“Imunidade contra a renúncia” – CIORAN

Tudo o que se refere à eternidade transforma-se inevitavelmente em lugar-comum. O mundo acaba por aceitar qualquer revelação e resigna-se a qualquer calafrio, contanto que a fórmula tenha sido encontrada. A ideia da futilidade universal – mais perigosa que todos os flagelos – degradou-se até a evidência: todos a admitem e ninguém se conforma. O pavor de uma verdade última foi aprisionado; convertido em estribilho, os homens não pensam mais nisso, pois aprenderam de cor uma coisa que, apenas entrevista, deveria precipitá-los no abismo ou na salvação. A visão da nulidade do tempo fez nascer os santos e os poetas, e os desesperos de alguns solitários, apaixonados pelo anátema…

Esta visão não é estranha às massas: elas repetem enfadonhamente: “Para que serve isso?”; “Aonde isso leva?”; “Não há mal que sempre dure”; “Quanto mais muda, mais continua igual” – e no entanto nada acontece, nada interfere: nem um santo, nem um poeta a mais… Se elas se conformassem com um só desses estribilhos, a face do mundo se transformaria. Mas a eternidade – surgida de um pensamento antivital – não poderia ser um reflexo humano sem perigo para o exercício dos atos: torna-se lugar-comum para que se possa esquecê-la por uma repetição maquinal. A santidade é uma aventura como a poesia. Os homens dizem: “tudo passa” – mas quantos compreendem o alcance desta aterradora banalidade? Quantos fogem da vida, a cantam ou a choram? Quem não está imbuído da convicção de que tudo é vão? Mas quem ousa encarar as consequências disso? O homem com vocação metafísica é mais raro que um monstro – e entretanto cada homem contém virtualmente os elementos dessa vocação. Bastou a um príncipe indiano ver um inválido, um velho e um morto para compreender tudo; nós que também os vemos não compreendemos nada, pois nada muda em nossa vida. Não podemos renunciar a coisa alguma; no entanto, as evidências da vaidade estão ao nosso alcance. Doentes de esperança, esperamos sempre; e a vida não é mais do que a espera hipostasiada. Esperamos tudo – até o Nada –, menos ser reduzidos a uma suspensão eterna, a uma condição de divindade neutra ou de cadáver. Assim, o coração que fez para si um axioma do Irreparável, ainda espera surpresas. A humanidade vive amorosamente nos acontecimentos que a negam…

CIORAN, E. M., “Imunidade contra a renúncia”, Breviário de decomposição. Trad. de José Thomaz Brum. Rio de Janeiro: Rocco, 2011.

Deixe um comentário

Faça o login usando um destes métodos para comentar:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s