe um comentário

Faça o login usando um destes métodos para comentar:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s